quinta-feira, 24 de maio de 2018

Reportagem: Colour Haze + TAU + JESUS THE SNAKE [Hard Club, Porto]


No passado dia 19 de maio, o Hard Club foi alvo de um serão inolvidável em que as sonoridades stoner/psicadélia foram rainhas e senhoras, tendo sido a única data marcada em território nacional da mais recente tour dos veteranos alemães do stoner Colour Haze, acompanhados pelos irlandeses hippie Tau e pelos locais de Vizela Jesus the Snake.

Jesus The Snake

Apesar do atraso significativo do início dos concertos (era para ter começado às 21h, começou apenas meia hora depois), isso não esfriou o entusiasmo do imenso público, que estava em pulgas para entrar no recinto, que por sua vez foi recebendo os primeiros espectadores. Aos Jesus the Snake, naturais de Vizela e com o seu EP de estreia na bagagem, calhou a ingrata missão de abrir as hostilidades da noite de música ao vivo que se avizinhava.

A banda bracarense revelou uma breve timidez em termos de presença de palco que gradualmente se dissipou à medida que o concerto progredia. A música da banda em si caracteriza-se essencialmente pelo formato instrumental, vagaroso e etéreo quanto baste, que também não se coibiu de andar pelo prog-rock, e graças à especial intervenção do trabalho de teclado, revelou uma influência bastante vincada de Pink Floyd, por exemplo. O concerto no geral, apesar de ter sido mais morno em comparação com as bandas seguintes, demonstrou que a banda tem um impressionante potencial em termos de evolução sonora, e cumpriu a missão de estimular os presentes para o resto da noite que se seguia.

TAU
Após um breve intervalo, os irlandeses radicados em Berlim Tau, com o EP Wirikuta e o álbum Tau Tau Tau como pretextos para fazerem parte deste evento singelo, ocuparam o palco e deram o ar da sua graça com uma estética mais folky das sonoridades do deserto que demonstrou o seu encanto envolvente e árido de forma quase imediata para com o público.

Assim que os primeiros acordes foram tocados, não faltou muito até que as pessoas ficassem hipnotizadas pelo espetro sonoro dos Tau, que passava tanto por sonoridades krautrock como por atmosferas de origens arábicas, convidando até a um passinho de dança. Com trajes rústicos e de guitarra acústica com trapos em riste, o líder da banda Shaun Mulrooney demonstrava-se bem-disposto, sempre a puxar pelo público e a discursar o amor pela "Mother Tierra". Com a sua abordagem igualmente pastoral e exótica da psicadélia, o concerto dos Tau foi a surpresa da noite, graças à atmosfera feel good que se viveu durante o mesmo.

Colour Haze
Por volta da meia noite, chegou a banda por que muitos ansiavam. Foi com uma audiência apinhada que os Colour Haze foram saudados assim que pisaram o palco, e assim que as variadas projeções de alucinações coloridas e líquidos em ponto microscópico tomaram lugar, a banda começou a justificar, com toda a simplicidade do mundo, não só o porquê de ser a atuação mais esperada da noite, mas também a sua posição enquanto um dos supra-sumos do stoner rock feito na Europa.

Colour Haze

Com um alinhamento que continha "She Said", "Lavatera", "Tempel" e "Aquamaria", além de um encore com duas faixas especialmente inesperadas - "House of Rushammon" e "Love" -, foi um concerto como poucos, cheio de alma, habilidade e ritmo, que teve a duração invejável de cerca de duas horas. A instrumentação da banda assemelhava-se a uma máquina bem oleada, com todas as suas componentes a funcionarem como deviam: a guitarra a vaguear entre acordes desafiantes e solos sumptuosos, o baixo a demonstrar uma reverberação latejante e a bateria alucinante e ao mesmo tempo versátil, como que a flirtar com outros estilos alheios. O público ficou ao rubro do início ao fim, sempre a abanarem o capacete e até mesmo a entoar os riffs de guitarra como se de hinos se tratassem, e sempre com a certeza de que este serão se tornaria memorável, senão até mesmo mágico, com todos os intervenientes a deixar o seu cunho no imaginário do público à sua maneira. Foi tudo o que foi preciso.

A fotoreportagem pode ser vista aqui ou no link em baixo.


Colour Haze + TAU + JESUS THE SNAKE [Hard Club, Porto]

Texto: Ruben Leite
Fotografia: David Madeira

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The Love Coffin - "Pure" (video) [Threshold Premiere]


After two promising EPs, Veranda (2015) and Buffalo Thunder (2016), the Copenhagen-based rock quintet The Love Coffin is finally releasing his debut album this year. This new album - called Cloudlands - is presented through a music video for the single "Pure", the first sample of what might be expected from this new full length, and also a song that clearly shows us unique soundscapes with enticing intensity and contagious energy. Influenced by bands such as Band of Susans, Gun Club, The Triffids and last, but not least The Jesus & Mary Chain in their 80's epoche, The Love Coffin play red-blooded, raw-hearted and romantic rock'n'roll.

In the video for this new single "Pure", with the signature of the artist Palle Demant, The Love Coffin bring us footages of the vocalist Jonatan Magnussen singing and playing an acoustic guitar, interspersed with small frames of a girl (sometimes singing, others not) on completely different and dynamic backgrounds. You can watch the video in first-hand below.

Cloudlands will be released in September, 28th on Third Coming Records and Bad Afro Records.




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Elusive Sound com novidades


A editora suiça Elusive Sound tem algumas novidades para os próximos meses a nível de edições físicas e em baixo falamos um pouco de cada um dos grupos envolvidos, que deverão agradar sobretudo a fãs de post-rock e shoegaze.


Os Silent Whale Becomes A° Dream renasceram no ano passado com Requiem, seis anos após o lançamento de Canopy, mas apenas este ano o irão editar fisicamente, quer em CD quer em vinil. Os franceses exploram os recantos mais etéreos do post-rock de forma imaculável e poderão ler a crítica a Requiem, certamente um dos melhores trabalhos de 2017 dentro do género, aqui.




Os BLAK são oriundos de Roda De Ter, na Catalunha, e editaram o seu primeiro álbum Between Darkness and Light no ano passado, tendo este esgotado rapidamente e levando assim a esta reedição em vinil. A sonoridade do grupo espanhol é fortemente enraizada no post-rock mais cinemático, e pode ser escutada no stream em baixo e também aqui, onde poderão ver na íntegra a sua segunda atuação ao vivo.



Ambas estas edições serão lançadas no próximo dia 1 de junho mas já podem fazer pre-order no site da Elusive SoundOutras edições previstas para este ano incluem os álbuns de estreia dos Ravena e dos Blankenberge em vinil.


Os Ravena vêm da Califórnia e o seu primeiro disco, Laocoön, foi lançado já em 2016. Composto por longos e ambiciosos temas que deambulam entre o post-rock, post-metal e até dark ambient, Laocoön leva-nos numa intensa mas recompensadora viagem por paisagens desoladoras e sombrias, sendo surpreendente o elevado nível de detalhe e coesão que um grupo tão jovem consegue colocar nas suas composições. Em baixo poderão ouvir o disco na íntegra mas a edição em vinil contará com uma nova remasterização por parte de Randy Cordner.





Oriundos de São Petersburgo, na Rússia, os Blankenberge editaram um EP homónimo em 2016 e o seu primeiro longa-duração, Radiogaze, no ano passado. Os russos não fogem à típica sonoridade shoegaze/dream pop mas conseguem criar músicas incrivelmente energéticas, graças a ensurdecedoras guitarras (que certamente agradarão aos fãs de My Bloody Valentine), mas também extremamente introspetivas e expansivas, através dos soberbos vocais de Yana Guselnikova e de secções de quase puro drone. Em baixo poderão escutar a versão remasterizada (por Mikhail Kurochkin) de Radiogaze mas recomenda-se também esta sessão ao vivo. 




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As Lazy Sessions estão de regresso (agora em Braga)


Depois do sucesso no Porto, a organização das Lazy Sessions aposta na cidade de Braga, promovendo as Lazy Sessions Guadalupe. O local escolhido é o Parque de Guadalupe, mesmo no centro de Braga (local com maior altitude da cidade de Braga). Devido às características únicas deste espaço, com vista privilegiada sobre a cidade, apresenta-se como o local ideal para a realização deste evento, convidando as pessoas a visitá-lo e usufruindo deste espaço único.

O conceito das Lazy Sessions Guadalupe consiste em convidar personalidades de relevância do panorama musical português para fazerem a curadoria de uma tarde no Monte de Guadalupe e convidarem, por seu turno, bandas e DJs com os quais se identifiquem e considerem projectos a ter em conta no futuro. Os curadores da 1ª edição das Lazy Sessions Guadalupe, nos dias 16, 23 e 30 de Junho de 2018, são Adolfo Luxúria Canibal, Branko e Manel Cruz.

Lazy Sessions Guadalupe > 16 de Junho, 15h-20h (Curadoria Adolfo Luxúria Canibal):

FERE
Dead Men Talking
Adolfo Luxúria Canibal (dj-set)


Lazy Sessions Guadalupe > 23 de Junho, 16h-04h (Especial S. João + Curadoria Branko - Enchufada na Zona):

16h-00h:
Torpedo Karaoke Show

Dona Carioca
Quadra
DJ Terzi


00h-04h:

Branko
Rastronaut

PEDRO

Lazy Sessions Guadalupe > 30 de Junho, 15h-20h (Curadoria Manel Cruz):

The Lazy Faithful
HITCHPOP
Pedro Tenreiro (dj-set)


É ainda importante realçar que a entrada para estas sessions é gratuita.

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Silent Runners lançam vídeo para "Forgotten"


Depois de terem lançado o seu aclamado disco de estreia, The Directory, em dezembro de 2017 os Silent Runners regressam agora às "machetes" do underground através do novo trabalho audiovisual para a sexta faixa do disco, "Forgotten", uma canção sobre os sonhos de infância que muitas vezes são perdidos quanto atingimos a idade adulta. O vídeo para este tema, disponibilizado esta semana, foi feito pela mixagem de imagens antigas de comerciais de TV e reflete a ideia da necessidade de se manter uma aparência elegante. Podem vê-lo abaixo.



O disco de estreia dos Silent Runners começou a ser gravado ainda em 2016, ano em que o quinteto se estreou em Portugal no festival Entremuralhas, foi produzido e gravado de forma independente pela banda, masterizado no Reino Unido por por Andy "Hippy" Baldwin, que também trabalhou com bandas como Interpol, The Who, Blur, Killing Joke e Arcade Fire.

The Directory foi editado a 8 de dezembro de 2017 em formato self-release. Podem comprar o disco aqui


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BASQUEIRAL regressa para a sua 2ª edição

basqueiral-2018


A Associação Cultural Basqueiro organiza a segunda edição do evento BASQUEIRAL, que terá lugar em Santa Maria de Lamas nos dias 15 e 16 de junho, no âmbito da programação da V Capital da Cultura do Eixo Atlântico, acolhida em 2018 pelo Concelho de Santa Maria da Feira, em Aveiro.

O evento prima pela apresentação de um cartaz bastante variado, reunindo um total de 15 bandas espalhadas em várias posições do espectro musical, seja hip-hop, rock, indie, electrónica, metal, punk, world music, etc.., e terá First Breath After Coma, Killimanjaro, 10 000 Russos, Scúru Fitchádu, Stone Dead, The Dirty Coal Train, Ângela Polícia, Whales, Iguana Garcia, Fugly, L-Ali, O GajoOG Skars e Ritmare.

Haverá também duas iniciativas de forma a incentivar à intervenção por parte da comunidade, sendo elas o BASQUEIRAL JÚNIOR, em que os mais novos se envolverão em atividades musicais, e o BASQUEIRART, cujo destaque será as várias instalações da autoria das turmas de artes, electrónica e multimédia do Colégio de Lamas.

Tanto os concertos como as actividades terão lugar nos Jardins do Parque, na Igreja e no Museu de Santa Maria de Lamas. O passe geral para o evento custará 10€ até dia 10 de junho, e 15€ a partir do dia 11. O bilhete diário custará 10€ e só poderá ser comprado na bilheteira do festival. Todas as informações podem ser encontradas aqui.





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Bed Legs a rasgar por esse verão fora


Os Bed Legs regresseram às edições de estúdio em este mês com o novo disco homónimo e sucessor de Black Bottle (2016) e do EP Not Bad (2014). O quinteto bracarense formado por Fernando Fernandes (voz), Tiago Calçada (guitarra), Hélder Azevedo (baixo), David Costa (Bateria) e Leandro Araújo (teclas) vive no constante fio da navalha, perfilando-se na dianteira do mundano, do profano, e não rejeita atirar-se para um precipício melancólico, se assim tiver de ser.

O rock n' roll tão característico dos Bed Legs é agora acompanhado essências sonoras de outras épocas abençoadas pelo rhythm and blues. Em Bed Legs ouvem-se melodias de chamamento à liberdade individual; revelam-se riffs da melhor classe stoner; há apelos à dança desenfreada; contam-se histórias de resiliência e de resistência; pede-se ajuda à alma gémea ou uma entidade superior; há uma vontade intrínseca de estradear, dobrar e desordenar.

Bed Legs foi gravado na Mobydick Records, com o apoio do gnration, por Budda Guedes e masterizado por Frederico Cristiano “Fred”. A banda vai apresentar este novo trabalho em solo nacional durante o mês de junho e julho. Vejam em baixo as datas:

2 de Junho - ACRA FEST, Braga
29 de junho - TBA, Vila das Aves
30 de junho - Festival Variações, Braga
7 de julho - Festival Quintanilha Rock, Bragança
27 de julho - Santo Rock, Fafe

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quarta-feira, 23 de maio de 2018

[Review] Kirin J Callinan - Bravado


Bravado // EMI // junho de 2017
9.5/10

Setembro 2017:

Quem é Kirin J Callinan? Ah, é o gajo que fez a música que tem um tipo a berrar, cujo sample é um meme da internet.

Na verdade Kirin J Callinan é bastante mais e bem maior que "Big Enough", o single que já conta com mais de 2.4M visualizações no YouTube, bastante próximo dos números do video de um senhor de 82 anos a cantar "Bodies" dos Drowning Pools (motivo de orgulho por parte de Kirin, que fez questão em reportar o feito na sua conta de Instagram). Kirin J Callinan é um génio que decidiu que o EDM se deveria fundir com o Pop e SynthPop para criar algo tão único como Bravado.

O australiano não é estreante no mundo da música e a sua influência/os seus contatos no mesmo são extensos e variadíssimos, como se pode observar no seu mockumentary Off The Record, que conta com a participação de Jack Black, Mac DeMarco, Mark Ronson, entre outros músicos com carreiras já bem estabelecidas.



Ousado e excêntrico com um estilo que "primeiro estranha-se mas depois entranha-se", Bravado é dos poucos discos que tenho realmente vontade de ouvir vezes e vezes sem conta, e que a cada audição gosto ainda mais.

Voltando à viral "Big Enough": para além do meme, este tema tem também a colaboração entre dois artistas que o deviam fazer mais vezes. Alex Cameron e Kirin J Callinan completam-se no seu humor, na sua inovação, em tudo... Bravado é um disco que faz pensar "isto faz lembrar Alex Cameron mas não sei porquê" e é em "Big Enough" que se percebe que, ainda que os seus estilos sejam muito diferentes, a sintonia criativa e humorística é perfeita. Outros temas que demonstram bem o enorme alcance vocal e humor deste artista são "S.A.D.", que na verdade significa "Song About Drugs", "Family Home" e "Living Each Day".



Resumindo: não sei o que é Bravado, nunca irei perceber (ou tentar sequer) o que se passa na cabeça de Kirin J Callinan. Sei que é EDM, pop, synth-pop, trap... mas ao mesmo tempo consegue não ser nada disto.

P.S.: Kirin faz um disco com o Alex Cameron!

P.S.S: É recomendada a visualização da actuação de Kirin no TEDXSydney em que deixa a palheta cair dentro da guitarra, passa cerca de 3 minutos a tentar retira-la e vê-se obrigado a cantar "Bravado" à capella.


Março 2018:



Excerto da edição 7 do programa Já Ouvi Falar da Engenharia Rádio com João Fonseca, Tomás Carneiro e Francisco Lobo de Ávila. "Já Ouvi Falar #7 -Especial Melhores Discos de 2017"

Maio 2018:

Ainda com dúvidas que Kirin é um artista completo? Em "Bravado" e "My Moment" temos a sua voz e alcance vocal à prova. "Friend Of Lindy Morrison" e "Big Enough" revelam o seu lado mais "teatral". De forma a aproveitar tudo o que os temas deste disco têm a oferecer é altamente aconselhado o visionamento dos videoclips.



Passados quase 8 meses do inicio da review de "150/200 palavras" originalmente destinada a fazer parte da rubrica "Cinco Discos, Cinco Criticas" é, finalmente, hora de a publicar e aceitar que continuará sempre incompleta e que a qualquer nova audição irá ser escutado um ou outro pormenor completamente novo. São artistas como Kirin J Callinan que me fazem querer ouvir e continuar a descobrir música e que não deixam que esta se torne aborrecida ou derivativa. Aproveito também para apelar a ouvirem Donny Benét e Jack Ladder & The Dreamlanders (Donny e Kirin fazem parte dos Dreamlanders).

A música australiana lançada nestes últimos dois anos tem sido incrível! 
E continuo a querer um álbum colaborativo com o Alex Cameron!

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Vem aí o festival Guitarras ao Alto


O festival Guitarras ao Alto está quase de regresso ao Alentejo, onde irá decorrer de 30 de maio a 3 de junho. O festival reúne, todos os anos, duplas de alguns dos melhores guitarristas nacionais, que se unem para proporcionar concertos inéditos em locais originais e emblemáticos da região. O vinho, a gastronomia, a paisagem e o património alentejano são o pano de fundo para este festival de primavera que tem por objetivo levar a música e o entretenimento ao interior do país. 

Francisca Cortesão e Mariana Ricardo são as artistas convidadas desta 4ª edição, que conta com uma série de cinco espectáculos itinerantes:

30 de maio - Estremoz - Convento das Maltezas/Centro Ciência Viva
31 de maio - Avis - Claustro do Convento de S. Bento de Avis
1 de junho - Beirã/Marvão - Antiga estação de comboios da Beirã-Marvão (parceria Train Spot)
2 de junho - Redondo - Herdade de São Miguel, em casa do patrocinador oficial do evento, vinhos Herdade de São Miguel
3 de junho - Crato – Pousada Flor da Rosa

Os bilhetes já estão à venda no site do festival, pelo preço de 5€ e oferta de copo de vinho Herdade de São Miguel.

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Reportagem: AVEIROSHIMA 2027 - 7ª Edição [GrETUA, Aveiro]


No passado sábado, dia 19 de maio, Aveiro recebeu mais turbilhão de emoções e sensações com a sétima edição do festival independente AVEIROSHIMA2027 que, há semelhança de edições passadas, voltou a invadir o GrETUA para mostrar mais uma mão cheia de nomes emergentes no panorama musical e artístico. Com um dos mais ambiciosos cartazes até à data, o festival que já trouxe à cidade aveirense nomes como Baleia Baleia Baleia, Holocausto Canibal, Estado de Sítio, Ângela Polícia e Ohxalá - além de nomes internacionais como os franceses Putan Club e o russo Guvibosch – destacava-se neste sétimo evento essencialmente pelo concerto de HHY & The Macumbas e da performance/concerto dos Lucifer's Ensemble

Com início previsto para as 22h00 o novo AVEIROSHIMA2027 começou a horas com Dead Exploitation – projeto de Carlos Braz, locutor da Rádio Universitária de Coimbra - que trazia o seu DJ set em que o hip-hop, na sua faceta mais crua e agressiva, tanto da era old-school como da era moderna, foi rei e imperador da noite. Enquanto não se iniciavam as performances cá fora íamos ouvindo alguns dos temas que se tornaram hits nos anos 2000, nomeadamente alguns dos singles da tracklist do filme You Got Served. Este DJ set prolongaria-se noite fora até o AVEIROSHIMA2027 ter fim. 



O primeiro concerto/performance artística da noite ficou a cargo do coletivo Lucifer's Ensemble, quinteto constituído por dois performers do colectivo DEMO, um compositor da Digitópia - Casa da Música e mais dois músicos a completar o ensemble. Marcado para as 23h00 a performance dos Lucifer's Ensemle só arrancou pela 23h50 com uma batida de fundo automática, um jogo de luz enriquecido e uma primeira parte do espetáculo a ser marcada por uma performance, onde dois dos músicos começaram por se pintar de branco um ao outro, posteriormente desenharam duas cruzes no chão que foram sobrepostas por um círculo e mais pequenas cruzes dentro dos espaços vazios entre o círculo exterior e a cruz principal. Atirando pó ao ar aqui e ali foram fazendo um espetáculo ritualístico entre a noite e o anjo da luz, que garantiu inclusivé momentos de luta entre os dois performers. Com a luz a tornar-se tipicamente mais vermelha, vimos também em palco serem cuspidas rolhas de cortiça e uma bebida que, rapidamente, espalhou um aroma a álcool por toda a sala. Esta performance inicial durou cerca de 25 minutos até que os performers assumissem o papel de músicos. 

O espetáculo dos Lucifer's Ensemble cruzou o teatro físico, as tecnologias interativas e a arte sonora a fim de garantir uma experiência ao espectador completamente abrasiva, impar e, eventualmente até caótica, como se sentiu nos minutos finais do concerto que encerrou por volta das 00h50. 

Entre o espetáculo dos Lucifer's Ensemble e HHY & The Macumbas, Jorge Branco aproveitou a zona de convívio entre o bar para nos prendar com a sua performance sonora que moldou o ruído a seu bel-prazer, em prol da expressão do seu ponto de vista crítico sobre a era tecnológica. 


Sob alçada de conceituado músico Jonathan Uliel Saldanha, que se assume como construtor sonoro e cénico, os HHY & The Macumbas subiram ao palco pelas 01h44, em formato quinteto, para apresentarem em Aveiro as suas sonoridades que vão do dub ao kraut-rock passando pelo jazz exploratório e algum tropicalismo negro. Os HHY & The Macumbas são únicos ao vivo e atraíram muito pessoal jovem de Aveiro a dançar descoordenadamente entre os ritmos e sons que iam explorando. Nunca vimos a cara de um dos músicos, que tocou sempre voltado de costas para o público com uma máscara sinistra na cabeça, mas vimos a sua dança constante e imparável enquanto os seus companheiros iam criando um som desenfreado. Sem notórias pausas entre as canções os HHY & The Macumbas souberam entreter o público e, obviamente, garantir o melhor concerto daquela noite. 

O espetáculo dos HHY & The Macumbas teve fim por volta das 03h00 e por isso, quando o relógio já marcava 03h30 e ainda não era notória a aproximação do início da performance do projeto luso-russo ANTIPPODE, o sono e o cansaço bateram mais forte pelo que não podemos reportar o que se sucedeu posteriormente. Apesar disso uma coisa ficou clara: o AVEIROSHIMA2027 está a trazer toda uma nova vida cultural à cidade de Aveiro, não só explicada na afluência do público que tem vindo a receber nas últimas edições, mas igualmente na divergência de sonoridades que tem importado. Um bem-haja.


Texto: Sónia Felizardo
Fotografias: Ivo Madeira

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STREAM: NERATERRÆ - The NHART Demo[n]s


Embora iniciado em 2009, o projeto de drone/dark ambient NERATERRÆ, do italiano Alessio Antoni, apenas lançou o seu primeiro trabalho, The NHART Demo[n]s, no ano passado. Esta quase-compilação, com cerca de 24 minutos de duração, é composta por temas concebidos e gravados em 2009 mas que nunca chegaram a ser lançados em três demos distintas como previsto.


Chegando a roçar em géneros como o death industrial e o noise, as músicas são maioritariamente permeadas por sintetizadores tenebrosos e sons mecânicos quase repulsivos que facilmente nos levam a imaginar um futuro distópico e alienante, que pode até não ser muito diferente daquele que nos rodeia. A audição destas composições é desafiante e até incómoda, ainda que num tom positivo pois retiram-nos do estado de inércia que é habitual no nosso dia-a-dia. 


Com uma excelente produção para um trabalho independente e com ideias bastante frescas, NERATERRÆ demonstra que o género do dark ambient tem ainda muitos mares sonoros por explorar e, tantos anos após a escrita destas demos, será interessante ver em que direção Alessio Antoni levará este promissor projeto e também perceber como se comportarão as dinâmicas aqui exploradas num formato de álbum mais coeso. 

Em baixo poderão ouvir na íntegra este trabalho, de onde se poderão destacar os temas ‘rework’, mas também é possível descarregá-lo gratuitamente no Bandcamp do projeto.


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A. D. Mana anuncia álbum de estreia na casa Manic Depression


A.D. Mana regressa aos discos de estúdio este ano, com First Life, disco de estreia que vem dar sucessão ao EP homónimo de quatro faixas (Sentimental Records, 2016) e chega às prateleiras em junho pelo selo francês Manic Depression Records. O artista e produtor inglês, atualmente sediado em Berlim, é conhecido por produzir linhas de guitarra esqueléticas e emaranhadas numa eletrónica densa que vai repescar alguns dos elementos base de géneros como o post-punk, shoegaze, synth-pop e um q.b. da EBM.

Depois de ter divulgado anteriormente "Blue Romeo", como primeiro avanço deste novo disco, A.D. Mana está a lançar hoje mais uma amostra de First Life através do tema "Body Of Glass", que se encontra integrado no EP promocional ao disco de estreia First Life. Podem ouvir o single abaixo, juntamente com três versões do single "Blue Romeo".

First Life tem data de lançamento prevista para 15 de junho pelos selos Manic Depression e Sentimental Records



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