quinta-feira, 10 de março de 2016

Reportagem: Deafheaven + Myrkur [Hard Club, Porto]


Era uma noite serena no Porto. Não se encontravam muitas pessoas na rua, à excepção daqueles que passeavam em família ou com amigos. Poucos eram aqueles que tinham noção do evento que se estava a aproximar na sala 2 do Hard Club. Foi apenas preciso chegar à Praça Mouzinho da Silveira para notar a diferença no ar. Já existia fila para alcançar a bilheteira e pairava uma onda de excitação no ar. Fãs ansiosos para contemplar a misteriosa Amalie Bruun, líder de Myrkur, outros curiosos pela experiência de como seria ouvir Deafheaven ao vivo.

Enquanto me lamentava por não ter dinheiro para comprar o Sunbather dos Deafheaven mantive-me na fila, ansioso para voltar a entrar numa sala de concertos onde já tinha sido feliz anteriormente. Entretanto, entregaram-me a pulseira verde e abriram-me as portas para aquilo que seria uma noite para recordar, com o selo da Amplificasom.

Myrkur


O palco para o primeiro concerto da noite estava adequadamente ornamentada com um microfone sustentado por uma espécie de altar feito com paus de madeira e por uma nuvem de fumo.

Foi por volta das 21h40 que a banda entrou em palco. Primeiro, entraram uns matarrões com a cara esfarrapada de cinza que pegaram nos instrumentos musicais. Faltava entrar a donzela porque todos dentro da sala esperavam. E não tardou a aparecer. Amalie Bruun entrou em palco e fez-se o silêncio. Todos se aproximaram do palco na expectativa de ver o que esta mulher era capaz de fazer.

Usando um vestido vitoriano preto e vermelho e sem nenhuma apresentação, esta aproximou-se de um teclado e abriu o concerto com uns acordes de piano e o seu canto de sereia, com a música “Don Lille Piges Dod”. Deixando a introdução mais clássica e calma de parte as guitarras começaram a rasgar e a bateria a marcar o ritmo. Foi claro que ninguém estava para brincadeiras naquele palco, aliás estávamos num concerto de Black Metal.



O público ainda se encontrava algo envergonhado e perdido na beleza de Amalie, mas tudo mudou quando esta pegou na sua guitarra BC Rich e começou a tocar as primeiras notas de "Onde børn", aquela que é possivelmente a musica mais reconhecível do álbum M. A mudança de atitude foi óbvia, sendo que muitos trocaram a postura de gentleman (possivelmente para impressionar Amalie) e começou um headbang geral por toda a audiência.

A setlist do concerto foi dominada essencialmente por músicas do mais recente álbum de Myrkur, M. Apesar de a banda de apoio ser formada por excelentes instrumentalistas dentro do género, foi a voz de Amalie que se destacou. Alternando entre a sua bela e angelical voz limpa e uns growls dignos dos seus ídolos que andavam a queimar igrejas na década de 90 na Noruega.

Tal como o concerto começou, acabou com uns acordes de piano e uma rendição da música "Song to Hall Up High" dos Bathory. As últimas palavras que ouvimos saírem da boca da cantora, é a ultima frase da música, surgem não só como despedida mas também com um tom profético.

“Northern wind take my song up high

To the Hall of glory in the sky

So its gates shall greet me open wide

When my time has come to die”


Myrkur @ Hard Club


Deafheaven 


Depois de toda a emoção transmitida no concerto de Myrkur fui recuperar as minhas forças no bar com um fino. Ainda um bocado atónito do concerto que tinha acabado de assistir, tive o prazer de assistir ao soundcheck da banda que a grande parte das pessoas que se encontravam na sala vinha assistir.

A sala foi começando a encher enquanto via conviverem raças diferentes. Por um lado encontrava metalheads todos vestidos de preto a passearem as suas barbas e cabelo compridos, por outro encontrava inúmeras pessoas de camisa e com a pulseira de Paredes de Coura e do Primavera Sound. Isto apenas vem comprovar que Deafheaven é uma banda que agrada não só aos mais elitistas dos sons mas também a uma audiência mais abrangente.

Não me lembro que horas eram, mas lembro-me de ouvir uns sinos de igreja pré-gravados a anunciar a entrada da banda. A entrada de George Clarke, vocalista da banda, em palco, com a sua característica camisa e calças pretas, foi o suficiente para chamar a atenção de todos os fãs presentes.

Assim que a banda começou a fazer aquilo que sabe melhor ninguém mais conversou. Era para isto que todos tínhamos ido para o Hard Club. A banda abriu com um avassalador “Brought to the Water” que nem por um segundo perdoou os ouvidos dos fãs. A euforia tinha começado.



Com “Luna” a banda continuou as incríveis malhas de guitarra e o som continuou pesado. Já em "Baby Blue" fomos brindados com algo diferente. Fomos brindados com uns belos solos por parte Kerry McCoy, que deu uma lição de como usar um pedal wah-wah (irónico será dizer que na sua camisola estava representado um verdadeiro guitar hero, Eddie Van Halen).

No restante concerto ouvimos os restantes temas de New Bermuda, "Come Back" e "Gifts for the Earth". Estas músicas proporcionaram os momentos mais psicadélicos da noite, onde a banda deixou um pouco de parte o black metal e abraçou o shoegaze.Após a interpretação dos temas que constituem o álbum New Bermuda, os Deafheaven abandonaram o palco. No entanto os gritos dos fãs foram suficientes para a banda voltar e compensar os fãs com dois temas do álbum acarinhado álbum, Sunbather.

Durante os temas que se seguiram, "Sunbather" e "Dream House", posso francamente dizer que os fãs (e George Clarke) perderam completamente a cabeça, começando com mosh pits. Alguns fãs subiram mesmo ao palco ou foram puxados pelo próprio vocalista (incluíndo este escritor) para fazerem o tão apetecível crowdsurf. Ainda na última musica, George, atirou o microfone para os fãs (que infelizmente acertou na minha cabeça) para tentarem a sua sorte e cantarem o melhor que conseguissem.

A banda despediu-se com a promessa de voltar aos palcos portugueses e com os fãs em completo êxtase. Naquele que foi um dos concertos mais intensos que tive o prazer de presenciar, a verdade é que os fãs têm uma ligação muito forte com esta banda e com a sua música (especialmente com os temas de Sunbather), algo que é sentido com a sua entrega durante a performance.

A noite terminou com um repouso (merecido) junto ao palco, onde um roadie teve a gentileza de me oferecer um copo de cerveja esquecido pela banda em palco. E foi com esta cerveja na mão que me despedi da sala 2 do Hard Club onde passei mais uma noite memorável.

Deafheaven @ Hard Club


Texto: Hugo Geada
Fotografia: Pedro Pereira