quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Reportagem: Bons Sons 2016 [Cem Soldos, Tomar]


Nos passados dias 12, 13, 14 e 15 de agosto fomos até Cem Soldos, Tomar, onde se realizou a sétima edição do Bons Sons. O festival que em 2016 celebrou o seu 10º aniversário contou com grandes nomes da música portuguesa como Keep Razors Sharp, White Haus, Sensible Soccers, Best Youth. Saibam como correu a festa na Aldeia mais cultural e acolhedora de Portugal.

11 de agosto

O Festival começou com uma enorme agitação no parque de campismo, com centenas de pessoas a tentar, simultaneamente, montar as suas tendas. À noite, quando a poeira já tinha assentado e os campistas já tinham jantado, Quem és tu Laura Santos? abriu o festival num palco montado junto à saída do campismo. O DJ fez toda a gente presente dançar e saltar, levando até a um “comboio” com mais de 50 pessoas. O espetáculo ajudou a firmar o ambiente pelo qual o festival é conhecido. Se, há 20 minutos atrás o público só tinha desconhecidos, agora já consiste de vários novos amigos, que dançam ao som de hits pop dos anos 70 e 80, sendo eles portugueses, franceses ou ingleses.

Após o final do espetáculo, explorou-se a aldeia e tentou-se dormir, ato que se viu dificultado com a quantidade de instrumentos musicais a ser tocados pelo parque de campismo.

12 de agosto

Os concertos (para nós) começaram no Palco MPAGDP (Igreja), onde João e a Sombra, o projeto músical do ator e músico João Tempera, apresentava o seu novo álbum Outra Coisa Qualquer. O concerto foi agradável, embora achemos que tenha sido mais forte no início, tendo perdido um pouco a nossa adesão nas últimas músicas.

Um pouco depois, abrindo o Palco Giacometti (Coreto) estavam as irmãs Pega Monstro, que deram um dos concertos mais explosivos e barulhentos do festival. Tocaram grande parte do álbum que considerámos o melhor álbum nacional do ano passado, Alfarroba. O que mais impressionou neste concerto foi a entrega das irmãs, que nem por um segundo pareceram pensar noutra coisa senão a sua música, tocando-a com uma enorme violência, obrigando o público a render-se.


Mais ao final da tarde, Birds are Indie, trio de Coimbra, deram um dos concertos mais agradáveis de todo o festival. O grupo não se limitou a apresentar o seu novo álbum, tocando temas de todos os seus registos e até covers. A verdadeira magia aconteceu enquanto as músicas eram tocadas, num daqueles momentos em que parece que todas as estrelas se alinham, a temperatura estava agradável, o sol já não bate tão fortemente e a banda cantava e tocava as suas músicas suavemente. Instaurou-se um ambiente em que toda a gente se sentia bem e se divertia, especialmente durante os maiores hits da banda, em que boa parte do público sabia a letra (pelo menos o refrão) e a cantava com o trio.


À noite, ouvimos Best Youth a abrir o palco Eira, começando a marcar o registo positivo que este palco teve ao longo dos quatro dias, tendo dado casa a alguns dos melhores concertos deste festival. O concerto do duo Portuense foi algo diferente do que já tinha visto no resto do dia. Enquanto que o concerto anterior foi íntimo, este passou a outro nível, em que toda a cumplicidade do duo em palco se transferiu para o público, que não parou de dançar ao som do indie pop sensual que vinha do palco.



13 de agosto

Começamos o dia com Grutera no palco Giacometti. O guitarrista oriundo da Nazaré, sendo apenas acompanhado por uma violinista e um dos guitarristas dos Indignu [lat.] (em algumas música), deu a todo o público presente uma experiência quase surreal, embora só estivesse uma guitarra acústica em palco. Podia-se jurar que estava uma orquestra inteira a tocar para nós. No final do concerto, o guitarrista afirmou que este tinha sido o seu concerto de “despedida” e que se ia afastar dos palcos por agora.


A tarde continuou com Few Fingers, no Palco Tarde ao Sol. O duo fortemente inspirado pelo indie/folk foi acompanhado em palco por membros dos Nice Weather For Ducks, Les Crazy Coconuts e da banda que acompanha David Fonseca, formando assim um quinteto. O concerto em si foi algo mais “leve”, em comparação ao anterior, não deixando assim de agradar o público, captando a nossa atenção até ao fim. A banda tocou músicas de todo o seu repertório, com especial atenção ao seu novo álbum Burning Hands.


Logo de seguida regressámos ao Giacometti para assistir ao concerto dos Lavoisier. Munidos apenas duma guitarra elétrica e da voz, levaram o público de volta às nossas raízes enquanto portugueses, cantando temas da música popular portuguesa e algumas adaptações de poemas, de autores como Fernando Pessoa, por exemplo. O concerto foi muito teátrico, com danças e usos poucos comuns da voz.

A começar a noite, Cristina Branco cantou o seu fado, num dos concertos que, infelizmente, teve a menor adesão do público de todos os que assistimos durante o festival. Toda a sua banda tocou excepcionalmente bem, e mesmo a voz não ficou atrás. Apenas foi um pouco mais recolhida do público que o resto das bandas do festival, e talvez por isso, também o público não tenha aderido tão bem ao seu concerto.

Em seguida corremos até ao Palco Eira para assistir a Da Chick. A cantora trouxe até Cem Soldos o funk old-school americano, obrigando toda a gente a dançar. Não tendo medo de responder a insultos do público, a Chick acordou a aldeia depois do concerto mais calmo de Cristina Branco e obrigou toda a gente a fazer barulho e saltar de um lado para outro, enquanto cantava com toda a sua alma os seus temas.


Fechando a noite, os Deolinda atuaram no palco Lopes Graça. A banda que dispensa introduções foi possivelmente a que puxou mais pelo público, tendo posto toda a gente a cantar durante 5 minutos seguidos. O concerto destacou-se também pela enorme presença em palco de Ana Bacalhau, que sempre com grande alegria, dançava e puxava pelo público melhor que ninguém. Sempre em altas, este foi um dos concertos mais divertidos de todo o festival.

14 de agosto

O dia começa com Madalena Palmeirim, no palco MPAGDP. A cantautora faz-se acompanhar por uma guitarra, bateria e um violino enquanto toca no seu piano (ou ukelele), temas dentro do espectro do indie/folk. Utilizando este concerto para começar a apresentar inéditos do seu futuro álbum, Madalena e a sua banda apresentaram um concerto bastante sólido, pecando apenas por não ter nenhum momento que chamasse mais à atenção do público.

Após uma curta pausa para explorar o que a aldeia tinha a oferecer, sentamo-nos junto ao Giacometti para assistir ao concerto de Dear Telephone. O quarteto inspirado pela sonoridade do rock alternativo mais pesado e pelo shoegaze, tocou na aldeia o seu primeiro concerto de 2016, vindo fresquinhos do estúdio com vários inéditos para apresentar. Não se ficando por aí, o grupo tocou músicas de todos os seus registos num concerto repleto de enormes solos.

Ao início da noite Keep Razors Sharp, arrasaram o palco Eira num concerto que só pode ser explicado como uma explosão sonora. O quarteto composto por elementos de várias bandas (Sean Riley & The Slowriders, The Poppers, entre outras) tocaram temas inspirados pelo shoegaze e pelo neo-psicadelismo. Arrebatando todas as espetativas deram o único concerto do festival onde conseguimos observar crowdsurf. Dando um concerto super energético, ninguém conseguiu ficar indiferente ao barulho que vinha do palco.

SETLIST KEEP RAZORS SHARP
5 Miles
Groove
9th
Brian
By The Sea
Intro
Cold Feet
Lioness
See Yr Face
Sure Thing
Kylie
África


Servindo como um momento para descansar, Carminho tocou no palco Lopes-Graça, desta vez para um público mais amigável do que o que se apresentou à outra fadista que atuou no festival. Apresentando um concerto muito agradável, ficamos com pena de não conseguirmos ouvir do início ao fim o seu concerto.


Saindo de Carminho, partimos para o palco Garagem, onde tocava para um público com cerca de 20 pessoas um duo de um guitarrista e um vocalista (visitantes do festival) que re-imaginavam vários clássicos, como “Knocking on Heaven’s Door”. Não se acanhando, deram-nos uma das maiores surpresas do festival.

Depois do concerto, corremos para o Eira para tentar ainda apanhar White Haus. Embora tenhamos chegado atrasados, o concerto foi extremamente agradável, dando uma continuação às danças já iniciadas em Da Chick, havendo mesmo várias rodas de gente a dançar. O quarteto liderado por João Vieira (X-Wife) deu outro dos concertos mais divertidos do festival, fechando em grande o palco Eira pela noite.



15 de agosto

Como já era costume, o dia começou no palco MPAGDP, desta vez ao som de Diego Armés. O antigo vocalista e guitarrista dos Feromona e atualmente dos Chibazqui, deu na igreja um grande concerto apenas usando uma guitarra acústica e a sua voz. O concerto foi muito agradável, tendo sido repleto de inéditos e de várias ocasiões onde Diego se reinventou a si mesmo, tocando temas escritos por ele, quando ainda se encontrava nos Feromonas.

Logo após o concerto de Diego, a igreja encheu-se de gente, tendo até pessoas sentadas no chão. Flak, mais conhecido como o mega guitarrista dos Rádio Macau. Deu um concerto de outro mundo, transformando a igreja no palco principal do festival. Especialmente no encore, onde não havia ninguém sentado dentro da igreja, estando todos a gritar as letras dos clássicos dos Rádio Macau. O guitarrista tocou em cima do seu amplificador, andou aos saltos em cima do palco e trabalhou o público de uma maneira extremamente cativante, não deixando ninguém indiferente. Sem dúvida um dos pontos altos do festival.

Abrindo o palco Giacometti pela última vez neste festival estiveram as irmãs Falcão, melhor conhecidas como Golden Slumbers. O concerto começou duma forma semelhante a todos os concertos no Giacometti, o público sentado no chão a ouvir a música e a cantar, mas rapidamente inverteram essa situação, pois nem 5 minutos depois grande parte das pessoas presentes já estavam em pé a ajudar a cantar os refrões de todos os temas inspirados pelo folk das irmãs. Com toda a gente a cantar e a dançar, tivemos então mais um grande concerto no palco Giacometti, num dia que desde o início prometia grandes coisas.

Para nós a maior surpesa do festival revelou-se no concerto seguinte: Desbundixie. A banda de jazz (fortemente inspirada pelo movimento do Dixieland, mais facilmente caracterizado pelos temas oriundos de Nova Orleães nos anos 20 do século passado), fechou o palco Tarde ao Sol, num concerto tão cheio que até se viam pessoas a dançar no andar de cima da igreja. O conjunto de sete elementos deu um concerto fantástico, tocando clássicos como “Royal Garden Blues” e “All of Me”. Ninguém parou de dançar, havendo até dois casais seguidores da banda que deslumbraram todo o público com os seus passos de dança no meio da multidão.

Após Desbundixie sentimos que precisávamos de descansar, por isso descemos ao Auditório, onde infelizmente não conseguimos assistir a nenhum concerto. Dor acentuada pela quantidade de vezes que passamos por Joana Sá neste quarto dia, mas aproveitamos para assistir a algumas Curtas em Flagrante, projeto onde são mostradas algumas curtas realizadas independentemente, por criadores lusófonos.

Já jantados, fomos assistir a Les Crazy Coconuts, que se preparavam para obrigar o público a dançar ao ritmo do sapateado do trio. De origem leiriense, este grupo deu um concerto que foi desde os ritmos mais simples do rock até alguns de dança um pouco mais complexos. Nunca tirando o pé do acelerador, o concerto fez toda a gente saltar de um lado para o outro até ser (infelizmente) hora de acabar.

Embora tenhamos ficado tristes por Les Crazy Coconuts ter terminado, não foi durante muito tempo, visto que em seguida veio o concerto de Jorge Palma. O músico de renome, atualmente faz-se acompanhar por um grupo de jovens e cremos que isto seja pelo melhor. Parece que deram uma nova energia ao músico e origem a uma maior dinâmica em palco. O concerto começou com alguns clássicos, seguidos de dois temas a solo no piano, que serviram para mostrar que mesmo com 66 anos o músico não está perto de parar, continuando tão genial como há 20 anos. O concerto continuou sempre animado e culminou num encore onde o artista fez o público gritar do fundo dos seus pulmões ao som de “Jeremias o Fora-da-Lei”, “A Gente Vai Continuar” e “Picado Pelas Abelhas”.

SETLIST JORGE PALMA
O Fim
Dormia Tão Sossegada
Eternamente Tu
Cara D’Anjo Mau
Quarteto da Corda
Dá-me Lume
Escuridão
Estrela Do Mar
Terra dos Sonhos
Frágil
Deixa-me Rir
Encosta-te a Mim
Portugal, Portugal
Jeremias, o Fora-da-Lei
A Gente Vai Continuar
Picado Pelas Abelhas

Fechando os palcos principais do festival, os D’Alva trouxeram a sua boa disposição habitual à aldeia, obrigando todo o público a fazer barulho e a cantar os parabéns. Embora não tenha sido um dos nossos concertos favoritos do festival, reconhecemos o seu mérito e aplaudimos a energia do grupo em palco, que conseguiram fazer todo o público rir e saltar, enquanto a banda mostrava o seu amor pelo pop.

Chegamos ao festival sem saber muito bem o que esperar, mas em retrospetiva, podemos dizer que era tudo o que poderíamos pedir e mais.

Sem dúvida que este festival tem um ambiente muito especial, mágico de experienciar durante os 4 / 5 dias que durou. Toda a gente tinha sorrisos na cara, ninguém resmungava, sempre prontos a ajudar os outros. Tal como diz o slogan do festival, parecia que estávamos mesmo a viver a aldeia e não apenas a visitá-la.

Além da qualidade do ambiente, os concertos em si também foram, no geral, geniais. Finalmente, queremos também agradecer à organização do festival que nos recebeu de maneira excelente e sempre dispostos a ajudar.


Fotos dia 12 de agosto

Bons Sons '16 (1º dia)

Fotos dia 13 de agosto

Bons Sons '16 (2º dia)

Fotos dia 14 de agosto

Bons Sons '16 (3º dia)

Texto: Bernardo Sequeira
Fotografia: Rafaela Suzano