quinta-feira, 27 de julho de 2017

Entremuralhas: o meu primeiro festival verdadeiramente alternativo

O Entremuralhas foi claramente o meu primeiro festival alternativo a sério. E um dos mais underground, sem dúvida.



E também um dos meus grandes amores cultivados todos os Verões, desde a nossa primeira vez. 

Situando os factos pela altura em que descobri o festival, vou então explicar. Eu sou aquele perfil de miúda revolucionária que descobriu a Internet na adolescência e deixou de saber fazer amigos na vida real. Também sou o tipo de miúda que não teve um guia parental no panorama musical e que, portanto, a emancipação, neste campo, chegou tarde. Sempre fui uma existencialista pura, pelo menos desde que tenho consciência, e por isso, com os recursos atuais, não foi difícil chegar a um festival altamente de nicho. E ainda bem.

Estávamos em 2013 (eu com os meus 18 anos) quando vi que os Lebanon Hanover tinham anunciado a sua estreia em Portugal, no Entremuralhas. Apesar de até gostar de música mais obscura, na altura vivia a vida do meu alter-ego de miúda happy lo-fi, e portanto não estava psicologicamente preparada para ingressar num festival onde o lineup não me era assim tão familiar e o ambiente incógnito. Esse medo do desconhecido, que continuou de alguma forma implícito até 2014, fez-me perder a oportunidade de ver bandas que me deixavam maluquinha, como os Holograms ou Kap Bambino, Iceage (sim, ainda não consegui ver), The Legendary Pink Dots, entre outras tantas que acabei por descobrir que também eram incríveis.


Em 2015 decidi aventurar-me. Foi sem dúvida uma edição memorável na história do festival, a única onde foi disponibilizada uma estadia low-cost no Estádio de Leiria para quem fosse portador de bilhete e também a única vez que mais do que 737 pessoas tiveram a oportunidade de partilhar um recinto tão icónico como o Castelo de Leiria, no último dia de festival. Foi também a primeira vez que eu estive num festival verdadeiramente alternativo, com um conceito inovador, um ambiente super familiar e histórico, uma organização extremamente acessível e um público incrível. Além disso ir para a front-line é peanuts e falar com os músicos/artistas é como encontrar aquele amigo conhecido no recinto e trocarem-se as últimas novidades. Ah, e depois é possível ver todas as bandas que compõem o cartaz, uma vez que não há sobreposição entre palcos e existe efetivamente uma pausa para jantar.


Então para mim o Entremuralhas foi aquela paixão que eu precisava de sentir nos festivais de verão, aquela necessidade de não ser apenas um número, da minha presença ser de extremo valor para a organização e da oportunidade, muitas vezes única, de ver bandas de excelente qualidade, apesar da sua pouca projeção mediática. Lene Lovich, And Also The Trees, Corpo-Mente, Igorrr, Tying Tiffany, Grausame Töchter, são alguns dos nomes que dificilmente hoje conheceria não fosse o Entremuralhas.

Outra das coisas que adoro no Entremuralhas é a forma como anunciam as bandas que vão marcar presença na edição mais recente do festival. O Carlos Matos, presidente da Fade In, entidade que organiza o Entremuralhas (entre outros tantos eventos que fazem a cidade do Lis  perpetuar a cultura underground), tem um programa de rádio semanal - a Unidade 304 - onde, todos os domingos, partilha de forma pública uma playlist com a duração aproximada a uma hora. Quem acompanha o programa, na época em que os nomes do festival começam a ser divulgados, sabe que pelo menos uma das bandas escolhidas nessa playlist integrará o alinhamento do festival. 

Em 2016 voltei a repetir a dose de festival gótico e, embora considerasse que o cartaz da edição de 2015 fosse pessoalmente mais atrativo, eu ia ter ali a oportunidade de ver o concerto de estreia da melhor banda do mundo (na minha perceção distorcida), os Corpo-Mente. Desta vez fui sozinha (como vou quase sempre) e percebi que até à data o Entremuralhas é o melhor festival para se fazer amigos. Juro! O facto de no recinto não poderem estar mais que 737 pessoas faz com que, ao longo dos três dias, se vá criando uma relação interpessoal, porque já se começam a identificar vários dos rostos presentes. Ao longo das edições, como estas caras vão sendo parcialmente as mesmas, torna-se fácil criar empatia e trocar novas experiências para quem é meio fóbico social. Ah, e nunca esquecer de referir que os seguranças do Castelo também são altamente. Ao terceiro dia já te perguntam como estás, cumprimentando-te com a habitual simpatia contagiante. Como não adorar?

© Helena Granjo

De uma forma geral, o impacto do Entremuralhas é mesmo muito positivo ao público que passa por lá regularmente, ou que já passou outrora, pelo menos. O facto de se ter de subir e subir e voltar a subir para assistir aos primeiros concertos no palco Igreja da Pena é tão recompensado na vista magnífica e singular que se consegue ter de toda a Leiria e, obviamente, pelos artistas que tocam numa Igreja a céu aberto e pelo manto negro que a cobre para assistir aos concertos. Ainda no topo acontecem performances, e encontram-se exposições de fotografia nos dois últimos dias de festival. Depois é sempre a descer até ao palco Alma e Corpo, onde atuam artistas prestigiados e de renome.

Em retrospetiva posso garantir que o Entremuralhas é definitivamente um excelente festival para todos aqueles que gostam/sentem a necessidade de viver experiências divergentes da oferta comercial. É um festival livre de preconceitos e completamente acolhedor para todas as faixas etárias e dirigido a todas as almas curiosas. É completamente único e enriquecido de um valor indeterminado. Para mim é o melhor festival de verão, mas eu sou só uma apaixonada. 

Para repetir a dose este ano, de 24 a 26 de agosto lá "estaremos", na linha da frente em Darkher e Nicole Sabouné e mais discretos (mas sempre a dar tudo) em Bärlin, Perturbator, Vox Low, In The Nursery, Atari Teenage Riot, e bem, é consultar os restantes nomes em baixo. Já sabem que também podem encontrar todas as informações adicionais disponíveis no site da Fade In.



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