segunda-feira, 20 de março de 2017

Reportagem: Stoned Jesus + The Black Wizards [Hard Club, Porto]


Foi a terceira vez que os Stoned Jesus vieram a Portugal, mas o concerto aconteceu como da primeira vez se tratasse. As caras bem dispostas à entrada do Hard Club eram um bom sinal dos concertos que se iam seguir e, apesar de no dia seguinte haver concerto de Russian Circles, foi bom constatar que a sala principal estava quase cheia.

Ainda antes de entrar no concerto houve tempo para visitar a banca de merch que me deixou desiludido por apenas conter a versão em CD do álbum Seven Thunders Roar que a banda ucraniana ia apresentar.Em vinil apenas se podia encontrar First Communication e The Harvest, primeiro e terceiro álbuns da banda, respetivamente.

Devido a uns contratempos apenas consegui apanhar as ultimas duas músicas do concerto de The Black Wizards (o meu quinto, desde o concerto que elas deram na receção ao campista do Sonic Blast Moledo), mas devo dizer, por experiência pessoal, que este conjunto não sabe dar maus concertos. A minha entrada deu-se durante o inicio de “Gipsy Woman”. Esta não deixou tempo para embaraços ou constrangimentos, foi entrar diretamente para o centro da “tempestade” de adrenalina. Em pouco mais de cinco minutos já estava com o aquecimento feito.

Após esta, veio o “highlight” do concerto, e aquele que já é uma imagem de marca das performances deste quarteto, que é o solo de bateria de Helena Peixoto. Acabaram-se os torneios de “air guitar” agora é ver quem é que simula melhor o solo desta jovem John Bonham. Por fim o solo de bateria deu lugar a “Lake of Fire”, acompanhado pela voz de inúmeros fãs que aspiravam chegar ao tom de Joana Brito e a sua poderosa voz. Mais uma performance competente por esta jovem banda portuguesa.

Quando estes abandonaram o palco sentiu-se a ansiedade a crescer entre os fãs. Muitos dirigiram-se ao balcão para comprar os últimos finos que iriam ter para se hidratar no espaço de duas horas, enquanto a banda estivesse em cima do palco, ninguém queria desperdiçar um segundo da hipnotizante musica dos Stoned Jesus. A chegada ao palco de Igor (usando a t-shirt do Sonic Blast), Sid e Viktor fez-se acompanhada por uma triunfal orquestra de palmas. Os sorrisos nas caras dos ucranianos mostram que estes sabem que são bem-vindos a Portugal.


Com a sua típica simpatia e bom humor, Igor saúda a audiência e sem grandes urgências solta os primeiros riffs de “Bright Like the Mourning”. Uma das coisas que mais gosto de fazer nos concertos é observar o público e ver como a música influencia o seu comportamento, e devo dizer que poucos foram os concertos em que vi tanta gente a perder a cabeça tão rapidamente. Foi como um reencontro com um velho amigo com quem já não falamos há imenso tempo, mas não sentimos o embaraço devido ao afastamento. De garganta (mais ou menos) afinada o público acompanhava a letra da música o máximo que podia. O baixo que acompanhava a música, apesar do ensurdecedor volume e do monolítico peso, manifestava um groove que obrigava todos os presentes a mover o seu corpo. Que maneira de começar um concerto.

O volume não parecia descer quando as notas que saiam do palco revelavam que a música que se seguia era “Electric Mistress”. Nesta fase já existiam troncos nus, corpos a voar pelo ar e um tsunami mais conhecido por mosh pit. Se a primeira parte da música mais mexida e animada foi uma festa para todos os que estavam no público, a segunda parte mais Stoner Doom, mais pausada e ritmada, foi recebida com um headbang que certamente deixou muitos com uma cervicalgia.

Depois da lenta masturbação musical que foi é a segunda parte de “Electric Mistress” seguiu-se aquela que é provavelmente a música mais animada e rock n' roll do álbum, “Indian”. Os moshes e o crowdsurf não acalmaram e o público continuou a cantar a inspirada letra. A meio da musica Igor partiu a corda da guitarra e em tom de gozo comentou com o publico: “It's not a Portugal show if I'm not breaking a string, right?”, referência ao concerto no Sonic Blast onde também partiu uma corda da guitarra.

Após a cavalgada todos sabíamos qual era a música que se seguia, a que todos estavam à espera, “I’m the Mountain”. Tal como tem feito nos outros concertos da sua tour ibérica, na introdução da música aproveitarm para fazer um tributo. Tendo já prestado homenagem a "Stairway to Heaven" e a "Careless Whisper", desta vez foi a vez de "Alma Mater", música da banda portuguesa Moonspell.

Mais uma vez, os fãs entregaram-se a esta grande música acompanhando a letra a plenos pulmões e de olhos fechados, contemplativos, apreciaram a construção da música até ao seu cumo. Mesmo antes de chegar ao climax, Igor interrompe a música para dar uma palavra animada aos seus fãs. Apenas um músico muito querido podia fazer isto a meio da música mais venerada da sua banda e não ser crucificado. Não faz mal, ninguém leva Igor a mal. 


Após a brincadeira com os fãs, a musica é retomada como se nada tivesse acontecido, e poucas frases depois, Igor solta aos fãs o seu “trademark” rugido que marca o clímax da sua epopeia. Após a anestesia que foi de levar este grito nos ouvidos, a “porrada” retomou e os sorrisos estampados na cara dos fãs traduzia tudo o que se estava a passar. Engane-se quem pensava que depois de “I’m the Mountain” já não havia mais nada por que ansiar neste concerto. A rendição bruta de “Stormy Monday” foi uma maneira especial de despedida para os fãs.

Com a sua sábia voz Igor avisava os fãs para lavarem a alma numa segunda feira de trovoada. Igor aconselhava a termos cuidado por onde caminhávamos numa segunda feira de trovoada. Igor aconselhava a não ficarmos bêbados numa segunda de trovoada ou ainda encontrávamos um/a estranho/a na nossa cama. E dizia que ficarmos sozinhos numa segunda de trovoada era pior que estarmos mortos. Felizmente era sexta feira e o sentido de família e comunidade parecia fazer todo o sentido dentro daquela sala do Hard Club.

Como bons fãs que os portugueses são, ainda fomos prendados pelos ucranianos a ouvir “Black Woods” e “Here Come the Robots”, duas músicas que funcionam como um reflexo, visto que a primeira é, discutivelmente, a musica mais Doom e lenta da banda e a segunda uma das mais rápidas e agressivas. Os fãs não estavam muito preocupados com qual é que era a mais rápida e qual é que era a mais lenta, apenas queriam aproveitar os poucos minutos que restavam da performance da banda.

Após terem abandonado o palco senti que não existia nada de negativo para apontar à banda, tirando um ou outro prego que mandaram a meio de um solo, mas isto é um concerto de stoner, não é uma sinfonia clássica a interpretar os melhores êxitos de Beethoven. O público apesar de em parte cansar pelo excessivo crowdsurf e mosh, ajudaram a tornar esta uma noite memorável pela entrega e dedicação ao concerto.

Em ultima analise, fãs de stoner ou de música pesada em geral, Stoned Jesus é um concerto obrigatório para todos, não só pela qualidade da música, mas também pela performance e boa disposição da banda, a simpatia e humildade não deixam ninguém indiferente. Fico apenas com pena que estes tenham dado mais de uma mão cheia de concertos em Espanha e em Portugal apenas um. Desculpem irmãos do Sul, mas dado o amor que estes homens tem por Portugal pode ser que o seu regresso se dê mais depressa do que contamos.

Stoned Jesus + The Black Wizards @ Hard Club, Porto

Texto: Hugo Geada
Fotografia: Rafaela Suzano

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