terça-feira, 27 de setembro de 2016

[Review] The Sunflowers - The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy


The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy // O Cão da Garagem // setembro de 2016
8.0/10

Muito tempo passou desde a eclosão do género musical garage rock. Os The 13th Floor Elevators conheceram o apogeu da sua fama com o lançamento do single "You're Gonna Miss Me”. Em 66, contudo apenas passado 3 anos, Erickson (vocalista dos mesmos) foi internado num hospital psiquiátrico. Na capital dos Estados Unidos da América, uma banda chamada The Sonics lança um álbum, Here Are The Sonics. Algures pela California, os The Seeds lançam o seu primeiro álbum em 1966, e em 1969, Michigan, um jovem Ron Asheton, que tocava numa banda chamada The Stoogestransforma três acordes numa mítica música chamada “I Wanna Be Your Dog”.

Passemos para o ano de 1997. Um salto algo drástico, mas não aleatório. Ano de nascimento da banda californiana Thee Oh Sees que trouxe consigo uma revolução musical fazendo ressurgir este género, semi-morto e substituído pelas texturas
mais agressivas do punk rock e influenciando inúmeras bandas e artistas desde Ty Segall, os Black Lips, o Jay Reatard e os mais recentes King Gizzard and the Lizard Wizard.

Passemos a 2014, ano de criação do duo portuense The Sunflowers. Após inúmeros concertos por todo o país e o lançamento de dois EP's e vários singles, finalmente a banda de Carlos de Jesus (guitarra e vozes) e Carolina Brandão (bateria) têm o prazer de brindar os seus fãs com o seu primeiro álbum longa duração.

Estes, para além de serem uma das bandas mais trabalhadoras da atualidade, possuem o dom de saber escolher as suas influências corretament
e, sabendo o que devem ou não consumir. Por exemplo, logo a abrir este álbum é nos atirado à cara “Cool Kid Blues”, com uns power chords capazes de fazer sangrar os ouvidos de qualquer ser humano, contudo, passado esta apresentação, Carlos de Jesus, na guitarra, mostra um riff a lembrar “Lucifer Sam”, musica do primeiro álbum dos Pink Floyd (ainda sobre a alçada de Syd Barrett), tocada com mais agressividade, desleixo e velocidade.

O álbum é constituído em grande parte por musicas já lançadas, como “Zombie”, “Hasta la Pizza/Rest in Pepperoni” ou “Charlie Don’t Surf” e por isso perde um pouco o elemento surpresa. Porém é sempre interessante ouvir as novas versões de músicas outrora gravadas num estilo mais lo-fi, caso da segunda faixa “The Witch” com a sua vibe depressiva à lá Wavves. As primeiras notas de “Mountain” transpiram a spaghetti western e o som explosivo da guitarra faz-me lembrar a faixa que fecha o mais recente álbum dos King Gizzard & the Lizard Wizard,“Road Train”.

 

Na terceira faixa encontramos um dos primeiros destaques do álbum, “Charlie Don’t Surf”. Esta música, bem ao estilo do surf rock dos anos 60, com influências claras da “Have Love Will Travel” dos The Sonics, fala sobre o estilo de vida de Charlie, alter-ego de Carlos, que prefere ficar em casa todo o dia a fumar substâncias ilícitas em vez de ir conviver e surfar como o resto das pessoas. Contudo, o surf rock não fica por aqui e em “Post Breakup Stoner” continuamos a onda das letras ingénuas. Embora esta não seja sobre o alienamento da sociedade é sobre, tal como indica o nome, corações partidos.

A guitarra acústica descuidada de “I Wanna Die” é a introdução perfeita para “Zombie”, aquele que é um dos meus momentos preferidos deste álbum. A partir do momento em que uma música apresenta uma linha de baixo tão intrigante e ameaçadora como simples sabemos que nos estamos a preparar para algo em grande. O fuzz e o feedback imperam nesta música que é das que melhor define o estilo dos Sunflowers, não só com o instrumental punk rock mas também com uma letra rica em hipérboles e ficção científica.

“Talk Shit / People Suck” e “Forgive Me, Father, for I Have Sined” tem a ingrata tarefa de estarem comprimidas entre “Zombie” e “Hasta la Pizza / Rest in Pepperoni” (já falarei desta), momentos estes que se destacam por serem as duas melhores musicas do álbum, por isso podem passar algo despercebidas. A primeira marca o regresso ao surf-punk, e a letra como é de esperar critica a sociedade, mais especificamente aquelas pessoas que gostam de criticar os hábitos menos saudáveis dos jovens. A parte mais interessante da música é a onda paranóica que esta invoca. A frase “Everybody knows you’re high / they can see it in your eyes” é aquele pensamento que já passou por todos os stoners enquanto caminham pela rua. A segunda faixa continua a criticar a sociedade, contudo de uma forma mais direta e crua.

Chegamos então aquele que é o momento mais Sunflowers de todo o álbum
. Se “Zombie” conquista pelo minimalismo, “Hasta la Pizza/ Rest in Pepperoni” é a maior epopeia de todo o álbum. Harmónicas, solos de guitarra, pizzas, coca cola, batatas fritas e aquele riff inspirado na "You Gonna Get It" dos Coachwhips, antiga banda de John Dwyer, líder dos Thee Oh Sees. O exemplo perfeito do que é o garage rock em 2016.



Na última faixa do álbum, que partilha o nome com o álbum, finalmente encontramos o Red Cowboy, última personagem do imaginário da banda, e sentimo-nos satisfeitos. Foi uma bela viagem que deixa a sensação de que em Portugal não existe ninguém a fazer música tão boa e completa dentro deste género. Basicamente, em terras lusitanas quem tiver vontade de entrar na batalha pelo titulo Nacional de Garage Rock tem aqui o campeão actual. Contudo, The Intergalactic Guide To Find The Red Cowboy não é nenhum Slaughterhouse, ou um Floating Coffin nem um I’m In Your Mind Fuzz. Os Sunflowers podem ter conquistado o seu país natal mas ainda tem muito mais para crescer. Mas também, para uma banda que foi formada em 2014 e cresceu desta forma, acredito que podemos esperar com um sorriso na cara para ver o que vai acontecer nestes próximos dois anos.

Texto: Hugo Geada

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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Igorrr apresentam "Chicken Sonata" e informações do novo disco


Os Igorrr estão de regresso aos trabalhos de estúdio. A banda anunciou na passada sexta-feira (23 de setembro de 2016) via rede social facebook que "o novo álbum está quase pronto, temos 11 músicas quase acabadas e três vídeos a caminho. Os primeiros vídeos que alguma vez fizémos. As gravações começaram em fevereiro de 2014, então o tempo começa a ser um bocado longo para nós."

Além das novidades relativas ao novo álbum, Gautier Serre, o mentor do projeto (que se completa com Laure Le Prunenec e Laurent Lunoir) lançou hoje uma nova sinfonia composta pelo seu galo Patrick, o single chama-se "Chicken Sonata". O músico será ainda o responsável pela banda sonora do novo filme do diretor francês Bruno Dumont, que deverá sair no próximo ano. O novo single pode ser reproduzido abaixo.



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Bloom (JP Simões) apresenta "Tremble Like a Flower"


JP Simões é um nome que nos é familiar quando falamos de uns Belle Chase Hotel, Quinteto Tati ou mesmo nos seus trabalhos a solo como JP. Camaleão do cancioneiro nacional, foi encarnado criativamente por Bloom, compositor e cantor inglês prematuramente falecido há de três anos.

Bloom é um rasgar com o passado, cantado em inglês e acompanhado pelas contribuições de Miguel Nicolau, Marco Franco, Sérgio Costa e – ocasionalmente – Carlos Bica. Tremble like a Flower é o nome do primeiro disco de Bloom, a ser editado em Outubro, com concerto de apresentação marcado para dia 25 de Outubro, no Jameson Urban Routes, no Musicbox em Lisboa.

O single de avanço, homónimo, está já disponível para escuta aqui.

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Mr. Gallini apresenta-se ao mundo com o seu "mau humor"


Quem é Mr. Gallini

É Bruno Monteiro, baterista do avassalador quarteto rock n' roll luso Stone Dead. Pode ser descrito como várias pessoas numa só com uma borbulhante imaginação irrequieta. O que Mr. Gallini propõe é um vislumbre a esse imaginário particular com sons que emanam da sua mente como uma espiral de referências musicais de tempos idos onde o relógio pára e o tempo se dilui.

Neste seu projecto a solo, o alter ego de Bruno Monteiro pode igualmente ser descrito como calmaria idílica Psych Harmonioso à beira mar, em contraste com o acelerado dia a dia de quem não quer ceder a crescer e deixar para trás o charme, a inocência e a criatividade quasi-infantil que tantos de nós perdem com o passar dos anos.

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Hans-Joachim Irmler & Jaki Liebezeit no OUT.FEST a dia 8 de outubro


Hans-Joachim Irmler & Jaki Liebezeit vão atuar na 13ª edição do OUT.FEST - Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro. A dupla irá atuar no sábado, dia 8 de outubro, perfazendo assim o elenco final da noite mais longa e diversa do festival (Hieroglyphic Being, Tropa Macaca, Acid Mothers Temple, Ondness, Manuel Mota, Foodman, Van Ayres, Gume, Polido, Les Graciés). Os bilhetes diários custam 15€ e os concertos vão decorrer na ADAO – Associação Desenvolvimento Artes Ofícios.


Encontro-sonho entre duas das figuras mais imponentes no epicentro desse acontecimento iluminado e ímpar que teve lugar na Alemanha dos anos 70 e que usualmente apelidamos de krautrock. Fundador dos Faust, Hans-Joachim Irmler passou a liderar uma das duas formações com esse mesmo nome aquando a cisão em 2004, acumulando também funções no Faust Studio e enquanto mentor da prolífica editora Klangbad, numa demonstração de superlativa actividade. Baterista único, Jaki Liebezeit foi o motor que propulsionou a nave dos Can até ao espaço sideral, num acerto mimético em expansão até aos dias de hoje. Juntos, são um combo em constante exploração da simbiose entre os teclados cósmicos e fracturantes de Irmler e as batidas circulares e hipnóticas de Liebezeit, ao encontro de mundos inexplorados, com a mesma verve e sentido de descoberta que desenhou alguns dos seus trabalhos mais valorosos.

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Nicola Cruz, Sensible Soccers e Duquesa na lançamento da Cerveja Musa no Porto


Esta sexta-feira, 30 de setembro, a Cerveja Musa faz a sua festa de lançamento no Porto, na Antiga Casa Moura, e conta com todos para sacarem a boina (carica, para quem ainda não está familiarizada com o nosso vocabulário) às mais afinadas criações cervejeiras.

Os convidados desta festa são Duquesa, os Sensible Soccers e o nosso já bem conhecido Nicola Cruz. A descarga muscular fica a cargo da fina flor da electrónica nacional: Extended Records / con+ainer / FUGA (Terzi b2b Ludovic b2b Marco Coelho).


A festa decorre da 21h30 às 4h e a entrada é livre. A produção ficou a cargo da Lovers & Lollypops.

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Cinco Discos, Cinco Críticas #19


Fruitless Search // Soft Verse // agosto de 2016
7.0/10


Os New Horror são um trio natural do norte do Reino Unido, mais especificamente Newcastle, e lançaram no mês passado o seu EP de estreia, intitulado Fruitless Search. O disco, composto por seis canções, apresenta um post-punk lo-fi embebido pelo shoegaze dos anos 90 e marcado pela voz grave de Lewis Thompson. Fruitless Search tem uma peculiaridade interessante na medida em que abre com "Like a Child", um single que serve para uma introdução bem contada, e encerra com "Mirror", a música com a maior duração do EP e que encerra os conceitos do EP de forma sintética e eficaz.
Uma coisa há que admitir: os  New Horror trouxeram uma certa vivacidade ao post-punk que é produzido desde a década 10 do séc.XXI. Souberam conjugá-lo com uma aura dream pop, experienciada logo em "Like a Child", e denegri-lo com o shoegaze dos 90's em "In The Night". Colocaram os sintetizadores de lado, e apostaram nas guitarras. O resultado final é bastante positivo e dá início à contagem decrescente pela espera de novos trabalhos.
Sónia Felizardo


GoRgO // Supernatural Cat // setembro de 2016
8.0/10

Os italianos MoRkObOt contam já com 12 anos de carreira e cinco álbuns de estúdio onde se inclui GoRgO, o novo disco do trio. Através de sete músicas os MoRkObOt trabalham um disco que se caracteriza na etiqueta do math-rock com algumas influências noise e se apresenta em formato instrumental. A tecnicidade musical é posta de lado e os italianos criam um emaranhado de sons díspares que se comunicam nos ritmos graves e ruídos psicadélicos resultantes. Dentro do género, este GoRgO é relevante pela inovação que lhe está intrínseca e é notória essencialmente ao nível da metodologia do duplo baixo e da percussão que apresenta uma força imparável e um objeto imovível. "Kromot" e "Ogrog" são dois singles interessantes a ouvir que apresentam uma personalidade mais próxima do pós-metal e surtem o efeito de hipnagogia pesada.
GoRgO foi produzido entre novembro de 2015 e janeiro de 2016 e testemunha uma coerência musical inteligente, através da criação de estruturas mais ambiciosas face aos trabalhos anteriores. Não é um disco para qualquer ouvido.
Sónia Felizardo


Rain Temple // Dream Catalogue // julho de 2016
8.0/10

Os 2814 abandonaram as influências de vaporwave que se podiam encontrar no seu álbum anterior e, em Rain Temple, misturaram música ambiente com géneros como downtempo e techno. O uso de sintetizadores e a mistura de muitos sons criam diferentes atmosferas, acompanhadas em várias músicas por percussão. Alguns dos ritmos usados conseguem tornar certas músicas (quase) dançáveis. Rain Temple dura mais de uma hora, mas consegue manter-se interessante durante toda a sua duração. Apesar de ter alguns momentos mais fracos na sua primeira metade, nomeadamente em “Before the Rain” e “Lost in a Dream”, estes são completamente compensados por músicas como “Eyes of the Temple” e “Transference”, que aproveitam o potencial da sonoridade explorada no álbum. Não faltam aqui boas melodias e ritmos e sons bem misturados e produzidos. Podia ser a banda sonora alternativa do vosso JRPG de ficção científica preferido, é provavelmente um dos melhores álbuns eletrónicos dos últimos meses.


Rui Santos


Stasis // Ghost Box Records // agosto de 2016
7.0/10

Stasis é o mais recente LP de Pye Corner Audio. Segundo a press release da Ghost Box, este é uma continuação de Sleep Games. Alguns de vós podem conhecer o produtor pelo seu relativamente curto percurso na IDM, que começou em 2010. Outros, pelo remix que ele fez para os Mogwai no EP deles, o Music Industry 3. Fitness Industry 1. Mas o mais provável é que poucos de vós o conheçam. E numa altura em que anda tudo com tesão de mijo com o synthwave ("Uau! Onde é que esta música andou escondida estes anos todos?!") muito por causa do Stranger Things e do seu tema de abertura, importa trazer à luz certos aspectos e verdades. Uma espécie de aviso à navegação, para sabermos que pistas devemos percorrer e outras que simplesmente podemos — e devemos — ignorar. 
1º - O synthwave existe desde os anos 80. Tem como inspiração a new wave e as bandas sonoras das grandes películas da época. O Vangelis, o John Carpenter e os Tangerine Dream são tidos pela pseudo-comunidade científico-musical como os inventores do género. (que o autor considera que não seria o mesmo sem Terry Riley). 
2º -  Ainda não vi nada de Stranger Things, por isso qualquer comentário que eu possa tecer é ignorante. Porém, já ouvi o tema. E sabem que mais? Eu já o tinha ouvido antes.
De certeza que os S U R V I V E não fizeram de propósito.  Mas se fizeram, limitaram-se a copiar um dos melhores estetas da sétima arte. Nada que Pye Corner Audio também não tenha feito com Stasis (e ainda por cima pegou logo no melhor filme do Refn).
3º - Se quiséssemos caracterizar o synthwave — e queremos — parte da definição invariavelmente teria que incluir “bandas sonoras de filmes sci-fi/horror dos anos 80”. A outra porção da definição é nostalgia. Uma espécie de homenagem às bandas sonoras que os grandes compositores dos anos 80 produziram para dar expressão sonora aos seus cenários distópicos. 
4º - Com Stasis, Pye Corner Audio nada acrescenta ao synthwave. Mas como poderia, se todo o melhor synthwave já foi feito? Ficou lá atrás, incorporado nos melhores filmes de sempre.O synthwave está estagnado. Morto.
Porém, com Stasis, Pye Corner Audio continua o legado do synthwave. Uma espécie de trabalho atual que serve de memória futura para dar a conhecer a uma geração faminta por boa música — e bom cinema — tudo aquilo que já foi feito anteriormente no synthwave. 
Ao fim ao cabo, tudo acaba por soar ao mesmo. E soa incrível. 
Longa vida ao synthwave.
Edu Silva



Los Niños Sin Miedo // Heavenly Recordings // agosto de 2016
7.4/10


Os The Parrots são uma banda espanhola, originária de Madrid, que se estreia agora nas longas edições com Los Niños Sin Miedo (via Heavenly Recordings). Esta banda já tem um historial algo longo por Portugal, vieram pela primeira vez ao Clube Z na Galeria Zé dos Bois (reportagem aqui), e a partir daí, o trio espanhol tem passado várias vezes pelo nosso país. 

Após vários EP’s bem recebidos tanto pela imprensa, como também pelo público, os The Parrots lançaram (finalmente) o seu primeiro disco no passado mês de agosto. As suas raízes continuam lá, as claras influências em The Almighty Defenders e Black Lips, e obviamente, as letras inspiradas pela boa velha marijuana. Esta última influência pode ser logo encontrada na primeira malha de Los Niños Sin Miedo, ‘Too High To Die’. Quem a ouve pode logo sentir a essência dos The Parrots, o que são e o que é a música deles, mas vamos deixar isso para o final. ‘Let’s Do It Again’ e ‘No Me Gustas, Te Quiero’, os singles que antecederam a este álbum, foram as músicas que marcaram o melhor momento deste consistente álbum, não sendo estranhas de todo aos fãs da banda espanhola. ‘Casper’, ‘ The Road That Brings You Home’, e ‘Windows 98’ são outros destaques de Los Niños Sin Miedo, que no fundo, acaba por ser um bocado monótono e não inovador, mas de uma maneira positiva. Os The Parrots não complicam muito na sua composição musical, o seu género exige mesmo isso deles, o que importa aqui são os sentimentos, que se exprimem nas letras e nos acordes sentidos bem lá dentro. Quem vive um concerto dos ‘papagaios’ sabe bem do que se está a falar aqui, os seus concertos são loucos, os seus fãs vivem a música de uma maneira existencialista. 

E isto acaba por resumir a essência dos The Parrots, a vida pode ser uma merda, mas isso não significa que não possamos divertir-nos e aproveitar a vida ao máximo. A sua próxima passagem por Portugal está marcada para o dia 15 de outubro, onde vêm apresentar Los Niños Sin Miedo ao Musicbox Lisboa (evento aqui). Quem quiser sentir isto tudo ao vivo, sabe bem o que tem a fazer.

Tiago Farinha

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[Review] Niechęć - Niechęć


Niechęć // Wytwórnia Krajowa // abril de 2016
9.5/10

Niechęć é o segundo disco de estúdio do quinteto polaco de jazz fusion do mesmo nome, os Niechęć. Formados em Warsaw, são atualmente compostos por Rafał Błaszczak (guitara), Maciej Szczepański (baixo), Michał Kaczorek (percussão), Tomek Wielechowski (piano) e Maciej Zwierzchowski (saxofone) e lançaram o primeiro disco - Śmierć W Miękkim Futerku - em 2012. Num registo 100% instrumental, os Niechęć mostram agora um segundo trabalho, homónimo, rico nas tradições do jazz nativo e extensivamente inspirado por elementos do post-rock e da film music. Um disco essencialmente avant-garde pelo experimentalismo futurista que lhe está intrínseco e uma banda a ter em atenção nos próximos tempos.

Niechęć é um álbum com uma abordagem que excede as expetativas daqueles que o vão ouvindo minuto a minuto, com atenção. Os polacos usam uma base de guitarra-baixo-bateria que utilizam em conjugação com a sobreposição do piano e saxofone. Esporadicamente utilizam outros instrumentos que conseguem denotar influências na música clássica, oiça-se por exemplo "Echotony", onde o violino serve de introdução obscura a um single com um desenvolvimento musicalmente alegre, e que volta a encerrar com o violino, a solo. Na essência de tudo está o jazz, o grande monstrinho da perfeição musical.

Uma das músicas que facilmente fica na cabeça de um ouvinte deste Niechęć é "Metanol". Impossível não ficar rendido às sonoridades do teclado que iniciam a música. O seu desenvolvimento também é construído nitidamente e apresenta um lado acid jazz com muito post-rock pelo meio, o que a leva a posicionar-se entre uma das melhores faixas deste disco. A produção é igualmente polida e resulta num álbum dinâmico e ousado.


No geral o saxofone é o instrumento que mais se destaca neste segundo registo. Músicas como "Koniec" - grandioso e intergalático single de abertura (um maravilhoso single para a soundtrack de Solaris de Andrei Tarkovski) - e "Atak" - de uma intensidade brutal -, são duas malhas que ficariam apagadas no álbum sem a presença do saxofone. Os Niechęć conseguem neste homónimo levar-nos aos extremos da música passando algumas vezes pelo desconforto, outras pelo puro êxtase. Há consistentemente uma mistura constante de compassos musicais e sonoridades que se refletem nas diferentes sensações provocadas no ouvinte. A cover-art, com aquele miúdo esquisito, enquadra-se muito bem como cenário descritivo do que se vai ouvir. Quatro anos depois da estreia os Niechęć pensaram em tudo e lançam aquele que é a obra prima da sua (ainda) curta carreira.

O jazz por si só é um género extremamente exigente e onde não há espaço para falhas, os Niechęć mostram que é possível transcender limites e regras e aproveitar as falhas e desafinações de instrumentos, para criar melodias através desses lapsos criados propositadamente. Niechęć é um dos grandes discos do ano e também um dos mais iventivos. Em cerca de 45 minutos de duração os polacos mostram um disco extremamente coerente com oito composições que mostram um jazz-fusion-rock que se quer ouvir. Os Niechęć são oficialmente a melhor nova banda e Niechęć o melhor novo álbum.

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Astrodome, The Miami Flu e Qer Dier são os novos nomes do Black Bass


O Black Bass - Évora Fest, que vai acontecer na Sociedade Harmonia Eborense (dia 17) e na SOIR - Joaquim António D'Aguiar (dia 18 e 19) em novembro, está de volta com mais confirmações para o seu cartaz. Astrodome, The Miami Flu e Qer Dier são os mais recentes nomes a fazer parte deste lineup, que já conta com Big Red Panda, Plus Ultra, Sun Blossoms e Acid Acid.

Os bilhetes para o festival alentejano já estão à venda aqui, custando 10 euros o passe para os dias 18 e 19, e 3 euros o bilhete para o dia 17 (dia 'zero'), sendo este grátis para os sócios da SHE.

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domingo, 25 de setembro de 2016

Programação: Muzik Is My Oyster - próximos meses


A promotora portuense Muzik Is My Oyster (MIMO) tem uma programação de luxo até ao final do ano para os amantes da música mais obscura. Tendo sido a co-organizadora (juntamente com A Comissão) de um evento pioneiro, o mini festival Post-Punk Strikes Again, a MIMO tem garantida uma programação sumptuosa até ao fim de 2016 com Death In June, And Also The Trees e Covenant como atrações principais. Os concertos não acabam aqui e agenda completa segue detalhada abaixo.

3 de outubro | Hard Club - Porto . Sala 2 | 22h00

Preço dos bilhetes: 20€


Os Death In June tiveram a sua primeira formação em 1980 por Douglas Pierce (guitarra), Tony Wakeford (baixo) e Patrick Leagas (bateria), influenciados pela crise que o punk britânico atravessava, desde 1977. Os primeiros sigles dos Death In June tinham envolta uma aura post-punk com influências industriais que foi sendo posteriormente substituída por uma mistura de baladas acústicas e sombrias. Desde 1985 que Douglas Pierce é o único membro da banda. Os discos que devem ser ouvidos antes do concerto único por Portugal, a 3 de outubro, passam por The World That Summer(1986), Kapo! (1986), But, What Ends When The Symbols Shatter?(1992) e Peaceful Snow (2010).
A primeira parte fica a cargo de Homem em Catarse, projeto de Afonso Dorido, que teve início em 2012 nas margens do Rio Cávado. O músico vem apresentar o seu mais recente disco Guarda-Rios(2015).




8 de outubro | Hard Club - Porto | 22h00
And Also The Trees + Sweet Nico



Preço dos bilhetes: 18€ até 30 de setembro/ 20€ a partir de 1 de outubro


Os britânicos And Also The Trees aterram pela terceira vez em solo nacional a 7 de outubro no Sabotage Club, Lisboa e sobem, no dia seguinte a 8 de outubro, até à Invicta onde tocam no Hard Club. A banda formou-se em 1979 pelos irmãos Simon (voz) e Justin Jones (guitarra) juntamente com Steven Burrows (baixo) e Nick Havas (bateria). Ao verem que os The Cure estavam à procura de uma banda de suporte os And Also The Trees tiveram a sua grande oportunidade e enviaram uma demo (First Demo Cassette) à banda de Robert Smith. Acabaram por ser escolhidos e abriram para alguns concertos dos The Cure em 1981. Esta oportunidade deu-lhes a possibilidade de editar o primeiro disco na carreira, Shantell(1983). Ao Palco 2, do Hard Club, a banda traz na bagagem o seu mais recente disco, Born Into The Waves(2016).
A abertura do concerto é assegurada pelos Sweet Nico que trazem um espetáculo de dream pop e o mais recente disco, R Revival(2016).






16 de outubro | Cave 45 | 22h00
Flyying Colours


© Bianca Milani
Os australianos Flyying Colours têm concerto único agendado em Portugal, a acontecer a 16 de outubro no Hard Club, Porto na sala 2. O concerto, que marca a estreia da banda em território nacional, encontra-se inserido na tour de promoção do disco de estreia da banda, Mindfullness, editado a 23 de setembro.  Os Flyying Colours são conhecidos pela sua sonoridade shoegaze e dream pop com fortes influências de My Bloody Valentine e Fleetwood Mac. O primeiro EP, homónimo, foi editado em 2013.
Ainda não são conhecidos os preços dos bilhetes.




18 de dezembro | Hard Clubo, Porto . Sala 2 | 22h00
Covenant + Hot Pink Abuse



Preço dos bilhetes: não divulgado


Os suecos Covenant têm concerto único em Portugal marcado para dia 18 de dezembro no Porto em função da The Blinding Dark Tour, em promoção do seu mais recente disco. A banda de synthpop formou-se em 1986 e lançou o primeiro single oficial em 1992 sob o nome de "The Replicant", que integraria dois anos mais tarde no álbum de estreia, Dreams of a Cryotank. Em 1996 lançaram talvez aquele que é o melhor disco da banda, Sequencer, e que os levou a projeções internacionais. A década de 90 marcou a exploração da banda no campo eletrónico. Após o álbum United States of Mind (2000) a banda passou a explorar, dentro da eletrónica, o synthpop. A banda regressa a Portugal, depois da passagem pelo Entremuralhas, em 2010, e traz na bagagem o disco The Binding Dark, editado este ano.

A primeira parte fica a cargo dos portuenses Hot Pink Abuse.





Pré-reservas via email: muzikismyoyster@gmail.com

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Reportagem: Sallim [Casa da Cultura, Setúbal]


No passado sábado, 24 de setembro, fomos até à Casa da Cultura em Setúbal para mais um concerto pela mão da Experimentáculo Associação. Tratou-se do concerto de Sallim, a doce cantora da Cafetra Records que detém um dos melhores discos produzidos este ano em Portugal. Sim, estamos a falar de Isula.

A noite estava calma como Setúbal nos habitua e viam-se poucas ou nenhumas pessoas na praça principal da cidade. Seguimos até à Casa da Cultura para levantar os nossos bilhetes e a calma manteve-se. Esperava-se um concerto à medida da noite também. Faltavam apenas uns meros 15 minutos quando chegamos. O momento da verdade tinha chegado, íamos ouvir Sallim ao vivo.

A Sala José Afonso apresentava-se como é costume para concertos. Apenas palco e cadeiras na sala, muita luz a dar um ar mais "dreamy" ou "sweet" à cena. Batiam as 22 horas e o concerto ia começar. 

Sallim apresenta-se e começa a tocar. Aí começou o turbilhão de emoções dentro de cada pessoa na sala. Ouvia-se com atenção, os poucos mas bons que estavam presentes. Era como se Sallim tivesse feito uma sessão privada para mostrar as suas malhas aos amigos e conhecidos. 

Na segunda música cai tudo. Começa a cantar "Deserto" e aí o concerto ganha uma nova dinâmica. É capaz de ser das músicas mais conhecidas da artista, daí que se viam pessoas a sussurrar a letra em tom de acompanhamento à cantautora.


Sallim leva-nos a um espaço muito dela e isso é bonito isso. Faz-nos desenhar estórias com as suas letras na nossa cabeça e graças à sua guitarra sonhadora, a qual dedilha com avidez e com algum nervosismo aparente. Tem tempo de tocar músicas novas, músicas do seu EP mas sempre com destaque para Isula

Um concerto lindo desde o início ao fim, feito para os sonhadores. Outro momento é quando canta "Grão a Grão" ou mesmo "Nada Igual", que diz ter novo videoclip enquanto começa a tocar. 

Bateu tudo certo neste concerto, a voz doce a tornar a noite setubalense mais estrelada e a a lua mais brilhante, a guitarra a embalar e ainda no final do concerto a oportunidade de estar um pouco à conversa com Sallim.

Foi bonita a noite pá, fiquei contente e mais uma coisa: Sallim, quando quiseres, Setúbal pode acolher-te!
                    
                        Fotografia: Sofia Lopes

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Sallim em Entrevista: "Até agora tem sido bom e tenho ouvido coisas muito boas de quem ouve"


Após o concerto na noite de 24 de setembro, na Casa da Cultura, em Setúbal, tivemos a oportunidade de estar à conversa com a artista da Cafetra Records, Sallim.

Threshold Magazine (TM) - Bom concerto primeiro que tudo, gostei muito!

Sallim - Obrigada!

TM -  Quais foram os teus primeiros passos na música?

Sallim - Olha, o primeiro de todos deve ter sido quando andei no coro. Desde pequena que gosto muito de cantar. Depois, mais tarde, fui aprender a tocar guitarra. De certa forma, para poder acompanhar a voz. Tive umas aulas com uma amiga do meu pai, uma coisa assim informal. Eu ia a casa dela e ela ensinava-me a tocar as canções que, na altura, eu gostava. Mas foi só em 2013 que comecei a compor as minhas canções. Foi numa altura em que eu não estava a estudar. Tinha feito um ano em Belas-Artes, durante o qual escrevi, na verdade, a minha primeira canção! Um amigo meu enviou-me uma gravação de guitarra e eu cantei por cima. Essa canção está no bandcamp e chama-se "fiz-lhe uma letra".

TM - Quando é começaste a rascunhar as primeiras letras? Eram já semelhantes ao que tens agora?

Sallim - Foi precisamente nessa altura. E sim, posso dizer que já eram semelhantes. No fundo, tenho tendência para falar sempre das mesmas coisas… Mas acho que vou tentando melhorar, claro.

TM - Como é que surgiu a hipótese de pertencer à Cafetra?

Sallim - Foi uma vez que eu decidi enviar ao Éme o link do meu Soundcloud, que, na altura, era o que eu tinha. Ele ouviu, mostrou ao resto da malta, eles curtiram e começaram a convidar-me para fazer concertos. Entretanto, ficámos amigos e um dia, o Leonardo Bindilatti, que produziu o Isula, veio ter comigo e disse que gostava muito de gravar as minhas músicas se eu quisesse. Quando o disco ficou pronto, eles propuseram que eu lançasse pela Cafetra e eu, às tantas, disse que sim. E agora está feito! Sem eles, não sei como teria sido.

TM - Isula é um álbum que, para muitos, é como um "colete salva-vidas"; para outros é como um álbum de momento de mudança. Como te sentes em relação a isso? Como tem sido recebido o teu trabalho?

Sallim - Bem, acho eu. Ainda não ouvi coisas más! Eu acho é que algumas pessoas irão ficar indiferentes, também ainda não tive ninguém a dizer que era péssimo. Até agora tem sido bom e tenho ouvido coisas muito boas de quem ouve e vai aos concertos, o que me deixa contente.

TM - Quando é que achaste que devias sair do quarto e mostrar ao mundo a tua música?

Sallim - Eu acho que quando comecei a fazer música, foi de facto um bocado só para mim. Masao mesmo tempo, sinto que sempre gostei de mostrar o que faço. Como não faço só música, sempre tive blogs e páginas onde publicava as coisas que fazia (desde escrita a desenhos, fotografias, colagens, …), com a música foi um bocado a mesma coisa. Começou por ser só para mim e depois a um certo ponto decidi partilhar e deixar que as pessoas ouvissem. Acho que também é nessa partilha que existe o sentido de criar coisas.

TM - E não é intimidante? Falas sobre vários temas pessoais

Sallim - Sim, ao início foi. Começar a dar concertos foi um bocado esquisito porque estava ali a falar de cenas e sentimentos um bocado íntimos e que me deixavam, de certa forma, meio vulnerável.

TM - Como é que têm corrido os teus concertos? O último agora foi no D'Bandada, o que estavas à espera?

Sallim - Estava à espera que fosse muito fixe e foi. Eu gosto imenso do Porto. Foi no Café au Lait e estava cheio!

TM - E como funciona o teu processo de criação?

Sallim - Normalmente faço a letra primeiro. Claro que já aconteceu de outras maneiras, não tenho propriamente uma fórmula fixa para fazer canções. Mas costumo fazer a letra primeiro, à medida que me vou apercebendo de que há alguma coisa que preciso de dizer ou sobre a qual quero cantar. Isto para dizer que as minhas letras não costumam nascer de devaneios livres. Costumam ter um tema, digamos assim. Depois, a partir da letra, começo a imaginar a linha de voz, a tentar cantar como quero. E só depois é que faço a guitarra e os ajustes que forem precisos, entre estas três coisas. Às vezes é mais imediato, às vezes demora muito tempo… depende. Mas é engraçado porque, quando falo sobre isto com os meus amigos, apercebo-me de que faço ao contrário da maior parte deles. E também vou aprendendo com isso.

TM - O que é que tens ouvido ultimamente? Concertos do ano até agora?

Sallim - Ultimamente tenho ouvido muita pop music, curiosamente. De agora e não só. Acho que tenho andado a ultrapassar uma espécie de preconceito meio indie que diz que música mainstream não presta. Ando a aprender a ouvir coisas para lá do género de música, a segmentar menos e a ser mais sincera comigo em relação ao que gosto ou não gosto. E pronto, ando a ouvir coisas desse género, desde Justin Bieber à Ariana Grande, Beyoncé, Drake e outros. Fiquei mais atenta à inteligência super própria desse tipo de músicas (não todas, claro) e ao sabor meio plástico que elas têm. Não são muito sentidas e também não me fazem sentir grande coisa, mas põem-me a dançar e a cantar e isso também é fixe.

Em relação a concertos do ano poderia ter sido o da Ariana Grande provavelmente, no Rock In Rio, que foi cancelado depois de ter ganho bilhetes grátis, ainda por cima! Tirando isso, Jessica Pratt na ZDB foi excelente, passei o concerto a chorar. Mesmo muito lindo! O lançamento do disco dos Von Calhau, na ZDB, também foi brutal. Gosto imenso do trabalho deles. RP Boo em Serralves também foi top! De resto, tenho ouvido a Weyes Blood, as canções novas que ela já lançou e mesmo as coisas anteriores, o EP dela bateu-me imenso e vou abrir para ela na ZDB em Dezembro, por isso estou assim mesmo excitada, adoro-a! 

Tenho andado a ouvir umas gravações de novas músicas das Pega Monstro e estou-me a passar! Aquilo vai ser algo incrível e é daquelas coisas que eu oiço e fico mesmo com bué vontade de continuar a fazer música.

TM - Foi a primeira vez que atuaste em Setúbal, o que estavas à espera? O que pensas da cidade?

Sallim - Eu acho que nunca pensei nada sobre Setúbal *risos* Nunca vim à Casa Da Cultura. A partir do momento em que soube que ia dar dois concertos num dia fiquei um bocado stressada e com medo de já estar muito cansada ou assim, de não estar com vontade mas olha, foi muito fixe, adorei!

TM - E pronto estão todas as perguntas respondidas! Muito obrigado, Sallim!

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