terça-feira, 21 de junho de 2016

Reportagem: EARTHEATER + CRUA [Teatro Ibérico - Lisboa]


Na passada quarta-feira fomos até ao Teatro Ibérico, espaço bem agradável e acolhedor, assistir à performance artística da nova iorquina Alexandra Drewchin (Guardian Alien) e do seu projeto a solo EARTHEATER. A artista apresentou os seus álbuns de originais editados em 2015, Metalepsis e RIP Chrysalis, estreando-se em território nacional num evento promovido pela Nariz Entupido

Não conhecendo bem os projetos em causa e apenas tendo ouvido uns singles de EARTHEATER, decidimos ir à descoberta e ver o que a noite nos reservava. 

Às 22h30 a sala encontrava-se aproximadamente cheia e entraram em palco os CRUA, trio formado por André Hencleeday (percussões), Carlos Carvão (guitarras) e Daniel Neves (electrónicas). O que se passou a seguir foi meia hora de noise e distorção à drone metal, riffs e percussão potentes envolvidos em eletrónica. A vibração sentia-se fortemente enquanto o trio explorava e improvisava a sua sonoridade em palco. A certa altura o piano foi introduzido, mas no meio do ruído todo, passou um pouco despercebido. Em suma, o trio apresentou uma performance competente mas um pouco estranha e ensurdecedora.




Depois de um pequeno intervalo, Alexandra Drewchin entrou em palco às 23h. A sua atuação iniciou-se com uma dança meio esotérica, demonstrando bem a sua liberdade artística e a maneira corporal como se expressa e hipnotiza a audiência. O seu corpo é também a sua voz. A ambiência sonora criada pelos sintetizadores gravados em casa, a voz celestial de Alexandra, o impressionante trabalho experimental de pedais, as collagens sonoroas e a guitarra mergulhada em reverb marcaram fortemente este concerto. 

Ao vivo a sua sonoridade pode remeter-nos para uma electrónica ao jeito de CocoRosie, Dean Blunt ou mesmo Holly Herndon mas de caráter mais folk, psicadélico, cómico, dotado de uma produção cristalina. É tão fácil perder-nos neste mundo onírico criado por Alexandra. 

A cada música que passava, Alexandra agradecia e o público retribuía sempre calorosamente, com uivos e palmas. A certa altura parecia que estavamos numa sala de estar com a artista, tal a sua desinibição e simpatia. A artista revelou ainda que gostava de estar num espaço tão grande mas ao mesmo tempo tão íntimo (o público estava também sentado no palco).


Do alinhamento do concerto, dedicado às vítimas do atentado de Orlando, fizeram parte temas como “Utterfly FX”, “Mask Therapy”, “Wetware”, “The Internet is Hand Made”, “Put a Head in a Head”, “If It in Yin”, “Homonyms” e ainda outros temas que não conseguimos desvendar. 

Ao final de uma hora terminou o concerto de EARTHEATER, sendo que os problemas técnicos não impediram a sua atuação soberba. O público queria mais e a artista ainda acedeu tocar mais uma música. Ficou no ar a sensação de que ninguém queria abandonar a realidade ali construída no Teatro Ibérico, realidade essa complexa à partida mas que ao ser descontruída se entranhou intrinsecamente no nosso cérebro. Esperamos um regresso em breve e mais discos em 2016 desta senhora. 

EARTHEATER + CRUA @Teatro Ibérico

Texto: Rui Gameiro
Fotografia: Sofia Espada