domingo, 14 de junho de 2015

Reportagem: Bad Bonn Kilbi [Dudingen, Suíça]

 
No passado fim-de-semana estivemos presentes em Düdingen para assistir à nona edição do Bad Bonn Kilbi.

Apesar de ser um festival relativamente recente (começou em 2007), o Kilbi já é reconhecido por muitos como um dos melhores festivais europeus, principalmente por conseguir trazer todos os anos uma excelente escolha de artistas para uma audiência de apenas 2500 espetadores. Afinal, ver bandas como os Neu!, os Sonic Youth, os My Bloody Valentine ou os Neutral Milk Hotel tocarem para tão pouca gente é uma oportunidade única.

Mal chegamos ao festival fomos ver os Wand, que lançaram há pouco tempo um dos nossos álbuns preferidos deste ano, Golem. Descobertos por Ty Segall, que lançou o primeiro álbum da banda, os californianos não fogem muito do registo do guru do garage-rock atual. Músicas como "Melted Rope" ou "The Unexplored Map" poderiam muito bem estar presentes em Slaughterhouse e a psicadélica "Fire On The Mountain" não ficaria nada mal em Hair. O que não é de todo um ponto negativo. 


De seguida fomos ver os Thee Oh Sees, que mais uma vez provaram que são das melhores bandas da atualidade. Mal John Dwyer tocou os primeiros acordes de "I Come From The Mountain" o público foi à loucura e a partir daí nunca mais abrandou. Houve banhos de banheira, stagediving, clavículas partidas e muito mais.

Apresentando-se agora num formato com dois bateristas, os Thee Oh Sees estão ainda mais intensos e coesos do que estavam em Paredes de Coura no ano passado. Temas como "Tidal Wave", "The Dream", "Toe Cutter / Thumb Buster" e "Carrion Crawler" levaram o publico à folia, e fechar o concerto com "Destroyed Fortress Reappers" foi a cereja no topo do bolo.


Quem ficou com a difícil tarefa de continuar com a festa foi Mac DeMarco, mas o canadiano não desiludiu. Começou o concerto com "Salad Days", uma das melhores músicas do seu último álbum e deu continuação com "The Stars Keep On Calling My Name", "Blue Boy" e a já mítica "Cooking Up Something Good" da qual a audiência já sabia cada palavra de cor e salteado. Mas foi só quando Mac anunciou que ia cantar uma canção sobre a sua marca de cigarros preferida que o público atingiu o êxtase. "Ode To Viceroy" que já é praticamente um hino do indie rock actual gerou o maior sing along do concerto e foi certamente o ponto alto da noite. Ainda tivemos direito a um cheirinho do seu primeiro álbum, com os temas "Rock N' Roll Night Club" e "I'm a Man", uma cover de "Jammin'" de Bob Marley, na qual um fã sortudo teve a oportunidade de subir ao palco para a cantar, e a uma de "Yellow" dos Coldplay. O concerto acabou em grande com o seguimento "Freaking Out The Neighbourhood", "Chamber Of Reflection" e com a balada "Still Together".


O segundo dia começou com um concerto dos POW!, que acabou por não cumprir com as expectativas. Apesar de terem dois bons álbuns, lançados pela Castle Face Records, os americanos, ao vivo, não corresponderam aos trabalhos de estúdio, talvez por estarem a tocar tão cedo, para tão pouca gente e no maior palco do festival, e isso refletiu-se na atitude do público que também não estava muito para aí virado.


Steve Gunn foi quem ficou encarregue de tentar mudar o rumo que o concertos dos POW! tinha levado e correu melhor do que esperado. Músicas como "Way Out Weather" e "Wildwood" encantaram o público do Kilbi que ainda estava ressacado da noite anterior e a quem o folk de Steve Gunn caíu que nem ginjas.


Seguiram-se então os Bo Ningen. A banda japonesa de noise-rock deu um concerto curto mas intenso, com uma longa versão de "Daikaisei" ainda mais épica que a original mas foi "DaDaDa", o single mais conhecido da banda, o excerto do concerto mais apreciado pelo público.


Acabamos o dia a ver os Sleaford Mods, que deram o melhor espetáculo do dia. Enquanto Andrew Fearn carregava no play e bebia cerveja, James Williamson ia fazendo uns rapps sobre tudo e mais alguma coisa, maior parte das vezes num tom crítico. O estilo vocal de James, um pouco no registo de um Mark E. Smith ou de um John Cooper Clarke, encaixa estranhamente bem sobre os beats de Andrew, que não ficariam desajustados num álbum dos Death Grips, por exemplo. "Wanker" e "cunt" foram provavelmente as palavras mais ditas neste concertos e não faltaram gestos obscenos da parte de James. Na reportagem ao concerto dos Fat White Family dissemos que são a banda mais punk a saír de Inglaterra há uns tempos, mas os Sleaford Mods andam bem lá perto.


No terceiro e último dia, quando chegamos, tivemos que tomar a decisão mais difícil durante este festival, escolher entre Fumaça Preta e Shabazz Palaces. Optamos por ir ver a banda de Alex Figueira e companhia ao Club Stage e valeu bem a pena. Poucos minutos depois do concerto começar, o club já estava cheio e o ambiente de festa instalado. A banda começou o concerto com "Pupilas Dilatadas" que cativou logo a atenção do público presente. O tema "Fumaça Preta", com um riff que parece tirado de um songbook dos Black Sabbath, gerou um headbang colectivo e em "A Bruxa", versão portuguesa de "The Witch" dos Sonics, a banda conseguiu meter o público todo a gritar "Ela era uma bruxa". Épico.


De seguida foi Morgan Delt que tocou no mesmo palco. O americano, acompanhado por uma banda, tocou grande parte do seu excelente álbum de estreia lançado pela In The Red. As influências de Morgan Delt são óbvias: Kinks, Byrds e várias dessas bandas de pop psicadélica do fim dos anos 60, mas dentro desse estilo Morgan consegue criar uma sonoridade distinta e temas como "Barberian Kings" e "Sad Sad Trip" são a prova disso mesmo.

Às 22h30 fomos ver os Viet Cong. Os ex-Women, que lançaram este ano um bom álbum de estreia pela Jagjagwuar, foram a maior desilusão do festival. Muito mais moles que em estúdio, nem os próprios fãs conseguiram convencer. A meio do concerto aproveitamos para saír e conseguir arranjar um bom lugar para ver Thurston Moore.



À frente do palco, já toda a gente estava com um sorriso de orelha a orelha por estar a momentos de ver o guitarrista dos lendários Sonic Youth, agora acompanhado pelo seu velho amigo Steve Shelley, Debbie Googe (My Bloody Valentine) e James Sedwards. 
Moore, visivelmente contente por ter voltado ao festival, deu um concerto de quase duas horas, completamente fora do registo dos seus primeiros álbuns a solo maioritariamente acústicos. Apesar de várias pessoas terem pedido para que Thurston tocasse temas da sua antiga banda, o americano sempre o recusou e, assim sendo, tocou exclusivamente músicas suas a solo, principalmente do álbum The Best Day, e ainda houve tempo para tocar algumas ainda não lançadas.




                                                                                                             Texto: Helder Lemos
                                                                                                             Fotografia: Patrick Principe