domingo, 27 de agosto de 2017

Reportagem: Vodafone Paredes de Coura - 19 de agosto

Noiserv

O último dia do 25º Paredes de Coura começou ao início da tarde na Praia Fluvial do Taboão, com uma Vodafone Music Session de Noiserv. O conhecido músico português tocou 5 músicas ao piano, retiradas do seu último álbum. Algumas instrumentais, outras cantadas em português, as músicas, na qual usou, como habitualmente, loops, foram agradáveis e calmas. Apesar de não serem dos melhores trabalhos de David Santos, encaixaram bem no ambiente da praia e, como o concerto foi curto, não se tornaram repetitivas. Os concertos seguintes na zona do rio ocorreram no palco Jazz na Relva. Valter Lobo e This Penguin Can Fly não foram tão interessantes como Noiserv, mas entreteram os festivaleiros à tarde antes da subida ao palco do Governo Sombra.

No recinto também não faltaram concertos de artistas portugueses, com Toulouse e Manel Cruz a abrir os palcos. Depois foi a vez de White Haus, projeto de João Vieira (X-Wife). Assistimos a poucos minutos deste último concerto antes de nos deslocarmos para o palco principal, onde tocaram os Foxygen.


Foxygen

A banda deu no Primavera Sound um concerto muito teatral, onde houve coreografias de dança, lutas de espadas, flores e mais. Este ano contiveram-se mais em palco, o que levou a um concerto menos divertido e espetacular. A banda manteve, no entanto, a estética visual glam rock à anos 70.  Até houve tempo para uma troca de vestuário por parte dos vocalistas durante uma secção instrumental mais alongada. Este estilo caracteriza também algumas das suas músicas, que têm também traços psicadélicos e, mais recentemente, progressivos. O último álbum da banda tem algumas composições mais elaboradas e épicas, a fazer lembrar por vezes teatros musicais. A banda tocou esse disco, Hang, na totalidade, sem deixar de fora algumas canções de We Are the 21st Century Ambassadors of Peace & Magic, incluindo "San Francisco" e "No Destruction". O vocalista Sam France foi comunicativo e engraçado e contribuiu para o ambiente divertido e positivo do concerto.


Alex Cameron

Alex Cameron já tocou mais vezes em Portugal, mas foi no palco secundário do Paredes de Coura que tive a oportunidade de o ver pela primeira vez. O cantor falou com o público, fez piadas sobre o seu amigo Roy, saxofonista, dançou e teve uma excelente presença em palco. Dedicou a música "The Comeback" aos Foxygen e tocou algumas do seu próximo álbum, Forced Witnessincluindo "Marlon Brando". Esta foi a última e melhor do concerto, um dos que teve o som melhor equilibrado em todo o festival.

Benjamin Clementine, cantautor britânico que alcançou um grande sucesso nos últimos 2 anos, pareceu encantar o público no palco principal. Não vimos muito do seu concerto, mas deu para perceber que faz um bom trabalho ao vivo e deve ter dado um bom concerto para os fãs da sua sonoridade. Não há como negar que tem talento e uma boa voz, mas decidi apostar no rock e fui cedo para o outro palco guardar lugar para Lightning Bolt.


Lightning Bolt

Os Lightning Bolt são um duo de noise rock explosivo e muito intenso. A banda apresentou um som de baixo distorcido e barulhento, que tornou mais difícil distinguir as melodias do que nas versões de estúdio (algo que não é necessariamente bom ou mau), e uma bateria frenética e poderosa. Enquanto tocava, o baterista cantava para um microfone incorporado na máscara que usava e incorporava a sua voz nas músicas como um instrumento e fonte de barulho, sem se sobrepor ao instrumental. As músicas foram muito focadas em ritmo e ruído e resultaram muito bem. Não faltaram headbangings, saltos e crowdsurfing. Foi um dos melhores e mais brutais concertos do festival.

O rock continuo no palco principal, com Ty Segall. Tem vindo todos os anos a Portugal e 2017 não foi excepção. Foi, no entanto, o concerto dele que menos me agradou entre aqueles a que assisti. Talvez por não ter estado na confusão das primeiras filas, talvez por ter sido logo após Lightning Bolt, mas pareceu faltar algo. Houve, no entanto, boas malhas e um bom trabalho de toda a banda, que se safou muito bem durante a troca de uma corda partida, aproveitada para uma secção instrumental alongada que culminou num solo. Ty chegou a trocar de lugar com o baterista durante uma música, fazendo lembrar os Fuzz, banda na qual toca bateria.


Foals

Não esperava muito de Foals, apesar de ser fã dos primeiros três discos da banda. Acabei surpreendido e agradado. O concerto começou de maneira razoável, mas apenas ficou interessante a partir da 3ª música, "Olympic Airways", seguida imediatamente por outro bom single, "My Number". A setlist foi composta por músicas dos vários álbuns, algumas melhores, outras piores, mas no geral foi bastante consistente. Entre os destaques estiveram "Spanish Sahara", na qual a banda se aventura pelo pós-rock, "Inhaler", com o seu riff excelente e pesado e "Two Steps, Twice", um bom final para o concerto. Os efeitos de luzes também estiveram bem, tal como algumas das imagens projetadas, com alguns efeitos a fazer lembrar a arte de Leif Podhajsky (e que possivelmente são da sua autoria, pois este fez o design da capa de Holy Fire) e outros a serem aplicados a filmagens de água, tornando-as bastante agradáveis. Quando eram usadas filmagens editadas do concerto, os efeitos não eram muito interessantes nem agradáveis. Yannis Philippakis deu tudo nas músicas mais intensas, como "Inhaler" e desceu para as grades durante "What Went Down".

Após o concerto, um duo de músicos cantou os parabéns ao festival e logo depois ouviu-se "All My Friends" dos LCD Soundsystem a passar nas colunas, acompanhada de confetti, bolas insufláveis e imagens projetadas nos ecrãs. Foi um momento muito bom e a música escolhida foi perfeita. Assim se celebra um aniversário.



Cantaram-se os parabéns, mas a festa continuou no after hours, com Throes + The Shine e, como não podia faltar, um DJ Set de Nuno Lopes

O Paredes de Coura deste ano foi um sucesso. O cartaz foi melhor do que nos últimos anos e houve uma grande variedade de bons concertos e géneros musicais. Ficou a faltar um concerto realmente excelente, mas a qualidade foi, em média, bastante alta. Há, no entanto, aspetos a melhorar. O palco principal precisa de um tapete a cobrir a terra, porque o pó torna as primeiras filas em certos concertos insuportáveis. O campismo teve condições melhoradas e, no geral, um bom ambiente, mas pareceu estar sobrelotado. No recinto, parte do público parecia só lá estar para fazer mosh. Há situações em que simplesmente não faz sentido fazer mosh e está-se apenas a incomodar quem está à volta, mas isso aconteceu repetidamente. 

Espero um campismo menos cheio e mais bons concertos em 2018. Talvez um regresso dos Queens of the Stone Age. O Paredes de Coura é um dos melhores festivais em Portugal e esperemos que continue no bom caminho. Cá estaremos para mais 25 anos.

Reportagem por: Rui Santos
Fotografia por: Hugo Lima

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