quinta-feira, 12 de junho de 2014

Reportagem: NOS Primavera Sound 2014 - Parque da Cidade [Porto]


A Threshold Magazine foi à terceira edição do NOS Primavera Sound, que se realizou mais uma vez no Parque da Cidade, no Porto. O tempo parecia não querer ajudar mas, feitas as contas, a chuva não apareceu para incomodar o público nem para, no pior dos casos, cancelar alguns concertos. Fiquem com uma espécie de crítica ao que se passou nestes 3 dias de festival.
Os da Cidade, banda de António Zambujo, João Salcedo, Miguel Araújo e Ricardo Cruz, deram um concerto dentro do esperado, com pouco público mas suficiente para se ouvir a cantar, dando um bom início ao festival que prometia grandes concertos. 

Rodrigo Amarante
De seguida assistiu-se a Rodrigo Amarante, que sempre simpático e comunicativo, deu um concerto bastante bom com vários pontos altos, como é exemplo “Irene”, “Maná” e “Hourglass” do mais recente Cavalo, editado em 2013.



Os americanos Spoon, liderados por Britt Daniel, vieram ao Porto com a promessa de novidades para breve. Deram um concerto bom, mas o facto do seu som ser um pouco genérico e da setlist não se ter focado mais nos seus êxitos, fez com que o concerto que não ficasse na memória do público. Talvez se tivessem tocado mais músicas do álbum Girs Can Tell, o concerto teria resultado melhor.


Sky Ferreira
Sky Ferreira foi um dos destaques da noite, trazendo algum público ao Parque da Cidade. Apesar do nome e das suas origens portuguesas não disse uma única palavra em português. Deu um bom concerto mas nada de fantástico, de notar os aplausos a Zach Smith (vocalista dos DIIV e namorado da cantora) e as vozes do público a cantar principalmente o tema “Everything is Embarassing”. Não houve mamas à vista, para pena de muitos que ansiavam vê-las.


Caetano Veloso
Caetano Veloso foi o nome que atraiu mais público nesta primeira noite de festival. Começou logo com a "Bossa Nova é Foda", do álbum mais recente do artista Abraçaço, editado em 2012. Mas o grande destaque vai para "O Leãozinho", é claro, com o público a aproveitar para entoar a canção mais conhecida de Caetano.


Haim
As irmãs Haim, logo 3 raparigas jovens e vistosas, foram uma das surpresas da noite. Deram um concerto bem acima do esperado no palco Superbock, mostrando o porquê de serem uma das bandas revelação do ano passado. Apresentaram Days Are Gone, que apesar de se virar mais para o pop, não impediu que as irmãs mostrassem algum rock.



Kendrick Lamar
Aproximavam-se as 0h45 e já se estava tudo à espera no palco NOS do rapper Kendrick Lamar, o 2º nome mais esperado do dia. Bastante comunicativo e com uma atitude bem humilde perante o público, tivemos direito a um concerto explosivo em que todas as músicas foram pontos altos, sendo que "Hands Up" e "Wave" foram o que mais ouvimos em todo o concerto. Kendrick comparou o Porto à sua cidade natal, Compton, Califórnia, pois a primeira coisas que cheirou foi “Weed”. 



Jagwar Ma
Com o melhor concerto do dia já concretizado, coube aos australianos Jagwar Ma a missão de encerrar o primeiro dia. “Come and Save Me” e “Let Her Go” foram as músicas que mais mexeram com o público que já se encontrava um pouco cansado.




Dia 6 

No dia 6 chegamos a tempo de ainda ver metade da actuação dos americanos Midlake, que em 2013 editaram o seu quarto álbum de estúdio Antiphon, marcado pela saída do vocalista Tim Smith. Boa actuação da banda, tocando vários temas do último álbum, dos quais se destacaram o single homónimo “Antiphon”, “Vale” mais virada para o psicadelismo e “The Old and Young”. Gostaríamos de os ver outra vez no nosso país mas desta vez em nome próprio.




Television performing Marquee Moon
Muitas expectativas existiam em torno da actuação dos Television. A banda americana tocou a sua obra-prima de 1977 Marquee Moon na integra, álbum onde podemos encontrar os primórdios do post-punk. Talvez devido ao facto das expectativas serem tão altas, o concerto tornou-se um pouco aborrecido e sentiu-se falta do elemento surpresa. Podemos eleger com toda a certeza que o ponto mais alto do concerto foi quando se ouviram os primeiros acordes do tema título, “Marquee Moon”.





Em 1995 diziam adeus, mas em 2014 dão um dos mais belos concertos do NOS Primavera Sound. Sim, falamos dos Slowdive. Um dos precursores do shoegaze a par dos My Bloody Valentine, a banda britânica percorreu toda a sua discografia, começando pelo tema que deu lhes deu o seu nome. Nunca o shoegaze tinha soado tão limpo e ao mesmo tão belo como nesta noite. Foram os temas de Souvlaki que mais arrepios geraram! “Machine Gun”, “Souvlaki Space Station”, “When the Sun Hits” e “Allison” fazem-nos recordar a primeira vez que ouvimos estas canções e instantaneamente trazem consigo as emoções de nostalgia e felicidade. Também houve tempo para uma cover de Syd Barrett, para o tema “Golden Hair”. Ainda estamos sem palavras para o excelente concerto a que assistimos e só nos podemos considerar felizardos pelo regresso da banda.








O concerto do festival está aqui. Os canadianos Godspeed You! Black Emperor foram um dos nomes que mais nos atraíram ao Parque da Cidade e fizeram jus às nossas expectativas. Muito introspectivos, entraram e saíram do palco sem proferirem uma única palavra. Não precisam, a música fala por eles. “Hope Drone” deu início ao concerto seguindo-se “Mladic” do último Allelujah! Don't Bend! Ascend, editado em 2012, levando ao desinibimento geral com os ritmos mais orientais. “Gathering Storm” da obra-prima Lift Your Skinny Fists Like Antennas to Heaven! foi, como o próprio nome indica, uma tempestade musical, um turbilhão de guitarradas misturadas com violinos. Assistimos aqui ao melhor momento da noite. Ainda tocaram o tema “Moya” e para finalizar “Behemoth”.
Os GY!BE mostraram o porquê de serem uma das melhores bandas de post-rock de sempre. Para quem foi ver Pixies, é pena pois perderam 1h45 do melhor que o festival podia oferecer.



Trentemøller
Da banda dinamarquesa pouco conhecíamos, mas ficamos com uma boa impressão e com vontade de explorar mais.



Os escoceses Mogwai (ou Mogway como indicado nos guias da NOS), uma das bandas mais influentes e conhecidas do post-rock, apresentou ao vivo o seu mais recente Rave Tapes, editado no início do ano. Hardcore Will Never Die But You Will, editado em 2010 não foi esquecido e "Rano Pano", "White Noise" e "How to be a Werewolf" fizeram parte do alinhamento. O grande destaque vai para "Mogwai Fear Satan", do primeiro álbum Young Team de 1997, faixa épica que explica bem o que são os Mogwai. O único senão deste concerto foi o horário simultâneo ao concerto dos Darkside











A dupla formada pelo já tão conhecido pelo público português Nicolas Jaar e por Dave Harrington proporcionou a quem esteve no palco Pitchfork momentos de prazer e dança desenfreada ao som de um house minimalista. Para aqueles que tinham receio que o som ao vivo não se equiparasse ao som de estúdio, as dúvidas foram dissipadas. Os Darkside conseguiram a afeição do público e proporcionaram um dos momentos da noite. Ouviram-se temas como "Freak, Go Home", "Golden Arrow" e "Paper Trails". Soube a pouco mas não por desleixo dos artistas. Ficámos com vontade que eles cá voltassem num futuro próximo, em nome próprio.




Todd Terje
Do produtor norueguês pouco vimos mas fica a nota de que It's Album Time é dos melhores álbuns do ano. 


Dia 7
Refree
Depois de um  passeio pelo recinto, afinal estava um bom sol que ainda não tinha decidido aparecer no Parque da Cidade, dirigimo-nos ao palco SuperBock para assistir ao concerto de Refree, banda espanhola de rock alternativo. Com pouco público na plateia, os espanhóis deram um concerto competente mas não se podia pedir muito mais.


Concluído o concerto no palco SuperBock, fomos ali ao lado, assistir ao concerto dos portugueses You Can’t Win Charlie Brown. Via-se muito público no palco NOS para ouvir temas do mais recente trabalho da banda Refraction/Difraction, editado no início do ano, como foi exemplo dos singles “Be My World” e “After Decemeber”. Também foram interpretados temas do primeiro álbum Chromatic, mas limitados a 45 minutos de concerto, a banda terminou com uma cover de “Heroin” dos míticos The Velvet Underground. Mais uma vez os You Can’t Win Charlie Brown a darem um belíssimo concerto.




Lee Ranaldo apresentou-se em palco com a sua banda para apresentar Last Night On Earth, editado em 2013. O facto de ter sido o guitarrista dos Sonic Youth parece nos a razão que pode ter levado muita gente a assistir ao seu concerto, o qual acabou por ser enfadonho e pouco representativo da alma experimentalista e ruidosa dos Sonic Youth.



Foi em 1998 que saiu In the Aeroplane Over The Sea. Desde que aí a banda de Jeff Magnum se tornou uma banda de culto. Mais ainda quando a banda do Louisiana regressou em 2013. Este Primavera Sound foi abundante em regressos, sendo que o dos Neutral Milk Hotel foi o mais ansiado pelo grande público. Às 20h já encontrava uma grande plateia em frente ao palco NOS, pelo que pouco depois apareceu Jeff Magnum sozinho para dar início a uma hora de lo-fi indie rock e folk. "Two-Headed Boy" e já está tudo de coração nas mãos. De seguida apareceu o resto da banda para continuar o concerto frenético que nos esperava. O ponto alto foi sem dúvida "Oh, Comely", com Jeff Magnum de novo sozinho em palco. Lágrimas foram derramadas neste hino, lágrimas de alegria com certeza por estarmos perante os Neutral Milk Hotel!
Mas não foi só de In the Aeroplane Over The Sea que se fez o concerto, também passando por temas de On Avery Island e do EP Ferris Wheel on Fire
Seguramente um dos melhores concertos do festival para um público que aguardou um ano inteiro para os ver (foram confirmados no fim da segunda edição do Optimus Primavera Sound).
Apesar de já o termos visto há pouco tempo na última edição do Vodafone Mexefest, não quisemos perder o concerto de John Grant, uma das maiores surpresas do festival para quem não conhecia. "I Wanna Go to Marz" foi o primeira tema a ser escutado no palco SuperBock, do tão aclamado Queen of Denmark de 2010, seguindo-se "Vietnam", esta já do último trabalho do cantautor editado no ano passado Pale Green Ghosts. O público começava a espevitar e foi na música que dá nome ao último disco que John pôs toda a gente a mexer. A partir daí foi sempre a subir com a gingona "Black Belt", levando o público ao êxtase. Em "Where Dreams Go To Die", John Grant afirmou que o Porto não era um desses sítios e em "GMF" dedicou a música a todos os "greatest motherfuckers" presentes! 

Para terminar, talvez a mais bela composta por John Grant,"Glacier", interpretada ao piano, causou um arrepio geral, seguindo-se a poderosíssima e final "Queen of Denmark". Foi um dos melhores concertos do festival e a maior surpresa. Um bom aquecimento para The National. Que ele volte sempre que quiser, nós lá estaremos.





Os grandes amigos do nossos país, os americanos The National, gostam de cá actuar, nem que seja todos os anos. Mas não é isso que lhes tira protagonismo. É sempre um prazer voltar a ver Matt Berninger ao comando de uma das mais influentes bandas de indie rock dos últimos anos. Com um álbum editado em 2013 Trouble Will Find Me, os The National chegam ao Porto com o estatuto de cabeça de cartaz, sendo a principal razão da enchente do último dia de festival. Foram vários os temas que se ouviram do último trabalho como "Don't Swallow the Cap", "I Should Live in Salt", o single "Sea of Love"," Graceless", "I Need My Girl" e o tema utilizado na publicidade televisiva do próprio festival " This Is The Last Time", gerando um maior frenesim no público. 

Entre músicas do último álbum e High Violet, o concerto foi prosseguindo com temas como "Bloodbuzz to Ohio" , "Afraid of Everyone" e "Sorrow", interpretada com a ajuda da amiga St. Vincent.  Segui-se "Ada", do melhor álbum Boxer, editado em 2007, com direito a um outro de Chicago de Sufjan Stevens, tornando-se um privilégio estar lá para ouvir. De Boxer foram interpretadas canções como a feroz "Squalor Victoria", "Slow Show", "Mistaken for Strangers" e o maior êxito "Fake Empire".

Já quase no fim ouviu-se "Mr. November", do velhinho Alligator de 2005, com Matt Berninger completamente tresloucado em palco de um lado para o outro a sentir o verdadeiro peso da canção. Seguiu-se "Terrible Love", em que Matt fez a habitual incursão na plateia de modo a poder levar com o amor de toda a gente, demasiado até, pois não encontrava o caminho para o palco tendo de a banda terminar a canção sem vocalista. Para fechar com chave d'ouro "Vanderlyle Crybaby Geeks" em modo acústico. Os The National serão sempre bem vindos a Portugal e terão sempre fãs que os queiram ver mesmo que passem cá a vida.








A gostosa da Annie Clark mas com cabelo de avozinha apareceu em palco já passava da meia noite. A comportar-se como um robot, deu início ao concerto com "Rattlesnake" do mais recente álbum homónimo lançado este ano. Seguiu-se o single "Digital Witness", o tema que a cantora consegue expressar melhor a sua postura face ao mundo tecnológico. Seguiram-se temas de Strange Mercy editado em 2011, como "Cruel" e "Cheerleader" por entre temas do novo trabalho. Infelizmente tivemos que correr até ao palco ATP e só pudemos assistir até à música "Prince Johnny". Esperemos que Annie cá volte, em nome próprio de preferência.



Os Slint eram outra das bandas de culto que tinha presença marcada no NOS Primavera Sound. Pelas 00h25 entraram em palco os norte-americanos , que lançaram em 1991 o que é considerado por muitos um dos melhores álbuns de math rock e/ou pós-rock de sempre: Spiderland. A banda tocou na perfeição músicas desse álbum como “Breadcrumb Trail”, “Nosferatu Man” e do seu muitas vezes esquecido antecessor Tweez, e realizou um dos melhores concertos do festival. O concerto terminou com o que foi provavelmente o seu melhor momento, a espectacular “Good Morning, Captain”. “I miss you!”, grita Brian McMahan durante a música. Mas quem vai ficar com saudades somos nós.



Ty Segall, um dos maiores nomes do garage rock dos últimos anos, acompanhado por uma banda da qual faz parte Mikal Cronin e Charles Monheart, pôs o público ao rubro com malhas como “Thank God For Sinners” e “Wave Goodbye”. Aproximou-se do público mais que uma vez, fez crowdsurfing, e, apesar de ter sido ele o aniversariante, certificou-se de que quem recebia o presente eramos nós. Um concerto muito energético que, apesar de ter começado aproximadamente às 2h, manteve toda a gente acordada. Obrigado, gaivota!




Eram 3h da manhã e após um esgotante concerto de Ty Segall há quem ainda tenha energias para assistir ao concerto dos Cloud Nothings, banda do americano Dylan Baldi que logo no início brincou com o público apresentando-se com sotaque alemão "Hello, we are Cloud Nothings from Germany". Com um álbum novo editado este ano, Here and Nowhere Else, também não havia qualquer outro lugar onde quiséssemos estar naquele momento. Um do concertos mais musculados do festival, marcado por excessivos crowdsurfs e mosh pits, mostrou o porquê dos Cloud Nothing serem uma das melhores bandas de indie rock (com desvios para o post-hardcore) da actualidade. Concerto cheio de malhas onde não poderiam faltar "You're a Part of Me", tema mais conhecido do último álbum, "Pattern Walks", também de Here and Nowhere Else.
Attack on Memory também esteve presente neste concerto, com o tema "Fall In" e com épica e última música "Wasted Days", que como o nome indica, levou o público à exaustão completa durante mais de 10 minutos.



Texto por Rui Gameiro, Rui Santos, Sónia Felizardo e Tomás Carneiro.


Fotografia por Rui Gameiro e Rui Santos.

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