segunda-feira, 4 de abril de 2016

Cinco Discos, Cinco Críticas #14

Consistency Of Energy // self-released // janeiro de 2016
8.0/10

Nos últimos anos, e como habitual, a Suécia tem-se destacado como um país de onde saem várias bandas interessantes no ramo do punk e subgéneros. Desta vez a banda em destaque são os Viagra Boys que trazem um punk rock hipntotizante em Consistency Of Energy. A banda,  que conta com membros das bandas Pig Eyes e Le Big Bird, num total de sete elementos, apresenta neste curta duração quatro músicas com grooves de techno distorcidos misturados no ritmo punk e guitarras eletrizantes. A primeira música do álbum "Research Chemicals" é igualmente a primeira a chamar a atenção pela distorção da guitarra que começa em harmonia e foca-se, posteriormente, pela sua desvirtuação. Esta fórmula vai sendo usada mais ou menos ao longo das audições de Consistency of Energy só que através de conjugações de instrumentos completamente díspares (Há dois bateristas e um saxofonista). De mencionar ainda "Liquids" pelo ambiente bahausiano que transmite. Este EP tem potencial, pelo menos ao vivo deverá ter.

Sónia Felizardo


Mantra Happening // Transfusão Noise Records // março de 2016
8.7/10

O brasileiro Lê Almeida, fundador da editora Transfusão Noise Records, lançou o seu terceiro registo neste mês de março, sob o nome de Mantra Happening. Este álbum teve direito a edição em K7 e CD, estando também disponível para download gratuito no Bandcamp, aqui. O artista de 29 anos, natural do Rio de Janeiro, lança aqui o sucessor de Paraleloplamos um ano depois, gravado directamente em K7 e ao vivo no seu escritório, com “muito improviso e libertação espiritual”, como dito por Lê Almeida à Noisey. O álbum começa com ‘Oração de Noite Cheia’, uma malha longa com 15 minutos, que agrada ao ouvido desde principio com um riff cativante, o que no fundo acaba por ser a marca de Lê Almeida, mas desta vez com uma sonoridade mais cheia e espacial, que perdura pelo decorrer da música. O resto do álbum segue com este registo, uma predominância de malhas longas com a sonoridade já referida, como ‘Maré’ e ‘Hoje eu não volto sozinho’, onde a voz acompanha a melodia numa união quase perfeita. Em ‘Enamorandius’ e ‘Creme Sunshine’ podemos ouvir os riffs característicos do artista brasileiro, em loop, mas sem aborrecer, o que é um feito incrível quando existem músicas desta duração num álbum. Ao todo, Lê Almeida não se desviou muito da sua sonoridade anterior, já em Paraleloplasmos tinha experimentado a sua habilidade em fazer músicas longas, como ‘Fuck The New School’, transpondo essa habilidade para Mantra Happening numa gravação lo-fi cheia de delay e fuzz, o que resultou muito bem neste álbum.

                                                                                                                            Tiago Farinha



TRUTH // Ya Ya Yeah/ Raging Planet // março de 2016
7.1/10

Asimov são Carlos Ferreira e João Arsénio, duo de Heavy Psych oriundo do Cacém que se formou em 2011. Neste mês de março editaram o seu terceiro álbum de originais, TRUTH, composto por sete temas, via Ya Ya Yeah / Raging Planet. O álbum começa com “Nothing In Return”, malha de 9 minutos que espelha bem a sonoridade stoner que caracteriza este duo. Segue-se “The Second Floor”, num registo mais acústico, muito ao género de Filho da Mãe. Em “Major’s Ship” e “Don’t Leave Me Demon”, Asimov regressam à sonoridade mais habitual influenciada por bandas como Hawkwind, Pentagram ou 10 000 Russos. O grande destaque deste novo trabalho vai mesmo para “Even Tame Tigers Bite Their Masters”, música que nos agarra logo de início com a sua batida ritmada e com os seus riffs contagiantes. TRUTH é tudo o que podemos esperar de um duo de Heavy Psych. Riffs ruidosos e pesados, embebidos em reverb, solos de guitarra engenhosos, a voz “agressiva” e a bateria em sintonia com a guitarra. Apesar de ser um bom esforço da banda, não se trata de um álbum inovador dentro do género.

Rui Gameiro


theres still us EP // self-released // janeiro de 2016
7.0/10
 
Swell. é um produtor musical de Melbourne que regressou aos discos com theres still us EP, sucessor do longa duração think about the flowers In the backyard de 2015. Este EP é uma excelente demonstração do talento deste músico mesmo tendo apenas 10 minutos de duração. O primeiro e segundo tema, na sua essência, são bastante semelhantes com uma composição muito boa e lembrando (ainda que vagamente), por exemplo, Battles na sua forma de progressão. Depois de uma pobre transição, as duas faixas seguintes centram-se em samples de Shiloh Dynasty e de Peter Collins, sendo quase remixes não oficiais bastante dançáveis. O álbum acaba com “then the world stopped moving and we were stuck were we wanted to be, certamente o tema mais interessante, não só pelo seu título mas também pelo facto de se destacar por completo dos temas anteriores. Enquanto todo o álbum convidava e até pedia alguma dança este não, este (tal como o nome indica) exige calma, repouso, como se tudo à nossa volta parasse…finalmente estamos onde queríamos estar.

Francisco Lobo de Ávila


Mirror EP // Rocket Recordings // fevereiro de 2016
7.5/10

Já se dissertou um pouco nesta Grande Casa sobre o que de facto constituí música experimental/exploratória. E se há uma conclusão que podemos tirar do estudo da música exploratória é que esta é , em última instância, verdadeiramente inclassificável. Se imaginarmos que a música exploratória é um círculo, podemos a partir das suas curvas deduzir várias tangentes, mas nunca precisar exactamente quanto mede o seu núcleo. Este é instável. Ora expande, ora se contrai. Assim é, também, com os GNOD, enquanto instituição maior da música exploratória atual. Se em Infinity Machines, o já de si vasto terreno do kraut se expandiu até aos limites do espaço sideral — característica particularmente notória na “Infinity Machines” — em Mirror essa sensação foi trocada quase pela claustrofobia. Em Mirror, não há estrelas, horizontes e muito menos um infinito no qual nos podemos dar ao luxo de derivar. Em Mirror, não há sequer ar para respirar: somos nós e o ruído. Um ignorante dir-vos-ia que os GNOD deixaram cair a sua máscara do kraut e decidiram apagar do disco externo a discografia dos Can e esquecer as tangentes que os Lumerians fazem com o género ao misturarem alguma violência, drone e noise ao vazio do space  (outra lição que foi bem estudada para a execução do Infinity Machines) e concentraram todas as suas forças em fazer um EP  lo-fi gravado enquanto estavam a ouvir o Filth e o In the Flat Fields
Um ignorante dir-vos-ia isto, se vos omitisse, no final, que essa banda eram os GNOD
Sinceramente, estavam à espera do que? Mais do mesmo? 

Por definição, a música exploratória explora novos conceitos — uma coisa cada vez mais rara hoje em dia — e novas abordagens a géneros instituídos. E os GNOD serão talvez os mais intrépidos de um género que se quer volátil e, acima de tudo, imprevisível. E sabem que mais? Os gajos conseguiram mais uma vez surpreender.

Edu Silva