quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Cinco Discos, Cinco Críticas #9

Harmlessness // Epitaph // setembro de 2015
8.6/10

Os The World Is A Beautiful Place & I Am No Longer Afraid To Die, uma das mais importantes bandas do novo movimento revivalista emo, lançaram recentemente o seu terceiro álbum de estúdio Harmlessness. O grupo, formado por nove membros, lançou aquele que é provavelmente o seu melhor trabalho até à data, após o sucesso do álbum de estreia Whenever, If Ever(2013), onde a banda americana fundia elementos post-rock às suas melodias frequentemente rotuladas como emo. Em Harmlessness, as músicas estão mais aperfeiçoadas. Já não existem os berros constantes, e o papel dos vocalistas trocou, focando-se principalmente na voz de David Bello, ao invés de Thomas Diaz. As músicas são mais refletidas, assim como as letras. "I Can Be Afraid Of Nothing" é o momento alto do álbum e é, sem dúvida, um dos melhores singles do ano. A malha de mais de sete minutos traz-nos de volta ao tempo de uns Brand New, com um instrumental épico e acelerado, que aborda a temática da depressão, funcionando não como uma música depressiva, mas sim como uma música que pretende dar a volta à situação, onde tudo correrá bem no fim. Harmlessness é um álbum que pretende levar-nos a um novo rumo, é um álbum com uma mensagem muito positiva e que não pretende fechar os olhos aos problemas mas sim contorná-los. Os instrumentais estão soberbos e são capazes de converter alguns fãs da música post-rock a este tipo de música. Num álbum bastante consistente de principio ao fim, onde nenhuma faixa está a mais, os TWIABP conseguiram aquele que será um dos melhores álbuns do ano, mostrando que a música emo está de volta e de boa saúde.
Filipe Costa

Sexwitch // Echo/BMG // setembro de 2015
7.5/10

Sexwitch é o novo projeto paralelo de Bat For Lashes, que junta o produtor Dan Carey e membros da banda londrina TOY. Sexwitch, homónimo, marca a estreia da banda nos discos e reúne seis composições que resultam de uma reinterpretação de músicas do mundo, de origem folk e psicadélica, dos anos 70 oriundas de Marrocos, Tailândia, Irão e Estados Unidos da América.  "Ha Howa Ha Howa", original de Cheikha Hanna Ouakki, cantora marroquina, assinala a abertura deste LP e apresenta logo a base do que se ouvirá nos singles que o sucedem: loops vocais de uma Natasha Kan descontrolada. Através de "Helelyos"(Irão), single de apresentação do presente longa-duração, os Sexwitch mostraram esta tendência, embora a  partir de tonalidades vocais menos arriscadas. No entanto, o seu instrumental também apresenta uns Sexwitch a apostarem nas guitarras do movimento psicadélico, característico dos TOY sobre uma produção incrível e uma viagem garantida às diferentes culturas do mundo. Amostra disso é mesmo "War In Peace", um dos grandes momentos do álbum, que explora a excelente conjugação das capacidades musicais dos artistas envolvidos e que encerra o álbum de forma inteligente. A falhar fica "Lam Plearn Kiew Bao", um single completamente dispensável.  
Sónia Felizardo

Auto Rádio // Pataca Discos // setembro de 2015
7.1/10


Depois de alguns anos viver em Londres e a representar Walter Benjamin, Luis Nunes regressou a Portugal em 2013, instalando-se no Alvito, Alentejo. Esta mudança na sua vida revolucionou a sua maneira de olhar o mundo e, associada a uma necessidade de escrever na sua própria língua, levou à criação de 12 músicas reunidas no primeiro álbum do artista sob o nome de Benjamim. Auto Rádio é um disco que fala sobre as viagens de carro a ouvir rádio, sobre as vivências daqueles que fizeram parte do Portugal colonial, sobre a crise, do amor, entre outros. Entre as várias influências encontram-se o Duo Ouro Negro, Lena d'Água, Chico Buarque, Zeca Afonso, Bob Dylan, Beatles e Beach Boys. Os grandes destaques vão para o single de apresentação “Os Teus Passos”, música de verão gingona que consegue pôr toda a gente a dançar, como é visível no videoclip, a instrumental “Sintoniza”, em que a guitarra, o xilofone e os sintetizadores combinam de forma exímia, a fazer lembrar a sonoridade do amigo Bruno Pernadas mas mais dançável. O tema “Volkswagen”, que fala sobre o Volkswagen Golf de 96 que Benjamim usou para a sua tour nacional em que deu 33 concertos em 33 dias seguidos, é outro dos destaques e simboliza o fiel companheiro de viagem que nos faz chegar muita da música que ouvimos. Por fim, o tema título revela-se como o melhor dos temas apresentados, misturando um registo inicial de quase bossa nova, a recordar-nos Julie & The Carjacker, com a sonoridade de um teremim e de guitarras num registo mais rock. Em suma, Auto Rádio é um disco em que Luís Nunes tenta reencontrar a sua identidade após vários anos vividos o norte da Europa e em que a pop e a escrita de canções andam lado a lado.
Rui Gameiro

S/T // Born Bad Records // setembro de 2015
7.7/10

Três longos anos depois do último álbum, Faraway Land, os J.C.Satàn voltaram as edições com S/T, álbum editado pela editora Born Bad Records, a 21 de setembro, estando já disponível para audição no Bandcamp. A banda francesa, que já passou pelo Lux Frágil em Lisboa, na companhia de Ty Segall, surpreende-nos aqui com este álbum explosivo, mas que também não é perfeito, existindo algumas falhas pelo meio. Esta característica explosiva do álbum afirma-se logo na primeira música, “Satan II”, onde a distorção e o ritmo acelerado, da guitarra de Arthur (guitarrista dos J.C.Satàn), iniciam o álbum da forma mais enérgica possível. Destaque também para “Dialog with Mars”, protagonizada por uma poderosa linha de baixo, que toma conta dos últimos minutos desta música de uma maneira incrivelmente sentida. “Don’t joke with the people you don’t know”, e “Ti amo Davvero”, é onde os J.C.Satàn parecem falhar na sonoridade deste álbum, em que a língua italiana, nesta última música, parece amolecer a energia da banda francesa, deixando-nos com um sentimento de indiferença, mas o que apenas se sentiu por poucos minutos de álbum. No final, isto tudo não chegou para influenciar o bom trabalho dos J.C.Satàn, que ainda assim conseguiram surpreender-nos com malhas explosivas, neste novo registo, e que nos deixam a esperar por uma passagem em Portugal nos próximos tempos. 

Tiago Farinha

Hermits On Holiday // Heavenly/Birth // agosto de 2015
8.5/10
Depois de uma excelente colaboração com Ty Segall que resultou em Hair, editado em 2012, em Hermits On Holiday Tim Presley, mais conhecido por White Fence, volta a mostrar que não há pai para ele no que toca a colaborações. Desta vez, acompanhado por Cate Le Bon, que já o acompanha há algum tempo como parte da sua banda ao vivo, o californiano formou os Drinks. E este primeiro álbum dos Drinks é, sem dúvida, um dos melhores registos dos dois músicos. Temas como os primeiros singles "Laying Down Rock" e "Hermits On Holiday" são daquelas músicas que ficam na cabeça à primeira escuta, e por outro lado, "She Walks So Fast" faz lembrar o período experimental dos Pink Floyd, da época em que eram liderados por Syd Barrett. "Tim Do Like That Dog" também demonstra bem o lado mais psicadélico do dueto: um jam de mais de seis minutos por cima do qual Cate Le Bon vai repetindo a frase que dá o título ao tema.
Hélder Lemos