quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Reportagem: Semibreve - Dia 2

©Adriano Ferreira Borges

O segundo dia desta sétima edição do Semibreve ficou marcado pela tormenta trazida por Fis e Deathprod, que pintaram de negro o grande auditório do Theatro Circo com duas atuações feitas de extremos, mas antes fez-se luz na Capela Imaculada do Seminário Menor com uma performance única de Steve Hauschildt. À semelhança de Christina Vantzou em 2016, o ex-Emeralds apresentou-se no mesmo espaço para uma performance angelical e marcante, uma demonstração sublime das capacidades de Steve como mestre exímio na execução de paisagens gélidas e delicadas em finas camadas de sintetizadores digitais. A introspeção reinou nesta belíssima experiência, que mais uma vez recebeu o público do festival e não só com uma atuação a portas abertas e de entrada gratuita. A convivência feliz entre a arquitetura moderna da capela com as composições visionárias de Steve Haushildt resultaram particularmente bem e proporcionaram um início de tarde magnífico cheio de apontamentos subtis. Com Strands  ainda fresco, foi possível experienciar ao vivo as bonitas atmosferas de temas como “Time We Have”, ouvido já bem perto do fim do concerto e a realçar o lado mais etéreo e celestial do concerto. 

A tormenta seguia-se no Theatro Circo com o furacão kiwi Fis a trazer o lado mais negro e denso ao festival. Acompanhado por uma interessante componente visual, onde se avistavam texturas e cenários marítimos sempre em tons enegrecidos, Fis e Jovan Vucinic (o homem por trás da vertente audiovisual do espetáculo) apresentaram uma boa dinâmica entre som e imagem, com as tenebrosas paredes sonoras de Fis a encaixarem na perfeição com o trabalho de Vucinic. No entanto, o jogo entre silêncios e sons abruptos e gritantes nem sempre entusiasmou. A procura por uma experiência violenta e visceral tornou-se previsível, repetitiva, as composições nunca chegaram a desenvolver-se totalmente ignorando qualquer tipo de melodia. É certo que não assistíamos a uma atuação “normal”, e o objetivo não seria com certeza agradar o público, mas a sua atuação fez-se apenas a dois tons, sem intermédios ou meio termos, apenas caos e revolta, como que relâmpagos em alto mar em dia de tempestade.



A procura por uma experiência densa e poderosa seria bem mais conseguida com o concerto que se seguiu. Numa das raras oportunidades de ver Deathprod ao vivo, o músico sediado em Oslo apresentou-se pela primeira vez em Portugal para uma das mais marcantes atuações desta edição. Sob um fino raio de luz azul e acompanhado por uma atmosfera austera e nebulosa, Helge Sten proporcionou uma intensa experiência onde o silêncio desempenhou um papel crucial na sua performance. Os drones atmosféricos e industriais que executa colocam-nos num estado tal de concentração que tudo o que se segue é de uma imprevisibilidade absurda. Seguem-se autênticos trovões após silêncios que nos servem como aviso para algo que se aproxima, como que um alarme para o perigo que se avista. O perigo, esse, materializa-se numa descarga sonora descomunal e abrasiva que nos atormenta e fascina. A parede sonora branca envolta numa nebulosidade densa previa o fim da atuação, ouvindo-se finalmente o silêncio em estado prolongado e interrompido apenas por uma merecida ovação por parte do público, abismado e grato por uma das mais avassaladoras experiências desta edição.



A intensidade destas duas densas atuações exigia uma pequena pausa, mas seguimos de imediato para o auditório pequeno para assistir à performance de Blessed Initiative, que deu continuidade ao tom enegrecido deste segundo dia. O projeto de Yair Elazar Glotman trouxe, à semelhança de Deathprod, um cenário austero e simples, envolto apenas num raio subtil vermelho que contornava a figura do produtor sediado em Berlim. O seu set foi simples e bem estruturado, procurando um equilíbrio entre graves techno e melodias ambient com boas doses de experimentalismo e atmosferas industriais. As particularidades da sala permitiram uma experiência sensorial expansiva, com detalhes limpos a surgirem da infinidade de colunas que a sala possui. Os ritmos repetitivos de Blessed Initiative exigem um tempo e concentração especial, mas assim que se entra no esquema situámo-nos numa experiência densa e imersiva onde o tempo parece reduzir-se para metade. 

A noite continuou até de madrugada no gnration com a imprevisibilidade do libanês Rabih Beaini e com o duo português Sabre.    






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