segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Reportagem: Black Bombaim & Peter Brötzmann [Passos Manuel, Porto]



Na passada quinta-feira assistimos àquela que poderá ter sido a última atuação do power trio Black Bombaim com o génio do free jazz europeu Peter Brötzmann. O encontro entre estas duas forças tão díspares fez-se pela primeira vez em 2016, aquando do festival Rescaldo na Culturgest, no Porto, seguido de um concerto no Hard Club no dia a seguir. Black Bombaim & Peter Brötzmann surgiria uns meses depois, editado nos estúdios Sá da Bandeira, reforçando assim o histórico e a experiência jazzística no som da banda natural de Barcelos, que em 2012 trabalhou com o malogrado saxofonista Steve Mackay, esse turbilhão desenfreado que nos surge do modo mais inesperado em Funhouse dos The Stooges, e que viria contribuir com uma faixa para o disco Titans. A convivência feliz entre as sonoridades pesadas e riffs tipicamente rotulados como stoner rock do trio com a esfera jazz de cariz mais experimental não se ficaria por aqui, contando ainda com a colaboração dos saxofonistas portugueses Pedro Sousa e Rodrigo Amado.

Este ano, Black Bombaim e Peter Brötzmann juntaram-se novamente para os derradeiros confrontos com duas performances - a primeira a decorrer no Musicbox, em Lisboa, inserido nas sessões do Jameson Urban Routes, e uma última atuação no auditório do Passos Manuel, no Porto. A ocasião era de grande expectativa, portanto, e a sala portuense rapidamente se apresentou bem composta. Seguindo um registo semelhante ao do disco, o concerto iniciou-se com o poderoso sopro do saxofone tenor de Brötzmann, numa espécie de monólogo bizarro e absurdo que viria a completar-se com o som dos portugueses a surgir discreto e em crescendo. Já com a artilharia toda preparada, o monólogo transforma-se de imediato num diálogo entre gigantes, uma luta que não procura uma oposição mas sim uma comunhão de respeito e sintonia. E se a força bruta do trio português ofuscava, por vezes, a magia do saxofonista alemão, de imediato nos apercebíamos da falta e do vazio que se sentia na sala assim que este terminava o seu sopro inigualável. As suas capacidades exímias como saxofonista preenchem o espaço de tal modo que se tornam parte essencial da performance, ora de modo subtil e discreto, ora através de sopros vorazes, secos e rasgados sacados a todos os pulmões. E não esquecer que já lá vão 76 anos de vida e uma carreira incontestável cheia de marcos como Machine Gun, que em 1968 o juntou a Evan Parker para um dos discos mais desafiantes e influentes do género. 



É de louvar a coragem e a ousadia dos Black Bombaim em colaborar com nomes grandes como este, colocando-nos a nós, redatores, sob o risco de ocultar a força das suas atuações perante o encanto que é assistir a um dos cânones do free jazz como é Brötzmann, mas a verdade é que o trio possui capacidades acima da média e uma força inegável e explosiva, onde o músculo reina e nos remete para paisagens saídas de um deserto escaldante. A convivência tanto em disco como ao vivo é extremamente fortuita e bem sucedida, uma demonstração de profundo respeito por parte de ambos sem olhar para diferenças geracionais ou passado histórico. Aqui assistimos a uma prova viva de humildade, longe de preceitos e convenções onde o objetivo é a procura por novas sonoridades e experiências e, acima de tudo, evolução e crescimento. Foi sob esta premissa que tudo isto se tornou realidade, e só assim foi possível assistir ao encontro entre estas duas identidades tão diferentes, culminando assim uma bonita e improvável relação que ficará para sempre guardada na nossa memória.

Antes, os Paisiel encarregaram-se da primeira parte com um set competente que serviu como o aquecimento ideal para o que viria a seguir-se. A dupla composta por João Pais Filipe e o alemão Julius Gabriel apresentou um diálogo interessante entre saxofone, bateria e gongo, num concerto curto mas rico em melodias introspetivas e imersivas.


Reportagem fotográfica completa aqui.

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Eduardo Silva





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