sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

[Review] Father John Misty – I Love You, Honeybear

Father John Misty // Sub Pop // Fevereiro 2015
9.0/10


Quem se esqueceu daquele barbudo de cabeleira farta atrás duma bateria, sereno como as harmonias que a sua garganta emanava? Muitos, provavelmente. Jamais imaginaria que uma aura, aparentemente tão pacata, viesse um dia a abanar a anca com uma faceta humorística com tanto por dizer. 

I Love You, Honeybear é o 2º álbum do alter ego de Josh Tillman – Father John Misty – que será lançado, já no próximo dia 10, pela editora discográfica SUB POP

Uma das características deste peculiar indivíduo é a articulação de um discurso tão profundamente apoiado naquilo que sabemos ser uma grande fonte de reflexão: a filosofia. Declarado grande fã de Sartre, torna-se impossível não conectar o existencialismo sartriano com as letras inquietantes duma alma em constante introspecção. 

Este álbum conta com cerca de 43 minutos afectados por questões profundamente existenciais intercaladas com uma espécie de ode ao amor, regozijado pelo músico, recentemente casado. "I Love You, Honeybear" é o grande exemplo de declarações amorosas puras que, ao longo do álbum, vão surgindo com um grau de calculismo e inocência ímpar, mas que, ainda assim, convivem com o lado mais obscuro da condição humana. "The Ideal Husband", por exemplo, reflecte a parelha casal/indivíduo, onde as confrontações pessoais são eminentes e fazem parte, tanto como causa como consequência, duma vida a dois. 

A presença de instrumentos de corda ao longo das faixas, em consonância com a vocalização de Josh Tillman, conquistou-me, pelo simples facto de (sem que isto vos interesse minimamente) me fazer lembrar as viagens de carro que fazia em criança com o meu pai ao som dos grande crooners, que já lá vão. Mas o toque especial está na introdução fundamental das guitarras a solo que conseguem sobrepor, de forma inteligente, as harmonias vocais das músicas. “True Affection” talvez seja a faixa mais ‘fora’, no sentido em que o ritmo mais ‘electronizado’ se afasta do resto do pacote. 

Não é só o amor que paira neste álbum. O single "Born In The USA" é uma espécie de paródia profunda ao materialismo e obrigações culturais e sociais, que se prolonga, dalguma maneira, numa outra música lenta e abadalada do álbum, "Holy Shit", onde a reflexão sobre a evolução e crescente crise de valores atinge o auge. 

Em suma, considero I Love You, Honeybear um álbum incrivelmente bem planeado, desde as letras a todo o mecanismo sonoro que as acompanha. Se há um lado paródico e sarcástico em certos momentos, há também um lado explicitamente emocional, tudo incorporado em músicas que vão desde o acústico lentinho às harmonias poderosas. 


Faixas do álbum:

1. I Love You, Honeybear
2. Chateau Lobby #4 (in C for Two Virgins)
3. True Affection
4. The Night Josh Tillman Came To Our Apt.
5. When You’re Smiling and Astride Me
6. Nothing Good Ever Happens At the Goddamn Thirsty Crow
7. Strange Encounter
8. The Ideal Husband
9. Bored In The USA
10. Holy Shit
11. I Went To The Store One Day




0 comentários:

Enviar um comentário