domingo, 6 de novembro de 2016

Reportagem: 65daysofstatic + Thought Forms + Teebs [Jameson Urban Routes, Musicbox - Lisboa]


As noites continuavam quentes pela capital e nós estavamos entusiasmados com os concertos que se avizinhavam no Jameson Urban Routes. Nós e muito mais gente, dado que o Musicbox se encontrava bem apinhado.

Chegámos por volta das 21h35 e já se encontravam em palco os britânicos Thought Forms. A banda oriunda de Bristol veio até terras lusas inserida na tour europeia dos 65daysofstatic apresentar o seu terceiro longa duração Songs About Drowning, editado nos primeiros dias de Novembro. Neste novo trabalho a banda contou com um quarto elemento, Jim Barr, baixista dos Portishead, com quem andaram em tour pela Europa e América do Norte em 2011. Jim foi também o produtor de Songs About Drowning,  sendo responsável por uma mudança na sonoridade do trio. Tornaram-se mais atmosféricos e hipnóticos, deixando de lado o som mais cru e distorcido do shoegaze.

Sendo caracterizados pela sua lenta progressão sónica, os Thought Forms presentearam-nos ao vivo com um som bem agressivo, riffs que pesam toneladas nos nossos ouvidos, característicos do stoner ou mesmo do doom, e muita distorção. Na segunda música, um baixista juntou-se à banda e a experimentação subiu para o nível de uns Sonic Youth. A bateria violenta, os riffs lentos de guitarra e a voz imaculada de Charlie puseram num estado de transe do qual não queriamos sair tão cedo. Em "The Lake" a sonoridade tornou-se mais espacial com riffs harmoniosos a lembrar uns Pink Floyd.


No final do concerto a banda que visitou Lisboa pela primeira vez agradeceu ao público, ao Jameson e aos 65daysofstatic. Em meia hora interpretaram de modo exímio quatro temas, mas isso soube a muito pouco. Exigimos o regresso de Charlie Romijn, Deej Dhariwal e Guy Metcalfe num futuro próximo.

Pouco passava das 22h30 quando o quarteto inglês 65daysofstatic aterrou no Musicbox. Donos de uma sonoridade que junta o pós-rock à música electrónica, gostam de inovar dentro do género e recorrer a drum machines e sintetizadores. O concerto começou com "Monolith". E que forma épica de iniciar esta viagem espacial!

A faixa de abertura da banda sonora do videojogo No Man’s Sky destacou-se pela forte presença dos sintetizadores etéreos e pela percussão tribal. Continuando na senda espacial, "Asimov" foi o tema que se seguiu, com a sua bateria ritmada a querer sugar-nos para uma espécie de limbo. A banda começou o concerto da melhor maneira possível, conquistando logo ali o público.



Dando continuidade às músicas com forte componente eletrónica, chega a "Prisms" de Wild Light (2013). Com uma introdução ao jeito do experimentalismo eletrónico dos Health, este foi outro dos temas que demonstrou a força brutal dos 65daysofstatic em palco. "Install a Beak in the Heart That Clucks Time in Arabic" trouxe-nos à memória um dos álbuns mais conhecidos da banda, The Fall of Math (2004). Agora num registo mais sereno, o piano juntou-se as guitarras e ao baixo, para um tema mais virado para o post rock genérico. "Undertown", num registo mais etéreo, e "I Swallowed Hard, Like I Understood" foram os temas que se seguiram. Sempre muito simpáticos no final de cada música com os habituais "Cheers" e "Thank You", Joe Shrewsbury contou-nos que já tinha estado em Portugal há 10 anos atrás mas que não tinha sido tão emocionante como esta noite.

O concerto foi prosseguindo, focando-se essencialmente em temas de Wild Light e da banda sonora de No Man's Sky, como "Sleepwalk City", "Wild Light", "Supermoon"e "Helio". Houve também tempo para One Time for All Time (2005) entrar em cena com a música "Radio Protector". Joe arregalava os olhos para poder acreditar na reação apoteótica do público à atuação da sua banda, desfazendo-se em obrigados. "Safe Passage" deu por terminada a primeira parte do concerto mas o público pediu por mais e teve direito a mais. 



A banda presenteou-nos com um encore de duas músicas, "Crash Tactics", de We Were Exploding Anyway (2010) e o clássico "Retreat! Retreat!" de The Fall of Math. Ao todo foi uma hora e meia em que não faltaram crescendos épicos e atmosferas calmas e espaciais. Uma das grandes atuações deste 10º aniversário do Jameson Urban Routes.

A noite já ia longa mas não iamos perder por nada deste mundo a passagem de Teebs pela sala lisboeta. Teebs é Mtendere Mandowa, pintor e produtor musical que atualmente se encontra inscrito nos rosters da Brainfeeder e da Ninja Tune — duas das instituições mais reputadas da IDM atual. A sua sonoridade é um pastiche composto por várias camadas. Camadas sonoras que oscilam entre os universos do hip hop típicos da Brainfeeder e a eletrónica ambiente e sonhadora, com espaço suficiente entre elas para deixar entrar o sol e a cor. 


As texturas que utiliza transportam-nos para paisagens distantes, onde a instrumentação tem o papel de apaziguar as nossas ânsias (ou não fosse “Paz” o seu primeiro nome, quando o colocamos num tradutor do dialeto Chichewa) e não de nos inquietar. E depois de uma hora de música introspectiva e livre, sentimo-nos também em paz após Teebs ter terminado o seu set no Jameson Urban Routes. A melhor maneira para acabar este dia dedicado ao rock mais enérgico e espacial. 

65daysofstatic + Thought Forms + Teebs @ Jameson Urban Routes 2016

Texto: Rui Gameiro
Fotografia: Daniela Oliveira

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