sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Portugal Alive: a melhor música portuguesa está de volta a Espanha

Artistas portugueses vão apresentar concertos em Madrid e Barcelona num programa anual apoiado pelo Cultura Portugal em Espanha. Capicua, Best Youth, Bruno Pernadas e Surma são as escolhas para a edição deste ano do Portugal Alive, festival que leva a arte sonora portuguesa ao público espanhol. 


Pelo quinto ano consecutivo, a melhor música portuguesa da atualidade parte à conquista do país vizinho. Durante dois dias, a 21 e 22 de setembro, o festival Portugal Alive leva até às cidades de Madrid e Barcelona, respetivamente, as músicas de Capicua, Best Youth, Bruno Pernadas e Surma. O festival tem por objetivo a promoção da cultura portuguesa contemporânea junto do público espanhol e ainda a aproximação à comunidade portuguesa residente em Espanha. A entrada é gratuita para todos os concertos. 

Com mais de duas décadas de existência, o festival catalão de referência internacional na descoberta de novos talentos na área da música eletrónica, pop, rock e pop, conta este ano com a capital portuguesa como cidade convidada. A 22 de setembro, na Plaça Joan Coromines, ouvir-se-ão alguns dos artistas mais relevantes da música portuguesa dos últimos anos. Pongo, Real Combo Lisbonense e Throes + The Shine integram também a armada lusa, estes três nomes a convite do festival BAM (Barcelona Áccio Musical). 


Programa Portugal Alive 2018

Madrid, Palácio de La Prensa – 21 de setembro 
Best Youth, Bruno Pernadas e Surma 

Barcelona, Plaça Jon Coromines – 22 de setembro 
Capicua, Bruno Pernadas e Surma

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Oiçam: Favours

oicam-favours


Vindos de Toronto, em Ontario, os canadianos Favours lançaram o seu single de estreia, de seu nome "In The Night", onde revelam a sua sonoridade synthpop influenciada tanto pelas reminiscências da new wave britânica dos anos 80 e 90 como pelas tendências modernas da dream pop.

A música foi gravada com a colaboração do produtor Josh Korody (Dilly Dally, Weaves), e vem com um videoclip cujas cenas foram, segundo os próprios, inspiradas por vários filmes da coleção Criterion, e acaba por intensificar e acompanhar o sentimento de alienação do single.

Quando questionados acerca da inspiração por detrás de "In The Night", a banda menciona que é "uma balada para os que se vêm presos num ciclo rudimentar e repetitivo". Ainda nesse tema, acrescentam que fala sobre escapar da banalidade do dia-a-dia e antecipar o sonho que está fora do alcance. No que toca à identidade sonora da banda, o resultado culmina assim numa sonoridade deleitante e ao mesmo tempo com uma aura de traços soturnos, marcado por um trabalho de baixo palpitante que se encontra taco-a-taco com um som de guitarra bastante vívido e, principalmente, uns sintetizadores igualmente vibrantes e e melancólicos.

Apesar de não haver ainda não confirmação sobre um futuro registo, essa deverá estar para breve.

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Huggs lançam hoje o EP de estreia, Did I Cut These Too Short?


Simultaneamente inspirados pela energia crua e indisciplinada do panorama underground britânico e pelas baladas românticas típicas dos anos 50 e 60, os Huggs nascem do contraste entre as melodias contagiantes do Duarte Queiroz na guitarra e voz e a irreverência punk e bateria pesada do Jantonio, quando os dois se conhecem por acaso num projecto de faculdade. Transportam-nos imediatamente para uma atmosfera tão suja, fria e insensível - impossível não lembrar a tão aclamada série Shameless - quanto quente e apaixonante.


Editam hoje Did I Cut These Too Short?, gravado no verão de 2017 por Gonçalo Formiga (Cave Story) no seu estúdio nas Caldas da Rainha. Uma edição Cão da Garagem que faz dos Huggs uma das mais promissoras bandas portuguesas de garage rock e indie da actualidade. 

"Find Out" é o mais recente novo single da banda e mostra-nos os Huggs a tocar de forma mais descomprometida e, pela primeira vez, a cantar sobre alguém que não eles próprios. O videoclip ficou a cargo de Manuel Casanova.


Consultem em baixo das datas da tour de apresentação de Did I Cut These Too Short?

TOUR:
- 21 de Setembro/ Maus Hábitos, Porto
- 6 de Outubro/ Mucho Flow, Guimarães
- 25 de Outubro/ Lounge, Lisboa
- 15 de Novembro/ Teatrão, Coimbra
- 17 de Novembro/ Black Bass, Évora
- 30 de Novembro/ Quinta das Beatas, Portalegre

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A paixão de ZigurFest: os dias que passámos em Lamego



O ZigurFest realizou entre 29 de agosto e 1 de setembro a sua oitava edição, recebendo em Lamego vinte e quatro dos nomes mais criativos e inovadores da música nacional. Foram quatro dias em que a música se fundiu com o vasto património milenar apresentado pela cidade, propagando-se por oito palcos - Teatro Ribeiro Conceição, sala de Grão Vasco do centenário Museu de Lamego, Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos, Castelo, largo da Olaria, Parque Isodoro Guedes (também conhecido como Alameda), Largo da Cisterna e Capela de Nª. Srª. da Esperança.

Como já passaram umas algumas semanas após o ZigurFest, decidimos escolher os concertos que mais gostámos nesta edição. Infelizmente não estivemos presentes no primeiro dia, que contou com as atuações de Ulnar + Sal Grosso, Zarabatana e Dullmea


Mathilda – 30 de agosto


Após algum tempo à procura da Capela de Nª. Srª. da Esperança, conseguimos chegar a tempo do concerto de Mafalda Costa, cantautora vimaranense mais conhecida por Mathilda. Completamente à pinha, já não cabiam mais pessoas no adro da capela, cuja iluminação criava o ambiente intimista certo para a ocasião. Dona de uma voz doce e suave, com apenas um ukulele nas mãos e acompanhada por Gobi Bear (Diogo Pinto) na guitarra acústica, como já é costume, Mathilda aqueceu os corações de todos os presentes com as suas canções de filigrana e veludo, onde retrata e suporta as fragilidades de uma artista bastante madura, mas que ainda só tem 18 anos. Ouviram-se na capela temas como “Oddest of Things”, primeira música que lançou com 17 anos, “Unloved”, música de Gobi Bear que conta a colaboração de Emmy Curl em estúdio, e ainda “No Love Song”, onde Mathilda ficou sozinha em palco com a sua guitarra elétrica. Pediu para sermos gentis pois ainda está a aprender a lidar com esta situação. E nós assim o fomos.

Sereias – 30 de agosto


Não há muitas bandas em Portugal que nos preparem para o que vimos esta noite. Caracterizam-se como jazz-punk pós-aquático e dão pelo nome de Sereias. Formados pelo poeta António Pedro Ribeiro e Kenneth Stitt na voz, Sérgio Rocha na guitarra, João Pires na bateria, Nils Meisel nos sintetizadores e Tommy Luther no baixo, a banda do Porto apresentou-se no palco Alameda com as suas longas músicas movidas a noise rock e no wave irregular. No meio de todo o caos, as atenções estavam especialmente focadas em António Pedro Ribeiro, que declamava ferozmente os seus poemas enquanto a banda tocava, e em Kenneth Stitt, homem de speedo que dançava livremente com as suas longas pernas e braços, vocifernado por vezes algo indecifrável ao microfone. Esquizofrenia é a palavra certa para definir este concerto. 

Fotogaleria do dia 30 de agosto aqui


André Gonçalves – 31 de agosto


André Gonçalves é um dos exploradores sónicos mais relevantes do panorama nacional, ora através da construção de sintetizadores modulares pela ADDAC, ora através da música que produz. Música Eterna (2015) é o melhor exemplo disso, “álbum” que existe dentro de uma aplicação para iOS e permite compor música que nunca se irá repetir, “recorrendo a uma partitura que joga com múltiplos blocos sonoros que vão desfilando com o tempo, encaixando miraculosamente sem nunca nos deixar desamparados pelo aparente jogo de sorte”. No Castelo de Lamego não foi diferente e André presenteou-nos com um set de colagens onde convivem sons do quotidiano com algumas vozes e por vezes alguns glitches, ao género de Oneohtrix Point Never. Perante a música ambiente que se fazia sentir, o público sentia-se relaxado, havendo até quem se deitasse na relva e fechasse os olhos para sentir todas as singularidades da viagem. 

David Bruno – 31 de agosto


Na primeira incursão do festival no Teatro Ribeiro Conceição, fomos assistir à apresentação d’O Último Tango em Mafamude, álbum editado este ano por David Bruno e muito aclamado pela crítica, onde expressa o seu amor pela cidade de Vila Nova de Gaia, revestindo-se de roupagens dos anos 90, enriquecidas com ritmos de hip-hop, um imaginário soul e músicas românticas. Iniciou o concerto com “Alfa Romeu e Julieta”, música sobre os domingueiros que só tiram o carro da garagem aos domingos. Agradeceu por não estarmos a assistir ao concerto dos Amor Electro, que essa noite estavam também a atuar em Lamego. Acompanhado pelos calorosos solos de guitarra de Marquito, esse prodígio de Barcelos, pelas representações visuais do seu álbum como fundo e, não esquecendo, pelo naperon a adornar a sua mesa de mistura, David Bruno interpretou temas como “Monte da Virgem Platónico”, “Amor Anónimo”, onde há a famosa referência a Marante e Toy, “Mesa Para Dois”, onde nos recomendou a comermos no balcão dos snack bars e a mantermos vivas as travessa de alumínio. Foi com “Lamborghini na Roulotte”, música que o artista só apresenta ainda ao vivo, que o público entrou completamente em delírio. Após uma pequena pausa em que foram lançados para a audiência bases de copo alusivas ao Último Tango em Mafamude, David regressou ao palco para terminar a atuação com “150 mL”, tema da altura em que o artista respondia por dB.

Foi uma experiência incrível ver esta personagem caricata interpretar as suas músicas tão tipicamente portuguesas que nos enchem de um orgulho imenso.

NU – 31 de agosto


Quem também atuou no Teatro Ribeiro Conceição foram os NU. A banda veio de Santo Tirso e apresentou-se em palco com sete elementos, apesar de serem um sexteto formado por Rui Pedro Almeida na voz, Miguel Filipe Silva e Vitor Duarte nas guitarras, André Soares no baixo, Ricardo Coelho na bateria e Urbano Ferreira na eletrónica. Apresentaram o seu rock experimental bem aguerrido e desconcertante, com uma percussão violenta, influenciado por nomes lendários como os Swans, Einstürzende Neubauten e os Mão Morta. Aliás, eram bem notórias as semelhanças do vocalista com Afonso Luxúria Canibal, tanto na voz como no seu estilo devaneante em palco. O elemento extra presenteou-nos com o seu saxofone, o que conferiu um carácter ainda mais experimental à atuação da banda. Durante quase uma hora estivemos perante um ambiente psicologicamente denso dotada de visuais negros e niilistas, em que a banda não se dirigiu ao público.

Fotogaleria do dia 31 de agosto aqui


Lavoisier – 1 de setembro


Os Lavoisier foram os primeiros a entrar em ação no último dia do ZigurFest no palco da Olaria. A dupla formada por Patrícia Relvas e Roberto Afonso recria a tradição musical portuguesa, respeitando a lei da conservação da matéria do químico Antoine Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", interpretação esta que assenta no minimalismo da guitarra e a voz (e corpo) moldável de Patrícia. Partiram para Berlim em 2009, mas decidiram regressar em 2013 para viver apenas da música. Em Lamego apresentaram o seu disco É Teu (2017), tocando temas como “Vira”, uma versão de “Marcolino” de Fausto Bordalo Dias, “Romance do Cego”, música tradicional portuguesa que a avó de Bragança cantava, “Estátua”, resultante de um poema de Judith Teixeira, “Fauna”, música que retrata o quão bonito e assustador pode ser viver ao pé do mar, e “Opinião”, coisa que toda a gente tem. O duo aventurou-se também num tema novo, “Frustração”, que irá fazer parte de um novo trabalho onde vão musicar Miguel Torga. Nada melhor que um situação ao vivo para testar a força das canções.

The Dirty Coal Train – 1 de setembro


Todos sabemos que quando menos esperamos algo de extraordinário acontece. Foi isso que aconteceu com os Dirty Coal Train, banda que veio substituir à última da hora os Moon Preachers. O trio formado por Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues, na guitarra e voz, e Nick Suave, na bateria, editou em maio o novo álbum Portuguese Freakshow e conseguiu vir até Lamego atuar pois estava a passar férias ali perto. Só precisaram que alguém lhes emprestasse uns instrumentos. Uma das guitarras até estava assinada por Malcolm Young, membro falecido dos AC/DC. Ao todo foi quase uma hora de garage punk puro e duro, com direito a mosh e a crowdsurf por parte do endiabrado público. Não menos endiabrados, Ricardo e Beatriz andaram também pelo público a dar tudo, dando a oportunidade a algumas pessoas de agarrarem no micro e gritar o que lhes ia na alma. Dose diária recomendada de rock para aqueles que assistiram a este vendaval.

Scúru Fitchádu – 1 de setembro


Para quem nunca tinha visto Scúru Fitchádu ao vivo e só tinha ouvido algumas músicas em casa, nada os podia preparar para a bojarda que aí vinha. O relógio já marcava as 3h da manhã quando Marcus Veiga aka Sette Sujidade entrou no palco Alameda com o seu produtor. Scúru Fitchádu é um projeto que vive para as atuações ao vivo, dono e senhor de uma música bastante física e intensa, a qual não dá para viver sentado. Funde a distorção e o ruído do punk com os ritmos dançantes do funaná de Cabo Verde e a bass music. Isto tudo cantado vigorosamente em crioulo, com a ajuda de uma faca que bate freneticamente sobre o ferro e nos “obriga” a dançar até mais não. Foi um concerto que se prolongou por mais de uma hora e nos obrigou a ir aos limites. Incrível, épico, o melhor concerto desta edição do ZigurFest.

Fotogaleria do dia 1 de setembro aqui.


P.S.: Um dos melhores festivais nacionais, o ZigurFest mostrou-se em excelente forma, excecionalmente organizado. Integrado nas festividades de Lamego, funcionou como uma alternativa às festas mais populares, permitindo chamar público de todas as idades. Os belíssimos locais onde se dão os concertos são muito bem escolhidos e adequam-se perfeitamente ao tipo de música e à cidade milenar de Lamego. O convívio com bandas é bastante facilitado e podemos ver de perto como tocam pois não há barreiras entre nós e estas. Toda a cidade é contagiada pelo ZigurFest e nós sentimo-nos bem a fazer parte dessa família. Esperamos voltar por muitos e bons anos. 

Texto: Rui Gameiro
Fotografia: David Madeira


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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Tim Hecker na abertura da temporada da Culturgest


A Culturgest está a preparar uma rentrée muito especial, com o artista sonoro canadiano Tim Hecker a integrar a programação da nova temporada do espaço cultural situado em Lisboa. No seu regresso à capital, onde atuou pela última vez em 2016, Tim Hecker traz novo trabalho e um concerto em conjunto com Kara-Lis Coverdale, que se encarregará também de efetuar a primeira parte, e ainda o ensemble gagaku Tokyo Gakuso, formado por Motonori Miura, Manami Sato e Fumiya Otonashi. Konoyo, o nome do disco em questão, recebe novamente o selo conceituado da Kranky, o núcleo duro por onde Hecker editou algumas das mais importantes obras da música ambient das últimas duas décadas. 

A apresentação do disco acontece dia 4 de outubro no Grande Auditório da Culturgest, e os preços já se encontram disponíveis via ticketline ao preço único de 14 euros.



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Reportagem: No Age [Hard Club, Porto]


Os No Age já não são estranhos para ninguém. Entre vários concertos e festivais, o duo natural de Los Angeles foi estabelecendo uma relação duradoura com o público português, que os recebeu novamente para as duas primeiras datas em Portugal em cinco anos. O reencontro fez-se na semana passada em Lisboa, na ZDB, seguindo-se o Porto com um concerto no Hard Club ao lado dos portugueses El Señor

Formados em 2005, o duo composto por Dean Spunt, baterista, e Randy Randall, guitarrista, nasceu do interesse mútuo pela cena DIY, que canonizaram ao longo da adolescência e rapidamente alcançaram com um contrato pela mítica Sub Pop, essa meca da música independente por onde editaram três álbuns de estúdio – Nouns (2008), Everything In Between (2010) e An Object (2013). Snares Like a Haircut, o regresso do duo às edições sob a alçada da norte-americana Drag City, serviu de mote para o reencontro com o nosso país.

“Cruise Control”, o poderoso tema de abertura de Snares Like a Haircut, deu o pontapé de arranque, mostrando um duo longe de se encontrar em piloto automático. No seu primeiro álbum em cinco anos, os No Age encontram-se mais maduros, confiantes e confortáveis com as peripécias que a vida lhes tem vindo a proporcionar. Agora pais e casados, o duo está de regresso e em boa forma, com um disco aclamado pela crítica internacional especializada que o tem vindo a descrever como a sua obra mais progressiva e aprimorada, uma onde a frustração jovial e furiosa dos primeiros registos encontra finalmente a paz, abrindo caminho para um trabalho de meticulosa coerência.


Percorrendo um alinhamento extensivo, o duo intercalou os temas mais recentes do repertório com algumas das canções mais marcantes da sua já longa carreira, desde potenciais hinos esquecidos – “Sleeper Holder”, “Glitter”, “Fever Dreaming” – a novos capítulos de uma carreira que parece não ceder à passagem do tempo - “Send You”, “Drippy”, “Stuck In The Charger”. 

“Teen Crips”, esse grito que marcou a quintessência dos No Age, não escapou ao ânimo inevitável do escasso mas conhecedor público que se apresentava na sala 2 do Hard Club, que cantou e celebrou a fúria contida de um tema que soa tão refrescante como soava há dez anos atrás. “Every Artist” e “Boy Void”, temas que inauguram Weirdo Rippers, recordaram os passos iniciais dos No Age como força vital do espírito enraizado no mítico The Smell (o mesmo espaço que emoldurou a compilação de 2007), encerrando esta onda nostálgica ao som de mais duas canções do acarinhado disco de estreia, “Miner” e “Ripped Knees”. 

Entre novidades e revivalismos, os No Age proporcionaram um serão ruidoso e abafado de canções ricas em textura, distorção e a intensidade que sempre nos acostumaram, reunindo novos e antigos fãs para uma noite de celebração do som que marcou uma década.

 No Age + El Señor [Hard Club, Porto]

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Edu Silva

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STREAM: Ele Ypsis - Linga Dei [Threshold Premiere]


Ele Ypsis is releasing their fourth album at the end of this week but you can listen to the whole masterpiece that this new Liga Dei is right now, accessing the stream below. With this new album, Ele Ypsis would like to be feared as much as Stravinsky's music in his days, and the truth is that they definitely transmit that, going even further. With a collection of eight songs, as we have already been used to since their first release EKSÜ (2013), this new album is just like poetry to our hears, their lovely compositions produced by Stélian Derenne conjugated with the apotheosis vocals from Laure Le Prunenec suddenly lead us to the landscapes of chaos within such harmonious structures that can't even be described with words.

There's this initial classical approach in singles such as "Oro" and "Enso", but just when we get used to it, Ele Ypsis manage to deconstruct the whole thing into a boom of feelings and lots of energy. And then there's the real one, "Turmali", that song that possesses you even if you don't want to. But that's nothing compared to what "Linga Dei" has prepared for you. This Linga Dei is like we've been on a tour to baroque's epoche with Ele Ypsis driving us through their abyssal wonderful avant-garde music. 

Linga Dei is out this Friday, September 21st. Stream it below and make sure to pre-order it here.



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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Mercury Rev e a sua máquina do tempo chegam ao Lux para a semana


A banda de Nova Iorque, Mercury Rev, irá apresentar na íntegra o clássico Deserter’s Songs no Lux  Frágil, Lisoba, no próxima dia 27 de setembro. Estreado em 1998, Deserter's Songs foi um sucesso inesperado, depois de vários anos na mó de baixo devido à saída de David Baker, vocalista e um dos principais criativos da banda, e de alguns lançamentos menos bem sucedidos, como é o caso de See You on the Other Side, lançado no ano de 1995, ou do esquizofrénico Paralyzed Mind of the Archangel Void, editado sob o pseudónimo de Harmony Rockets.

No entanto, quando se pensava que a banda ia cair no esquecimento e continuar na cena underground, o lançamento de Deserter's Songs trouxe um fulgor de reconhecimento e uma maré de excelentes críticas, tornando a banda uma das novas sensações da música popular, sendo, inclusivé, considerado pela NME como o melhor álbum do ano, superando clássicos como Moon Safari dos Air ou Mezannine dos Massive Attack.

O som deste álbum é um cruzamento do neo-psicadélico dos anos 90 com os arranjos orquestrais-pop típicos do Pet Sounds dos Beach Boys, contudo o mais impressionante é a emoção e a sinceridade das músicas que desarmam os ouvintes com a sua beleza.

Este concerto surge no seguimento da tour de 20 anos do afamado álbum que tem sido celebrado em concertos acústicos e intimistas por todo o mundo. Os bilhetes ainda se encontram à venda por 26€.

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Fotogaleria: The Fresh and Onlys [Maus Hábitos, Porto]



Foi na passada quinta-feira, dia 13 de setembro, que os Fresh & Onlys de Tim Cohen se estrearam no norte de Portugal com um concerto no Maus Hábitos, sendo que a banda tocou no Texas Bar em Leiria no dia anterior. No ativo desde 2008, os Fresh & Onlys estiveram na génese do movimento da nova vaga de garage rock que surgiu em San Francisco no final da primeira década deste milénio. Lado a lado com os Oh Sees, o Ty Segall, os Sic Alps e muitos outros, os Fresh & Onlys partilhavam não só do mesmo espaço geográfico, mas também das mesmas influências: uma aura de psicadelismo dos 60’s através de bandas como os Grateful Dead e os Jefferson Airplane (que se viriam a tornar nos Jefferson Starship) e a ethos do punk dos 80’s através de bandas como os Crime (criados pelo recém-falecido Johnny Strike e por Frankie Fix) e os Flipper. Quem começou a cartografar este território musical foi Greg Gardner, que em 2010 trabalhava no Amoeba e teve a oportunidade de compilar os temas desta nova vaga de bandas no álbum In A Cloud - New Sounds From San Francisco. Desde esta compilação, os Fresh & Onlys lançaram um par de EPs e 3 discos e continuam a destilar o seu rock com influências de garage mas também de psicadelismo lo-fi. Os dois concertos de estreia em território português dos Fresh & Onlys foram ambos organizados pela Ya Ya Yeah e tiveram como mote a apresentação ao vivo de Wolf Lie Down, o mais recente disco dos californianos, editado via Sinderlyn (uma editora paralela da Captured Tracks) no ano transacto. Abaixo ficam as fotos da suada estreia dos Fresh & Onlys na cidade do Porto.



The Fresh and Onlys [Maus Hábitos, Porto]

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terça-feira, 18 de setembro de 2018

Reportagem: Milhões de Festa [8 e 9 de setembro]

UKAEA
Os últimos dois dias do Milhões de Festa foram marcados pelas curadorias do SWR Barroselas Metalfest e do excêntrico coletivo de Manchester Fat Out, que dedicaram programações exclusivas no Palco Taina. Na piscina, pela tarde, encontrámos Natalie Sharp (Lone Taxidermist) para uma performance inédita de portentosas experimentações electrónicas e instrumentos pouco ortodoxos. BodyVice, o nome do projeto que apresentou durante a tarde do terceiro dia, juntou a música e produtora a Phantom Chips (que apresentou um insólit set/workshop no dia anterior) e ainda um terceiro elemento na flauta transversal para um momento de inesquecível extravagância. Vestimentas orgânicas e maleáveis e explorações industriais fizeram desta performance um verdadeiro festim sensorial que fez jus à singularidade que cunha este palco.

Natalie Sharp
A abrir a noite no palco Milhões esteve Charlotte Adigéry, que se apresentou em Barcelos sob o moniker WWWater. Com apenas dois EPs (um em nome próprio, outro como WWWater), a jovem artista belga integra já alguns dos festivais internacionais mais badalados, tendo acompanhado os Young Fathers na última tour europeia. A sua presença no cartaz desta edição poderá ter passado despercebida à maioria, mas podemos afirmar sem grandes dúvidas que o concerto que assistimos nesta terceira noite foi a maior surpresa do festival. Groove, sensualidade e muita energia foram elementos que não faltaram na sua performance, que impediu os ainda poucos membros da plateia de dançar ao som de algum do melhor R&B contemporâneo executado à margem da música corrente.

No palco Lovers, aguardava-se a performance de Gazelle Twin, que regressou a Portugal para o primeiro concerto em três anos. Com novo disco a caminho, Elizabeth Bernholz apresentou um alinhamento exclusivamente composto pelos temas desse mesmo trabalho, um apanhado de vozes e tessituras industriais que se intensificam quando apresentadas ao vivo. A indumentária que enverga, da habitual balaclava ao uniforme vermelho e branco, remete para o imaginário folclórico de uma terra de Sua Majestade imersa num novo período de obscurantismo, onde as cores do fascismo ganham cada vez mais poder. Dos temas densos e sufocantes à performance arrojada, Bernholz percorreu o lado mais visceral do seu trabalho com um dos serões mais vertiginosos desta edição. 

Gazelle Twin


Seguia-se, Nubya Garcia uma das porta-vozes da nova guarda do jazz britânico. A jovem compositora e saxofonista apresentou-se em formato quarteto para uma lição de boa música, pensada e bem executada. Da linha elegante do saxofone tenor aos diálogos empolgantes de baixo, bateria e sintetizador, Nubya e companhia demonstraram uma bonita celebração de respeito e amor aos grandes nomes do género, de Pharaoh Sanders a Herbie Hancock, sem nunca perder o toque único e apaixonante de uma das figuras vitais do jazz contemporâneo.

Os Electric Wizard, por outro lado, não estiveram à altura do estatuto que lhes é estabelecido. A banda regressou ao festival que os acolheu para sua primeira passagem por Portugal, gerando a maior enchente desta edição. No entanto, a banda  britânica desiludiu com um set previsível que só terá agradado os fãs mais acérrimos. Donos de um som poderoso de proporções titânicas, a sua atuação ao vivo não se aproximou nem de perto da parede abrasiva e compacta que nos deram a conhecer em marcos como Come My Fanatics... ou Dopethrone, perdendo-se em rodeios psicadélicos e projeções misóginas que demonstram o percurso de uma banda presa no tempo. 

Nubya Garcia
Electric Wizard
Felizmente, há tradições que nunca mudam, e o regresso de The Bug é uma delas. Na sua quarta passagem por Portugal consecutiva, a terceira no festival, The Bug (ou Kevin Martin) fez-se acompanhar novamente pela MC Israelita Miss Red, com quem apresentou uma abrasiva performance na edição de 2016. O mote, desta vez, foi para a apresentação de K.O., o álbum de estreia de Miss Red, produzido pelo suspeito do costume. Percorrendo alguns dos temas que integram esse registo - “War”, “Dagga”, “K.O.” - antecedidas apenas por alguns dos temas que marcaram a carreira de The Bug (cujo London Zoo comemorou 10 anos no passado mês de julho), a dupla mais acarinhado do festival apresentou mais um desfile irrepreensível de rimas e batidas angulares, apoiadas em paredes esmagadoras de graves e um flow invejável.

Milhões de Festa 2018: Dia 2


Um dos momentos mais aguardados do quarto e último dia de Milhões de Festa estava reservado para Johnny Hooker, o músico, compositor, ator e ativista LGBT brasileiro que se estreou no festival com um concerto na piscina, onde atuou na companhia da sua banda para um público conhecedor e claramente entusiasmado. Coqueluche da nova música popular brasileira, Hooker (John Donovan na vida real) apresentou alguns dos temas que integram a sua curta mas promissora discografia. Do amor pela “Santíssima Trindade”, assim apelida os ídolos Madonna, David Bowie e Caetano Veloso, à luta contra o preconceito e conservadorismo que assolam o seu país, o autor de “Flutua” cantou e encantou com a graciosidade e glamour de uma das mais revolucionárias figuras do novo cancioneiro brasileiro.

Johnny Hooker
Já no palco Lovers, o duo germânico Mouse On Mars preparava-se para uma hora intensa de batidas quebradas e destrutivas, um registo assumidamente díspar do apresentado em estúdio, onde produziram algumas das mais importantes faixas IDM dos últimos vinte anos. Seis anos após o encontro no Semibreve, os Mouse On Mars apanharam-nos de surpresa com uma abordagem elétrica e imprevisível, desconstruindo ritmos familiares da música de dança e transformando-os em verdadeiros hinos das pistas de dança mais arrojadas.

E porque a coerência nunca foi o forte deste festival (e ainda bem), Os Tubarões seguiram-se de imediato para um concerto de contagiante energia. A banda lendária de Cabo-Verde recebeu o merecido estatuto de cabeça de cartaz do último dia de festival, encerrando o palco Milhões em chave-de-ouro. A banda de Russo e Zeca Couto, membros fundadores, juntou-se a Totó Silva, Totinho, Jorge Lima, Albertino Évora e Jorge Pimpas para uma noite que abriu ao som de “Tunuca”, iniciando um serão memorável com um dos temas que melhor carateriza a quintessência do grupo: ritmos quentes e dançáveis da música tradicional cabo-verdeana, alternados entre a vivacidade da coladeira e do funaná e a serenidade da morna. Passando por um alinhamento extensivo, Os Tubarões percorreram um pouco de toda a sua histórica discografia, desde os temas revolucionários de Pepe Lopi e Tchon Di Morgado à icónica “Djonsinho Cabral”, celebrando as cinco décadas de uma das mais importantes instituições da música cabo-verdiana com toda a pompa e circunstância merecidas. 

Mouse On Mars
Os Tubarões
Do outro lado, no Palco Lovers, a festa ainda não terminara, com o coletivo britânico UKAEA (acrónimo de United Kult of the Animist Endgame Apostles) a proporcionar um momento verdadeiramente desconcertante. Em jeito de procissão, um aglomerado de interveniente em vestes brancas aproximou-se do palco, onde se fixou junto do público para um imprevisível baptismo de ordem profana, musicado pela rave techno-ritualística do misterioso coletivo. Épico, estranho e absolutamente transcendente, assim foi o fim de mais uma edição do Milhões de Festa, um evento que, mais do que um festival, é um espaço de experimentação e desconstrução das normas e conceitos que determinam o status quo dos festivais, e que fazem desta uma experiência tão especial.


Milhões de Festa 2018: Dia 3

Fotogaleria completa aqui.

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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Álbum perdido de David Lynch e Angelo Badalamenti anunciado via Sacred Bones


A editora norte-americana Sacred Bones anunciou hoje o lançamento de Thought Gang, o álbum que junta David Lynch e Angelo Badalamenti para mais um apanhado de canções sinistras e esotéricas. Perdido nos confins dos músicos e compositores durante mais de duas décadas, Thought Gang junta 12 temas de jazz experimental improvisado e spoken-word, gravados entre 1992 e 1993. "Woodcutters From Fiery Ships" é o primeiro avanço do disco, que chega às parteleiras no dia 2 de novembro. Aproveitem para conhecer o tema referido em baixo, onde encontrarão ainda a capa e respetiva tracklist do álbum.



Tracklist: 

01. Stalin Revisited
02. Logic and Common Sens
03. One Dog Bark 
04. Woodcutters From Fiery Ships
05. A Real Indication 
06. Jack Paints It Red 
07. A Meaningless Conversation 
08. Frank 2000 Prelude 
09. Multi-Tempo Wind Boogie 10. The Black Dog Runs at Night
11. Frank 2000
12. Summer Night Noise




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Salto da Graça: Música, Desporto, Aventura e Natureza


Entre 29 e 30 de setembro, Mondim de Basto abre as portas a um evento que vai juntar música e aventura. O Salto da Graça propõe mais de dez iniciativas que, em diálogo com a natureza, desenham novas rotas de descoberta do território local e propõem uma nova relação entre a música ao vivo e o meio ambiente. Canoagem, voos em parapente,circuitos de BTT, caminhadas, passeios todo-o-terreno e canyoning serão algumas das atividades a serem completadas com bandas sonoras e concertos exclusivos.

Ao longo do fim de semana, será possível explorar alguns dos espaços naturais mais improváveis e desconhecidos de Mondim de Basto ao som do trabalho colaborativo de OST (Shela, EGBO e Fernando Marta). O trio de músicos estará em residência de criação no local para desenvolver uma composição sonora site-specific. A obra será apresentada no lugar das Mestras, local onde o rio Cabrão desagua no rio Cabril, depois de um percurso pedestre pela Levada de Piscaredo. E porque o nome aqui não é acaso, vai ser mesmo possível “saltar da Graça” em parapente, acompanhado pela banda sonora exclusivamente preparada pelo DJ Lynce para abrandar os picos de adrenalina.

Para os que preferem saltos para a água, haverá canyoning, canoagem e canocraft, a rasgarem os trilhos e cursos de água envolventes, todos a desembocar num ciclo de eco-gigs da autoria de Julius Gabriel João Pais Filipe. Apontada também para os desportos motorizados, no Salto da Graça será possível a inscrição em atividades de todo-o-terreno que vão promover a descoberta de alguns dos mais inusitados espaços entre o Alvão, os rios, o Monte Farinha e as Fisgas de Ermelo. No final, os participantes serão brindados com um concerto no meio da natureza pelas Sopa de Pedra.

Alinhados estão ainda o workshop Sol Sistema, orientado pelo DJ V/A e o músico Frankão (O Gringo Sou EU), onde se construirá um sistema de baixa fidelidade movido a energia solar com base na reutilização de materiais; e uma tertúlia que vai debater os novos desafios no universo da animação turística e as possibilidades que as mesmas podem abrir no crescimento económico, na sustentabilidade e preservação dos territórios.
 Fecha-se o programa para o fim de semana com: o projeto de comunidade orientado pelo coletivo Ondamarela que, em conjunto com a Escola de Música de Mondim, vai desenvolver uma apresentação única; o concerto dos Fogo Fogo; e uma maratona de BTT pelo monte com a subida mais famosa da Volta a Portugal.

Todas as atividades culturais serão de acesso livre. A participação nas iniciativas desportivas será sujeita a inscrição – toda a informação será disponibilizada brevemente em www.saltodagraca.com.

O Salto da Graça surge na sequência da nova estratégia de turismo lançada recentemente pelo Município de Mondim de Basto, no âmbito do projeto "Mondim de Basto – Um destino por natureza", financiado pelo NORTE 2020 através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional.

Sábado, dia 29
Caminhada Sonora por OST (Shela, EGBO e Fernando Marta)
Parapente com banda sonora de DJ Lynce
Canoagem e Canocraft com Eco-gig de João Pais Filipe
Apresentação de workshop Sol Sistema com DJ V/A, O Gringo Sou EU e participantes
Concerto de Ondamarela + Escola de Música de Mondim de Basto
Concerto de Fogo Fogo

Domingo, dia 30
Caminhada com o Pastor por OST (Shela, EGBO e Fernando Marta)
Passeios TT com concerto de Sopa de Pedra
Canyoning com Eco-gig de Julius Gabriel
Parapente com banda sonora de DJ Lynce
Maratona BTT


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