domingo, 8 de janeiro de 2017

Joana Guerra em entrevista: "Cavalos Vapor é um passeio de ambiente nublado, para se percorrer de uma margem à outra"

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Cavalos Vapor é o novo longa-duração da violoncelista Joana Guerra, editado em novembro do ano passado com o selo da Revolve. O sucessor do belo Gralha é a prova indelével do talento da violoncelista junto das partituras. Este novo trabalho marca o assimilar de colaborações de violino e percussão na escrita da compositora. 

Threshold Magazine (TM) - O que podemos esperar de Cavalos Vapor?

Joana Guerra (JG) - É o segundo disco do projecto a solo homónimo, editado pela Revolve. Soma oito canções para violoncelo e voz que vim matutando desde o lançamento do meu primeiro disco saído em 2013. Conta ainda com as colaborações pontuais e preciosas do violinista Gil Dionísio e do percussionista Alix Sarrouy. 

É um passeio de ambiente nublado, para se percorrer de uma margem à outra. E mais não consigo dizer…deixo aos ouvidos terceiros tirarem as suas próprias ilações.

TM - O que te levou a optar por este formato trio tendo em conta que o antecessor, Gralha (2013), foi gravado a solo?

JG - No antecessor, contei igualmente com a colaboração de Ricardo Ribeiro, no clarinete, numa das músicas. Este formato surge em algumas das canções e não foi algo que eu tivesse conceptualizado enquanto as músicas iam nascendo. Senti que essas músicas precisavam de algo exterior a mim e foi um prazer partilhar estas criações com os músicos que nos são próximos e que admiro.

TM - Podes-nos falar de “O Cavalo Que Penteia a Crina”?

JG - O disco abre com esta canção que foi feita em homenagem ao amigo João Capela, músico, artista, escritor, activista e terapeuta do ruído, falecido em 2014, para integrar uma compilação organizada pela Associação terapêutica do Ruído. O Capela é este cavalo que desafia a suposta ordem natural das coisas.

O disco encerra com o tema “Carpideiras”, mulheres que choram a morte. Cantar à morte para celebrar esta vida.



TM - Como funciona o teu processo criativo? Apostas mais na improvisação?

JG - É a procura da resposta a uma ideia ou de algum conceito que se estabelece, é tentar viver os dias de olhos abertos. As músicas ou uma semente delas gera-se muito na improvisação, na procura de ideias sonoras ou imagens, da experimentação no violoncelo e voz. Depois, vão-se tecendo naturalmente, com trabalho e muita aposta.

TM - Quais são as tuas maiores influências?

JG - No universo dos violoncelos encantados: Tom Cora, Arthur Russell, Ernst Reijseger, Hildur Guðnadóttir, o indomável Mr. Marcaille. Noutros universos paralelos, teatros, outros sons (e tantos), danças, livros…é um grande “panelão”.

TM - Estás a pensar repetir a tour europeia que fizeste quando Gralha foi editado?

JG - Sim, quero. Desejos para 2017.

TM - Criaste a banda sonora de um dos documentários de João Botelho em 2015. É uma experiência que te vês a repetir no futuro?

JG - Gostaria muito. Também já trabalhei com dança, teatro, performance, e estes encontros aliciam-me muito. Gosto das contaminações que se criam, unir dois planos, duas linguagens ou códigos artísticos e criar um objecto singular.

TM - Qual é o realizador português que mais gostas?

JG - Creio que a minha maior colecção de visualizações de um realizador português irá para João César Monteiro, o qual gosto muito. Vi o último documentário da Cláudia Varejão, Ama-San, e foi das coisas mais belas que vi.

TM - Conta-nos como foi atuar na mesma noite que a canadiana Julia Kent no passado dia 16 de novembro de 2016.

JG - A Nariz Entupido promoveu este encontro entre duas violoncelistas, para mostrar diferentes abordagens ao instrumento. Foi uma noite muito agradável, num cenário fantástico, Igreja dos Ingleses, e as músicas fluíram num ambiente reconfortante. Foi um prazer partilhar o mesmo palco com a música de Julia Kent.

TM - O que tens ouvido ultimamente?

JG - Post Pop Depression do Iggy Pop; Moondog A Moon Shaped Pool dos RadioheadMaps and Mazes de Olga WojciechowskaToada dos Live Low; e Looking at Bird de Archie Shepp e Niels-Henning Orsted Pedersen.

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