segunda-feira, 24 de abril de 2017

José Cid em entrevista:"Estou em constante mudança…não quero ser coerente"

Rita Carmo ©
Corria o ano de 1978 quando José Cid lançou pela editora Orfeu aquela que viria a tornar-se numa das obras de maior sucesso de Rock Sinfónico do mundo: 10.000 Anos depois entre Vénus e Marte. Passados quase 40 anos volta agora a trazer a palco a história ficcional do homem e da mulher que regressam à terra 10.000 anos depois da sua total destruição, para repovoá-la. 

Aclamado pela crítica, foi considerado pela revista Billboard como um dos melhores 100 discos de Rock Progressivo do mundo de todo o sempre. Neste que é também o ano da edição em disco do espetáculo 10.000 Anos Depois entre Vénus e Marte, José Cid volta a apresentar ao vivo a obra que lhe valeu a internacionalização, dia 1 de Maio na Aula Magna em Lisboa e 6 de Maio na Casa da Música no Porto. 

Threshold Magazine (TM) - O que o levou a fazer o álbum 10.000 Anos depois Entre Vénus e Marte?

José Cid (JC) - Uma certa crispação que existia na humanidade dos anos 60, sabendo que uma III Guerra Mundial estava iminente, devido ao confronto militar nuclear muito grande entre os Estados Unidos e a União Soviética. Foi o que me fez escrever a parte poética. Escrevi o álbum todo, menos a faixa dois, escrita por um amigo meu, o Manuel Lamas. O resto é poesia minha. Fui musicando as partes poéticas que inspiravam um determinado tipo de música e, quando já no fim do álbum, cheguei à conclusão que precisava de dois ou três amigos para me ajudarem a escrever a parte musical. Pedi ao Mike Sargeant, ao Zé Nabo e ao Ramon para me ajudarem a musicar alguma poesia que estava feita e o álbum é concluído por eles. 

Eu interliguei tudo, fui controlando de uma forma inspiradora ou pacífica tudo aquilo que se foi fazendo. Só geri a inspiração dos outros, digamos. E parece-me que geri bem (risos), parece que é um conceito único e não, parece que foi uma única pessoa que concebeu aquilo mas não, eu divido as autorias com mais duas ou três pessoas.

TM - Esteve em bandas como o Quarteto 1111 onde fez um dos melhores discos produzidos em Portugal, A Lenda do Quarteto 1111 , entre muitos outros, sob a égide do psicadelismo. Como era fazer música psicadélica num Portugal oprimido e como é que se chegava às pessoas?

JC - Chegava pouco (risos)! Ainda por cima uma banda de culto dessa geração, muito proibida em termos poéticos, pela censura dos regimes salazarista e marcelista. Só nos tornámos verdadeiramente populares em 1973 ou 1974 quando eu e o Tozé Brito gravámos uma canção comercial, “20 anos”. A partir daí as coisas foram diferentes, para melhor ou para pior, mas a verdade é que os 1111 até esta época eram uma banda completamente de culto como hoje são outras bandas hoje em Portugal como os “Fausto” (Capitão Fausto), Savanna e cenas assim.  

De repente, quando nós casámos e começámos a ter que pagar a renda de casa, as prestações do automóvel, o leite e os biberões para os bebés que nasciam, foi de consenso tornarmo-nos uma banda mais comercial, nunca abdicando da ideia de progressismo. O 10.000 Anos depois Entre Vénus e Marte não é o único álbum que tenho de roque sinfónico e roque progressista. Há também o Onde, Quando, Como e Porquê, Cantamos Pessoas Vivas, um poema de José Jorge Letria e música minha, e também Vida (Sons do Quotidiano), que até acho melhor que o 10.000 Anos depois Entre Vénus e Marte.

Agora eu vou ver até que ponto este quarto álbum de roque sinfónico, que se chama Vozes do Além, será poeticamente superior, porque é poeticamente superior ao 10.000 Anos depois Entre Vénus e Marte. É um álbum que tenciono começar a gravar ainda este ano, a pouco e pouco, com poesia de Natália Correia, Sophia Mello Breyner, Federico García Lorca, interligado com alguma poesia minha. É um álbum que poeticamente dá logo uma garantia de grande qualidade e aborda a ideia da reencarnação. A reencarnação é uma vingança inexorável sobre uma morte mais que certa e nós acreditamos na reencarnação, vingamo-nos em vida daquilo que é no fundo o ser humano. É o meu próximo álbum e último de roque sinfónico (risos).

TM - Existe muita diferença na indústria musical após o 25 de abril, sabendo que existia censura?

JC - A censura era inspiradora. Organizavam-se metáforas poéticas muito interessantes. Tens, por exemplo, o Ary dos Santos que era um especialista nisso, Cavalo à Solta, Tourada, até mesmo em José Cid com o tema “Camarada” ou “Olá Vampiro Bom”. São temas que têm muito a ver com o metaforismo. Era inspirador! Depois do 25 de abril há um open mind e aí vemos quem é que compõe sem ter uma necessidade de fugir à censura.

TM - Se lhe chamassem “Pai do Rock Psicadélico português” aceitaria ou tentava mostrar que não foi só José Cid uma das pessoas a agarrar essa vertente do rock?

JC - Não! Houve mais (risos). Os Tantra com o Mistérios e Maravilhas fizeram isso, os Petrus Castrus também fizeram parte. Portanto, eu não posso chamar para mim um título, quando eu sou “um daqueles que”. Assim como o Rui Veloso não é o “Pai do Rock português”, os Xutos & Pontapés são uma banda muito mais coerente em termos “roqueiros”, do que o Rui Veloso mas pronto sempre foi o “Pai do Rock Português” e eu passei a ser a “Mãe”  porque a mãe toda a gente sabe quem é (risos). Digo isto porque eu não acredito e nunca tive marketing a promover a minha marca. Lembrei-me desta da mãe para um dia se rirem todos.

TM - Se pudesse escolher entre uma destas “fases”, qual escolheria e porquê: “Macaco Gosta de Banana”, “A lenda de D.Sebastião” ou “”Vida: Sons do Quotidiano”

JC - Nenhuma, eu não tenho fases, eu sou muito camaleónico. A minha obra passa por muita coisa, se eu pudesse cantar só cantava jazz ou fado (risos). Não posso pedir às musas que me inspirem, escrevo as coisas que me vão aparecendo na cabeça. Há muita coisa que sai da cabeça dos artistas, dos criadores e dos compositores que não tem explicação, é porque sim! (risos).

Estive meses e meses sem escrever um tema e agora até acho que estou a escrever melhor. Aliás, o próximo álbum, Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid, vai provar isso, que eu estou a escrever cada vez melhor e estou a cantar ao mesmo nível, ou até melhor, do que cantava. Não perdi as qualidades vocais, quando as perder vou ter a noção de que vou ter de me calar e não vou cantar mais. Não posso andar a cantar mal, nunca cantei mal, nunca fui desafinado e eu não posso de maneira nenhuma não conseguir dar certas notas e continuar pateticamente a tentar fazê-las. Vou ter a noção nítida de quando é que vou ter de parar. Não é mais um ano no meu bilhete de identidade, não é mais uma ruga na minha cara, não é mais a falta de agilidade dos meus membros, é a minha voz que vai definir exactamente quando é que vou parar.



TM - O que acha que leva as pessoas a pedirem mais concertos de um álbum único como o 10.000?

JC - As pessoas que vão ver o 10.000 Anos depois Entre Vénus e Marte são sonhadoras como eu sou, gostariam de um mundo mais perfeito. Sabem que no final dum álbum conceptual, depois do planeta acabar, vai aparecer tudo de novo. As pessoas sentem-se na pele de um novo Adão e Eva que gostariam de recomeçar tudo de novo sem os erros que o Planeta Terra cometeu, as atrocidades que cometeu desde a Pré-História à Idade Média, às guerras todas que programou e organizou. As pessoas não têm nada a ver com toda essa “História do Planeta Terra”, as pessoas são puras, são simples, gostariam de viver uma vida como novos Adão e Eva a recomeçar tudo no Planeta Terra.

TM - O que mudou em José Cid desde lá até agora?

JC - Eu estou em constante mudança (risos), eu mudo porque sim e porque não quero ser coerente, não tenho nada a ver com coerência. O meu último álbum, Menino Prodígio, é nomeado pela SPA como o melhor álbum do ano de 2016 e isso é muito bom. Aos 75 anos tenho isso presente quando o deveria ter aos 25. É gratificante e vou-me bater em 2018 com este Clube dos Corações Solitários de Capitão Cid para que seja um dos melhores álbuns da música portuguesa.

TM - O que acha da atual indústria musical portuguesa, dos novos músicos e bandas?

JC - Muita gente nova a fazer muito boa música. Eu na rádio ouço sempre a Antena 3 e sinto que há uma renovação das novas gerações muitíssimo interessante, a todos os níveis, e cada vez mais criativa. Quando as coisas parece que desbotaram ao longo dos tempos, aparecem novas gerações a fazer coisas que parecem ser feitas pela primeira vez. Isso é muito interessante e a Antena 3 tem muito isso, muito desafiadora na medida em que se sente que há gente nova a escrever bem, a compor bem, com muito boas ideias.

Também agora anda tudo numa onda muito psicadélica, que eu acho piada, mas a pouco e pouco as coisas vão-se cimentando e vai-se descobrindo que há muita gente nova a escrever muito bem em Portugal. Isso alegra-me imenso, porque essa gente vai, com o tempo e com a idade, transformar-se em grandes compositores de uma renovação muito importante na nova música portuguesa.

TM - O que tem ouvido recentemente?

JC - Não ouço muitos discos, não tenho tempo porque ando sempre em estúdio. Muito recentemente o que eu tenho ouvido é o meu Clube dos Corações Solitários do Capitão Cid, o meu álbum, com muito cuidado, com muita minúcia, música a música e som a som. O que tenho feito é ouvir muita música mas na rádio e as rádios que eu ouço mais são realmente a Antena 3, que eu sei que é elitista, muito jovem mas são projectos que andam muito em frente, as pessoas são muito ousadas e mais puras, não escrevem refrões para vender, escrevem canções com sonho, com técnica e inspiração e é o que eu gosto de ouvir.

Também há outra estação que me diverte bastante que é a Vodafone.FM, ouço bastante, sons muito interessantes, depois há a Smooth.fm, bastante repetitiva, parece o casino, com muita frequência, mas também ouço, até cheirar muito a casino e lantejoulas, aí mudo (risos).

TM - E pronto. Por nós é tudo! Vemo-nos no concerto de dia 1 na Aula Magna

JC - Vamos a isso! Esqueci-me de dizer que não vou só tocar o 10.000 Anos depois entre Vénus e Marte, vou tocar Onde, Quando, Como e Porquê, Cantamos Pessoas Vivas, Vida (Sons do Quotidiano na íntegra e ainda temas de Vozes do Além!


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