domingo, 11 de outubro de 2015

[Mergulhador] O Vale



O Mergulhador é uma rúbrica quinzenal da Threshold Magazine que se centra em explorar universos criados por artistas e contar histórias pelas melodias. Esta quinzena: Brian Eno. Com pensamentos em tornos do budismo, liberdade, sociedade moderna, ser humano.
Quinzena passada: Pink Floyd - A Bicicleta


O VALE




Um menino passeava pela bruma de uma manhã calma. A manhã colhia um vale grandioso de uma montanha e a luz (sim, tu, oh luz, que, com a tua inquietude subtil, mas avassaladora, perfuras a razão do ser e do estar) aclamava a paisagem com todas as mais belas cores que o olho humano consegue captar. E por esse vale, inquieto, caminhava o menino. Este pequeno rapaz, vazio, rasgado por sonhos provocados por outros sonhos, anda com as mãos nos bolsos e com um olhar de quem não usufrui da sabedoria de ver esta luz com bons olhos. Na verdade, ele nem sabia bem porque caminhava, nem era algo que o abismava, mas naquele dia, simplesmente... apeteceu-lhe.
E a luz observava, sempre presente e discreta, o menino, como quem olha para um límpido gato a brincar com uma bola de papel rasgado. Como quem olha para o animal e se questiona da sua despreocupada ignorância, da sua despreocupada felicidade. Oh, pobre menino, este, que anda à procura de alguma sabedoria perdida pelos grandes profetas, pela intemporalidade histórica do tempo, pelo pathos da vida. Ele não quer saber do amor, da família, do bem que tanto os seus pais se esforçaram para lhe dar... isso para ele não vale nada, ou talvez... espera... talvez ele se tenha esquecido disso tudo, dessa mescla de valores que o homem tenta impingir no consciente dos meninos. Meninos esses iguais ao menino. Meninos que só querem brincar e não querem saber dos problemas das pessoas crescidas. Hoje, era o dia da despedida do rapaz às brincadeiras, aos sorrisos, aos beijinhos, ao eco da sua felicidade sem razão, sem conhecimento. Hoje, sim, era o dia em que o menino ia-se tornar num homem. E, como devem calcular, ele tinha medo. Oh luz, que estás aí tão calma... é mesmo necessário isto? Não pode o menino ver sempre cores claras, sempre os seus pais adultos e não velhos? Não pode o tempo parar e ele sorrir para sempre, saborear a eternidade? Eu sei que não pode luz, tu é que mandas... mas estás sempre aí parada. Parece que fugiste do estigma do vazio, que te aprisionava e te sufocava, e assim te partiste, e nós somos os teus pedaços, estilhaços, cada vez nos afastamos mais em vez de nos juntarmos e formarmos uma nova luz. Um luz que tu própria andas à procura para colher. Mas sabes, luz, o vazio existirá sempre, no cume do teu conhecimento, na tua supra consciência e no teu inconsciente incontrolado... ele estará sempre a espreitar.
O menino perfura um nevoeiro e não vê a luz, não vê o vale, só vê um vulto à sua frente que lhe sussurra: “está na hora da transformação, belo ser”. O menino pergunta: “que és tu?”, responde o vulto, “tu, transformado”, e nisto começa a brilhar. O menino ainda não se sentia preparado, mas pequenos raios de luz transfixavam calmamente o nevoeiro, a tentar espreitar a transformação do menino. Mas antes disso, o rapazinho respirou fundo e olhou para a luz, agora completamente visível: “Porquê luz? Porquê? Porquê é que este tempo efémero me está a matar? Porque é que morremos? Porque é que não posso ser sempre assim feliz, ingénuo...” , começou a chorar, “porque é que não posso ver sempre os meus pais a sorrirem, ao meu lado, abraçados a mim? Eu não me quero despedir deles, eu não quero ir embora, eu quero que este carinho que se agarrou ao meu coração esteja sempre presente, em estado puro. Porque é que tudo acaba? Porque é que não posso ficar sempre com eles, das nossas viagens, só penso neles, a sorrirem e a olharem para mim. Vejo luz, vejo-te a ti nos seus olhos, estamos os três a viajar num estrada sem fim e tu estás presente. Oh, como eu queria que esta estrada não acabasse... porque ela, inicialmente, não tem fim, mas à medida que avança, percebemos que acabará, como a nossa vida.” Agora estava mais calmo.

De seguida, a luz cintila e o homem dá-lhe um papel misterioso... o menino lê: “sabes que o vazio não é o silencio, não é a retórica em estado puro nem é a escuridão. O vazio é o vazio. Podes muito bem misturá-lo com todos os conceitos que conheceste, e o vazio pode muito bem transformar-se e orbitar ao longo de todas as tuas memórias, mesmo as mais felizes, as mais radiantes... mas sabes que o vazio sempre se transformará em vazio, porque nele não se consegue conciliar nada. Eu sou o vazio! Mas também sou o preenchimento! Tu és o contraste e a Terra a imagem!” A luz volta a cintilar. O menino sorri, mas fica ainda com medo da transformação. Ambos chegam ao fim do vale... o rapaz olha para o buraco escuro e pergunta: “O que será que e me vai acontecer, luz? Será que irei arranjar um trabalho medonho, uma namorada feia e uma vida agarrada à rotina? Será que os meus sonhos vão-se desfazer no universo profundo e complexo do meu cérebro, enternecido com tanto para captar?” A luz estava imóvel, como sempre esteve. As pupilas do menino tornaram-se enormes. Tinha medo. E berrava. Berrava como se as ondas sonoras do seu berro amolecessem os cantares dos pássaros que por ali passavam, como se criassem um impacto e o rapaz se salvasse... o homem disse: “Salta”, “Não quero, tenho medo!”, “Dá dois passos à frente e salta!”... o menino olhou para a luz, inquieta e mais distante... saltou...
E voou. 

Artigo escrito por mergulhador.
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