terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Reportagem: Author & Punisher [Maus Hábitos - Porto]

Chegámos 45 minutos antes do início do concerto e o cenário era o previsto — filas enormes na entrada do prédio dos Maus Hábitos e muita gente conhecida.
No entanto, depois de entrarmos no espaço dos Maus Hábitos encontrámos — para nossa surpresa— uma sala vazia para receber o primeiro concerto d’O Salgado faz anos… FEST!: a estreia de Author & Punisher em Portugal.
Sem dúvida seria dos nomes menos conhecidos do cartaz, que contava com a electrónica dos Sensible Soccers, o rock dos Riding Pânico (que pelo que consegui apurar a partir de um vislumbre rápido à sua setlist, iam interpretar alguns temas dos Kraftwerk) e o suadouro exaltado abastecido a eurodance que seria a actuação dos Gin Party Soundsystem. 
No entanto, Author & Punisher é um projecto que merece toda a nossa atenção.
Este one-man project — no qual Tristan Shone é, simultaneamente, o letrista e o maquinista — é possivelmente a fusão mais perfeita entre o indivíduo e a máquina que podemos encontrar no panorama das artes sonoras. 
Tristan — engenheiro mecânico de profissão — passou metade da sua vida em bandas de metal e outra metade a desenvolver-se academicamente e profissionalmente no ramo da engenharia e da escultura. Da junção dos seus dois ofícios, nasceu a ideia de construir uma estrutura que tivesse presença em termos dimensionais, mas que simultaneamente funcionasse como um instrumento musical (afinal de contas, a sua paixão é a música). A partir dessa ideia, ele desenvolveu um dínamo que tem vindo a ser afinado e aprimorado. E este, por si só, é visualmente impressionante.
Microfones que se pretendem fixados à traqueia, knobs gigantes, placas com moduladores de voz integrados, percussão integrada numa estrutura pneumática e muitas outras coisas que o comum indivíduo não identificaria prontamente como sendo um instrumento musical gigantesco. 
Além da estrutura impressionante, impressionante também é o momento
da transformação de Tristan que, ao combinar-se com a sua máquina, se torna em Author & Punisher. A fixação dos microfones à sua traqueia, o rodar dos knobs gigantescos, o início das suas sequências sonoras com a percussão a trabalhar em conjunto com a restante parede sonora…tudo isto é impressionante ao vivo. E quase indescritível. Esta relação quase simbiótica é difícil de explicar por palavras. Tudo acontece em simultâneo e nós, meros espectadores, fixamo-nos num transe ao ver este ser humano a conjugar-se com uma máquina e tentar perceber de que forma é que, de facto, o som está a ser produzido! No entanto, dessa relação, a única coisa que nós —leigos— conseguimos concretamente extrair é o som. Tudo o resto, a maquinaria, o processo de Tristan, tudo tem algo de alienígena. Mas, no entanto, discernimos também algo de bastante primitivo, bastante humano em todo este processo.
O rodar dos knobs, o simultâneo manipular da percussão hidráulica e das alavancas, o vociferar de Tristan, toda esta acção poderia ser confundida com tudo, excepto talvez com música. Talvez nesta característica resida a maior parcela de industrial de Author & Punisher. Testemunhamos no processo de Author & Punisher uma espécie de voltar atrás na lógica de produção de sonoridades drone e de EDM/IDM face ao panorama actual. Tristan automatizou o processo de produção sonora a um extremo no qual ele tem perfeito controlo sobre o seu som.  E com isto, possivelmente, arranhou a superfície de um universo passível de explorações futuras, onde o homem não só tem controlo sobre a máquina mas é, por força das suas acções e circunstâncias, a própria máquina.
Da setlist rodada, conseguimos discernir somente a “Terrorbird”.
Os nossos seres estavam plenamente devotos a absorver todos os detalhes daquela experiência.  E logo nos primeiros segundos de drone, demo-nos conta que aquilo que estávamos prestes a presenciar seria algo de único. Cada movimento, cada rufar das cordas vocais de Tristan, cada som. Ver um único homem a manipular um dínamo daquela escala para produzir sons já de si é impressionante. Uma experiência que foi amplificada para nós, já que vimos tudo na primeira fila.
Por várias vezes, o sofrimento de Tristan se tornou visível ao longo do concerto (vimo-lo a cobrir os olhos e a agarrar a sua testa por mais que uma vez ao longo da actuação, quase como se o próximo acorde fosse o seu último). Facto marcante para nós, talvez dada a proximidade a que assistimos ao concerto, talvez pela paixão mostrada para com a sua arte. Por ela, ele sofre, tal como Rodion sofreu depois do seu crime. E à semelhança dos escritos de Dostoyevsky, Tristan é um homem que sofre tendo em vista um bem maior: a expulsão dos seus demónios. A máquina é apenas a impressionante ferramenta que ele usa para este efeito.
Pela sua paixão, resta-nos dar o nosso sincero obrigado ao Tristan. Poucos são aqueles que se imergem de semelhante modo nas suas paixões. Temos também que dar o nosso agradecimento à Amplificasom, por continuar a apostar em músicos que, muitas vezes, não são detectados nos radares das outras promotoras. A sua ousadia é de louvar, e os louros são nossos e deles, enquanto houverem concertos desta qualidade.
E, por último (mas não menos importante) resta-nos dar os parabéns atrasados ao Salgado, por parte da redacção da Threshold. Afinal de contas, o Tristan veio dar-lhe os parabéns.
Que todos os seus futuros aniversários sejam assim.

E que o Author & Punisher volte rápido.

Texto: Eduardo Silva e Stéphanie Buraco
Fotos: Eduardo Silva

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