domingo, 2 de agosto de 2015

Reportagem: Milhões de Festa 2015 | Parte 2/2


Depois dos dois primeiros dias para abrir o apetite, os pratos principais e sobremesas ficaram reservados para os últimos dois dias, a serem marcados pelas atuações de Michael Rother, Hey Colossus, Peaking Lights, The Bug, Holydrug Couple, entre outros.

Dia 2 


O segundo dia, à semelhança dos seus antecessores, ficou marcado pelos constantes atrasos no recinto. O primeiro concerto foi o dos Grumbling Fur, que começou com um atraso de meia hora. Esta dupla deu um concerto morno para uma plateia longe de estar cheia, não conseguindo converter o público com a sua electrónica experimentalista e aborrecida. 

A abrir o palco Vodafone FM estavam os Anthroprophh, que deram um dos concertos mais ensurdecedores da noite que só foi superado pelos senhores que lhes seguiram no mesmo palco. Falamos dos Drunk In Hell, que com o seu sludge pesado puseram a plateia louca, num concerto onde não faltaram moche e crowdsurfing. De volta ao palco principal, era a vez dos chilenos The Holydrug Couple, nova aposta da Sacred Bones que traziam na bagagem o mais recente longa duração Moonlust. A banda foi uma das surpresas da noite, convencendo o público com as suas malhas psicadélicas, repletas de boas guitarradas e vozes ecoantes que nos transportaram para uma outra dimensão. Um concerto para desfrutar de olhos fechados. 

Michael Rother era o nome mais aguardado desta noite. O senhor que em tempos pertenceu aos Kraftwerk veio a Barcelos para tocar temas dos míticos Neu!, banda alemã pioneira do krautrock, assim como do seu outro projeto Harmonia. Como era de esperar, Michael Rother, ao lado dos seus companheiros, deu um concerto impecável que fez o dia de muitos melómanos que aguardavam tanto este concerto. Para os deixar ainda mais contentes, não puderam faltar faixas como “Hallogallo” e “Negativland”, que fazem destes Neu! uma das bandas mais importantes e influentes que pisaram este planeta. Uma estreia em solo nacional memorável e que ficará para a história deste festival. 

Depois de um set algo aborrecido por parte dos Peaking Lights, que por motivos alheios à organização não puderam vir com a formação completa e por isso tiveram de tocar sob o nome de um outro projeto a solo intitulado Acid Test, era a vez dos Hey Colossus fecharem o palco principal. Os Hey Colossus mostraram com o seu mais recente álbum In Black & Gold, tocando faixas pesadas e barulhentas e ao mesmo tempo estranhamente dançáveis. Tal como o nome da banda indica, foi um concerto colossal e intenso do início ao fim que deixou o público bastante animado. 



Dia 3 


O último dia do festival começou mais uma vez na piscina. A tarde iniciou-se assim com a atuação dos portugueses Pista, para uma piscina ainda não muito cheia, mas que mesmo assim conseguiram pôr os poucos que lá se encontravam a mexer o pézinho ao som do seu rock cheio de ritmo. Seguiu-se Al Lover, aquele que já é considerado o “senhor Austin Psych Fest” pela quantidade de vezes que atuou no festival. Antes de irmos embora, houve ainda tempo para ver o set de Branko, o membro dos Buraka Som Sistema que conseguiu uma piscina a abarrotar onde toda a gente dançava ao som da sua música eletrónica com ritmos africanos e kuduro. 

De regresso ao recinto, era a vez dos Medeiros/Lucas atuarem para um pequeno conjunto de pessoas, como é habitual nos primeiros concertos da noite. A dupla açoreana apresentou-se em palco com mais dois membros e deram um dos melhores concertos do festival. Num festival eclético e que dá primazia à música experimental, que bem soube ouvir um pouco de boa música portuguesa genuína. Este conjunto deu um concerto impecável, tocando belíssimas faixas do seu último álbum como “Canção do Mar Aberto” e “Fado do Regresso”, que recebeu a participação de Mitó Mendes, vocalista d’A Naifa. Um belo concerto que prova que o álbum de estreia deste grupo, Mar Aberto, é sem dúvida um dos melhores lançamentos nacionais deste ano. 

No palco Vodafone FM assistia-se a um aguardado regresso. O supergrupo português Plus Ultra, composto por Kinorm (Ornatos Violeta), Gon (Zen) e Azevedo (Mosh), está de volta aos palcos depois de uma pausa prolongada em 2011. A banda deu tudo em palco, sempre com muita energia, boas malhas, muito moche e crowdsurfing por parte do público e também do vocalista. A banda sentia-se bem por estar de volta, e o público sentia-se feliz por voltar a vê-los. Parece que o regresso lhes fez bem, e a nós também. 

Depois deste momento, era a vez de um grande produtor britânico fechar o palco principal da última noite do festival. The Bug era talvez o nome que mais queria ver nesta edição do festival. O raver britânico entra sozinho em palco e ouve-se “Fuck a Bitch”, faixa colaborativa com os Death Grips, pelo que se pode dizer que ouvimos Death Grips no Milhões de Festa. No entanto, The Bug não veio a Barcelos sozinho. Os rumores de que Flowdan e Manga o acompanhariam em palco estavam corretos. O primeiro a entrar foi Flowdan, seguido de Manga algumas faixas depois. Com a formação já completa, ouviu-se “Function”, essa grande malha do último álbum, proporcionando um dos melhores momentos deste concerto. Foi uma hora inteira aos saltos e a abanar a cabeça ao som dos beats pesados de The Bug, com uma grande adesão por parte do público que era frequentemente aplaudido por Flowdan. Esperemos que este produtor volte em breve ao nosso país. 

Com o festival quase terminado, havia ainda tempo para ver o set de La Flama Blanca. Obviamente que não podíamos deixar isto passar ao lado. Escusado será dizer que foi um festão, com o público a invadir o palco e com Trio Odemira como banda sonora. Qual é o mal? É o Milhões de Festa afinal, e a festa só podia acabar da melhor maneira. Para o ano há mais.


Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos