sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Reportagem: The Horrors + Mueran Humanos [Lisboa ao Vivo]

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Numa noite de autêntico temporal, com a Ana a soprar-nos no corpo, fomos até ao Lisboa ao Vivo assistir à passagem dos The Horrors pela capital. A banda britânica que no dia anterior tinha atuado na cidade invicta, veio ao nosso país apresentar o seu mais recente e quinto álbum de estúdio, V, editado em setembro.

Como não estava fácil andar por Lisboa com a tormenta que se fazia sentir, chegámos à sala com algum atraso e já decorria o concerto da dupla argentina (atualmente sediada na Alemanha), Mueran Humanos. Só nos foi possível escutar as últimas três músicas da banda cuja sonoridade flutua entre darkwave e o industrial. Após 40 minutos que serviram para apresentar temas do disco Miseress (2015) e ainda algumas músicas novas editadas em 2017, a dupla formada por Carmen Burguess (voz, caixas de ritmos, sintetizadores) e Tomas Nochteff (voz e baixo) abandonou o palco. O concerto ficou marcada pela falha de luz já na última música e pelo pouco entusiamo demonstrado tanto pelo público como pela banda.

Mueran Humanos

Passavam cinco minutos das 22 horas quando o quinteto britânico subiu ao palco. Sem qualquer apresentação, começaram o concerto com o tema de abertura de V, a industrial e psicadélica “Hologram”. Seguiu-se “Machine”, single de apresentação deste novo trabalho e que tão bem resulta ao vivo, com seu noise e distorção a furarem-nos os tímpanos. Se o mítico álbum Primary Colours (2009) tivesse sido gravado em 2017, esta certamente faria parte do alinhamento. 

Faris estava irreconhecível e quase que subiu para o público. Com vestes de cariz gótico, parecia uma espécie de Dave Gahan (vocalista dos Depeche Mode) meets Edward Scissorhands. Nunca antes o tínhamos visto mexer-se assim, de modo tão enérgico, tal como o resto da banda. 

E por falar em obras primas, surge “Who Can Say”, uma das músicas de Primary Colours e das mais conhecidas dos Horrors. No entanto, nem tudo era perfeito. Interpretada a um ritmo excessivamente rápido, a parte mais peculiar da música em que Faris confessa que tem sentimentos por outra mulher acabou por passar quase despercebida, quebrando a mágoa sentida nas letras.

Após estes dois temas notava-se que o público estava em êxtase. Foi então que surgiu a dançável “In and Out of Sight”, incursão única no menos conseguido Luminous, álbum que despertou a banda para uma viragem de página. Eram notórias as influências de New Order, funcionando esta música como um prenúncio para as sonoridades de V.



Regressando a Primary Colours, “Mirror’s Image” voltou a levar a plateia ao delírio completo. E o que dizer do melhor tema da banda, “Sea Within a Sea”? Seguindo a mesma toada energética que “Who Can Say”, estes temas sofreram com o seu ritmo elevado. De certezas que os fãs esperavam uma reprodução mais fiel ao que se pode ouvir em estúdio, ainda para mais falando de Primary Colours.

Seguiram-se “Weighed Down” e “Press Enter to Exit”, músicas que pouco se destacaram na atuação. “Endless Blues” representou a primeira visita a Skying (2011). Não sendo um dos singles, surpreendeu a escolha deste tema, o qual acabou por resultar de forma distinta. Foi com a música mais conhecida da banda que os Horrors abandonaram o palco pela primeira vez. “Still Life” teve direito à entoação do público, apesar do som vindo do baixo e dos teclados não estar nas melhores condições.

Os aplausos calorosos do público levaram a que a banda subisse de novo ao palco para um encore. Antes de iniciarem uma nova música, Faris perguntou ao público, meio indignado, “Quem é o gajo que está a pedir Sheena Is A Parasite?”, tema do primeiro álbum da banda, Strange House (2007), que já não é tocado há muitos anos. Ao que parece, uns rapazes da plateia queriam reviver a fase mais rebelde da banda. Em vez disso, focaram-se em V, com “Ghost”, música que resulta tão bem ao vivo como em estúdio, e “Something to Remember Me By”, single que naturalmente pôs a audiência toda a dançar, qual pista de Ibiza, qual quê.

Foram ao todo cerca de setenta e cinco minutos de concerto em que o quinteto britânico mostrou a sua nova faceta mais dinâmica, acabando com a atitude de quase corpo presente dos concertos no passado. A voz de Badwan está tão forte e audível ao vivo como se verificou em estúdio, sendo claramente um upgrade à qualidade da banda. Por outro lado, a velocidade com que a maioria das músicas foi interpretada empobreceu um pouco a experiência dos fãs que se deslocaram até ao LAV, dando a impressão que a banda queria concluir o concerto rapidamente.

The Horrors + Mueran Humanos [LAV, Lisboa]

Texto: Rui Gameiro
Fotografia: Virgílio Santos

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