segunda-feira, 26 de outubro de 2015

[Mergulhador] Quando eu voltei do trabalho


O Mergulhador é uma rúbrica quinzenal da Threshold Magazine que se centra em explorar universos criados por artistas e contar histórias pelas melodias. Esta quinzena: Sibylle Baier. Com pensamentos em tornos da sociedade, isolamento, pressão citadina e amor.
Quinzena passada: Brian Eno - O Vale




QUANDO EU VOLTEI DO TRABALHO



Senti-me paralizada no meio do metro. O dia foi longo, longo demais para mim. Tão longo que, a esta hora, tinha espaço para sentir um misto de raiva com entorpecimento. Não me sentia assim há algum tempo. Como se a minha visão ficasse turva e as gotas de suor caíssem lentamente pelas formas do meu corpo, como se as minhas veias não conseguissem aguentar a pressão e os meus músculos ficassem a flutuar entre os tendões e a pele, à espera que os ossos os agarrassem e os aconchegassem na fuga da vida. Mas eu já não consigo arranjar uma fuga. Não. Nem nas montanhas, quando ia refrescar a alma e sentir os suspiros da Terra… quando ia meter ar puro na minha bolha. Não.
O dia foi longo, longo demais para mim. E sinto que seja o fim, meu amigo chegado. Não ouço um “amo-te” há algum tempo. Não preciso deles, mas param o tempo e conseguimos olhar para dentro da bolha da outra pessoa. Como se ela nos desse um passaporte para tal. E tu ficaste petrificado nas pontas frias do tempo. E sinto este glóbulo proteccionista completamente a arrebentar.

Estou no metro, a viagem vai ser longa, como todos os dias. Casa-trabalho-trabalho-casa. Caí na rotina. Tenho pena, mas as suas garras são demasiado fortes para o meu ser. Analiso o que rodeia a minha bolha. Pessoas, silenciosas. Todas a pensar e a queixar-se mentalmente das garras. Algumas bolhas parecem mais limpas que outras. Provavelmente pelas fugas; cada um tem a sua. A minha é esta. Lamentar-me. O barulho do metro a percorrer as linhas é constante, como se toda a viagem fosse ritmada e não passássemos de formigas. Ninguém fala, tudo demasiado ocupado na sua vida, na sua bolha. A raiva cresce, isso é certo. Uns lêem uns livros para ficarem imersos e não se aborrecerem no aborrecimento de outros, que ficaram aborrecidos pelo aborrecimento global, aborrecimento que todos temos de passar para buscar pequenos momentos de felicidade.

O dia foi longo, longo demais para mim. Tão longo, que estou prestes a quebrar as regras do sistema. Estou prestes a rebentar a minha bolha… mas tenho medo. O meu marido espera-me em casa. Amo-o pela sua bondade, por poder contar com os seus braços. Por poder sair da bolha e entrar na dele… e vice-versa. Mas não passa disso. Não me faz sentir bonita, única e que sou diferente das outras. Nem tampouco me excita sexualmente, de uma forma que não me consigo controlar. Mas amo-o. Talvez seja o meu refúgio. O que eu amei e explodi de desejo sexual provavelmente deve estar a colocar, meticulosamente, lamúrias a outras mulheres inseguras, que anseiam para abrir as suas bolhas, perdidas na ilusão das suas palavras. Como um dia assim fui.

Mas o dia foi longo. Tento analisar com mais pormenor o olhar das pessoas que me rodeiam. Pesado. Tenebroso. Alguns risos perfuram este meu raciocínio, mas são risos falsos, momentâneos.  Risos que serão levados e dissolvidos pela passagem do metro. Risos que compram os seus bilhetes, ficam à espera da sua carruagem e depois desaparecem. 
Ajoelho-me no metro, cansada e berro. O mais alto que consigo. Até os vidros do transporte se partirem e vierem ao meu encontro. Até me cortarem e jorrarem o meu sangue na cara e nos corpos das outras pessoas. Para saberem que existo, que estou aqui para elas, para lhes ajudar e ouvir. Ouvir as suas histórias e os seus problemas. Mas o meu berro não é audível! Não passa da bolha… talvez, talvez seja ela o problema. 
O dia foi longo, longo demais para mim. Rasgo-a e sinto uma frescura leve na cara. Os sons fortes cobrem a minha percepção e os meus sentidos tornam-se mais apurados. As pessoas não deram conta. 

Mas sinto que alguém olha para mim. Uma rapariga, ao fundo do metro. Também não tinha bolha. Veio ao meu encontro, a sorrir para mim e apresentou-se como Sibila. Disse para ir com ela, podia voltar cedo para casa. O meu pobre marido esperava-me. Mas eu precisava disto.
Saímos pela janela aberta do metro e voámos pela cidade. Pelas nuvens, pelo céu, pelas estrelas brilhantes. Ri-me, mas de forma diferente. Não um sorriso passageiro, mas profundo, vindo da minha alma, passando pelo coração quente e processado pelo cérebro. Ela falou de uma viagem em Itália, linda de morrer, da libertação e da sociedade. Voámos até ao pico de um edifício… as pessoas pareciam formigas, formatadas a seguir um caminho falso, da vida que pensavam ser a delas, mas que não passava de caminho que estes donos do mundo traçavam de forma tão maléfica. Falámos de política, filosofámos sobre a vida e a sociedade e fizemos amor. Um amor não carnal, mas um amor que me fez sentir o peso da vida. E as minhas pupilas a aumentar de felicidade… Tive múltiplos orgasmos, rasguei o céu com movimentos nada controlados e gemi até o eco dos meus gemidos chegar à outra ponta do Mundo. Atirámos os telemóveis pelo abismo da cidade, e vimos as suas luzes a ficarem pequenas... até desaparecerem. Voámos de volta ao metro e ela arranjou maneira de concertar a minha bolha. Ficou como nova. Mas lembro-me de dizer-me para deixar sempre um espaço para sair. Até lá, deveria representar e voltar a ser a mesma pessoa infeliz, como todas as outras. E... quando tivesse a mínima oportunidade, iria ter com ela novamente. O metro chegou ao fim. Despedimo-nos, numa casa de banho, junto ao espelho. Ela saiu pela porta e depois entrou, novamente. E fez os mesmos movimentos que os meus, olhou com o mesmo olhar que o meu. Amarrou o cabelo igual ao meu e respirou da mesma forma que a minha. E, de repente, mais ninguém estava no local. Apenas eu.

Cheguei a casa e o meu marido me esperava. Fui a correr para os seus braços e o silêncio falou mais alto que as nossas vozes. Ele é tão meigo, tão eu. Sinto o seu coração a bater. O seu carinho e o seu calor, a fazer desaparecer as pontas de gelo que o dia me oferecera.
O dia foi longo, longo demais para mim. 

Artigo escrito por mergulhador.
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