sábado, 14 de abril de 2018

Reportagem: Golden Retriever [Passos Manuel, Porto]


Foi no passado dia 12 de abril, quinta-feira, que nos dirigimos à Invicta para assistir à estreia nacional dos Golden Retriever em Portugal. O duo composto por Jonathan Siellaf e Matt Carlson (Parenthetical Girls) trouxe consigo o mais recente Rotations, oitavo disco disco dos norte-americanos e terceiro pela conceituada editora Thrill Jockey (Tortoise, Colleen). Desenvolvido a partir de uma igreja em Portland, Rotations nasceu da interação do duo com um ensemble de 10 músicos e instrumentistas. O resultado foi um conjunto de composições harmoniosas e expansivas que fazem deste o disco mais acessível do duo até à data. 

Com Matt Carlson no sintetizador modular e Jonathan Siellaf no clarinete baixo, o duo explorou um universo ortodoxo de experimentações sónicas e viagens pelo cosmos da música exploratória, reforçado por uma forte componente visual rica em tons vibrantes e coloridos. As tessituras orgânicas e arranjos de câmara de Rotations foram substituídas por uma sonoridade mais plástica e digital, presente em padrões de sintetizador bem delineados e pequenos fragmentos glitch a fazer lembrar os trabalhos de Oneohtrix Point Never e Visible Cloaks. Aplicando uma parafernália de pedais, Siellaf gerava sons exacerbados em efeitos que tornam o som do seu clarinete irreconhecível, mas que pelo seu carácter encorpado permite melodias graves e poderosas. 



Numa atuação essencialmente onírica e introspetiva, houve espaço para uma mudança temperamental abrupta. Porque onde há sonho pode existir pesadelo, os Golden Retriever surpreenderam-nos com um momento bruto e intenso, onde as melodias se transformaram numa amálgama turbulenta e impenetrável de sons que não duraria muito tempo. O regresso à vertente mais artificial e sonhadora que compôs a maior parte do set marcaria o aproximar do seu fim, com a epicidade de “First Light” a encerrar o concerto de forma gloriosa. 



Com uma carreira a rondar os oito anos, os Golden Retriever apresentaram-se exímios e infalíveis nesta sua primeira visita a Portugal, que só não terá sido mais sonante devido à escassez de público que se assistiu no auditório do Passos Manuel. A sua performance foi puro deleite multissensorial, uma verdadeira viagem pelos campos da música electrónica mais arrojada que ficará, com certeza, na memória dos poucos que a assistiram como uma das mais interessantes atuações deste 2018.


Fotografia: Ana Durão
Texto: Filipe Costa

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