quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Oiçam: Body Count

Eu sempre gostei de música pesada. Hardcore, thrash, slugde, doom…aqueles arranjos, ora lentos ora rápidos, mas sempre vigorosos e pesados comunicam de uma forma mais profunda comigo. Coloco os fones e à libertação de endrominas sucede-se a vociferação das letras (muitas vezes imperceptíveis) em silêncio, o que me permite libertar parte da minha raiva contida.
Raiva por não conseguir arranjar um emprego digno.
Raiva por saber que isto não vai mudar tão cedo.
Raiva porque vejo que quem mais faz neste mundo menos merece e vice-versa.
Raiva porque parece que este mundo é demasiado grande para nós.
E eu acho que não estou sozinho. Acho que, pelo menos, uma boa parte das pessoas que ouvem música pesada o fazem pelos mesmos motivos. Sei que alguém, algures por ai, ouve música pesada porque acha que isso, de alguma maneira, nos liberta um pouco. Há algo de extremamente primitivo que apela a cada um de nós na música pesada, que nos aproxima dos primórdios do nosso ser, libertando a nossa mente destes problemas, nem que seja momentaneamente.
De entre todas a bandas que vos poderia sugerir dentro do género, desta vez, o destaque vai para os Body Count, o colectivo norte-americano de hardcore,
liderado pelo mítico Ice-T.
Esta banda surgiu na crista de uma onda provocada pelo advento de um outro movimento: o gangsta rap. O gangsta rap apresenta algumas semelhanças com a sonoridade hardcore dos Body Count: a língua aguçada para a crítica social e o número de vezes que ouvimos a palavra “muthafucka” numa única faixa.
E apesar da sua marca incontornável no mundo do Hardcore, convém recordar que Ice-T começou a sua carreia musical no rap. E foi com o tema “O.G. Original Gangster” (tema que integra o longa duração homónimo, tido com um dos álbuns que definiu o Gangsta Rap) que surgiu a primeira colaboração entre Ice-T e os Body Count. Este tema representa a convergência entre os dois estilos — o hardcore e o gangsta rap — e tornou-se assinatura sonora dos Body Count desde então.
Eu já conhecia os Body Count e, apesar de não ser dos fás mais acérrimos da banda, sempre acompanhei mais ou menos de perto os trabalhos do colectivo. E sempre fui um fã do Ice-T, seja pelas suas prestações musicais, seja pela sua aparição no grande ecrã. No entanto, esta crónica torna-se pertinente desde o momento em que o tema “Institutionalized” ganhou um videoclip. 
Para quem não conhece o tema, este narra a história de um homem que enlouquece gradualmente face aos obstáculos que diante si se colocam, prejudicando a sua rotina diária e colocando em cheque a sua própria sanidade mental. Este tema é uma cover de uma música original dos Suicidal Tendencies, e sofreu um update para melhor se adequar à realidade do século XXI. 
"My best interest?! How can you know what's my best interest is?How can you say what my best interest is? What are you trying to say, I'm crazy?When I went to your schools, I went to your churches,I went to your institutional learning facilities?! So how can you say I'm crazy?"


Desde jogar xbox na net, a ligar ao gajo de suporte técnico do nosso pc que parece que é indiano ou o c#####o ou mandar f###r a Oprah, tudo no vídeo e na faixa me fez rir.
E além de me fazer rir, fez-me pensar na quantidade de situações do género da qual nós somos vítimas diariamente: não podes comer o que te apetece porque faz mal, a máquina do metro não aceita notas por isso tens que andar 1km até à próxima máquina porque as outras estão todas avariadas, os professores não te respondem aos emails nem querem saber de ti apesar de tu lhes pagares o ordenado, o teu patrão pede-te tudo e mais alguma coisa e na hora de receberes és igual à empregada da limpeza.
Cenários de um quotidiano dantesco. O nosso quotidiano.Tão ridículo quanto o quotidiano hiperbolizado de Ice-T no videoclip e não menos real. Faz-me pensar que um dia, quando eu for grande, também eu vou poder mandar f###r quem me apetecer, quando me apetecer. Até lá, vou-me rindo.
Faço tudo o que está ao meu alcance para mudar o que posso e rio-me para não chorar daquilo que não posso mudar. De nada adianta a tristeza, afinal de contas. As coisas não mudam só porque nós queremos. Por vezes, mais factores para além do nosso suor e da nossa têm que convergir para as coisas nos correrem como desejamos.
Até lá, rimo-nos desta m###a de vida e ouvimos bandas do c######o!
E até que tudo vos corra de feição, deixo-vos com a recomendação para ouvirem o LP lançado pelo colectivo no ano passado, o Manslaughter, e com o desejo que eles façam a sua estreia por cá.


Manslaughter's Tracklist:

1. Talk Shit, Get Shot
2. Pray For Death
3. 99 Problems BC
4. Back To Rehab
5. Manslaughter
6. Get A Job
7. Institutionalized
8. Pop Bubble
9. Enter The Dark Side
10. Bitch In The Pit
11. Black Voodoo Sex
12. Wanna Be A Gangsta
13. I Will Always Love You
14. 99 Problems BC (Rock Mix)

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