domingo, 16 de outubro de 2016

Reportagem: Nothing + Ricardo Remédio [Cave 45, Porto]


Foi no dia 8 de Outubro que os norte-americanos Nothing passaram pelo Cave 45, no Porto, para apresentar o segundo disco de estúdio Tired of Tomorrow, depois da estreia nacional marcada no Musicbox no dia anterior. Com um álbum poderoso para apresentar, os Nothing trouxeram de volta as sonoridades shoegaze presentes no disco Guilty of Everything, mas com uma paixão e dedicação notória e mais presente que o seu primeiro disco, com letras mais sentidas e de grande carga emocional que refletem o passado negro de Palermo e as suas vivências ao longo destes quatro complicados anos após a saída da prisão, onde esteve recluso durante dois anos. No entanto, a produção deste novo disco trouxe uns Nothing mais motivados, mais enérgicos e claramente mais dedicados, com a sua sonoridade a transmitir uma certa sensação de brilho e esperança. Esta sensação de tranquilidade e frescura mostrou-se bastante presente durante o concerto, com Palermo bastante animado e feliz por se encontrar no Porto pela primeira vez, comunicando com regularidade e com humor sempre presente.

Ao som do piano de "Tired of Tomorrow", uma das mais belas canções do repertório da banda, os Nothing entraram então em palco para interpretar de seguida dois dos melhores temas deste novo disco, com “Fever Queen” e a inspiradora “Vertigo Flowers” a fazerem-se se sentir nos subterrâneos do Cave 45. Depois de uma breve passagem por “Chloroform”, tema pertencente ao split colaborativo com os Whirr, de quem faz parte o baixista Nick Basset, os Nothing regressaram novamente aos temas do mais recente disco, desta vez com a poderosa “The Deads Are Dumb”. Mas não foi só de “Tired of Tomorrow” que se fez o concerto, com a banda a relembrar os temas de “Guilty of Everything” com uma das maiores malhas deste disco. “Get Well” surgiu então para criar alguma agitação no público com o único avistamento de crowdsurfing da noite, provando que o público do Cave 45 não se fazia apenas de fãs desta nova fase dos Nothing. Afinal, estamos a falar de uma das bandas mais desejadas e sugeridas pelos seguidores da Amplificasom, que foi encarregue de trazer os Nothing pela primeira vez a Portugal e que trouxe já este ano bandas como The Body, Full of Hell, Deafheaven, Sun Kill Moon, entre outros. “Eaten by Worms” seguiu-se, com os riffs sujos e pesarosos a fazerem-se arrastar pelas paredes da sala, onde Palermo desceu do palco para se juntar e cantar ao pé do público que o assistia. O som, claro, encontrava-se bem alto e a distorção é elemento mais que presente na música da banda, contribuindo para uma certa absorção por parte do público que opta por sentir o concerto de modo mais introspetivo, apesar do som abrasivo de passado claramente hardcore da banda. Já próximo do fim, ouve-se ainda “A.C.D (Abcessive Compulsive Disorder)”, aquela que é, talvez, a música mais representativa do último disco e uma das favoritas do público.  Depois de mais uma passagem pelo seu primeiro disco com "Bent Nail", seguiu-se“Curse of The Sun”, pondo fim a um concerto sem encore.



Os Nothing conseguiram assim uma passagem marcante e memorável, afirmando-se mais uma vez como uma das maiores bandas do panorama da nova música shoegaze, capazes de criar canções extremamente interessantes e emotivas. A sua música é nos familiar e não traz algo de novo ao estilo, mas a sua sonoridade é detentora de uma clara identidade e não cai no erro de se tornar repetitiva e saturante. Os Nothing estão mais consistentes e presentes do que nunca, e a sua passagem pelo Porto foi prova disso mesmo.

Antes de Nothing houve ainda tempo para ouvir o set de Ricardo Remédio, que regressou aos palcos o ano passado e que se apresenta agora em nome próprio depois de atuar como RA. Membro dos recém-regressados LÖBO, Ricardo Remédio apresentou-se em palco num set curto para uma plateia ainda pouco composta e não muito atenta, conseguindo mesmo assim uma atuação interessante onde nos presenteou com as suas paisagens ambient negras, de devaneios synth e com baixos a fazerem-se sentir, capaz de gerir grande interesse e curiosidade pelo seu novo trabalho, apesar de se demonstrar ainda um pouco verde e longe de atingir todas as suas potencialidades ao vivo.


    A reportagem fotográfica é da autoria da WAV e podem consultá-la aqui.

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Bruno Pereira (WAV)

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