sábado, 1 de agosto de 2015

Festival para Gente Sentada fecha cartaz. Olá Braga


Entre 18 e 19 de setembro o Festival Para Gente Sentada volta para a sua décima primeira edição que se estreia pela primeira vez em Braga, depois de dez edições passadas em Santa Maria da Feira, ocorrendo em diferentes espaços da cidade, nomeadamente o GNRation, Theatro Circo e no Centro da Cidade, contanto com 16 artistas no cartaz.

No cartaz ganham destaque os norte-americanos Giant Sand e a libanesa Yasmine Hamdan, que marcaram presença na edição de 2015 do NOS Primavera Sound, à semelhança de Bruno Pernadas que também faz parte da colectânea de artistas a tocar no Theatro Circo. No mesmo espaço será ainda possível (re)ver B Fachada, e assistir aos concertos de Mercury RevLydia Ainsworth.  Já no GNRation poderão ver-se Mdou Moctar, DJ Coco, Elecric Shoes, Filho da Mãe & Ricardo Martins. Por sua vez, no Centro da Cidade, poderão-se explorar concertos de Box To Box, Time For T, Benjamim, Sun Blossoms, Serushiô e Peixe.

Os bilhetes diários têm um preço de 20€, enquanto que por sua vez o passe geral terá um custo de 35€.



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Reportagem: Milhões de Festa 2015 | Parte 1/2


Com um fim de mês a ser marcado por mais uma edição do Milhões de Festa, para um início do querido mês de agosto, ficam as saudades para relembrar os quatro dias que trouxeram música a Barcelos. Num resumo dos primeiros dois dias, ficam em baixo o registo fotográfico e escrito do que se passou de 23 a 26 de julho.

Dia 0 


Tal como nas edições anteriores, o Milhões de Festa começou mais uma vez com um dia de aquecimento no palco Taina. O evento começou ao fim da tarde no palco situado junto ao rio Cávado e os concertos eram de entrada gratuita. Num início de festival com um cartaz composto por diversos projetos pequenos da música nacional e internacional, o dia decorreu com concertos divididos entre bandas e dj sets, onde amigos se reencontravam mais uma vez no festival que já frequentam desde as primeiras edições para beber uns copos e pôr a conversa em dia num local belíssimo ao pôr do sol, com uma bela vista para o rio e onde os concertos serviam apenas de banda sonora. Destaques para os concertos de Cave Story, a agressividade dos Lodge, os frequentes Riding Pânico que continuam a não faltar a uma edição deste festival e a animação dos Corona na Casa, que continuam a surpreender com o seu hip hop inovador e divertido. Uma noite com direito a cogumelos e shots de hidromel por parte destes portuenses. 


Dia 1 

Ao segundo dia de festival, o primeiro oficial, os quatro palcos já se encontravam disponíveis. Numa edição em que o cartaz deixa um pouco a desejar, o primeiro dia acabou por ser dos mais interessantes a nível de oferta com alguns concertos aguardados de Deerhoof, Matias Aguayao e Theesatisfaction

Começamos o nosso dia no palco piscina, que recebeu mais uma vez a curadoria da Red Bull Music Academy. Esta é sem dúvida uma das principais atrações do festival: uma piscina repleta de bóias, música, camisas floreadas, penteados estranhos e muita animação e cor. Os portugueses Tochapestana brindaram-nos com a sua pop electrónica regada com um fio generoso de azeite, no bom sentido, com o seu vestuário retro e bigodes à maneira portuguesa. Não fosse um produtor chileno e poderíamos dizer que estes rapazes são os reis da piscina. Refiro-me então ao senhor que conquistou o palco piscina, Matias Aguayo, que com o seu set de mais de duas horas transformou Barcelos numa autêntica pista de dança, ou melhor, num autêntico desfile de personagens cómicas a dar tudo com os seus movimentos de dança. 

Terminando a sessão na piscina, é a hora de estrear o recinto finalmente com o concerto dos californianos Tijuana Panthers, que, apesar de ter sofrido alguns problemas com o som, deram um bom concerto, brindando-nos com boas malhas garage rock que tão bem se faz no local de onde vêm. “Creature “ e “Bainbridge” foram algumas das faixas tocadas. 


Depois de uma pausa para o jantar, foi a vez das Theesatisfaction subirem ao palco Milhões. A dupla de Seattle editou recentemente o seu segundo longa-duração Earthee, e foi a oportunidade de ver e ouvir algumas dessas faixas ao vivo. A dupla composta por Stasia Irons (Stas) e Catherine Harris-White (Cat) deu um concerto competente, que só não foi melhor devido a problemas técnicos que as impediram de tocar “Queens” com o instrumental. No entanto estas senhoras recuperaram bem da situação tocando o tema numa versão à capela. Depois de resolvidos os problemas, o som voltou e o concerto terminou com “Recognition”. 


De regresso ao palco Vodafone FM, os HHY & The Macumbas deram um dos concertos da noite, com a sua música experimental enigmática rica em ritmos tribais e instrumentos exóticos. Todo o mistério à volta desta atuação, a indumentária dos membros deste grupo, assim como a performance do membro central que se encontrava de costas para o público vestindo uma máscara atrás da cabeça tornaram este concerto um dos mais memoráveis da noite que apenas foi superado pela banda que se seguiu. Falo então dos californianos Deerhoof que vieram ao festival com o estatuto de cabeças de cartaz. A banda dos carismáticos Satomi Matsuzaki e Greg Saunier, que já conta com mais de vinte anos de carreira e treze álbuns de estúdio, deu o melhor concerto da noite, repleto de energia e solos de guitarra incríveis, com um set a recordar um pouco dos vários discos deste grupo, passando por temas como “Dummy Discards a Heart” e “Panda Panda Panda”, do álbum Apple O'LP de 2003, assim como temas do seu mais recente álbum La Isla Bonita, editado em 2014, com as faixas “Paradise Girls” e o malhão “Exit Only”. A energia de Satomi Matsuzaki, essa mulher que dá tudo em palco, contagiou o palco com a sua fofura e dança excêntrica e super coordenada. Um bom espetáculo que fechou o palco principal desta primeira noite de festival.


Reportagem: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre o "To Pimp A Butterfly"...

Antes de mais, a Threshold pede desculpa a vós, os leitores, por não ter dado o seu parecer atempado e detalhado acerca do To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar. No caso particular deste redactor, compromissos relacionados com trabalho e academia impediram-no de tecer uma crítica que estivesse à altura da obra e que procurasse descortinar algum pormenor que poderia ter falhado em leituras mais superficiais a este To Pimp A Butterfly. Consideramos que uma review detalhada ao LP é uma tarefa que, no presente, já não se justifica. Este LP já foi encaixado em inúmeras escalas de avaliação aquando do seu lançamento e foi unanimemente aplaudido pela crítica.
A Threshold também o aplaudiu. Aliás, prestou-lhe uma ovação de pé, galardoando-o com o estatuto de melhor álbum editado no primeiro semestre de 2015.


Posto isto, mais importante que pontuar To Pimp A Butterfly será tentar descodificar alguma da linguagem que este álbum usa, num esforço para que todos se possam aproximar de uma leitura mais clara da sua narrativa. Queremos também apurar o que é que mudou 4 meses após To Pimp A Butterfly e, se possível, dar resposta às seguintes questões:

O álbum mudou aos olhos dos ouvintes e da crítica?
O seu autor mudou aos olhos do público?
Quais o ecos de To Pimp A Butterfly?

Sobre Kendrick Lamar, o rapper que assina To Pimp A Butterfly, pouco há aqui a acrescentar ao que já foi dito. Se houvesse quem não o conhecesse ou quem duvidasse das suas capacidades enquanto MC, To Pimp A Butterfly mudou isso.
To Pimp A Butterfly é um 10 em 10 seja qual for a escala utilizada para mensurar os seus contornos. As letras são ricas, as mensagens são fracturantes e a sua malha instrumental brilhante e complexa. To Pimp A Butterfly impõe-se como uma das mais brilhantes fábulas da música contemporânea e desde já como um dos marcos da história do hip hop.
Outra característica notável de To Pimp A Butterfly é que faz convergir alguns dos maiores astros que alguma vez cruzaram o plano celeste da música a algumas das promessas desta geração.
George Clinton Flying Lotus dão o seu contributo na primeira faixa deste LP.
Snoop Dogg liberta o contador de histórias que existe nele, qual Slick Rick a contar uma história a crianças na "Institutionalized".
Pharrel Williams surge duas faixas depois em "Alright" e Sufjan Stevens participa na "Hood Politics".
Mesmo sem contar com as presenças vocais de Grandes como Dr. Dre, Fela Kuti e Tupac, é seguro afirmar que o elenco convidado para dar substância a To Pimp A Butterfly é de luxo. Os acima referidos são os astros. Falemos das promessas.
Nessa categoria, duas personagens despontam de forma brilhante e regular neste LP: Kamasi Washington e Thundercat.


Kamasi no Saxofone e Thundercat no baixo
Kamasi Washington é um saxofonista e é natural de Compton, assim como Kendrick. Talvez um ilustre desconhecido para vós, até que o seu saxofone soou em To Pimp A Butterfly.
Mas talvez ele não seja assim tão desconhecido quanto isso. Provavelmente já todos ouvimos alguma peça interpretada por ele. Afinal, Kamasi é um colaborador regular da Brainfeeder, a label de Fly Lo. Por lá, prestou os seus pulmões em inúmeras obras, sendo que a mais recente participação somada é no You're Dead!, o último LP de Fly Lo.


Este ano, Kamasi lançou via Brainfeeder o seu primeiro LP a título individual, o The Epic. Neste, uma banda escolhida a dedo por si leva a cabo a hercúlea tarefa de interpretar cerca de 3 horas de jazz. 3 horas de jazz brilhantemente escrito e executado, diga-se de passagem! Coltrane - John Coltrane isto é - teria orgulho no amigo do seu neto (Fly Lo) se pudesse escutar The Epic. E quando começamos a desfiar um pouco a malha de To Pimp A Butterfly, começamos a dar conta dos laços de amizade que existem entre os arquitectos.
"It's all family. Most of the guys that worked on Kendrick's record and on [Flying] Lotus's record [You’re Dead!], we've known each other since before we played music.
My dad's a saxophone player -- he actually played flute [on the album] -- so that's how I started. My dad and Thundercat’s dad played together, we've known each other since we were babies. Actually I knew Thundercat before, when he was just an idea, like, “Let's have another kid” [laughs]. His brother [Ronald Bruner, also on TPAB] and I had been friends since we were two.
L.A. is like a really big little town, where New York is like a really small big city. The jazz scene is spread out, so when people come here they don't really know where it is -- but we all grew up together. We all played in Multi School Jazz Band in high school, and we all grew up in Leimert Park, playing at the World Stage and Fifth Street Dick’s.
...
Myself, Terrace, Thundercat -- we all musically grew up playing with Snoop and the Snoopadelics (his band). I've played on a couple of Snoop's records -- a lot of my first gigs. My first major gig actually, I think, was with Snoop.
...
I met Lotus a long time ago -- we did the John Coltrane competition... Years later, Thundercat started working with [Lotus], and reminded me about him. Lotus and I ran into each other randomly at a jam session -- he sat in, and we connected then. He asked me if I wanted to do a record with Brainfeeder."
 
Kamasi Washington @ Billboard
Outro dos ilustres desconhecidos de To Pimp A Butterfly é Thundercat. Stephen Bruner é o indivíduo por detrás do pseudónimo Thundercat é um virtuoso baixista que soma colaborações com grandes nomes do r&b e do hip hop. Mais recentemente, Thundercat lançou o álbum The Beyond/Where the Giants Roam via Brainfeeder, label na qual ele se integra, juntamente com o seu amigo Kamasi Washington. Curiosamente, Thundercat, Kamasi e Kendrick são todos nativos de South Central. De entre os 3, Thundercat  é discutivelmente quem apresenta o currículo mais impressionante: ainda na pré-adolescência, tocou baixo nos Suicidal Tendencies, tocou baixo na banda da Erykah Badu e, mais recentemente, tocou baixo no To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar.
"He'll play you a piece of a song and you'll go, 'OK,' and then he'll suddenly add the melody in and it becomes this brilliant thing...It's like seeing a great painter with a canvas that looks like a lot of nothing, and then one little stroke goes and you're like, 'Wow you saw that the whole time?" 
Kamasi Washington sobre Thundercat @ Rolling Stone
Serendipidade é um termo que me ocorre quando falamos de To Pimp A Butterfly. Ou assim seria se Los Angeles não fosse a terra dos astros. Seria inevitável que alguns deles se conhecessem à priori ou, como é o caso aqui relatado, alguns sejam mesmo amigos de infância. Parece-nos portanto legítimo afirmar que To Pimp A Butterfly foi mais que fruto de esforço colectivo: foi o ponto de convergência de algumas das mentes mais brilhantes da música contemporânea. To Pimp A Butterfly foi não só a consagração de nomes já instituídos da música, mas também a rampa de lançamento de outros para o estrelato.
Mas falemos agora um pouco do álbum e do seu autor, Kendrick Lamar.

Foto de uma das sessões de gravação de To Pimp A Butterfly
Kendrick Lamar era um MC diferente antes de To Pimp A Butterfly. Aliás, quem era Kendrick Lamar antes de To Pimp A Butterfly? O MC que agitou o mundo do rap ao desafiar toda a gente com as suas polémicas estrofes? O autor de Good Kid, M.A.A.D. City? Estes são os seus feitos mais recentes. Analisemos um pouco a sua história.
Kendrick começou por se auto-intitular de K-Dot, assinando em 2003 uma mixtape intitulada Youngest Head Nigga in Charge (Hub City Threat: Minor of the Year). Foi essa mixtape que lhe garantiu entrada na TDE, label pela qual ele editou a grande maioria dos seus trabalhos, incluindo To Pimp A Butterfly. Tinha 16 anos na altura.



Seguiu-se Training Day, uma mixtape editada em 2005. A essa mixtape, seguiram-se actuações e digressões com Grandes como Jay Rock, The Game e Lil Wayne. Depois de aparecer no vídeo da "All My Life (In The Ghetto)", Lil Wayne apoiou-o no lançamento da sua terceira mixtape, C4. Estávamos no ano de 2009 e Kendrick Lamar ainda assinava as suas obras com o pseudónimo K-Dot.



Nesse mesmo ano, decidiu formar o colectivo Black Hippy com os seus companheiros Jay Rock, Ab-Soul e Schoolboy Q. Foi também a partir desse ano que começou a assinar todas as suas obras com o seu nome verdadeiro: Kendrick Lamar
Depois disso, seguiram-se colaborações e digressões com ilustres como Tech N9ne, RZA e Dr. Dre (supostamente, Kendrick terá colaborado na produção do altamente esperado e eternamente adiado Detox). Em 2011 lançou o seu primeiro longa-duração, o Section 80. Meses depois, os seus pares apelidam-no "O Novo Rei da Costa Oeste".


O resto do seu percurso já todos nos conhecemos: em 2012 lança o Good Kid, M.A.A.D. City. Seguem-se tours com o Yeezus, colaborações com Grandes como Eminem, Fly Lo e Taylor Swift, os Grammys e, finalmente, To Pimp A Butterfly.
Sobre o seu passado, estes são os highlights. Mas, e sobre a sua história recente? Será que Kendrick é o mesmo MC que ouvimos em To Pimp A Butterfly? Alguns dizem que não e apontam o dedo à sua mais recente colaboração com a Reebok.


Muitos argumentam que depois de um trabalho tão profundamente enraizado em mensagens anti-capitalismo como o é To Pimp A Butterfly, ver Kendrick a promover uns ténis é um acto de profunda hipocrisia. Esse sentimento aguça-se quando verificamos que o copy do anúncio contém uma mensagem revolucionária, que se opõe fortemente às normas da sociedade, encorajando cada indivíduo a pensar e a defender-se pelos seus próprios meio para não aceitar aquilo que os poderes instaurados lhes forçam. Os críticos argumentam que este anúncio, com o uso dessa mensagem revolucionária para promover algo tão pedante como uns ténis é uma completa traição às mensagens contidas em To Pimp A Butterfly.
Talvez seja esse o caso. Ou talvez estejamos todos a ser demasiado mesquinhos. Digam-me, de cabeça, 3 MCs que conheçam que nunca tenham usado a sua imagem para promover alguma marca (até o DOOM, esse Colosso do underground, cedeu a sua imagem para promover um modelo de calçado da Clarks). 


Talvez seja inveja da nossa parte. Afinal de contas, quantos de nós nos insurgimos diariamente contra as maleitas da existência moderna comandada pelo grande capital? E quantos de nos se insurgem do alto das suas Nike e usam o seu iPhone para comunicar uns com os outros? Quem de nós não possui sapatilhas ou produtos de marca? Quem de nós nunca caiu nas tramas da publicidade? Será Kendrick diferente? Porquê? Porque insurge-se contra o capitalismo com umas Reebok calçadas? Qual é o mal? Outros no lugar dele já fizeram o mesmo e ninguém disse nada. Porque é que Kendrick é avaliado de maneira diferente?
Talvez porque ele é mesmo o Rei disto tudo. Caso contrário, passaria despercebido. E, falando verdade, ele já passou despercebido. Fiquem sabendo que antes de ele ser o Rei, ele já cedia a sua voz e a sua imagem para publicitar marcas e produtos. 



Façam a leitura que quiserem dos factos, mas este género de manobras sempre aconteceram na publicidade. Se, como eu, viram o Kendrick o ano passado no NOS Primavera Sound, não precisavam de desviar muito o olhar do palco para ver o grande totem da NOS que se encontrava mesmo junto do mesmo. Amigos, mentalizem-se de uma coisa: a publicidade paga. E paga muito bem. E a troco desse pagamento as marcas querem, obviamente, ver o seu produto exposto. No caso da ReebokKendrick apresenta-se como uma montra privilegiada para o produto em questão. E, do ponto de vista de marketing, essa decisão faz sentido! Kendrick é jovem, atlético, "fixe", um artista e, acima de tudo, é um indivíduo com uma mensagem para transmitir. Talvez aquilo que a Reebok quer é corromper-nos a todos para comprarmos as Ventilator, usando para esse efeito o Kendrick. Talvez o que ela pretenda fazer é dar-nos uma alternativa de qualidade no que toca a calçado. Afinal de contas, o Kendrick confia neles, e ele é o Rei!
Mais, esse voto de confiança já vem de trás, antes da ressurreição das Ventilator.


Enquanto fã, acho que estamos todos a dar demasiada atenção a um pormenor. O facto de Kendrick promover um par de ténis é um pormenor para mim. Um pormenor que em nada lhe tira o mérito de ser um brilhante MC e um exímio escritor de canções. Um pormenor que em nada desvaloriza o brilhante que é To Pimp A Butterfly. Aliás, como poderia um pormenor como um par de ténis desvalorizar toda a sua obra até à data? Como poderia um par de ténis demolir as mensagens de To Pimp A Butterfly? Como poderia isso acontecer, se Kendrick faz uso da Reebok, essa mesma marca que ele promove, para transmitir uma mensagem anti-ódio?



Pormenores e ténis à parte, To Pimp A Butterfly continua a ser brilhante, especial e inspirador. É uma homenagem às mais marcantes obras, personagens e raízes que povoam o imaginário de praticamente toda a gente que se identifica com o hip hop não só enquanto movimento, mas enquanto cultura e forma de vida. 
Poderia destacar várias faixas e vários momentos ao longo do disco, mas, como foi dito acima, uma análise detalhada ao disco é, no presente, uma tarefa escusada. Já tudo foi dito sobre To Pimp A Butterfly e sobre cada faixa por inúmeras publicações a nível global. Preferimos, portanto, terminar esta resenha com a decomposição da complexa identidade gráfica do disco. O que representa o título "To Pimp A Butterfly"? O que representa a sua imagem de capa?

Inicialmente o álbum foi chamado “To Pimp a Caterpillar", representando uma provável homenagem a TupacTo(U) Pimp A Caterpillar. Um dado que suporta esta teoria é a data de lançamento do LP, coincidente com os 20 anos do lançamento de Me Against The World, um dos álbuns seminais do rap. 



"That was the original name and they caught it because the abbreviation was Tupac, Tu-P-A-C...Me changing it to Butterfly, I just really wanted to show the brightness of life and the word "pimp" has so much aggression, and that represents several things. For me, it represents using my celebrity for good. Another reason is, not being pimped by the industry through my celebrity."  
Kendrick Lamar @ MTV News

To Pimp A Butterfly pode também prestar homenagem a To Kill a Mockingbird, um dos maiores escritos de Harper Lee. Este livro faz parte do património literário da humanidade e é uma das exposições mais brutais do fenómeno da desigualdade racial nos EUA alguma vez escrito.

Frame da adaptação cinematográfica de "To Kill A Mockingbird", dirigida por Robert Mulligan
Curiosamente, a primeira leitura que eu fiz do título de To Pimp A Butterfly não coincide com nenhuma destas hipóteses acima colocadas. Para mim, To Pimp A Butterfly é um jogo de palavras, uma apropriação da imortal frase de Muhammad Ali: Float like a butterfly, Sting like a bee.
Através deste jogo de palavras, Kendrick coloca-se num novo pedestal, comparando-se a Ali na sua altura áurea: um lutador, um defensor da igualdade de direitos e da igualdade entre as raças, um guerreiro com plena consciência das suas capacidades, confiante em si próprio. Assim o era Ali e assim o é Kendrick. Um no ringue, outro no rap, mas ambos seres prodigiosos.


To Pimp A Butterfly pode conter todos estes significados e outros tantos ocultos. Podemos, por outro lado, estar todos errados. Alguém me ensinou que o grau de complexidade de uma obra se mede pelo número de interpretações que é passível de se fazer. Quer isto dizer que quanto mais tivermos a dizer sobre uma obra, mais substancial e pertinente ela é. O oposto, por sua vez, é também verdade. Mas, como já disse anteriormente, o problema aqui não reside na falta de palavras para descrever To Pimp A Butterfly. Muito pelo contrário. Há muito a dizer. Isto porque Kendrick diz muito em To Pimp A Butterfly. E a complexidade abre lugar para a discussão. Não só para a discussão, mas para a interpretação da obra. E mais importante que as suas palavras, é sem dúvida a forma como estas nos atingem, como nós as absorvemos. Até a polémica capa pode parecer um acto de violência para os ignorantes. No entanto, ela representa Kendrick a exercer o seu pleno direito à liberdade. Liberdade artística, liberdade de discurso e, em última instância, liberdade de espírito. E ainda que a Casa Branca seja o plano de fundo da capa, Kendrick não esquece nunca as suas raízes. Pelo contrário, honra-as e respeita-as. Não é por acaso que o estado da Califórnia o honrou pelo seu contributo não só para com a sua comunidade, mas também para com uma vindoura geração que Kendrick tem vindo a inspirar.


"I think the future of my generation is entrepreneurs times a hundred. We’ll probably be one of the most prosperous generations in history. Not only do we have the belief, but we have the work ethic to go out there and get it. We are very independent. We are very confident in our own identity, which is a great thing. Because what this [generation] has is more people starting their own business and not being confined to what [an existing] company has to offer [them]. But, on the other hand, our belief system is gonna play a major part in it. Our belief system is not the way how my parents were, how my grandparents were, and the more and more time goes on, we lose that thought or idea of God and energy. So what happens is we stop caring for people and we stop honoring and respecting people, you feel me? So I think once we grab that aspect back into my generation we’re gonna be alright." 
Kendrick Lamar @ Hypetrak
Este é o presente.
Já falámos do passado de Kendrick e dos ecos causados por To Pimp A Butterfly.
Resta-nos somente falar do futuro. 

O que podemos esperar de Kendrick?

Sabemos que Kendrick tem evitado tocar ao vivo músicas de To Pimp A Butterfly. Actualmente, os seus sets são compostos por um ou dois temas retirados de To Pimp A Butterfly, sendo que o remanescente do alinhamento é composto por material antigo. Possivelmente, esta decisão pode ser motivada pelo facto de Kendrick ainda não se sentir preparado para interpretar o álbum ao vivo com a força que este pede (não nos parece que seja isso). Ou então, esta decisão foi tomada porque para interpretar o disco ao vivo com completa fidelidade seria necessária uma verdadeira orquestra e uma sala com uma acústica perfeita. Condições dessas não são fáceis de reunir.
Porém, uma alternativa à convergência dessas complicadas circunstâncias pode residir na escolha de um formato diferente para a apresentação ao vivo dos temas. Lembre-mo-nos por exemplo da performance de Kendrick no programa da Ellen, no qual tocou a "These Walls".




Talvez parte da solução passe por abolir a orquestra nas suas performances ao vivo, procurando novas formas de comunicar a sua mensagem. Pensar não só no aspecto musical do espectáculo, mas também no aspecto multimédia e introdução de possíveis performances extra-música. Nunca é fácil reunir as condições necessárias para produzir um espectáculo visualmente impressionante. Mas quando tudo é feito com cuidado, criatividade e, acima de tudo, paixão, transpomos a barreira daquilo que foi gravado em estúdio, dando lugar a uma interpretação única e verdadeiramente especial.
Acho que, no fundo, o que todos queremos de Kendrick é precisamente isso: que ele nos continue a proporcionar momentos únicos através da sua arte.

Esperamos que To Pimp A Butterfly seja para vocês tudo aquilo que é para nós. Esperamos que as palavras contidas neste álbum vos marquem tanto como nos marcaram. Esperamos que To Pimp A Butterfly ganhe um lugar não só no vosso arquivo musical, mas também um lugar especial nas vossas cabeças e corações. Ou então não.

Seja como for, vamos ficar todos bem.
O Rei dixit.

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