terça-feira, 12 de julho de 2016

[Review] Cough - Still They Pray


Still They Pray // Relapse Records // junho 2016
9.0/10

Os Cough interromperam um silêncio que perdurava por seis anos e da forma mais barulhenta possível. A banda de Richmound, Virginia que conta com Parker Chandler (também membro dos conterrâneos Windhand), Joseph Arcaro (ex-membro dos Sword), David Cisco e Brandon Marcey apresenta-se com uma postura bastante mais madura fruto deste hiato. Pausa esta que serviu para a maturação a nível pessoal e para descobrirem o que realmente pretendiam com a sua música. Contudo, após a audição deste álbum concluo que a pausa fez bem à banda que mostra um álbum com uma qualidade inquestionável.

A produção do álbum contou com a preciosa ajuda do icónico Jus Oborn (líder dos Electric Wizard) que transpõe o espirito da sua banda em larga escala para estes rapazes de Virgínia. A agonia, a dor e a tortura é um sentimento constante na audição de Still They Pray. Comparando com a “banda-irmã” Windhand, apesar de terem um som inquestionavelmente pesado acabavam sempre por transmitir uma aura de esperança e de possível salvação. Cough não. Para Cough tudo é sofrimento. Para Cough tudo está perdido.

Deste álbum duvido que encontrem alguma faixa isolada numa playlist qualquer. Cada faixa contribui para a construção de um quadro maior que é este álbum. Apesar de em termos musicais serem completamente diferentes, este álbum faz-me lembrar uma alusão que uma vez me fizeram do álbum Tilt de Scott Walker, descrevendo-o como “música de câmara de tortura”. o álbum de Cough essencialmente passa pela mesma comparação, sendo que é feita inúmeras vezes a alusão e a referencia à palavra “tortura”.

Em termos mais objectivos (ou musicais), pondo de parte os infinitos drones ou os solos baseados em blues e polverizados em wah-wah, a melhor maneira de descrever os Cough seria imaginar os Electric Wizard com o Mike Williams dos EyeHateGod nos vocais. E é desta maneira que começa o álbum, Haunter of the Dark é a entrada violenta nesta descida aos infernos. Os acordes são cíclicos e os solos vão se estendendo ao longo do tempo.

Em “Possession” o ambiente torna-se ainda mais sinistro. Apoiando-se num maior minimalismo instrumental e numa voz cada vez mais angustiante. Isto resulta numa experiência onde a banda pretende mostrar o que realmente é a “tortura” que tanto vem falando ao longo do álbum. Os acordes iniciais de “Dead Among the Roses” por momentos fez-me recordar a “Something in the Way” dos Nirvana contudo, mal Chandler abre a boca volto a situar-me no que estou a ouvir. A letra de estilo gótico apresenta umas imagens que deixariam Edgar Allen Poe orgulhoso.

Após o último acorde de “Dead Among the Roses” segue-se “Masters of Torture” e desta vez não há grunge que me venha confundir. Os vocais ásperos e a overdose de distorção ou até mesmo o título da canção podem desvendar o tema da cantiga. “Let it Bleed” revela-se como um dos pontos altos do disco. Os elementos acústicos mesclam-se com as influências mais pesadas e sujas que o Doom e o Sludge oferecem criando um ambiente diferente de toda a opressão sentida ao longo do álbum. Nesta faixa podemos ouvir aquilo que é provavelmente a frase mais citável e que denuncia a mensagem que a banda quer transmitir aos ouvintes: “Life and death/ All the same/ Let it bleed.”

Contudo é em músicas como “The Wounding Hours”, single líder deste álbum, onde sentimos a definitiva mão de Jus Oborn na mesa de misturas. Se encaixássemos esta faixa nos primórdios da discografia dos Electric Wizard era algo que não só passava despercebido mas como era bem aceite.

Para encerrar com chave de ouro a câmara de tortura onde estivemos alojados durante uma hora e sete minutos, é nos apresentado a música que partilha nome com o álbum. Recostemo-nos no nosso sofá enquanto a ouvimos e imaginemos que estamos num banco de uma igreja e nos está a ser pregado o novo testamento. Uma filosofia niilista que não compreendo o porquê de ainda existirem aqueles que se debruçam sobre os joelhos para pedir algo que eles próprios não conseguem alcançar.

Este não é certamente o álbum mais fácil de digerir mas é daqueles que quando ouvido na disposição certa, fala não só a nível musical mas também espiritual. A musica pode não ser a mais bela mas as emoções transmitidas por Cough lembram-nos o porquê de se fazer arte. Por isso sentem-se numa posição confortável, apaguem as luzes e acendam uma velinha. Está na hora de ouvir um dos melhores discos que 2016 teve o prazer de nos oferecer.