segunda-feira, 19 de setembro de 2016

[Review] Allah-Las - Calico Review


Calico Review // Mexican Summer // setembro de 2016
8.6/10

A banda californiana Allah-Las voltou aos discos. Após passagem em Portugal em 2015 e um interregno nos discos que parecia infindável, a banda volta com Calico ReviewUm álbum com uma exploração de novas texturas, com um soar diferente de música para música, que nos faz questionar: “Onde é que estão os Allah-Las?” 

Pois bem, andam por aí. Logo na primeira faixa, começam a mostrar-nos uma viagem calma pelo deserto entre os cactos e o calor com “Strange Hat”. Dão a parecer que tiveram muito tempo perdidos, em busca da sonoridade perfeita mas depois surgem com o que já estamos habituados. O bom psych revivalista dos anos 60 e 70.

Sempre assim, seguimos para "Satisfied", a segunda faixa deste álbum que conta com 13 músicas. Nesta o acompanhamento na voz pelos restantes membros da banda e o órgão fazem-se sentir e estamos num ambiente quente  que pede um mergulho. Talvez já o tenhamos dado em "Strange Hat", mergulhámos nas águas dos 60´s que Miles Michaud pretende. Também nesta segunda música temos oportunidade de ouvir um belo riff de guitarra que nos deixa calmos e relaxados.

As próximas duas que se seguem, “Could Be You” e “High & Dry” são semelhantes ao que temos em Worship The Sun de 2014 ou mesmo o álbum homónimo de 2012, com ritmos a lembrar os conhecidos KinksMonkeesMamas and The Papas. Revivalismo, psicadelismo que nos leva a Woodstock em 2016 como já tinham levado em 2014 e 2012.

Solos e riffs irreverentes, coros bem ensaiados, western e secura do deserto, é o que nos proporcionam sempre.

Próxima faixa que merece destaque pelo poder da guitarra é “Mausoleum”, estamos sentados no alpendre ouvindo estórias contadas enquanto o banjo soa a fazer o fundo, estórias de amor, de perda e de espera por amores não correspondidos. Na mesma temática, saímos do alpendre e vamos até uma festa sulista, “Roadside Memorial” traz-nos o ambiente festivo, talvez a música mais mexida e com instrumentos de sopro a integrarem a banda para o arraial ficar completo. Excelente uso de saxofones, trompetes, tudo.

Tudo em ordem neste Sul dos Allah-Las, não queremos sair agora, nem sentimos o calor até que chega “Autumn Dawn”. Esta é a faixa melhor obtida no álbum, faz-nos questionar se sem querer pusemos o Sgt. Pepper´s Lonely Hearts Club dos Beatles. O órgão tem um papel preponderante, marca o passo logo desde início e aí somos embalados para mais uma levada de coros transcendentes. É isso que os Allah-Las querem com este álbum e com tudo o que lançam, transcender.



Esta faixa é exemplo disso, parece que falaram com John LennonGeorge Harrison e Paul McCartney e estes lhes disseram como se fazia uma malha de bradar aos céus. Com altos e baixos de perder fôlego, acaba e temos de vestir um casaco. Começa a sentir-se o frio a partir de “Famous Figure Phone”, música que nos conta a história de Lisa, uma personagem que não é nem figura de revista, nem de televisão mas sim uma figura famosa do telemóvel. Fazem-nos a descrição de uma jovem esbelta, que qualquer jovem era capaz de ter um fraquinho. Aqui entram elementos como violinos a acompanhar a percussão e mais uma vez, tudo certo. Tudo bem organizado e nada fora de contexto.

Após esta faixa, há que dar importância a “Terra Ignota”, com uma letra a merecer relevância e uma guitarra a levar-nos a um passeio por estradas infindáveis. 

A viagem termina como começou, calma. Como que a ver o pôr-do-sol, a esperar pelo nosso amor como nos fala “Burning In Heaven”, estamos cá fora sempre à espera do nosso amor apesar de nos apercebermos dos nossos erros e estarmos sozinhos.

Ouvir este álbum foi “just another perfect day” como dizem na última faixa. A banda está dentro do revivalismo psicadélico californiano e começa a ganhar nome pela sua sonoridade. Um álbum consistente que finca os géneros, que se mostra sempre introspetivo e relaxado, algo a que nos habituaram em 2012.

Agora talvez, por superstição devêssemos esperar até 2018? Allah-Las e números pares, resulta.

Texto: Duarte Fortuna