sábado, 24 de setembro de 2016

Truckfighters de regresso a Portugal, para dois concertos


 Vindos da Suécia e depois de uma actuação de luxo na última edição do Sonic Blast Moledo, os Truckfighters voltam aos palcos nacionais, nos dias 5 e 6 de Novembro, para mais momentos explosivos. O primeiro dia será reservado no Stairway Club, em Cascais e, no segundo, na Cave 45, no Porto. 
A banda está prestes a lançar novo álbum, tendo ingressado numa digressão pela Europa. As bandas de abertura são os We Hunt Buffalo e os Witchrider, duas razões para comprar os bilhetes, que custão 15€ e já estão disponíveis no site Ticketea, nas lojas Vinyl Experience, Glam-o-rama Rockshop e Flur e ainda nos respectivos locais dos concertos.



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noiserv regressa em outubro com novo disco


Três anos depois da edição do último longa duração, noiserv regressa com disco novo. 00:00:00:00 é o nome do sucessor de Almost Visible Orchestra, e é descrito pelo músico lisboeta como “a banda sonora para um filme que ainda não existe, mas que talvez um dia venha a existir”.

Neste disco noiserv substitui a sua tão característica "orquestra de sons" para nos mostrar um piano tocado a muitas mãos e uma voz que nos conta histórias em português. O artwork ganha uma posição de destaque onde a sua total transparência, de cor mas não de contéudo, reforça a ausência do filme ainda por fazer com a história de qualquer um de nós.

Oito canções perfazem 00:00:00:00, um dos discos mais conceptuais do músico lisboeta. “VINTE E TRÊS” é o segundo single, depois de em finais do mês passado ter sido apresentada a música “SETE”. O lançamento está marcado para o dia 28 de Outubro e o concerto de apresentação será a 10 de Novembro no Teatro Municipal São Luiz, em Lisboa. Consultem em baixo as datas dos próximos concertos do artista.



Próximos concertos:

14 OUTUBRO - Centro de Arte de Ovar (PT)
29 DE OUTUBRO - Festival de Giverny, Giverny (FR)
5 NOVEMBRO - Casa do Povo de Santo Estêvão, Tavira (PT)
10 NOVEMBRO – Teatro Municipal São Luiz, Lisboa (PT) | Lançamento 00:00:00:00
12 DE NOVEMBRO - Stereolux, Nantes (FR)
13 NOVEMBRO - La Sirène, La Rochelle (FR)
17 NOVEMBRO - Cineteatro Alba, Albergaria-a-velha (PT)
19 NOVEMBRO - Centro das Artes do Espectáculo | Sever do Vouga (PT)
25 NOVEMBRO - La Gare de Coustellet, Maubec (FR)
27 NOVEMBRO - Usopop, Sare (FR)
28 NOVEMBRO - Librairie Le Festin Nu, Biarritz (FR)
29 NOVEMBRO - Les Treize Arches, Brive (FR)
02 DEZEMBRO - File 7, Magny-le-Hongre (FR)
08 DEZEMBRO - Le Temps Machine, Joué-lès-Tours (FR)
09 DEZEMBRO - Fuzz'Yon, La Roche-sur-Yon (FR)
10 DEZEMBRO - Les Échappées, Lorient (FR)

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Nicolas Jaar vai editar novo álbum Sirens para a semana


Nicolas Jaar está a preparar o lançamento do sucessor de Pomegranates, banda sonora alternativa do filme The Colour of Pomegranates, de Sergei Parajanov, que o produtor editou no ano passado. Sirens é o nome do novo álbum de estúdio e tem lançamento agendado para 30 de setembro pelo selo da editora de Jaar, Other People

Sirens conta com 6 canções novas com um total de 42 minutos de duração. Esperemos que venha aí algo do calibre de Space Is Only Noise (2011) ou do seu projeto paralelo com Dave Harrington, Darkside, agora extinto.

Foram também disponibilizadas quatro art-covers deste novo álbum, que será colocado no ar nos próximas dias no Channel 333 da radio misteriosa de Jaar. Consultem a tracklist de Sirens em baixo.


Sirens:

01 Killing Time
02 The Governor
03 Leaves
04 No
05 Three Sides of Nazareth
06 History Lesson

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Thurston Moore tem novo single


O guitarrista Thurston Moore vai editar uma cassette de edição limitada e exclusiva para o Cassette Store Day que vai conter dois singles inéditos. A cassette foi produzida com o intuito de apoiar os esforços para libertar um ex-soldado do exérito amerciano, Chelsea Manning (que está a enfretar uma prisão de 35 anos por compartilhar dados e informações no WikiLeaks).

 "Chelsea's Kiss", o single de apresentação do novo trabalho já está disponível para escuta. A cassette intitulada de Free Chelsea Manning é editada a 8 de outubro via Blank Editions.


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Oathbreaker e WIFE regressam a Portugal em novembro


Os belgas Oathbreaker estão de regresso a Portugal para dois concertos, depois da sua passagem pela edição de 2016 do Amplifest  e trazem a companhia de WIFE, projeto a solo de James Kelly (ex Altar of Plagues). Os concertos, que contam com a organização da Amplificasom, têm data marcada para 26 de novembro em Lisboa e 27 de novembro no Porto.

Na bagagem os Oathbreaker trazem o novo disco Rheia (terceiro na discografia e a editar no próximo dia 30 de setembro) e apresentam-no no Musicbox e Cave 45. Por sua vez, WIFE traz, aos mesmos espaços, o seu mais recente EP Standard Nature, editado pela Profound Lore.




Os bilhetes já se encontram disponíveis para compra online em amplificasom.com/amplistore e custam 15€ (preço único).

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Braga Music Week já tem cartaz fechado


A edição de 2016 do Braga Music Week, que decorre de 30 de setembro a 8 de outubro, já tem o cartaz completo. À quarta edição a organização dedica o tema do festival aos 50 anos de lançamento de Revolver, dos The Beatles. O projecto, organizado em conjunto por várias entidades com provas dadas no panorama musical nacional, rompe com géneros, idades e preconceitos e abre as portas a alguns dos locais mais improváveis, entre moradias privadas, casas abandonadas e espectáculos em algumas das ruas mais emblemáticas da cidade.

A programação conta com artistas locais, nacionais e internacionais, de entre os quais se destacam os suecos Bottlecap, os portuenses The Sunflowers ou Killimanjaro, de Barcelos. Na maioria dos eventos a entrada é livre, por isso basta aparecer.

A programação completa pode ser consultada aqui.


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MEMO apresenta: Três a Solo no Garrett


Peixe, Homem em Catarse e De Turquoise são os três músicos solistas que vão participar na primeira edição do Três a Solo no Garrett, um evento organizado pela MEMO - promotora local que tem como objetivo dinamizar e contribuir positivamente para a diversidade artística e cultural fora dos grandes centros urbanos.

Os três músicos tocam a 7 de outubro pelas 21h30 no Cine-Teatro Garrett, em Póvoa de Varzim, num concerto que se pretende intimista e de contacto com o público da cidade e da região. Os bilhetes têm um preço de 7,50€ (preço único para a plateia) e dão acesso a uma bebida gratuita no Rouge Pub. Todas as informações adicionais aqui.

Peixe
Peixe é o cabeça de cartaz do espetáculo. O ex-guitarrista dos Ornatos Violeta tem já uma extensa carreira em diversos projetos musicais (Pluto, Zelig, Orquestra de Guitarras e Baixos elétricos da Casa da Música) e, desde 2012, apresenta-se como artista a solo, com dois álbuns editados: Apneia (2012) e Motor (2015). 




Homem em Catarse
Antes, o palco é tomado de assalto pelo barcelense Homem em Catarse. Conhecido pela sua total entrega nos concertos, ruma à Póvoa de Varzim para apresentar o seu mais recente trabalho Guarda-Rios (2015). 




De Turquoise
A primeira parte deste espetáculo tripartido está a cargo de De Turquoise, a última forma assumida por André Júlio Teixeira, músico, performer e multi-instrumentista vila-condense.


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[Review] Nothing - Tired of Tomorrow


Tired of Tomorrow // Relapse Records // maio de 2016
9.0/10

O trajecto que a Threshold tem vindo a percorrer não é omnisciente. Existem projetos de uma qualidade imensa que nos pura e simplesmente ignoramos que existem (somos, afinal de conta, humanos). Porém, existem algumas bandas que nós pura e simplesmente escolhemos ignorar. Até então, os Nothing eram uma dessas bandas. Até eles lançarem o Tired of Tomorrow, os Nothing nada significavam para nós (perdoem-nos a redundância). Talvez estejamos a ser muito duros com eles neste início de crítica.

Vamos por partes.

Durante um não muito curto período de tempo — do ano 2013 até ao meio do ano de 2015 — pareceu-nos que tanto os ouvintes como os músicos tinham redescoberto o shoegaze. Nesse período deu-se o regresso de todos os grandes: os MBV, os Slowdive, os Ride, e ainda houve espaço para um disco dos Medicine lá pelo meio. Além destes comebacks, surgiu um camião de bandas com inspirações dream pop/shoegaze: DIIV, Infinity GirlCloakroomPINKSHINYULRABLAST, Ovlov, CheatahsWildhoneyRingo Deathstarr…tudo bandas que fazem parte do fenómeno do nu gaze.


Assim como os Nothing.



Em 2014, este quarteto oriundo da parte mais merdosa de Filadélfia angariou a atenção dos media e dos ouvintes com o Guilty of Everything — o seu primeiro LP —, um disco que mistura as tonalidades emotivas e vocais do shoegaze com um compasso punk de fácil absorção. As músicas do mesmo foram escritas ao longo de um extenso período de tempo, repleto de tragédias: óbitos, consumo de drogas medicinais, copiosas quantidades de vinho tinto e os dois anos que Dominic Palermo passou atrás das grades.

Aquando da edição do Guilty of Everything, os Nothing definiam-se como “uma banda para pessoal que curte JesuGodfleshMy Bloody Valentine e Slowdive”. Essa definição transparece no álbum. O problema do disco é que esta característica é a única evidência que é transparente. Um disco que ser queria emotivo e poderoso soou-nos a pouco. Faltou emoção, poder de escrita, e contenção no barulho instrumental. 

Por isso, do Guilty of Everything ficou-nos na memória alguns refrões de dois ou 3 temas orelhudos que transpareciam a capacidade de composição musical dos Nothing. Mas aparte disso, nada mais há a destacar desse álbum. Guilty of Everything não estabeleceu nenhum novo patamar no género do nu gaze. Mas, pior que tudo, ficámos com a sensação nem sequer procurou fazê-lo, num exercício que, para nós, se revelou como um desperdício do potencial do coletiva. Se, com esse álbum, os Nothing tivessem investido tempo no estúdio e na escrita e se os astros se alinhassem, o Guilty of Everything poderia ter-lhes atribuído o estatuto de dignos herdeiros e sucessores de uma geração X agora (quase) extinta. Toda uma geração inspirada nos Killing Joke (e consequentemente nos Nirvana), nos My Bloody Valentine, nos Chapterhouse e nas narrativas cómico-trágicas dos Jesus and Mary Chain. Dessa senda, eles tornar-se-iam brilhantes intérpretes de uma fórmula que não só manifestaria uma frescura sonora dentro do revivalismo, mas ocupando o seu próprio espaço. Guilty of Everything seria um artefacto de preservação para memória futura. Um testemunho do rock alternativo dos 90's, de uma geração X quase extinta, da qual poucas bandas sobram e ainda menos souberam evoluir de forma digna para este novo milénio. 

Porém, os Nothing, na áurea luz da sua ribalta, preferiram desenvolver a sua faceta de trolls inconsequentes e niilistas auto-destrutivos. Encarnaram totalmente o papel de imbecis que não queriam saber de nada a não ser tocar música, adulterar o seu estado mental com álcool e drogas e abstraírem-se da realidade.



Os Whirr são a outra banda de Nick Bassett, o baixista dos Nothing.


Mas talvez isso seja compreensível. Já se perguntaram a vocês próprios o que fariam se toda a vossa vida estivessem envoltos na mais profunda miséria, desesperados e, de repente, alcançassem a fama e a riqueza? Sairiam do buraco em que estavam? Enterrar-se-iam mais? Começariam do zero? Começariam de todo?


"Really, it goes back to just after our first album, Guilty of Everything, came out two years ago," Palermo explains. "There was just months and months of touring piled on top of each other; there was lots of partying and avoiding any real-life stuff, and I kind of stopped dealing with reality."
Reality came rushing back on the night of May 19th, 2015, when "four or five big guys" approached Palermo following the band's gig at the Oakland Metro in Oakland, California, and asked if they could use his phone. "I know what that is, you know?" Palermo laughs. "I grew up in Kensington [a rough Philadelphia neighborhood], and I'm pretty sure we invented that move. You do it, and you're not getting your phone back!"
When Palermo refused to hand it over, the men responded by beating him up so badly that he required lengthy hospitalization. "I had a fractured orbital, a fractured skull, fractured bones in my back," he explains. "I had 19 staples in my head, and they had to sew my ear back on; I'm fucked up on all these painkillers, I'm alone because the rest of the band had to drive back to Philadelphia, and I'm just sitting there in this hospital in Oakland dealing with the reality of everything."
Entrevista de Dominic Palermo à Rolling Stone.
“The second we found out we could make money and not have to work, just drive around and play music, we forgot about everything else,” says Palermo. “We drank every day, hung out every day — flying here, driving there — pushing the envelope as much as we possibly could.” 
Then, outside a West Oakland club, after another triumphant show, it almost all ended.“When all of a sudden you’re in a hospital, in awful pain, on drugs, with tubes in you … big, swollen head like a watermelon … you learn, ‘OK, maybe you have to push back a little bit.’ 
Entrevista de Dominic Palermo ao Seattle Times. 

Durante a sua hospitalização, Palermo iniciou/foi forçado a um longo período introspectivo, movido a analgésicos e leituras de Burroughs. Essa combinação fez com que a mente de Palermo começasse a distanciar da cama a que foi confinado, da dor que sentia — tanto emocional como psicológica — e que, mais uma vez, esta se concentrasse na música e na escrita, o seu eterno escape. Foi durante esse período que começaram a ser escritas as letras de Tired of Tomorrow

À sua hospitalização, seguiu-se um período de hiato na região de Big Sur. Mais álcool, mais drogas e episódios de vertigens — lembrança eterna da malha quase fatal de que foi vítima — assombraram Palermo. Depois disso, o regresso a casa — Filadélfia — e ao estúdio, para finalmente gravar Tired of Tomorrow. Mais dificuldades: mortes na família de Palermo e Bassett; episódios de vertigens que dificultaram o trabalho de gravação de vocais; a saída da Collect e o regresso à Relapse na sequência de uma polémica em que Martin Shkreli — o money-man da Collect — se viu envolvido. Todo o período que rodeia a gravação do disco pode ser acompanhado no documentário que os Nothing publicaram.

Fotografia da autoria de Reid Haithcock.

 A história do disco é esta. Eis que vos falamos agora da música que o disco contém.

Muito do que aqui está nós já ouvimos, na verdade. As guitarras a formarem uma parede sonora com a bateria a marcar o compasso (este é, aliás, o disco mais shoegazy dos Nothing até à data) que sustenta as letras deprimentes e niilistas saídas da mente dos seus atormentados arautos. Mas uma coisa mudou: a paixão com que todas estas emoções são libertadas. 



O álbum começa logo com 3 destaques: a "Fever Queen", o tema de abertura de disco mais explosivo e emotivo que eu ouvi este ano — e em algum tempo, para vos dizer a verdade; a "The Dead Are Dumb", uma balada na qual uma onda de nostalgia me faz confundir a linha de baixo com a da faixa de abertura da icónica série Twin Peaks, esta da autoria de Angelo Badalamenti; a "Vertigo Flowers", um dos malhões do disco e o single de estreia do mesmo.



Mas depois vem a "ACD (Abcessive Compulsive Dissorder) e, a acompanhar o tema, o videoclip mais gráfico e perturbador dos Nothing até à data — mais ainda que o do "Eaten By Worms". Pensamentos suicidas convivem lado a lado com a música dos Nothing. No vídeo, estes são a banda sonora de um.



Seguem-se a "Nineteen Ninety Heaven" e a "Curse of the Sun" (faixa que já teve direito a uma interpretação audiovisual). A "Eaten By Worms" já mencionámos anteriormente e, após esta, "Everyone is Happy"? Mentira. Depois dessa faixa, mais uma balada deprimente, a "Our Plague. O álbum fecha com a "Tired of Tomorrow", uma espécie de canto de cisne de álbum, uma faixa de beleza impar, sem dúvida a mais bonita que os Nothing lançaram até à data. É quando chegamos a esta faixa que nos apercebemos que tudo neles mudou. 

Se começaram a ler a crítica a partir daqui, a gente vai ser muito direta nas palavras: os Nothing deixaram de ser APENAS aquela banda para “pessoal que curte Jesu, Godflesh, My Bloody Valentine e Slowdive”. Com Tired of Tomorrow, eles não só elevaram a fasquia do nu-gaze atual, como subiram a um novo patamar: o de bastiões do género. Os Nothing são a maçã que caiu mais perto de todas as raízes, os mais brilhantes intérpretes do género atualmente. Senão, vejam tudo aquilo que foi aqui escrito anteriormente. Senão, ouçam os violinos e o piano na "Tired of Tomorrow" e digam-me que não ouvem lá ao longe a "Glycerine" dos Bush. Ouçam as duas faixas de bónus — "The Heavenly Blue Flu" e a "Tic Tac Toe" — e digam-me que não ouvem lá o "fuzzed out guitar rock of the 90's" apregoado na press release do disco. Mas acima de tudo, façam um favor a vocês próprios: ouçam o disco. Várias vezes.

Outra fotografia da autoria de Reid Haithcock.

Nascidos na geração X ou não, todos nós encontramos em Tired of Tomorrow alguma coisa que nos apela. As paredes sonoras envolvem-nos, embalam-nos. Mas nada retira o peso das palavras, que nos deprimem, isolam e que, de alguma forma, nos aproximam uns dos outros. Todos nós somos seres atormentados, sozinhos no mundo. E este disco narra a mais bela exaltação de uma mente solitária, atormentada pelos seus pensamentos, de que tenho memória. É um discurso direto de alguém que ainda estamos para perceber se procura sair do seu estado depressivo ou busca afundar-se cada vez mais nele. "Eu teria preferido o homem feliz aos poemas amargurados que ele nos deixou", foi o que Mardou disse a Leo sobre a obra de Baudelaire n'Os Subterrâneos. Quanto mais não seja, ficamos a saber que não somos os únicos que estamos a sofrer, revoltados, conformados no nosso silêncio. (In)felizes.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Reportagem: Pop. 1280 [Teatro Rivoli]



Os Pop. 1280 passaram na passada sexta feira pelo Rivoli para mais um concerto Understage em parceria com a Lovers & Lollypops, uma interessante iniciativa por onde já passaram nomes como Aisha Devi e Puce Mary pelo preço simbólico de 5 euros. Decorrido na sala ideal, num espaço bruto e com as estruturas metálicas que suportam o palco do Rivoli visíveis, os Pop. 1280 apresentaram-se pela primeira vez no Porto em mote de apresentação do disco Paradise, de 2015, assim como a mais recente cassete editada pelo grupo norteamericano, Pulse.

Ainda estavam apenas a testar o som e a experimentar os primeiros acordes e já se percebia que a coisa ia ser barulhenta. Volume no máximo e uma guitarra de som metálico e cortante faziam ecoar as paredes da sala. Já com a banda completa em palco, os Pop. 1280 não tardaram em apresentar os seus temas, com principal foco nas faixas de Paradise, um álbum mais interventivo e com uma sonoridade mais industrial, ignorando em grande parte os temas do seu trabalho anterior e do excelente primeiro disco The Horror
Ao segundo tema, os Pop.1280 revisitaram “Step Into The Grid”, retornando ao som menos arrojado e à produção mais crua dos seus primeiros lançamentos. Em “In Silico”, uma das faixas mais representativas do seu último disco, Chris Bug grita-nos de forma voraz “I dream in infra red”, demonstrando o lado mais crítico e consciente desta nova fase da banda.




O som apresenta-se no máximo de princípio ao fim, e a intensidade nunca desvanece durante todo o concerto. Chris Bug incentiva o público a aproximar-se do palco, proporcionando uma experiência mais próxima e calorosa com a banda. O espaço é mais do que apropriado para o tipo de concerto, e contribui em boa parte para o bom ambiente e experiência a que se assistiu. Num concerto relativamente curto, ouviram-se outros temas do mais recente disco, incluindo o tema de abertura “Pyramids On Mars”. Terminado o concerto, a banda regressou ao palco para um breve encore que contou com mais uma música apenas, tocada com toda a ferocidade presente no resto do concerto.


Os Pop. 1280 conseguiram, assim, uma passagem pela cidade do Porto que não terá desiludido ninguém, com muita energia do princípio ao fim e um som capaz de nos danificar os tímpanos, como seria de esperar. Não faltaram boas malhas post punk e muito noise de paisagens industriais e uma consciência política por parte dos seus membros que nos rugiram com as verdades cruas e feias da sociedade em que vivemos.




Texto: Filipe Costa
Fotografia: Renato Cruz Santos

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Reportagem: Supernova 2016 [Campus de Campolide, Lisboa]


Mais um ano e mais um Festival Nova Música, este ano sob o nome de Supernova graças à vasta oferta de cultural que existia no Campus de Campolide em Lisboa. Chegámos e já fazia um calor intenso, adivinhava-se uma tarde e noite bem quente e só bem atestados poderíamos então sobreviver.

Explorámos o espaço oferecido este ano pela organização, que englobava todos os edifícios do Campus, pela primeira vez na história do festival e ficámos no átrio perto da escadaria de economia, a apanhar a pouca aragem que corria, a conversar e a esperar pela hora da Cafetra Records nos presentear com os seus músicos.

Assim foi, pouco depois das 17 horas começava Funcionário, oriundo de terras setubalenses. Trouxe um ruído sonoro agradável que fazia parecer que estávamos todos dentro duma consola SEGA a ser controlados pelo artista. Os corpos mexiam-se consoante a melodia experimental ou mais ambient que este jovem nos apresentou apenas com o seu laptop e o seu teclado. Um bom exemplo de que de jovem se começa a fazer as pegadas para o futuro e é com essa mote que Funcionário faz a sua música, futurista, sem estar agarrado a géneros. Compõe e mostra o seu som e faz muitas vezes lembrar Inga Copeland ou mesmo Hype Williams.


Após este concerto, fez-se uma espera, uma vez mais no átrio onde estava a existir uma jam com Yan-Gant Y Tan, elemento crucial em álbuns como Isula de Sallim, juntamente com Sar, uma das cabeças desta editora discográfica que tem já selo marcado na vida lisboeta. Um set de jams cósmicas, música exploratória, a fazer lembrar Sun Araw. Existia ali um culto pelo espacial, sem linha, puro improviso mas com cabeça tronco e membros.


Observámos isto até que se começa a ouvir, nas Escadarias de Economia, a guitarra e a voz do amigo Éme, nome já conhecido pelas suas letras, que foram sempre cantadas por quem ouvia, e também pelas suas melodias melancólicas. Músicas de amor, da vida, da separação, esta é a especificidade da lírica e música cantada pelo guitarrista.  Doutor Éme tinha uma música para todos os gostos e feitio, e isso não desiludia a sala que ia enchendo.

Com o passar dos anos e após inúmeros concertos assistidos podemos dizer que Éme vem para ficar e tem Um Lugar na música portuguesa. Largou a etiqueta de "discípulo" de B Fachada e está pronto para deixar a sua marca. Consegue explorar a guitarra com perícia, parecendo muitas vezes Fausto ou Vitorino, virtuosos da guitarra se não quisermos falar de um grande cantautor Zeca AfonsoSempre animado, faz o seu set e espera-se por Dória, mas este encontrava-se atrasado pelo que existe momento de encore em que Éme diz-se sentir um verdadeiro "rockstar". Após este concerto, assistimos a um pouco do Workshop de Bollywood que acontecia no relvado e seguimos para a Garagem para assistir a um dos melhores concertos do Festival.


Seria então o concerto de Gabriel Ferrandini e David Maranha.

Descendo a garagem, que seria o recinto do concerto, entra-se num autêntico "Buraco Negro". As pessoas vão chegando e aproveitando os espaços para se sentarem. No centro existe apenas uma bateria, muitos pratos e um Moog. Na altura toda a gente pensava como seria suposto acontecer um espetáculo de jazz com aquele alinhamento de instrumentos. 

Pois bem, as portas fecharam-se, as luzes apagaram-se e começou o show. Na cabeça de muitos deve ter surgido logo aos primeiros toques na bateria e no Moog, um cenário apocalíptico, pós-sísmico,em que tudo tinha desabado e apenas existiam escombros entre o público. Puro jazz exploratório ou catastrófico, e que bem explorado era. As alternâncias faziam os corações bater, ora mais depressa ora mais devagar. Estávamos sozinhos, de olhos fechados, a ouvir estes dois virtuosos que poucos conhecem, a fazer o final de tarde no Supernova. 

Uma meia hora que soube a pouco mas que fez muita gente delirar. Alguns abandonavam a sala a meio, outros tentavam abstrair-se ao máximo. Música imprópria para cardíacos que no final fez com que se ouvissem "Excelente!" ou mesmo "Isto é música pura, isto sim."
Sem dúvida. Quem foi sentiu, e poderá acrescentar este concerto à sua lista de concertos do ano.


Após a saída surge a hora de jantar acompanhada por DJ set que passava músicas de Air, entre outros artistas. Parecia um picnic no Lux, um after antes do after. As horas passavam e do nada entraram os Bosque, banda vencedora do concurso deste ano promovido pela NOVA.

Deu para fazer música ambiente. Jovens sempre sincronizados, com uma voz forçada e com semelhanças super puxadas a bandas do panorama musical português como Capitão Fausto ou Ganso, deram um concerto para gente sentada e que conversava. Poucos eram os atentos às suas malhas. Às tantas chegou-se à conclusão que se fossem apenas instrumentais ainda se aproveitaria algo mas de resto nada a apontar. Um concerto que não aqueceu nem arrefeceu, concluindo também.


Em seguida surgiram os PISTA para salvar a noite e aquecer para a banda que iria fechar a noite, os Capitão FaustoUm concerto que foi uma festa, com as malhas do costume mas tocadas de forma exímia pela banda que cada vez mais tem o seu nome vincado na música portuguesa e que a cada concerto se afirma como "o melhor ciclista em prova", por assim dizer. Foi bike rock. Tocaram tudo o que tinham a tocar, Cláudio Fernandes fazia o público saltar, começam os primeiros moshs.

Pede-se "mais guitarra" a Cláudio ou músicas como "Queráute", uma das melhores malhas que faz alusão ao género musical criado na Alemanha, o krautrock. E PISTA fazem o favor e contribuem para um dos momentos da noite. Pessoal a sentir o pedal, a dar tudo como se diz na gíria. Acabam assim o seu concerto que não soube a pouco, não senhor, soube bem e caiu bem depois de um jantar pesado. 


Aproximava-se a hora e a impaciência do público começava-se a notar. Começava a existir um amontoado de pessoas no relvado inclinado do Campus de Campolide para receber a banda que todos gostam, que toca aquelas malhas que todos adoram, os Capitão Fausto. Depois da paragem em Paredes de Coura, o quinteto regressa aos tempos de escola para cantar os Dias Contados. Entram ao som de Kate Bush como já tinham entrado no Lux. Começa o massacre. Mosh música sim, música não, crowdsurf incessante. Não havia ninguém parado. Começam com uma faixa do novo álbum. 

À medida que as músicas passam, dá para reparar que a banda está entregue às feras, toda a gente conhece, toda a gente acompanha, canta, dança. As grades vão abaixo e começa a existir maior pressão por parte da segurança do recinto. "Os Capitão Fausto até desafinados têm malta a moshar e a cantar, é incrível" ouve-se alguém a dizer isto a um amigo na pausa entre músicas.

O momento da noite surge já a meio do concerto quando entre mosh e crowdsurf incessante a polícia desiste de insistir com o público. "Show must go on" diria Freddy Mercury se visse. Tocam músicas mais antigas e aí é o delírio. "Sobremesa", "Maneiras Más", "Lameira", todas tiveram espaço no vasto repertório apresentado. A banda agradecia a festa feita pelos que assistiam, muitos continuavam o mosh mesmo sem música. É esta a maior banda portuguesa? Arrastam multidões onde quer que vá. Note-se que esgotaram duas noites no Lux, entre outros espaços. Mas tudo tem o seu peso e a sua medida, há público e público, no Nova Música havia um público descabido que desafiou a lei, literalmente, e fez a festa à sua maneira.

Acabam o concerto com um encore onde tocam músicas mais conhecidas como "Amanhã Estou Melhor", "Alvalade" e ainda músicas mais antigas.


Assim acabou mais um Nova Música. Foi Supernova, quente do início ao fim. Que o Nova Música chame sempre por nós.

Supernova 2016

Texto: Duarte Fortuna
Fotografia: Daniela Oliveira

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Reportagem: Reverence Valada - 10 de setembro


O terceiro dia do Reverence Valada marcou uma grande diferença no ambiente do festival. Era clara a mudança no guarda roupa quando observávamos as dezenas de fãs de The Damned e Sisters of Mercy, ora com trajes mais requintados de estilo gótico ou o típico fã de punk com cristas enormes.

O último dia ficou marcado pela desorganização causada pelo cancelamento do concerto de Killing Joke, o que levou a que bastantes concertos tivessem que trocar de palco e horário sem aviso prévio. Apesar da quantidade de bandas incríveis ter diminuído havia ainda muitos concertos para assistir.


The Cult of Dom Keller

O primeiro concerto que vi deste último dia foi também um dos melhores da edição. Com um ensurdecedor baixo e uns sintetizadores completamente tripados, estes homens de Nothingham deram um dos melhores concertos de stoner do festival.

A setlist centrou-se essencialmente no novo álbum Goodbye to the Light mas houve também espaço para musicas mais antigas como "Swamp Heron", do álbum homónimo da banda. O único problema deste concerto foi sem duvida a hora a que foi realizado (durante a tarde), ganhando muito mais impacto se fosse durante a noite.


Névoa

Apenas tive tempo de ver a segunda metade do concerto de Névoa mas foi o suficiente para apreciar o black metal desta banda do Porto. Mais uma vez, uma banda que perdeu muito devido ao horário a que foi sujeita (nunca pensei ver um concerto de black metal ao pôr do sol) mas no entanto deixaram tudo em palco.

Névoa foi protagonista do momento mais “metal” do festival. Durante a última música o vocalista teve que abandonar o palco e quando regressou vinha com a cara cheia de sangue, devido a um derrame do nariz, o que lhe deu ainda mais poder para lançar os últimos vocais guturais.




The Quartet of Woah!

Mais uma vez só consegui apanhar o final do concerto desta banda portuguesa mas do que vi, posso dizer que foi bastante memorável. O blues e o space rock misturam-se numa agradável sonoridade que tanto dá para dançar como para o headbang. Apesar do pouco tempo que os vi ainda foi possível ouvir uns bons solos de guitarra e umas músicas novas.


Mécanosphère

O grande Adolfo Luxúria Canibal voltou a fazer das suas e trouxe consigo uns amigos franceses para dar um concerto inesquecível. Apesar do instrumental todo virado para o rock industrial não ser bem a minha cena é sempre um prazer ouvir a poesia mórbida de Adolfo. Um dos mais interessantes concertos do último dia, não só pela música mas mais pelo espetáculo em si.


The Damned e Sisters of Mercy

Ok, eu vou admitir, não vi mais de 10 minutos de nenhum dos concertos. Não sou fã de Sisters of Mercy e The Damned gosto dos primeiros álbuns mais virados para o punk.

Não estava a gostar de The Damned, o som estava muito bonitinho e as musicas pareciam todas glam metal dos anos 80. Abandonei o concerto e fui experimentar a oferta gastronómica que existia dentro do recinto do festival. Deu ainda para ouvir a cover dos Love, "Alone Again Or", que foi dos poucos momentos que gostei do concerto. Ao longe ainda ouvi algumas faixas de Damned Damned Damned mas eles já tinham perdido um fã.



Mais tarde fui ver Sisters of Mercy, algo que durou para mim ainda menos tempo que o concerto dos The Damned. Fugi do palco Rio e decidi ir descansar pois ainda havia mais concertos.


Radar Men From the Moon

Ainda a lamentar-me por ter perdido With the Dead fui ver Radar Men From the Moon e deu para esquecer (durante pouco tempo) a minha mágoa. O concerto mais depressa parecia uma sessão de transe electrónico do que de space rock (o que eu estava à espera de ouvir). Foi uma hora bem passada que serviu para libertar as energias negativas por ter perdido uma das bandas que mais queria ver.




Mars Red Sky

Desta vez esqueci-me mesmo o porquê de estar chateado. Mars Red Sky deu um concerto incrível e um dos melhores desta edição. Com um instrumental proporcionalmente melódico e pesado, foi uma hora de stoner rock único e memorável.

Apesar de todo o set ter sido bastante bom, não existem palavras para descrever os sentimentos de quando estes começaram a tocar as primeiras notas de "Strong Reflection". Sem dúvida o momento alto do concerto.




Summer of Hate

Foi com curiosidade que me dirigi ao palco Sontronics para assistir ao último concerto do festival. Seguiu-se uma sessão intensa de post-rock e shoegaze que durou das 4h30 até às 6 da manha.

Sendo uma escolha curiosa, visto não ser um nome muito conhecido, foi um concerto que quem aguentou até ao fim certamente saiu satisfeito.Depois desta agradável surpresa retirei-me para o campismo com apenas uma coisa em mente.

Como é que vai ser o Reverence Valada 2017?


Dia 3 @ Reverence Valada 2016

Texto: Hugo Geada
Fotografia: Filipa Casas

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