sexta-feira, 22 de setembro de 2017

TOMARA - Favourite Ghost - música a música

TOMARA-favourite-ghost
© Estelle Valente

TOMARA é o alter-ego de Filipe Monteiro e Favourite Ghost é a sua primeira aventura a solo.

Falando um pouco da sua história, Filipe fez parte de algumas bandas de garagem, colaborou na formação dos Atomic Bees e com eles edita um único registo, Love Noises and Kisses. Continuou a acompanhar Rita Redshoes, um dos membros constituintes da banda, como arranjador e produtor dos seus discos e de Márcia. Além da música, Filipe completou o Curso de Design de Comunicação na Faculdade de Belas Artes, tendo mais tarde produzido videoclipes, DVD, documentários e desenhando a parte visual de alguns concertos para artistas como Da Weasel, Paulo Furtado, David Fonseca, Rita Redshoes, António Zambujo e Márcia.

TOMARA consegue, de forma singular, focar o ouvinte para uma espécie de dimensão supra-emocional: quando nos canta os primeiros dias de paternidade, o amor-tridente que lhe é milagre, o canto do tecto do quarto que lhe ocupou horas infinitas e mal-dormidas, mas também o que foi e o que pode ser adivinhado quando não lhe escutamos o timbre. Num serpentear de temas instrumentais e outros cantados, vamos de cabelos ventados por estradas largas, desertos parcamente despidos, primaveras e planetas belos carregados de uma melancolia reflexiva. 

Estivemos à conversa com Filipe Monteiro sobre o significado das canções que compõem Favourite Ghost, álbum hoje editado. 


1 - Hallow

Foi a canção que dito
u o início do processo de fazer um disco. Gravei um esboço em 2011, num pequeno escritório onde trabalhava em vídeo como freelancer. Enviei-o por email para a Márcia que tinha conhecido há muito pouco tempo e para quem ia filmar o vídeo da “Cabra-Cega”. Foi uma espécie de carta de amor. De resto única que enviei na vida. Ela foi a primeira a dizer-me que tinha de fazer um disco. E assim o fiz. E esta canção marca o seu início.



2 - Coffee And Toast

Esta canção é um pedido de desculpas. À falta de melhor talento para a descrever recorro-me do que o Ricardo Mariano escreveu sobre ela; ""Coffee And Toast", … , marca de forma segura o ritmo e a pulsação de Favourite Ghost . Pontuada por pianos, guitarras lânguidas, uma percussão firme e pausada, a canção narra de forma bela e redentora dias em que a felicidade foi, circunstancialmente, mergulhada num qualquer nevoeiro desordenado e difícil: quase penumbroso. A música salva, esta fá-lo docemente. O amor emerge ressoante."



3 - Favourite Ghost

Canção que fiz para a minha filha Carolina, que tem agora 5 anos e meio. É um recado que quero que a acompanhe a vida toda. E é também um recado para mim próprio.



4 - For No Reason

Esta foi talvez a canção mais difícil de terminar porque percebi que abordava, de uma forma muito directa, o medo de dar um passo que se revelava difícil e essencial para mim. Alguns medos perseguem-nos e, com a idade, tentamos arrumá-los num sitio onde achamos que já não nos vão atormentar. Porque acreditamos que a fase das grandes mudanças já passou, ficou lá atrás, e que nos podemos resignar a isso. Mas não creio que isso seja possível. Acredito que esses “fantasmas” só se tornam mais presentes com o passar do tempo. Durante 2 ou 3 anos esta canção foi apenas um instrumental onde me deixei levar pela energia da guitarra e da secção rítmica. Tinha um pulso diferente das outras canções, mais visceral para mim. Um misto de angústia e esperança. Quando percebi que queria escrever e cantar algo sobre essa paisagem sonora foi inevitável ter de escrever de uma forma mais directa e mais dura. E esse foi um passo muito demorado, carregado de dúvidas e incertezas, até o sentir firme. Acho que a canção, em parte, explica o porquê de eu estar a lançar o primeiro disco a solo aos 38 anos.



5 - Hope For The Best

Canção-encruzilhada.
Fala de um momento difícil. Um ponto de viragem, de mudança. O medo turva-nos a perspectiva e impede-nos de olhar para a mudança como algo renovador. Só nos deixa sentir o travo da incerteza. E aí não se vê caminho, só sombra. Esta canção é um diálogo sobre isso, sobre a procura de um caminho que não se vê e a esperança de o encontrar.



6 - The Road

Foi a primeira ca
nção que postei no Soundcloud. É um tema instrumental muito simples que apela ao meu lado escapista. Desenha paisagens onde me revejo. Há um silêncio e uma imensidão nesta canção que faz parte do que sou. Por isso a mantive assim, simples e despojada de ornamento.



7- House

Esta é a canção mais antiga de todas. Trauteava os primeiros versos já há muitos anos. Era uma canção de lamento por algo que me faltava. Entretanto a vida mudou e esta canção transformou-se num momento de reconhecimento pela felicidade que me rodeia na minha casa. Acrescentei-lhe a segunda estrofe, já com a voz da Márcia a acompanhar a minha, porque só isso fazia sentido. É uma canção muito importante para mim, não só por isto, mas pela sua simplicidade que me mantém a crença de que a musica também pode ser isso.



8 - The Land At The Bottom Of The Sea

Desde sempre gostei de construir peças instrumentais. Nelas vejo imagens reflectidas no som. Daí a minha profunda adoração por Bandas Sonoras. Este tema foi gravado “de rajada” sem grande planeamento. Começou com uma linha de guitarra, repetida vezes sem conta numa tarde de estúdio (passo horas a fazer isso). Tudo o resto que gravei por cima foi feito de uma assentada, sem pensar muito nem repetir “takes”. É um momento de descarga emocional que me é difícil descrever ou definir. Na altura em que o gravei estava a dar aulas de Audiovisuais e Multimédia na FBAUL, e um dos projectos que lancei aos meus alunos era trabalharem sobre uma peça sonora da Delia Derbyshire, “The Dreams”. O nome deste tema (the land at the bottom of the sea) acaba por ser uma citação de um dos momentos da peça da Delia Derbyshire, talvez por sentir afinidades entre as duas coisas.

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quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Angel Olsen anuncia novo álbum de raridades, Phases

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A mulher mais querida do momento do mundo indie, Angel Olsen, vai editar em novembro uma compilação que reúne B-sides, demos e faixas inéditas. Intitulada Phases, chega às lojas a 10 de novembro via Jagjaguwar

Nesta compilação estão incluídos temas que resultaram das sessões de gravação do último álbum, My Woman (2016), como é exemplo o tema "Special", o qual pode ser ouvido em baixo, assim como versão alternativas de temas de Burn Your Fire For No Witness (2014).



Phases inclui também o tema que Olsen compôs para o projeto Our First 100 Days, “Fly on Your Wall”. Podem consultar em baixo o alinhamento e capa desta compilação.





Phases Tracklist:

01. Fly on your Wall
02. Special
03. Only You
04. All Right Now
05. Sans
06. Sweet Dreams
07. California
08. Tougher Than the Rest
09. For You
10. How Many Dreams
11. May as Well
12. Endless Road

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Black Lips no Porto


Os Black Lips vão regressar a Portugal para um concerto no Porto, dia 28 de outubro. O evento, organizado pela Lovers & Lollypops, é no Maus Hábitos e os bilhetes custam 15 euros (18 na porta). 

A banda americana de garage rock lançou este ano o seu 8º álbum, Satan's Graffiti or God’s Art?, mas, tendo em conta as últimas setlists, deverão ser ouvidas músicas de quase todos os seus discos.

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Lawrence English em workshop organizado pelo Semibreve


Lawrence English é um dos grandes destaques da sétima edição do Semibreve, que nos últimos dias de outubro regressa a Braga para mais uma edição dedicada ao melhor da música eletrónica e artes digitais. Para além da atuação marcada para o último dia do festival, Lawrence irá dar ainda um workshop muito especial. Radical Listener está marcado para dia 28 de outubro (um dia antes da sua atuação) no encantador Mosteiro de Tibães, e leva Lawrence English a guiar os participantes pelas técnicas de field recording e de escuta aplicadas frequentemente no seu trabalho.

O programa consiste numa fase introdutória de conversa, seguida por um fase de recolha de sons e, posteriormente, escuta e análise. O nível dos participantes pode ser variado, assim como o equipamento utilizado que pode variar do smartphone até ao equipamento profissional. A duração do workshop será entre as 3 e 5 horas, dependendo do local onde decorrer a sessão de captação, e os bilhetes possuem o custo de 25 euros. A entrada é limitada a 15 pessoas e os bilhetes podem ser adquiridos aqui.

Também já são conhecidos os vencedores do EDIGMA SEMIBREVE Award 2017. Adam Basanta & Gil Delindro são os grandes vencedores do concurso anual e o seu trabalho será exposto durante o festival. Permafrost é o nome do trabalho que junta o português Adam Basanta ao canadiano Gil Delindro, que poderão conhecer um pouco melhor no vídeo em baixo.


Fiquem ainda com o vídeo partilhado pelo festival em colaboração com o Canal 180 relativo à performance de Christina Vantzou, que se apresentou ao lado do Harawi Ensemble na Capela da Imaculada Conceição em 2016.




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quarta-feira, 20 de setembro de 2017

$UICIDEBOY$ estreiam-se em Portugal



Os $UICIDEBOY$, duo americano de hip hop, vão estrear-se em Portugal em 2018. Dia 25 de fevereiro tocam no Lisboa ao Vivo, num concerto organizado pela Everything is New. Os bilhetes começam a ser vendidos no dia 22 deste mês. O preço ainda não foi revelado.

O grupo tem inúmeros discos, incluindo vários EP's lançados este ano.

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Masma Dream World - "Elephant" (video) [Threshold Premiere]


Nascida no Gabão, Devi Mambouka viveu uma infância de violência e magia, de riquezas e dificuldades. Procurando consolo na secção World Music na Tower Records, procurando pela  África mítica que assombrava as suas memórias de infância. Atualmente Devi Mambouka mora em Brooklyn e estuda terapia de som e consciência, criando mundos que ela canaliza através do seu Masma Dream World.

Este novo EP, homónimo, vem dar sucessão ao EP de estreia Dream World (2015) e chega às prateleiras em outubro, tendo visto como primeiro avanço o tema "Samounika (The Prince)". Hoje, quarta-feira, 20 de setembro, a artista avança com o novo single "Elephant" que segue acompanhado de um trabalho audiovisual que grava a artista em diferentes perspectivas. Começando a ser desenhado em setembro de 2014 com o designer sueco Tove Berglund, o vídeo para "Elephant" só foi realizado quando Devi e Tove se encontraram com a cineasta Margret Seema Takyar, que desenvolveu o conceito de usar luz e escuridão como pano de fundo para a performance de dança inspirada em Butoh de Devi. Podem ver o resultado abaixo.

Masma Dream World EP tem data de lançamento prevista para 19 de outubro.



Masma Dream World Tracklist:

Side 1
1. Masma Dream World
2. Élèphant
3. Samounika (The Prince)

Side 2
4. The Song Of The D.D.D. (Demon Dragon Daughter)
5. Prayer Of The Midnight Flower
6. Black Panther [bonus track, only available in cassette]

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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Hip Hop em cartaz no Mexefest

O Mexefest acabou de acrescentar ao seu cartaz Allen Halloween, Karlon Krioulo e Statik Selektah

Allen Halloween e Karlon Krioulo são a prata da casa, duas das jóias da coroa do hip hop nacional. Halloween é um dos mais reputados MC's nacionais e irá apresentar no certame fragmentos de Unplugueto, o seu mais recente trabalho, composto por reedições de alguns clássicos da sua autoria. 

Krioulo é um dos membros fundadores dos Nigga Poison e um dos pioneiros do hip hop criolo em Portugal. Editou Passaporti no ano transacto, um LP que irá apresentar ao público do Mexefest




Statik Selektah é um dos mais aclamados produtores norte-americanos. Já trabalhou com Action Bronson, REKS, Freddie Gibbs e prepara-se para lançar 8, o seu mais recente LP com edição prevista para o final deste ano. Imperdível.


Os bilhetes para o Vodafone Mexefest encontram-se neste momento à venda nos locais por 45€, sendo o preço 50€ nos dias de festival.

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[Review] Mogwai - Every Country's Sun


Every Country’s Sun // Rock Action Records // setembro de 2017
6.5/10

O pós-rock já teve melhores dias. Não tem havido muita originalidade e inovação no género e este não é tão popular agora como já foi noutros anos. No entanto, bandas como os Godspeed You! Black Emperor, os Sigur Rós e os Mogwai continuam a lançar novos discos e a receber bastante atenção. Os últimos lançaram este mês o seu primeiro álbum de estúdio como quarteto, após a saída do guitarrista John Cummings.

Não sabia muito bem o que esperar em relação a este disco, pois conheço melhor a fase inicial da carreira dos Mogwai do que o trabalho mais recente da banda. A verdade é que o som não é muito diferente daquele presente em lançamentos anteriores da banda. Fez-me lembrar também os 65daysofstatic.

O álbum começa com “Coolverine”, que introduz um ambiente no qual a música toda se baseia, continua com algumas variações e chega a um crescendo. Tudo isto sem aumentar muito a intensidade, mantendo um som mais leve que caracteriza várias das músicas do disco. Infelizmente, isto nem sempre é bom, pois é uma das razões para várias delas servirem apenas como música de fundo pouco interessante. Nenhum das músicas é muito memorável e não é difícil ficar desinteressado em algumas delas. “Brain Sweeties” é uma das que menos captam a atenção. “Crossing the Road Material” tem algumas boas melodias, mas em partes é um conjunto de camadas de sons sobrepostos uns aos outros que se misturam de maneira pouco eficaz, sem nenhum se conseguir destacar. “Don’t Believe the Fife” é demasiado longa para o seu bem e quando aumenta de intensidade já é demasiado tarde para ter algum impacto.



Em contrapartida, “20 Size” resulta. Tem como um dos seus pontos fortes a linha de baixo, acompanhada pela guitarra, que me prendeu à música. Não é esse, no entanto, o único instrumento que se realça na música, que funciona bem na sua totalidade. “1000 Foot Face” também é um sucesso, criando um ambiente calmo e agradável. "Battered At a Scramble" e "Old Poisons", quase no fim do disco, são as faixas mais pesadas e intensas. São energéticas, têm uma sonoridade rock e distinguem-se do resto do álbum, especialmente a primeira delas.

A verdade é que nenhuma destas melhores músicas consegue atingir a qualidade de outras da banda e de outros artistas semelhantes, mas são elas que mais contribuem para o álbum não se tornar aborrecido e se manter algo interessante de uma ponta à outra. É um disco decente e a sua audição pode valer a pena para os fãs do género, apesar de se sentir a falta de no mínimo uma música marcante e memorável à qual vale a pena regressar várias vezes.

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10 000 Russos em entrevista: "Não sei se gastamos mais em café do que em portagens"


Os portuenses 10 000 Russos estão em mais uma digressão pela Europa, a segunda este ano, a qual teve início no passado dia 8 de setembro, no Reverence Festival. Ao todo são 52 concertos em países como Portugal, Espanha, França, Itália, Croácia, Suíça, Alemanha, Bélgica, Holanda, Inglaterra, Polónia e Escócia. A tour de apresentação de Distress Distress, segundo álbum de estúdio do trio que editado em abril pela Fuzz Club, termina a 18 de novembro com a banda a fazer a primeira parte do concerto dos The Fall no Hard Club.

Estivemos à conversa com o Pedro Pestana, guitarrista da banda. 


Threshold Magazine (TM) - Como é que chegaram ao número 10 000?

Pedro Pestana (PP) - É uma piada com o Demis Rousos, basicamente. Soa bem.

TM - Foi rápido chegar a essa ideia?

PP - O pessoal estava na tanga numa noite de copos e esse nome surgiu.

TM - Quais é que são as maiores diferenças entre este disco novo, Distress Distress, editado em abril, e o álbum homónimo editado em 2015?

PP - Por um lado, está mais limpo mas está mais sujo. Já pareço o Martin Hannett a falar. Eu nem sequer sei se o gajo disse isso mas pode ser daquelas anedotas que contam sobre o pessoal, tipo histórias verídicas. O gajo virou-se para o baterista dos Joy Division e disse: "Toca mais depressa mas mais devagar". 
No Distress Distress as malhas estão diferentes, mas os princípios são mais ou menos os mesmos. É mais equilibrado, com a gravação ao vivo, todos ao mesmo tempo, e com a gravação à vez, às pistas. Houve malhas que construímos no estúdio. 

TM - É a forma clássica que costuma ser gravada.

PP - Prefiro gravar com toda a gente ao mesmo tempo.

TM - Fica um resultado diferente. Têm um som mais "ao vivo" em estúdio.

PP - Com uma sala boa e bons micros, consegues reduzir esse bleed ao mínimo. Também ao volume que a malta toca, só podes eventualmente ter problemas com a bateria, com os bombos, mas não é nada que não se resolva. Ficas é com o que interessa, a pica de não seguir o metrónomo, de estar a malta ao mesmo tempo.

TM - Ficam também com alguma preparação para tocar ao vivo. Ao vivo necessitam ter outros elementos diferentes de estúdio, para uma pessoa não pensar que está em estúdio.

PP - Nós ao vivo não tocamos as coisas da mesma forma, muito menos as que foram feitas em estúdio. Há cenas que não dá mesmo.



TM - Como é que se sentem por fazerem parte de uma editora tão conceituada como Fuzz Club Records?

PP - Foi um ótimo convite da parte deles. Eles viram um concerto nosso no Reverence 2014 e gostaram. Eu achava que estás estórias só haviam nos anos 90. Foi um bom momento.

TM - Vão começar a vossa tour europeia no Reverence e acabaram uma há pouco tempo, em junho. Como é que conseguem arranjar tanta energia para duas tours europeias assim quase seguidas?

PP - Não sei se gastamos mais em café do que em portagens, agora que falas nisso (risos).

TM - Alguma vez tiveram medo de tocar nalgum país?

PP - (Risos) Nunca fomos a nenhum sítio em estado de guerra. Já fomos a sítios com códigos estranhos.

TM - E receio de por terem "russo" no vosso nome?

PP - Só por ser russo, quer dizer que é mais giro?

TM - Imagina que tocavam nos USA, como é que era? 

PP - Nos U.S.A. não, isso é outro empreendimento. A malta às vezes pergunta por causa do nome e nós vamos dando respostas da tanga.

TM - Já tocaram na Rússia?

PP - Não mas faz parte dos objetivos. Uma coisa de cada vez.

TM - E que reações é que esperam se lá atuarem?

PP - Que nos atirem pedras (risos).

TM - "Épa, estes gajos chamam-se russos e não cantam em russo sequer".

TM - Gostavam de atuar em mais festivais em Portugal? Eu frequento vários festivais e nunca vos apanhei. Espero agora apanhar-vos a abrir para The Fall, mas não é festival.

PP - Depende. Às vezes é uma questão de calendário e outras vezes é uma questão de circunstância.

TM - Vocês têm uma história que envolve a ETA. Queres contar?

PP - Acho que isso é um mito. Não sei se o desmistifique ou aprofunde. 
Nós tocámos num festival no país basco. Era para apoio aos presos da ETA, de certa forma. O governo espanhol tem os presos da ETA na Andaluzia, e as famílias e os próprios presos queixam-se que não é fácil viajar em Espanha, são muitas horas de carro, por isso não vêem as famílias, etc. São considerados presos terroristas, segundo o governo espanhol. Isto é os bascos a reinvindicarem alguns direitos para os presos. Desmistificando, é só isto (risos). Fomos a única banda estrangeira a tocar nesse festival, o que teve piada.



TM - Como é que se sentem a abrir para The Fall no Hard Club, a 18 de novembro?

PP - É fixe, é uma banda que a gente curte e temos encontrado na estrada montes de gente cuja música ouvimos em casa. The Fall ouvimos desde a adolescência, o que torna a coisa com piada. Não estamos à espera de grandes festas. Já é fixe ver o concerto, espero que seja dos bons.

TM - Estás à espera de fazer parte de The Fall?

PP - Achas que sim?! Não sou maluco, meu! (risos). Acho fixe a banda mas não tenho essas cenas adolescentes.

TM - Olha que o Mark E. Smith diz que basta ser ele e a tua avó para ser The Fall.

PP - Aquilo é uma banda de malucos. Tens de ler um livro sobre os membros dos The Fall,  The Fallen: Life In and Out of Britain's Most Insane Group. Em 30 e tal anos, os The Fall tiveram uns 50 ou 60 membros. Só o Mark E. Smith é que ficou a tocar, aquilo é o projeto dele. Mete sempre a namorada a tocar, teve um baixista a tocar durante muitos anos, o Steve Hanley. Recruta pessoal no pub que não sabe tocar e que não conhece a cena dele. Ele não está numa de aturar gente normal. O gajo não quer fãs, é fixe isso.

O manager dos Chemical Brothers é que já tocou nos The Fall. Deu um concerto com a banda porque o gajo tinha despedido o baterista nesse dia. Então andaram no festival a procurar alguém para tocar bateria. Esse manager disse que era ganda fã, e perguntou que músicas é que queriam que ele tocasse, ao que o Mark E. Smith respondeu: Não te preocupes, o material é todo novo. Toca um beat.

TM - O que tens andado a ouvir nestas últimas semanas?

PP - Tenho andado em misturas, por isso não tenho ouvido muita música, para ver se poupo os ouvidos. Estou a misturar o disco dos dreamweapon, vai ser pela Fuzz Club também para o ano ou ainda este ano. Tenho também de misturar um disco ao vivo nosso. Vamos lançar um agora, um concerto em Dusseldorf. 



 As datas completas da digressão europeia podem ser consultadas abaixo.


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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Reportagem: Greg Fox [sub-placo do Teatro Municipal Rivoli, Porto]

© Ana Carvalho dos Santos

Foi esta sexta feira que regressamos ao subterrâneo do Teatro Rivoli, no Porto, para mais um concerto com curadoria Lovers & Lollypops. Depois de trazerem nomes como Jibóia, Pop.1280 e Za, foi a vez do baterista  nova iorquino  Greg Fox se apresentar no sub-palco do Teatro Rivoli para uma performance a solo.  

Membro integrante dos mais diversos projetos, entre os quais se encontram Liturgy , Zs e Ex Eye, com quem gravou este ano um disco ao lado do saxofonista Colin Stetson, foi com o seu segundo disco em nome próprio que Fox se apresentou novamente  em Portugal. The Gradual Progression, assim se intitula o novo disco de Fox, foi o disco que serviu de mote à tour europeia que terminou precisamente na cidade do Porto.

Para a sua performance a solo, Fox veio equipado com um software de percussão sensorial, o mesmo utilizado na produção do seu mais recente disco. Por me encontrar um pouco longe do palco não pude averiguar com mais profundidade o funcionamento deste sistema, mas com um pouco de pesquisa pude entender que a ligação dos diferentes elementos da bateria ao sistema permitem-lhe criar diversos tipos de sons diferentes, proporcionando um espetáculo mais completo num registo one man band.



Tendo o jazz sempre como base, o concerto iniciou-se de modo mais improvisado e experimental com alguns temas que poderão integrar um possível novo disco, segundo o próprio baterista. A aplicação do sistema e de pré-gravações de saxofone trazem riqueza e volume à sua atuação que recebe assim mais elementos fora da esfera jazzística como a música ambient, delineada em finas camadas de sintetizadores que surgem em perfeita união com a bateria de Fox.

Na segunda metade do concerto começávamos a ouvir alguns dos temas mais familiares que integram The Gradual Progression como “By Virtue of Emptiness (que recebeu recentemente novo trabalho audiovisual) e a poderosa “My House of Equalizing Predecessors”, onde se ouvem finalmente os tão aguardados blast beats que caraterizam o estilo de Fox, não fosse ele baterista dos vanguardistas do black metal Liturgy. Com uma bateria certeira e a velocidade estonteante, foi assim que chegamos ao fim da atuação, com uma bela e extensa versão do tema anteriormente referido. Entre as quebras e depois de uma procura pelo silêncio, Fox atacava a bateria com tudo, agora sem a companhia de sons pré-gravados. Só ele e a bateria.

Foram 40 minutos de pura intensidade executados por um dos artistas mais desafiantes e intrigantes do momento, detentor de uma sonoridade complexa que transcende as normas convencionais não só do jazz mas de uma infinidade de géneros musicais, culminando assim mais uma aposta bem sucedida no que diz respeito ao circuito musical vanguardista.


Greg Fox @sub-palco Teatro Municipal Rivoli, Porto

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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Reportagem: EDP Vilar de Mouros 2017


No passado dia 24 de agosto arrancou a edição de 2017 do mítico festival Vilar de Mouros. Este ano com o patrocínio da EDP e com a mesma organização que, apesar de não muito experiente, garantiu o enorme sucesso de duas edições consecutivas do festival. Os principais destaques musicais deste ano eram os Primal Scream, The Jesus And Mary Chain e The Psychedelic Furs, mas a gastronomia também foi bastante destacada como, por exemplo, as tão anunciadas papas de Sarrabulho (que apenas estiveram disponíveis no último dia e em quantidades muito limitadas).

Esta reportagem segue como um conjunto de memórias e do que perdurou de mais uma edição bem sucedida do festival.


Dia 1

The Veils


A abertura da edição de 2017 do EDP Vilar de Mouros coube aos The Veils. Apesar da sua carreira com mais de 15 anos, a banda optou por se focar no mais recente trabalho, Total Depravity. Um concerto onde os principais destaques foram "Axolotl", tema que a banda também executou num dos episódios da mais recente temporada de Twin Peaks, "Low Lays The Devil" e o chapéu característico de Finn Andrews. Um concerto bom que, infelizmente, passou muito despercebido por ter sido inserido no dia com os melhores concertos. 


The Young Gods



Num registo em nada semelhante ao do concerto anterior, os helvéticos The Young Gods lançaram um ambiente de rock industrial sobre o recinto. Na memória ficou, sobretudo, a lanterna na base do suporte do microfone do vocalista que o mesmo apontava ocasionalmente para o público e o ambiente denso que, por mais estranho que pareça, convidava à dança, uma vontade de dançar só mais tarde rivalizada pelo último concerto da noite.


The Mission


Formados por antigos membros de Sisters Of Mercy, em 1986, e cedo criando uma identidade e canções poderosas, os The Mission marcaram uma geração. O concerto que apresentaram em Vilar de Mouros pode ser visto como um "best of" (ainda que com uma duração muito limitada) da banda. 

As canções ouvidas eram as que os presentes queriam ouvir, as que os marcaram e que os fazem regressar à juventude. Isto aliado ao facto da banda realmente as executar com muita qualidade, criou um concerto memorável mesmo para aqueles a quem a banda pouco significa (como é o meu caso). Pensando no concerto, são muitas as memórias que surgem: um grupo de fãs que lançou confetis durante "Wasteland", Wayne Hussey a anunciar saber falar um pouco de português e as canções "Met-Amor-Phosis" e "Deliverance".


The Jesus and Mary Chain


Apesar do novo álbum, depois de uma espera de 19 anos, Damage And Joy, ter desiludido muitos fãs, o primeiro dia do festival foi o que registou maior afluência e a principal causa foram os The Jesus and Mary Chain.

Iniciando com "Amputation" do novo disco e, sem perder tempo, passando para o clássico "April Skies", a banda conseguiu fazer com que metade do concerto fossem músicas novas que, no meio dos clássicos, não pareceram destoar. Se o concerto tivesse terminado após "I Hate Rock'n'Roll" duvido que alguém fosse para casa descontente mas os irmãos Reid decidiram presentear os fãs de Psychocandy com 3 músicas do disco (entre elas "Just Like Honey", como é óbvio) e um momento inédito em que o baterista original da banda, Bobby Gillespie, vocalista de Primal Scream, se juntou para auxiliar na percussão destes temas.


Primal Scream


A noite não estaria completa sem a actuação de Primal Scream. Depois da entrada de palco da banda e uns minutos de conversa por parte de Bobby Gillespie, começaram a tocar um dos seus maiores êxitos "Movin' On Up" que viria a ser interrompido por uma falha no amplificador da guitarra. Após uns minutos de espera este foi trocado e o single de Screamadelica foi reiniciado. 

Num concerto não muito longo, como infelizmente é habito no Vilar de Mouros, os Primal Scream visitaram especialmente o seu icónico disco Screamadelica, mas também alguns singles como "Rocks" ou "Swastika Eyes" e a relativamente recente "It's Alright, It's OK". Um espétaculo que ficou marcado pela simpatia de Bobby e pela crescente vontade de dançar que culminou em "Come Together", terminando, assim, da melhor forma.


EDP Vilar de Mouros 2017 - Dia 1


Dia 2 

Golden Slumbers


Iniciando o "dia festival da canção" (por haver actuações de dois projectos presentes neste concurso), ou o que se espectava ser o dia mais fraco, subiram ao palco as Golden Slumbers. As irmãs Falcão partilharam o folk de New Messiah para uma plateia ainda quase vazia e poucos terão sido os momentos memoráveis deste concerto, talvez o único mencionável será o single homónimo ao disco.


Peter Bjorn and John


Conhecidos pelo single "Young Folk" e usando roupas que me fizeram lembram as de Tintin em "Rumo À Lua", o trio sueco deu um concerto bastante energético, principalmente Peter que passou a maior parte do concerto a saltar. Infelizmente, o single que mais se esperava ouvir desiludiu um bocado mas os temas "Amsterdam" e "Let's Call It Off" mostraram merecer, pelo menos, uma parte da fama de "Young Folk".


Salvador Sobral


O herói da Eurovisão foi mais um dos artistas que aparentavam estar bastante deslocadas do que é (ou do que costuma) ser o foco festival, chegando mesmo a brincar dizendo que provavelmente a sua actuação tinha sido um "erro de casting". 

O recinto encheu-se de fãs de "Amar Pelos Dois", não necessariamente fãs de Salvador Sobral, e talvez tenha sido o único momento em que o recinto esteve bastante composto no segundo dia do festival. Não sendo o artista mais indicado para actuar no festival conseguiu oferecer um dos melhores momentos do mesmo com a sua interpretação do poema "Presságio" de Fernando Pessoa.


George Ezra


Após um concerto que me surpreendeu seguiu-se o verdadeiro "erro de casting". À semelhança dos Milky Chance, em 2016, George Ezra é um artista completamente deslocado no contexto do Vilar de Mouros ao qual, ainda assim, e apesar de não apreciar o seu trabalho em estúdio, decidi dar uma oportunidade. O músico britânico fez-me, rapidamente, lembrar Sam Smith, cimentando a minha opinião de que é um artista que não deveria actuar neste festival.


Capitão Fausto


Antes de subirem ao palco ouviu-se  "T 3 R 3 4 5" dos Bispo, a cover 8 bit de "Teresa" a música mais pedida em todos os concertos mas que raramente é tocada. A banda lisboeta deu um concerto competente mas talvez o alinhamento pudesse ter sido melhor. O disco editado no ano passado foi tocado quase na integra o que fez com que o tempo disponível para as canções mais antigas e mais energéticas fosse menor. O principal destaque do concerto vai para a canção "Lameira" pois são poucos os concertos em que se pode ouvir a canção que, na minha opinião, é a melhor do segundo álbum de Capitão Fausto.


EDP Vilar de Mouros 2017 - Dia 2




Dia 3

Zanibar Aliens 


A banda mais jovem do alinhamento do festival foi, para muitos, a maior surpresa. Apesar do vocalista não ter grande aptidão para a interacção com o público (não por falta de tentativa), os "putos" de Lisboa mostraram ter o necessário para não destoar no Vilar de Mouros mesmo com uma banda recente. 

Os vocais e instrumentais a lembrar muito os Led Zeppelin conquistaram, logo ao fim das primeiras músicas, principalmente o público mais adulto do recinto. Em cerca de 45 minutos ouviu-se um concerto que merecia ser mais prolongado pois conseguiu ter bastante mais interesse que outras bandas internacionais. No final do concerto, junto à cabine de som foram vendidas várias cópias de Space Pigeon, o mais recente disco do grupo, mais um sinal que o espectáculo foi do agrado do público em geral.


Avec 


Depois da pancada que o rock dos Zanibar Aliens deu no público subiu ao palco Avec, mais um momento infeliz na escolha do alinhamento do festival. A artista apresentou um estilo muito semelhante ao da banda Daughter que, neste dia, não era o procurado pelos presentes. Mesmo assim foram mistas as opiniões gerais em relação a este concerto.


The Boomtown Rats


Com a entrada efusiva e a energia de Bob Geldorf, os The Boomtown Rats, cedo conquistaram o público. Com um visual arrojado e fazendo lembrar Christopher Lloyd em "Back To The Future", Geldorf praticava o pouco português que sabia adicionando sempre um berro "Vilar de Mourosh" entre as músicas que, mesmo sendo todas muito semelhantes, mantiveram o público cativado. Como ponto alto é possível destacar o seu single de referencia "I Don't Like Mondays" e o momento da despedida com "The Boomtown Rats".


The Psychedelic Furs



The Psychedelic Furs eram a banda que eu mais queria ver neste festival. Logo de manhã e ainda dentro da tenda tive a oportunidade de ouvir, vindo soundcheck da banda, o icónico e inconfundível saxofone que inicia "Heartbeat" e também "President Gas" mas nada me fazia prever o enorme espectáculo que iria ter inicio umas horas mais tarde.

O concerto iniciou com "Dumb Waiters" e desde cedo foi possível reparar na enorme teatralidade com que Richard Butler interpreta as canções e na enorme química entre os membros da banda, levando a que cada música criasse um novo momento único e inesquecível. 

Infelizmente o público (ou pelo menos na sua grande maioria sendo que eu tive sorte no local em que estava) não parecia conhecer as músicas destes britânico, nem mesmo maiores clássicos como "Heaven" ou "Love My Way" e pouco aderiu a este concerto mas não por falta de tentativas da parte de Butler. 


2ManyDJs


O término do festival coube aos irmãos Dewaele com o seu projecto 2ManyDJs ainda que talvez tivesse sido mais pertinente uma actuação dos mesmos com o projecto Soulwax em formato live. Durante cerca de uma hora e meia (a actuação mais longa do festival) ouviram-se vários remixes e mashups de músicas recentes (como é o caso de "Everything Now" dos Arcade Fire) e clássicos (como por exemplo "Girls and Boys" dos Blur).


EDP Vilar de Mouros - Ambiente

Texto: Francisco Bandeira Lobo de Ávila
Fotografia: Francisco Manuel Lobo de Ávila

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