domingo, 7 de agosto de 2016

Milhões de Festa 2016: O Descolar da Nave




Tudo começou com a viagem de Lisboa para o Porto, mas adiante. Deve tudo começar quando se vai do Porto para Barcelos, quando se começam a criar maiores expectativas acerca do festival, quando se fazem prognósticos sobre concertos, enquanto passava LSD and The Search for God no carro.


Dia 0

Chegamos a Barcelos e montamos campo junto da nata de Barcelos, dos filhos da terra, pessoal que conhece Barcelos de olhos fechados e conhece a cena musical e, como todos os locais, nutre carinho pelo Milhões de FestaA seguir ao montar campo decidimos então seguir para o que seria o primeiro concerto do festival: Ensemble InsanoA começarem e mostrarem a mote do festival: INSANIDADE do início ao fim, sempre a dar tudo. Ensemble Insano são um supergrupo criado pelos elementos de bandas de Barcelos como Killimanjaro, Glockenwise entre outros e com a maestria de André Simão. Um concerto com energia, a puxar influências ao psych-rock, ao stoner rock e ainda ao tão amado em Barcelos, krautrock.

Após este, seguimos para o recinto. Nesta primeira noite a fasquia estava por elevar e chegámos a tempo de ver Vozzyow, uma banda que, apesar de ainda precisar de melhorar a nível de sincronia, apresenta elementos - como o seu baixista - que consegue ter energia para dar e vender. Como todos os outros baixistas que iríamos ver, incansáveis.


Mais tarde e com um aglomerado populacional cada vez maior e mais denso no perímetro do pequeno Taina, assiste-se a Eat The Turnbuckle, a banda americana que conseguiu ser a  grande atuação da noite: Um concerto que desafiou as leis da física, o corpo humano dos elementos da banda e ainda o público que acompanhava cada malha com mosh.
Um suadouro incrível criava-se, o espaço para se estar já era pouco e assistia-se a um momento, que para mim foi das coisas mais bizarras que vi ao vivo; vários elementos de Eat The Turnbuckle cortam-se com "pizza cutters". Há sangue no Taina, há vinho pelo ar e nas costas do guitarrista da banda que continuar a atuar como se nada se passasse. Foi essa a mensagem que a banda emitiu: Façam a festa, observem, não se passa nada.
Foi pesado mas tínhamos de estar preparados para doses bem piores nos próximos dias. Conseguimos a setlist, ensanguentada e rasgada, para a recordação. Para quem foi, nunca esquecer.

Setlist EAT THE TURBUCKLE:
Fans Bring Weapons
Suplex City
Good To Be The Champ
Death From Above
Card Subject To Carnage
Falls Count Everywhere
Get The Tables
Make You Humble
Pipers Pit
Ladders, Tables, Chairs.

Subimos até ao campismo para jantar e após esse voltámos para ver Aggrenation, a banda sueca de metal e metal punk que segundo o Spotify é ouvida na Suécia, onde tem as suas raízes, e logo a seguir em Portugal , fez os meus ouvidos começar a perceber a sonoridade metal doutra forma, a começar a apreciar de uma outra maneira. O festival Milhões de Festa consegue isso, vamos a um concerto que não temos ideia de que género seja e podemos sair na mesma ou muito surpreendidos. Foi caso para isso. Aguardamos retorno da banda talvez na capital num espaço que os dignifica ou mesmo no Porto.

A madrugada chegava e com ela chega Jibóia com o seu companheiro Ricardo Martins, uma autêntica serpente na bateria apesar do seu físico possante. O Palco Taina tornava-se agora um bazar marroquino misturado com uma pista de dança, os corpos ondulavam, os olhos fechavam-se para sentir a música. Foi uma bonita festa, estava tudo contente, a musica de Jibóia ajudava a um final de noite quente com o vinho servido no Taina a acompanhar. E sim, fiquei com um daqueles copos de barro.

Assim acabou a nossa noite de música. Subimos mais uma vez para o campismo, onde começavam os "afters" e aí ficámos, a ouvir música e a conversar com aquele "calorzinho" agradável de julho e bem melhor que o calor do sul.


Dia 1


O segundo dia começava como acabara a madrugada. Quente. O sol não nos deixava estar e a ressaca do dia anterior demorava a passar. Apressámo-nos para ir ter à piscina mas ainda torrámos mais um pouco. Passavam malhas de Sun Araw, que viria a tocar no dia a seguir, entre outras mais.

Vimos Surma a entrar e começámos a pensar que já não haveria de faltar assim tanto para irmos dar tudo para a piscina. Milhões de esperas ao calor. Às 14h00 lá entrámos, estendemos a toalha e esperámos mais uma vez só que a refrescar-nos bebendo uns finos ou mesmo a RedBull que nunca nos deixou durante os dias de festival. Lá para as 15h00 subiu ao palco a primeira da tarde, Surma, que nos presenteou com músicas próprias para quem estava a dar uns mergulhos ou umas braçadas na piscina. Músicas frescas, sem grandes alaridos.
A apontar, do alinhamento do concerto, a música a qual toda a gente se manifestou, talvez por ser a mais conhecida, "Masaai". Surma mostrou que mais uma vez é um nome a ter debaixo de olho, abriu a piscina do Milhões de Festa e deu outro grande show no Festival Super Bock Super Rock.

Setlist SURMA:
Intro
Calma
How am I?
Maasai
Wanna Be Basquiat
Agnes Obel
Nova
Lo-fi

Este dia fica marcado por ser o dia em que a "nave" do Milhões de Festa faz os seus primeiros reconhecimentos de território, um dia marcado por muita música a recordar tribos, muita música ambient, muita cumbia.

Seguiram-se os Wume, o duo de Baltimore, patrícios de Dan Deacon, agarraram no público e fizeram tudo acontecer, a piscina entra em delírio, há bolas insufláveis pelo ar. Um mosh, como muitos diziam, estava a acontecer na piscina. Wume conseguiram ser a banda que, a seguir a Nicola Cruz, teve melhor atuação do dia, na piscina. Estavam sincronizados, sintonizados com o público que dançava, aplaudia e pedia por mais. Do início ao fim os sons esquizofrénicos do krautrock como o de CAN sobressaía. De realçar a energia da baterista da banda, April Camlin, mais uma baterista incansável neste festival.

Milhões de Pessoas-Nicola Cruz

Chega então o momento da tarde, lá para as 17h00, aparece em palco a melhor atuação do primeiro dia de piscina: o incontornável Nicola Cruz.
Estive, um pouco antes do concerto, a conversar com ele sobre festivais, o seu repertório e muito mais coisas, enquanto nos refrescávamos com Red Bull. Um artista pacato porém simpático e sempre pronto a soltar uma gargalhada; disse-me que ia ser tudo muito parecido ao Sonar. Supreendeu-me, dado que a sua atuação no festival Sonar foi das melhores atuações que assisti por parte dele e, se o dizia, era porque o seu concerto iria ser uma parafernália de emoções para o público que assistia. Lá entrou. E matou tudo. De olhos fechados parecia que éramos só nós e Nicola. ele tocava para nós, uma viagem alucinante aos Andes com os pés bem assentes no chão mas o corpo sempre a mexer, era impossível ficar parado ao som de algo tão bom, tão bonito. Ninguém queria saber se estava a pisar o parceiro, estava toda a gente inebriada pela cumbia de Nicola Cruz.
Tocou malhas do seu recente trabalho, Prender El Alma, nas quais se destacaram "La Cosecha" e "Sanácion" que talvez foi o ponto alto da tarde onde a dança coincidia com mergulhos para a piscina. Fazia-se sentir a temperatura. Estive um bocado dentro de água a sentir o concerto e fazia sentido, música mais piscina dá algo fresco, algo que não consigo explicar porque na altura do concerto também já estava bastante tocado. E assim foi sempre, Nicola Cruz puxou o público pelos colarinhos, batiam-se palmas e o concerto chegava ao fim. Pareceu pouco na verdade, toda a gente pediu mais uma ao artista mas este tinha horários a cumprir e ficou de mãos atadas. Para uma próxima, Nico, para uma próxima dás-nos um concerto o resto da tarde e vens dar uns mergulhos connosco. Desta vez pago eu a cerveja.

Nicola Cruz- Piscina Dia 1

Depois de uma sova de dança, mergulhos, chinfrim na água e tudo mais seguia-se Nan Kolé, o qual vimos pouco e ao longe. Fomos despachar-nos, comer, tomar banho e aquecer para uma noite que ia ser memorável, íamos ter GOAT, íamos ter Sons of Kemet, no palco principal, e ainda íamos ter a oportunidade de ver o grande bicho, The Bug com Miss Red no Palco LoversO nosso aquecimento era simples: beber e dançar ao som daquele "techno" tasqueiro. No acampamento a festa fazia-se assim, as risadas eram fortes, todos na mesma "vibe".

Já bem quentes, bem jantados partimos à descoberto para o Palco Lovers, um palco que na primeira instância parece nem existir devido à pouca iluminação que o incide. No entanto esta iluminação ténue, acabaria por reproduzir naquele palco um ambiente mais dark, todo um conceito a ter em conta. Às 22h00 os Goth Money entram em palco. Apressados, entram com tudo, fortes apesar da jovem idade na indústria musical, mostram ao público para o que vêm. Mostram o bom trap que se faz, pedem ajuda para acompanhar, fazem a festa. Agora mais descontraídos e com mais calor passam "Gucci Ranks" e "Hurry Up" às quais o público acompanha com um ávido movimento de braços típico de concerto rap. Face ao que se viu, foi um bom concerto, com algumas falhas, mas com consistência. Dois jovens no mundo do trap que já dão cartas pode não parecer novidade, mas conseguirem chegar a Portugal é novidade. Milhões de Festa também é trap, rap e grime como vamos ter oportunidade de observar mais adiante.  Este ano houve uma aposta forte nestes géneros assim como nos que são costume fazer parte dos pilares do festival. 
O concerto ia a meio e só existia um pensamento: Sons of Kemet. Apressámo-nos e seguimos até ao Palco Milhões, esperámos, expectámos, já tínhamos visto Shabaka Hutchings pela piscina, isto é um ponto incrível, conseguimos conviver de perto com os artistas, trocar umas palavras com eles como tive a oportunidade inúmeras vezes nos quatro dias do que foi o meu primeiro mas não último Milhões de Festa.
A hora batia certo, a banda ainda demorou a entrar. Eram 22 e “picos” quando entram e começaram com tudo. Um bombardino potente, dois bateristas de categoria, relaxados como se a bateria fosse parte do seu corpo fazem tudo e todos ondular, dançar, fazer o "comboio" por entre a multidão. Existe alegria e amor no ar, um "molho" bastante agradável, cria-se ali um ambiente de dança imparável que só acabou quando o concerto terminou. A banda não acreditava no que via, mostrava-se surpreendida a tal recepção.

Tocava agora Inner Babylon, a mais esperada. Dava outra vez tudo certo dentro de nós milionários, dançávamos, pulávamos, fazíamos levantar poeira (não me processes, Ivete).
O público português é o melhor? Talvez sim. E porquê? Por momentos destes em que existe harmonia entre a banda e quem vê actuar, quem dança, quem grita por "mais uma", quem bate palma ao ritmo da bateria, da tuba, do bombardino imparável desta banda que fez um dos concertos desta edição do MilhõesIncríveis de início ao fim, acabámos a suar e, não havendo piscina, única solução era beber água e essa também era pouca. Decidimos encostar à "box", um pouco, e ainda tivemos oportunidade de saber como era Marshtepper+HHY+Varg, um atrofio por completo, algo absurdo, o Palco Lovers parecia ainda mais escuro, um espetáculo com presença de inúmeros materiais que faziam sons de arrepiar qualquer ouvido. Ambiente impróprio para cardíacos. Foi sempre essa a atmosfera. O Palco Lovers deu sempre a estalada e o Palco Milhões acalmava-nos.

GOAT- Dia 1 Milhões de Festa

Era essa a calma que pretendíamos mas era impossível, nervosos por GOAT, a banda da noite directamente de terras frias suecas conduziu a nave do Milhões desde o ponto onde Sons of Kemet nos deixaram. Uma África perdida de tribos e antigas tradições. Eram cerca de 01h25 quando os GOAT entraram, ninguém podia acreditar, apertávamo-nos para ver o fenómeno a pegar na nave e levar-nos onde queriam. E palavras para quê? Melhor concerto para mim, de toda uma vida, ainda curta mas bem regada de concertos.
Imparáveis de início ao fim, mostraram-nos as malhas novas, as malhas velhas mas sempre boas e os passos de dança.Levaram-nos onde queriam, tinham-nos como reféns da sua música, da sua dança que fazia os corpos transcender. A meio do concerto dei por mim a observar cada instrumento e pensar o porquê de ouvir mais instrumentos do que os presentes. É esse o poder dos GOAT, o poder de levar cada um ao extremo, de fazer qualquer um colar num som, perder-se nele e do nada pensar estar a ouvir um sintetizador quando existe apenas um guitarrista de máscara na face. "Let It Bleed", "Run to Your Mama", "Talk To God". Se fosse para enumerar todas e dizer qual a melhor da noite era impossível. Um concerto bom sempre, coerente, consistente.
Tivemos show de dança tribal bem perto, descem do palco para vir até ao fosso mostrar como se faz, aí colei e só pedia mais daquilo. Para sempre GOAT a tocar. Viam-se pessoas no crowd, pessoas a sentir de olhos fechados com sorrisos largos, gritos de alegria a cada música que passava, a cada acorde forte o corpo sentia, arrepiava-se e dançava. Ninguém queria acreditar que o concerto ia acabar. Pede-se encore. Pede-se "mais uma", "one more".
E regressam ao palco momentos depois. A espera foi longa, mas voltaram. A nave parecia parada mas nunca isso aconteceu. O que realmente interessa é a "Golden Dawn" no encore. Isso é o que interessa do fecho do palco Milhões no dia 22. Estoirado. Olhava para os meus amigos com uma cara de satisfação que nunca tinha tido, tive o concerto da minha vida, ali, naquela terra no Minho perdida mas não esquecida. 


Fomos de novo ao Palco Lovers para aquele que iria ser o nosso último concerto da noite.
O mestre The Bug, que tínhamos encontrado no dia do Palco Taina, deitado nas grades, subiu ao palco naquela noite. E partiu tudo.
Miss Red, és linda. Quem me dera ter dançado contigo. The Bug, quando quiseres Portugal é a tua casa, nós queremos-te cá sempre, apesar das circunstâncias.
Foi The Bug, foi outro concertão da noite. Nunca dancei tanto na vida como naquela hora e meia. After antecipado, a luz batia nas caras mas a escuridão reinava no Lovers, a bebida aquecia ainda mais os presentes e os passos de dança de Miss Red fizeram-nos delirar.
E do nada surge outro "brit" que iria dar que falar no festival, GAIKA. Cantou malhas, foi imparável ao lado de Miss Red e não deixou ninguém ir abaixo. Fricção, agressividade, combustão. Tudo numa noite no palco LoversVoltem. Assinem contrato com o festival. Mais disto.

Quando acabou o concerto estava a tremer, estava incrédulo, uma pancada de dub forte misturado com grime e ambient. Tudo encaixado dá: The Bug. Fomos para o campismo derrotados, zonzos e sem forças para SHERYL que se diz ter sido um concerto cheio de glitter e alegria.

Dia 0+1 @Milhões de Festa

Texto: Duarte Fortuna
Fotografia: Sofia Ribeiro