segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Reportagem: Black Bass – Évora Fest 2016


Demorou três anos, mas finalmente pude ir passear a Évora.

Não, não fui com intenção de tirar uma selfie no Templo Romano, ou na Sé Catedral. O objetivo desta viagem era estar presente naquele que é um dos festivais mais subvalorizados no contexto da musica underground portuguesa. Claro, estou a falar do Black Bass.

Este festival organizado pela Pointlist, responsável pelo agenciamento de concertos das mais variadas bandas como Sunflowers, 800 Gondomar, Dreamweapon ou Miami Flu, e que já contou com a presença de diversas bandas como Killimanjaro, 10 000 Russos, Savanna, Riding Pânico, Modernos e Stone Dead, estava a festejar o seu terceiro ano de vida.

Infelizmente, não tive oportunidade de estar presente no aquecimento do festival, que contou com as atuações de Moon Preachers e o supergrupo chamado Dinozorg (por vezes as responsabilidades universitárias sobrepõem-se ao rock).

Dia 1

Depois de cinco horas dentro de um autocarro e de atirar as mochilas para cima da cama do hostel, como quem já estava farto de perder concertos (Acid Acid já tinha terminado por esta altura), estava com muita vontade de ouvir música. Pouco tempo depois de ter pisado terra já estava com a pulseira no pulso e pronto para disfrutar do ambiente JAA (Sociedade Operária Joaquim António de Aguiar).

Ainda não tinha visto nenhum concerto e já estava rendido à simpatia de todo o staff, desde as pessoas que estavam na bilheteira, até ao pessoal que estava a vender merch, sem esquecer o senhor que estava a vender finos (sim senhor das suíças, estou a falar de si). Tal como os anos anteriores o primeiro dia foi dedicado às sonoridades mais brutas, nomeadamente o stoner rock.

Big Red Panda

O concerto da banda de Ponte de Lima começou sem dar perdão a ninguém. Parecia que uma nave espacial alienígena tinha raptado todos os espetadores da sala eborense e nos tinha levado numa viagem pelos confins do cosmos. Esta sensação durou sensivelmente a primeira música, uma vez que no restante set da banda foram exploradas sonoridades menos abstratas e mais viradas para o blues e stoner. Trocámos as paisagens espaciais por um bar de whisky em Nova Orleães. Apesar da qualidade dos intervenientes, a mistura de som retirou alguma qualidade ao concerto, sendo que o sintetizador de Gonçalo Palmas estava demasiado alto e abafava os restantes instrumentos.


  

Astrodome

Se Big Red Panda pecou pela falta de combustível durante as viagens espaciais, Astrodome compensou esta viagem com uma viagem que durou da primeira à última nota do concerto. Com a line-up renovada, que conta agora com Kevin Pires, guitarrista dos Big Red Panda, este quarteto deixou tudo em palco e apresentou um dos melhores concertos do festival. As malhas mais viradas para a lentidão e o esmagador volume típico das bandas de stoner foram bem recebidas por um público, que apesar de não ser o mais energético, tinha entregado o seu espirito à banda e ascendido a um estado de meditação.

A set list consistiu em músicas retiradas do seu magistral álbum de estreia homónimo. As performances foram irrepreensíveis com cada música a servir o próximo, brilhando desta forma em coletivo. Até o baterista teve oportunidade de brilhar com um solo a lembrar reminiscências da agressividade da bateria do Dave Grohl no álbum Songs For The Deaf dos Queens of the Stone Age. Um dos principais conjuntos stoner do pais que mostram que não é preciso a presença de um vocalista para apresentar um concerto forte e interessante.




The Black Wizards

Esta foi a quarta vez que vi The Black Wizards no espaço de 4 meses e juro que nunca me farto de os ver em cima de um palco. Ainda sem músicas novas para apresentar mas com muita energia e vontade de mostrar o seu trabalho. Apesar dos constantes problemas com o som, a banda apresentou o seu set composto por músicas do álbum de estreia Lake of Fire. Não faltaram temas como “Gipsy Woman” ou “Lake of Fire”, nem o incontornável solo de bateria da Helena Peixoto.

Apesar dos problemas de som que fizeram com que Joana Brito (vocalista e guitarrista da banda) tivesse que se impor, com cara de poucos amigos, várias vezes durante o concerto e o aparentemente curto tempo em que estes estiveram em cima de palco, o público aproveitou ao máximo, abrindo até um moche pit no final, que depressa se transformou num ringue de patinagem por causa da cerveja vertida no chão. Apesar da desilusão da curta duração do concerto, este foi sem dúvida um dos melhores momentos do festival.



Dia 2

Sun Blossoms

O segundo dia de festival deixou de parte as sonoridades mais pesadas e envolveu-se em terrenos mais psicadélicos e garageiros. O primeiro artista do dia mostrou a evidente mudança no som. Esta banda é o projeto de Alex Fernandes e é uma carta de amor às suas principais influências como os Brian Jonestown Massacre, os Galaxie 500 banhados com estéticas de artistas mais recentes como Ty Segall, White Fence ou os Allah-Las.

Apesar de no início a audiência não estar muito composta, Alex, apresentou a mesma postura como se estivesse perante um público esgotado no palco secundario no Paredes de Coura (um palco que assentava lindamente debaixo das suas sapatilhas). Este veio mostrar o seu álbum homónimo de estreia, sem dirigir uma única palavra ao público e com alguns problemas técnicos, apresentou aquela que foi uma das melhores surpresas do Black Bass.




Clementine

Depois de Sun Blossoms saí do local dos concertos para apanhar um bocado de ar. Quando voltei a subir uma onda de pontos de interrogação pairaram sobre a minha cabeça. “A Kim Gordon veio a Évora?” Mas não, eram apenas as devotas fãs de riot grrrl Frankie Wolf (baixo e guitarra) e Lena Huracán (bateria) que em conjunto se transformam em ClementineCom um som a transpirar a post rock à la Parquet Courts só que com a Kim Gordon na voz, estas mulheres não perdoaram por um segundo o público eborense e apenas permitiram o público voltar a respirar quando terminaram o seu set e voltaram para os bastidores. Só faltou a cover da “I Wanna Be Your Dog”.




Evols

Quando entrei na sala para ver Evols, já o concerto ia avançado. A primeira reação, para além do choque sónico que as guitarras produziam na nossa tromba, foi deduzir que esta banda se situava num patamar etário superior ao das bandas anteriores (e que o Rafael Ferreira dos Glockenwise empunhava o baixo na mão). Este facto traduzia-se na maneira incrível como a banda tratava os instrumentos com a experiência de alguém com os dedos já muito calejados. Embora tenha apanhado apenas a última metade do concerto, seguiu-se uma chuva de shoegaze psicadélico e de drones hipnóticos. A expressão que melhor descreve o concerto foram os olhos arregalados da assistência após a última nota ter sido tocada, reflexo da libertação da hipnose que os Evols provocaram em todos os que estavam na assistência.




Alek Rein

Se este fosse um artigo apenas sobre Alek Rein eu começaria com um titulo algo do género “Dêem o mundo ao Alek Rein” ou uma hipérbole parecida.

E realmente, o jovem Alexadre Rendeiro merece, mas para já enquanto não possui um mundo dele, está a criar o seu próprio universo com uma voz a lembrar John Lennon e uma guitarra tocada ao de leve por um fuzz olímpico. Sim, toda esta descrição bonita indica que este foi o concerto da noite, e juntamente com os Astrodome, o melhor desta edição. Se o álbum Mirror Lane, lançado em finais de setembro, conjuga a delicadeza do acústico com a energia do elétrico, ao vivo o concerto funciona todo à base da energia, mas sem nunca esquecer a essência original. 

A setlist baseou-se neste álbum e todas as músicas soaram a frescas, sendo todas recebidas em nota alta, destaque para “Vermillion Bird of the South”, momento mais épico do álbum de Alek e que ao vivo funciona ainda melhor. Tenho pena das pessoas que não conseguiram ver Alek Rein neste tipo de ambiente porque sem dúvida que dentro de pouco tempo este dará o salto para salas maiores e lugares bem altos de festivais de Verão.




Fugly

Depois de Alek Rein era complicado superar a tarefa de apresentar um concerto melhor, e Fugly pode não ter sido superior em qualidade, mas pelo menos manteve a fasquia bem alta com a sua excessiva energia. Já tinha ouvido em casa o álbum de estreia destes rapazes, intitulado Morning After, e tinha ficado desiludido porque sempre me disseram que “Fugly é uma jardo do carago” e a versão em estúdio estava apenas a meio gás. Depois do concerto encerrei o debate que existia dentro de mim. Tinha razão. Fugly ao vivo é uma jarda do carago. Fugly em estúdio tem muito que trabalhar. “Morning After”, primeira faixa do álbum e do concerto, é o isqueiro que dança com a garrafa de álcool etílico que é o público. Após esta faixa não há volta a dar, os saltos, o crowdsurf e os moches só acabam quando Pedro Feio (Jimmy para os amigos) mandar.



Quelle Dead Gazelle

Mais uma vez, após um concerto dos diabos, continuou a incógnita no ar. Será que as bandas que se vão seguir tem o que é preciso para não baixar a fasquia.

Qer Dier desiludiu e não foi o suficiente para apanhar a minha atenção. Contudo Quelle Dead Gazelle fez o que parecia impossível saltando por cima da fasquia, atirando-a para cima do quintal da vizinha.

Miguel Abelaira e Pedro Ferreira apresentaram-se como duo empunhando em cima de palco apenas uma guitarra, uma bateria e uma vontade diabólica de por toda as pessoas a dançar. A banda que causou grande surpresa nos concertos da vila no Vodafone Paredes de Coura parecem continuar a querer justificar o hype que lhes tem sido atribuído com concertos de grande energia que obrigam todos os festivaleiros a irem para casa tomar banho para não dormirem inundados em suor.

O encerramento adequado para mais uma edição do Black Bass que apesar de limitada pelos concertos curtos e problemas de som, vai deixar marca pelas performances sentidas e pela enorme simpatia e entrega do público do festival. Podem esquecer todos os convites que me tenham para fazer, já deixei marcado dormida no Good Mood Hostel para no próximo ano voltar a Évora e passar novamente um fim de semana inesquecível.


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