terça-feira, 29 de maio de 2018

Reportagem: Peter Broderick [gnration, Braga]

©Hugo Sousa

Foi no passado dia 25 de maio que passamos pelo gnration, em Braga, para assistir à segunda de três datas do músico e compositor australiano Peter Broderick. Agora agenciado pela Amplificasom, Broderick trouxe no seu regresso a Portugal os mais recentes discos Partners, de 2016, e ainda All Together Again, editado no ano transacto. Figura crucial da nova vaga neoclássica, o outrora membro dos Efterklang e Horse Feathers tem vindo a apresentar um trabalho consistente e marcado por alguns dos mais interessantes trabalhos a sair da conceituada Erased Tapes, casa de artistas como Ólafur Arnalds e Nils Frahm, com quem o músico australiano colaborou sob o moniker Oliveray

Com a premissa de apresentar os temas dos seus dois últimos discos, que o compositor descreve como “um corpo coeso” de peças comissionadas ao longo da última década, o alinhamento apresentado durante a sua atuação em Braga não pôde deixar de integrar alguns dos temas que compõe a sua já estabelecida discografia, e foi com dois temas de How They Are que Broderick iniciou o concerto. “Sideline” foi o tema escolhido para o seu início, com a voz de Broderick despida no seu começo acapella. Contudo, é quando introduz o piano que tudo começa, de facto, a compor-se. A concentração e dedicação com que se lança às teclas demonstra o seu percurso académico e disciplinado, assim como a experiência de um artista que conta com mais de dez anos de carreira a solo. Seguiu-se “Sometimes”, original de Brigid Mae Power que recebeu o cunho do australiano com uma belíssima interpretação. O músico australiano tem vindo acompanhar a cantautora britânica nas suas últimas atuações pela Europa, e integrou o tema (que também figura em Partners) no alinhamento da noite. “Eli”, do malogrado vanguardista Arthur Russell, foi mais um dos temas que Broderick interpretou nesta noite de sexta feira (em Madrid, uns dias antes, o compositor proporcionou um concerto exclusivamente dedicado aos temas do autor de “A Little Lost”). 




Intercalando o alinhamento com temas divididos entre o piano, o violino e a guitarra, Peter Broderick proporcionou, acima de tudo, momentos de grande tranquilidade e boa disposição, encantando o público com a sua postura confortável e natural. Quando sugeriu à plateia que imitasse o melhor possível o som de pássaros (enquanto o próprio produzia sons que se assemelhassem ao vento), foram inevitáveis os risos que se soltaram, mas nada que afetasse a tentativa do australiano produzir o seu próprio sample de raiz. O processo voltaria a ser repetido posteriormente, aplicando as gravações ao longo das suas composições. 

“Low Light” e “Goodnight”, do EP Grunewald, receberam também o seu tratamento ao vivo. A primeira foi alvo de alguns lapsos que levaram Broderick a seguir de imediato para o segundo tema, agora sem imprevistos e tocada com uma comoção e empenho admiráveis. “Hello to Nils”, uma faixa de despedida que apresenta os dilemas de um músico que diz adeus demasiadas vezes, previa o fim da sua performance, mas antes de partir (e já no encore), Broderick proporcionou ainda uma breve composição sem voz ao violino. De regresso à guitarra, seguiram-se os ritmos mexidos da folk simples de “Colours of The Night”, culminando a atuação com uma versão ao piano de “I Threw It All Away”, do mais recente Nobel da literatura, Bod Dylan. No final, era clara a satisfação do público que se manifestou através de uma merecida ovação em pé, encantado pelo humor e empatia do compositor australiano que deixou a Blackbox de coração cheio.


Texto: Filipe Costa
Fotografia: Hugo Sousa / gnration

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