terça-feira, 27 de junho de 2017

Reportagem: NOS Primavera Sound - 10 de junho [Parque da Cidade, Porto]

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O último dia de um festival é sempre um dia, que apesar de marcado pela felicidade de podermos assistir a concertos acompanhados pelos nossos amigos, nos faz sofrer por antecipação. Ainda temos tanto para ver mas parece que já estamos a sofrer a “ressaca dos festivais”.

O melhor era mesmo sacudir estes pensamentos da mente e preparar-nos fisicamente para o combate que ia ser o tão antecipado concerto de Death Grips ou a porrada sonora que o britânico Aphex Twin ia proporcionar a todos os seus fãs. Por isso, o melhor é mesmo nem pensar que no dia seguinte íamos voltar para as nossas rotinas diárias e aproveitar ao máximo este último dia.


Songhoy Blues



O primeiro concerto do dia no Palco. foi assinado por uma banda que surgiu no Mali e que anda a lançar musica desde 2015, através da Transgressive Records. Desde então estes homens têm dado que falar e tocado um pouco por todo o lado, inclusivé este ano vão ser cabeças de cartaz do Liverpool Psych Fest, espalhando a sua música e boa disposição.

Apesar dos ritmos animados, típicos do afrobeat, é errado classificar esta banda como world music, sendo que as guitarras são muito mais viradas para o blues e o rock.

Apesar dos horários do Primavera serem muitas vezes criticados pelas sobreposições, ou o posicionamento errado das bandas, este concerto foi uma maneira perfeita de passar esta tarde solarenga, com muita gente a aderir ao espírito animado da banda, apesar das confissões entre músicas onde explicaram as dificuldades que tiveram no seu percurso musical até chegarem onde estão atualmente. Esta superação é festejada com dança e sorrisos partilhados, não só por adolescentes, mas também muitos pais e os seus respetivos filhos, que se juntaram para tornar a festa ainda mais especial.



Elza Soares



No fim de tarde deste último dia do festival Elza Soares subiu ao palco para mostrar que ainda é possível o samba inovar e ocupar o seu espaço na música, cantando sobre injustiças e discriminações, não deixando ninguém indiferente. Durante todo o concerto esteve sentada no seu trono característico e, antes do concerto iniciar, com uma tela negra a tapá-la.

Apesar de ter sido um dos poucos concertos cantados totalmente (ou até parcialmente) em português, a energia e sentimento das letras também era transmitido, sem grandes dificuldades, ao público estrangeiro. Elza ou Elzinha cantava numa linguagem universal, a da dança. Ainda que os seus ritmos convidassem à dança, os temas cantados eram extremamente sérios podendo ser destacados "A Carne" sobre a escravatura, "Maria de Vila Matilde" sobre a violência doméstica e "Benedito/a", uma canção sobre um transsexual (nesta música juntou-se a Elza um cantor fisicamente semelhante a MC Ride com uma forma de dança bastante estranha). Durante o concerto a cantora falou ainda um pouco sobre o caso Gisberta, emocionando-se.

Francisco Lobo de Ávila


Wand



Um dos concertos que, pessoalmente, estava mais expectante para ver eram sem dúvida os meninos prodígios do Ty Segall, que não só lançam os álbuns através da sua editora, God? Records, mas também participaram na banda suporte, os The Muggers, na tour onde este andou a apresentar o álbum Emotional Mugger (e que também passou pelo festival portuense no ano passado).

Contudo, este concerto acabaria por resultar numa grande trapalhada onde ninguém parecia estar a perceber o que a banda estava a fazer (e muitas vezes, a própria banda dava a entender que eles próprios estavam bastante confusos com o que estava a acontecer). Começaram com uma música nova e enquanto tocavam as suas músicas, ninguém se queixava. O problema do concerto surgia quando entre músicas a banda perdia minutos (que ao vivo, pareciam horas) em interlúdios que se assemelhavam a arpegios tocados por Thurston Moore e Lee Ranaldo enquanto tentavam imitar o Emotional Mugger do Ty Segall.

Quanto a fazer barulho, por exemplo, durante a música "Floating Head" do álbum Golem, membros da audiência pareciam mais animados como quem pensa “ok, eles já atinaram, já deixaram os devaneios de lado. Agora sim, isto vai começar a sério”. A música acabou abruptamente e regressaram para as melodias esquizofrénicas. Posso jurar que mais de metade do concerto o pensamento constante na minha cabeça era: “O que raio é que eles estão para ali a fazer?”.

De positivo posso apontar a cover que a banda fez de “Cinnamon Girl” de Neil Young, uma bela carta tirada da manga, e a performance de Evan Burrows, baterista da banda que também participou nos The Muggers e parecia ser o único que sabia, honestamente, o que estava a fazer.

Fica o apelo a que estes voltem a Portugal e repitam a performance, porque tenho a certeza que conseguem oferecer concertos bem melhores e mais competentes que o que deram no parque da cidade.


The Growlers


Não se pode falar do concerto de The Growlers sem compará-lo ao concerto que decorreu no dia anterior no mesmo palco. estou a falar, é claro, de Angel Olsen.

A diferença entre uma banda que já foi adorada pela imprensa indie e que agora está a cair no esquecimento e a atual venerada é óbvia. Se Angel conseguiu mover uma multidão a meio da tarde e hipnotiza-la por completo, os The Growlers, a meio gás, moveram uma multidão para a zona de refeição ou para a parte de cima da colina para porem a conversa em dia.

Com uma voz cansada e rouca e apesar da sua melhor tentativa de animar uma tarde solarenga, o concerto da banda americana foi uma das maiores desilusões do festival.


Shellac


Os eternos Shellac subiram ao palco, como fazem todos os anos, para fazer aquilo que melhor sabem: rebentar os tímpanos ao fãs devotos que, ano após ano, vão ver o lendário Steve Albini e companhia em cima de palco.

Eu podia estar aqui com muitas teorias e tentar explicar o quão bom foi o concerto de Shellac mas tudo se resume a um momento que condensa a experiência que este concerto foi: “Tirem os tampões dos ouvidos”, pedido especial de Steve, que não só demonstra o seu humor irónico, o desafiar da audiência, a sua postura confiante e, ao mesmo tempo, o pedido sincero, de como se deve ouvir a sua música: alto como o caraças.


Sampha


Sampha Sissay já tinha pisado palcos portugueses anteriormente acompanhando SBTRKT mas nunca em nome próprio. Aliás, não é pelo seu trabalho a solo que é conhecido mas sim pelas enumeras colaborações com os mais diversos artistas servindo este concerto para abandonar esta fama de "músico dos músicos".

Iniciando com "Timmy's Prayer" estava tudo reunido para mais um momento único no parque da cidade. O cantor de R&B alternativo deu um concerto bonito mas não muito energético e talvez tenha sido esta a sua maior falha, ainda que a sua incrível voz fizesse cada momento valer a pena. Podem ser destacados alguns momentos como "Incomplete Kisses" ou a completamente inesperada cover de Drake (de uma canção em que o próprio colabora "4422"). Ainda que a sua voz, as canções e banda tivessem uma qualidade inegável, o concerto soube a pouco, talvez pela falta de inovação ou até pelas expectativas demasiado elevadas.

Francisco Lobo de Ávila


Mitski

A estreia de Mitski era também uma das mais aguardadas desta edição. Depois do lançamento do mais recente Puberty 2, eram muitos os que a aguardavam nas linhas da frente do palco Pitchfork. Depois de um atraso de aproximadamente 15 minutos, algo raro neste festival, Mitski subiu finalmente ao palco acompanhado da sua banda.

Apesar de nos ter visitado pela primeira vez no local e momento certo, Mitski falhou em conseguir um concerto entusiasmante. A intensidade e paixão dos seus últimos discos não conseguiu ser devidamente transposta na sua atuação ao vivo, soando a pouco. Depois do seu excelente quarto disco, as expectativas eram altas para este concerto, e talvez tenha sido esta ânsia por um bom espetáculo que arruinou toda a emoção, porque, na verdade, o concerto não foi mau, só não conseguiu tornar-se memorável. 

No entanto, foi bonito confirmar o carinho do público português ao ouvir temas como “I Bet On Losing Dogs” e “Your Best American Girl”. Os mais apaixonados terão, com certeza, saído de lá muito felizes, alguns em lágrimas até. A música de Mitski é extremamente genuína e apaixonada, mas nem mesmo nos momentos mais abrasivos e riffs distorcidos das suas canções o concerto conseguiu manter essa chama presente no seu trabalho em estúdio. Quiçá, numa próxima atuação, a história será diferente.

Filipe Costa


Death Grips

Um dos concertos mais esperados do festival foi certamente o de Death Grips. Após cancelarem a sua presença na edição do festival de 2012, estrearam-se finalmente em Portugal com um espetáculo intenso e explosivo. A visão de MC Ride a entrar em palco e durante as primeiras músicas, com a sua postura e presença em palco, foi surreal e memorável. Igualmente memoráveis foram os seus berros e raps ao longo de todo o concerto, ao mesmo tempo que Zach Hill atacava a bateria constantemente, acrescentando um lado cru às músicas que não está tão presente nas suas versões de estúdio. 

Flatlander controlava os beats e efeitos sonoros enquanto mantinha uma postura bastante over the top. Ouviram-se músicas de vários álbuns da banda, incluindo “Whatever I Want (Fuck Who’s Watching)”, “Hot Head”, “No Love”, “I’ve Seen Footage”, “Get Got” e “Guillotine”. Não faltou mosh e muita confusão na plateia, por vezes até talvez em exagero, em momentos de músicas em que não se justificava, mas nada que não seja compreensível. 

Os Death Grips corresponderam às expectativas e provaram mais uma vez porque é que são dos artistas mais marcantes e importantes da atualidade, com uma excelente demonstração do seu hip hop experimental e agressivo.

Rui Santos


Weyes Blood

Muitos me chamaram maluco por ter trocado Death Grips e Metronomy por Weyes Blood, mas aqueles belos minutos que passei sozinho sentado na relva a relaxar enquanto apreciava a bela voz de Nathalie Mering, foi dos momentos mais bonitos que passei no parque da cidade.

A americana que naquela noite completava 29 primaveras, apresentava um palco adornado com candelabros, velas de cera e pouca iluminação de modo a criar o ambiente mais íntimo possível, tarefa que não era muito complicada dado que a audiência deste concerto não chegava nem à mesa de som. Contudo, isto não impediu a jovem de oferecer uma performance fortíssima, tocando emocionalmente em cada pessoa envolvida neste concerto.

Numa performance onde andava a apresentar o seu mais recente álbum Front Row Seat to Earth, o destaque do concerto foi contudo quando esta apresentou a sua cover dos krautrockers alemães Can com uma grande interpretação de “Vitamin C”.

Uma pena não ter havido mais pessoas para apreciar a belíssima voz desta mulher que teve a infelicidade de combater com dois dos maiores nomes do cartaz. Esperemos por outra oportunidade para as restantes pessoas poderem rever o melhor concerto do Primavera que ninguém viu.


Japandroids


A cidade do Porto foi palco do regresso de inúmeras bandas a território nacional, e os Japandroids, que após uma paragem de 4 anos voltaram aos concertos. A última vez que estes tinham estado em territórios lusitanos, tinha sido em 2012 no Paredes de Coura, e reza a lenda que foi um dos concertos mais enérgicos do festival. Agora, em 2017 os canadianos não queriam deixar que este concerto ficasse para trás.

Com um disco novo, Near To The Wild Heart of Life, os dois primeiros, muito acarinhados pelos fãs, não foram esquecidos, recebendo tanto destaque como o novo álbum que vieram apresentar.

Sempre que li críticas sobre o trabalho em estúdio dos Japandroids, era devido ao facto de estes não conseguirem replicar a energia incansável que têm em concerto, e fico bastante feliz por ter conseguido testemunhar em primeiro mão o que isto queria dizer. Em todas as músicas a banda tocou-as como se estas fossem as últimas músicas da vida deles e com uma intensidade sobrenatural.

Para além dos instrumentais elétricos e energéticos, os refrões das músicas são do mais contagiante que alguma vez foi feita, obrigando o público a cantar em coro um pouco por todo o palco Super Bock. Juro que uma das visões mais lindas desta edição do Primavera foi ouvir centenas de pessoas a cantar em coro “I don't want to worry about dying // I just want to worry about those sunshine girls”.


The Make Up



Uns 10 minutos após o inicio do concerto de Japandroids subia ao palco ponto a banda com um dos mais energéticos vocalistas que já passaram no festival. A banda entrou sem Ian Svenonius, nos seus fatos cinzentos brilhantes escolhidos especialmente para esta tour e com Todd Trainer, baterista dos Shellac, que introduziu a banda e abandonou o palco. 

Aos primeiros acordes de "Black Wire Part 1" entrou Ian, com um fato igual ao resto da banda e cedo exibiu os seus movimentos de dança , descendo os primeiros degraus em direcção ao público e começando aí a incessante interacção com os presentes. Durante "Here Comes The Judge", a segunda música, Ian começou a fazer aquilo pelo qual é famoso, estar em pé em cima dos seus fãs. A confiança no público era apaixonante chegando até a deixar-se cair de costas. 

A juntar a estas acrobacias um instrumental incrível, a voz e os berros, ainda que ao vivo se tenha percebido mal (na gravação do concerto está perfeita), faziam com que fosse impossível não gostar do concerto. Apenas o vocalista interagia com o público (se calhar interacção a mais para alguns) mas fazia questão em reforçar a ideia de que as grades não deixavam a banda juntar-se com o público, que o continham "We Can't Be Contained" e também mostrava como todos os presentes eram importantes para os The Make Up. Um concerto que passou pelos maiores êxitos desta banda dos anos 90 mas que deixou a necessidade de mais, de um regresso pronto dos The Make Up.

Francisco Lobo de Ávila


Aphex Twin

Já passava da meia noite quando Richard D. James, mais conhecido como Aphex Twin, subiu ao palco principal para fazer jus ao seu estatuto. A lenda da eletrónica aproveitou este concerto para passear uns dias na Invicta, onde foi visto no Maus Hábitos dias antes, no aquecimento do NOS Primavera Sound. 

O Aphex Twin mais ambiental tomou as rédeas na primeira parte deste set, o que depois se transformou numa dance party de hard techno e luzes espaciais. Um dos destaques deste concerto (se é que podemos fazer destaques) foi a vídeo-montagem que passou nos ecrãs durante uma música, uma montagem dedicada a várias personalidades portuguesas, como Bruno de Carvalho e Salvador Sobral. 

Foram duas horas de excelência eletrónica no NOS Primavera Sound, no que foi o último concerto do palco principal em 2017. Se todos os anos fossem assim, não estaríamos cá vivos para contar a história.

Tiago Farinha


The Black Angels


Das bandas que foram tratadas da maneira mais injusta nesta edição do festival. Primeiro tiveram que tocar no mesmo horário que Aphex Twin, e não, o problema nem foi a falta de audiência, porque as cabeças levantadas estendiam-se por toda a colina e os corpos deitados um pouco por todo o terreno que envolvia o Palco. eram incontáveis. O volume inacreditavelmente alto do produtor fazia-se ouvir no local do concerto onde atuava a banda de Austin. O outro problema prendeu-se com o facto de as projeções da banda, parte fundamental do espetáculo, não estarem a funcionar, no que resultou num atraso de 10 minutos da banda.

No entanto, a banda que retirou o nome a uma música dos Velvet Underground, conseguiu abstrair-se de todos estes fatores e deram um concerto mágico envolto em ondas psicadélicas que apanharam todos os que ouviam a sua música. Cumpriram com o voto de confiança dos fãs, que preferiram as viagens espaciais à eletrónica agressiva de Aphex.

Com “Currency”, single do novo álbum, a abrir as hostes para o concerto, quer estivessem deitados na relva ou em pé à frente do palco, a reação foi geral, fechar os olhos e entrar num novo mundo introspetivo. Para além das músicas do álbum mais recente, Death Song, foram ainda revisitadas algumas das melhores músicas da discografia da banda, como “Prodigal Son”, “Black Grease” ou “Young Men Dead”. 

Contudo o melhor momento do concerto ficou reservado para o climax do álbum mais recente, a música “Death Song”, que catalisa os melhores momentos de uma banda que já conta com mais de uma década de existência e que mostra que estes estudaram bem a lição dos Pink Floyd. Sem dúvida uma das músicas mais poderosas e bonitas que alguma vez ouvi ao vivo.

Na despedida, ainda tocaram "Bloodhounds on My Trail", fazendo com que o adeus se tornasse mais animado e em vez de nos abandonarem com a sua psicadelia apocalíptica, abandonaram o palco num tom mais esperançoso. Uma hora soube a pouco, e fico a imaginar a oportunidade de ver estes gigantes num concerto do mesmo género de Swans ou Aphex Twin, onde estes poderiam estender o seu set durante pelo 2 horas.


Tycho

Depois das experiências diferentes de quem viu Black Angels ou Aphex Twin, ainda não era desta que chegava o prometido descanso. Ainda havia Tycho para contemplar, seja pela sua música chillwave ambiental, que servia quase como aquela corrida relaxada para descontrair os músculos depois de uma hora de exercício intensivo, pelo jogo de luzes incrível, ou até pelos vídeos que atraíram muitos olhares alterados para apreciar as estranhas montagens não só de paisagens, mas também de clássicos do cinema como Holy Mountain ou o 2001 – Odisseia no Espaço.


Bicep

Os bloogers que se tornaram heróis das cabines de DJ foram responsáveis pela primeira parte do último after do Primavera Sound. A eletrónica que ecoava da cabine do duo escocês oscilava entre o house, disco, funk e techno e fazia-se acompanhar por vídeos com um tom humorístico, de montagens de homens musculados a fletir os (sim, conseguiram adivinhar) os bíceps.

Apesar de já muitos terem abandonado o recinto devido à falta de energias e já estarem a marcar na agenda a data da edição do NOS Primavera Sound 2018, os restantes ainda se esforçaram para dar tudo e apenas arredariam pé do recinto quando o sol se erguia de madrugada.


Reportagem por: Hugo Geada
Fotografia por: Hugo Lima

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