terça-feira, 10 de abril de 2018

Reportagem: Posh Isolation na ZDB

Mariana Martins de Oliveira
Foi no dia 7 de abril, sábado, que se deu a primeira noite exclusivamente dedicada à editora escandinava Posh Isolation em Portugal. O evento decorreu no aquário da ZDB, que proporcionou uma noite memorável composta por 4 atuações imperdíveis. Em noite de estreias (3 dos nomes presentes no programa atuaram pela primeira vez em Portugal), a ZDB recebeu em palco Astrid Sonne, Soho Rezanejad, Khalil e Croatian Amor para um evento de promoção à incansável editora, núcleo duro e prolífico de onde se contam mais de duas centenas de edições em apenas 3 anos. 

A noite começou cedo, e foi por volta das 22:00 que Astrid Sonne subiu ao palco para abrir as hostes do evento. Violinista desde tenra idade, foi aos 18 anos que decidiu deixar a educação clássica e enveredar pelos caminhos da música eletrónica. Agora, com apenas 21 anos, editou o seu disco de estreia pela Escho, e tem recebido um apoio confortável por parte da crítica especializada. Human Lines, o título do disco em questão, serviu de mote para a sua apresentação em Lisboa, que se refletiu numa comunhão interessante entre o digital e o analógico, o moderno e o clássico. O percurso académico de Sonne faz-se sentir nas suas composições cristalinas e não deixa de parte a sua prática com o violino, que não pôde deixar de trazer para a sua atuação. Numa atuação a rondar os 30 minutos de duração, Astrid Sonne apresentou um set seguro e sintético, rico em devaneios digitais e camadas aveludadas de violino que prometem um futuro curioso e promissor. 

A noite continuou com um dos momentos mais aguardados do evento. Soho Rezanejad, membro mais recente dos Lust For Youth e fundadora da Silicone Records, pela qual lançou o excelente LP de estreia Six Archetypes, trouxe à ZDB uma das performances mais memoráveis da noite. A artista dinamarquesa de descendência iraniana mudou-se recentemente para Lisboa, e teve aqui lugar para a sua primeira atuação na cidade que agora a recebe. Podemos escutar a sua voz em temas de Lust For Youth e Croatian Amor, mas é a solo que o seu trabalho ganha mais presença, com a sua voz grave e poderosa e filosofias presentes. A sua performance transpareceu a confiança e elegância de quem sabe o rumo que quer seguir, apresentando os temas daquele que é o seu trabalho mais estabelecido até à data. A maturidade e presença que apresenta em palco, a serenidade com que solta cada palavra, assim como os instrumentais de toada gótica que a acompanham geram um cenário solene mas hedonístico, onde a tensão se despe e dá lugar ao prazer livre e sem limites. Provocadora, crítica e, acima de tudo, urgente, Soho deixou clara a sua mensagem e saiu de palco sem grande aviso. 


Croatian Amor é, talvez, o nome mais sonante a integrar o catálogo da Posh Isolation. O projeto do co-fundador da label escandinava é apenas uma das muitas facetas de Loke Rahbek, que integra, entre outros, projetos como Vår, Body Sculptures e Damien Dubrovnik. A sua atuação era, portanto, uma das mais antecipadas da noite, marcando o regresso do dinamarquês a Portugal depois de uma belíssima atuação no claustro da Sé de Viseu, aquando da edição transacta dos Jardins Efémeros. Loke trouxe, contudo, uma abordagem bastante distante da sua última visita ao nosso país. Se em Viseu assistimos a uma abordagem romântica e subtil, em Lisboa sobressaiu o lado mais cru e visceral. A atmosfera gelada dos temas de Love Means Taking Action foi substituída por uma aura mais ruidosa e brusca, numa clara aproximação ao mais recente EP Finding People. A utilização de samples de vozes femininas humaniza este icebergue digital e frio, com monólogos impercetíveis a unirem-se à amálgama de sons e ruídos brancos. Sem grande uso de aparato visual (à exceção de alguns intensos strobes brancos), Loke proporcionou um momento bonito e introspetivo, prendendo-nos nas suas teias em forma de melodias industriais e fabris. 


Os Khalil foram responsáveis por fechar a noite. O trio dinamarquês composto por Nicolaj Vonsild, Simon Formann e Villads Klint aka Minais B trouxe a Lisboa The Water We Drink, o primeiro disco do mais recente projeto do líder dos When Saints Go Machine e Cancer. Hiperativo e frenético, Nicolaj não tardou a partir ao ataque, a sua voz hiper processada por boas doses de auto-tune e instrumentais versáteis. Numa mistura interessante entre o trap, a R&B contemporânea e o glitch, os Khalil produzem uma pop fracturada e críptica que nos faz dançar sem nunca o permitir na sua totalidade. Passeando entre os temas que integram o disco de estreia e alguns momentos a roçar o techno, o trio conseguiu uma atuação viciante e poderosa que culminaria com a belíssima “Nature Envy”, proporcionando um dos poucos momentos tenros e respiráveis de uma performance vencedora. Alienígenas, desconcertantes e sensuais, os Khalil são fruto de uma geração que faz jus ao termo contemporâneo e que confirmam o potencial urgente e necessário de uma das mais importantes editoras do circuito independente.



Fotografia: Mariana Martins de Oliveira
Texto: Filipe Costa

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