quarta-feira, 13 de junho de 2018

Reportagem: Actress + London Contemporary Orchestra (com Duval Timothy, Silvia Kastel e Toxe)

© 2018 Barbican Centre, Silk Street, London, EC2Y 8DS
Ver mundos a cruzarem caminhos na arte será sempre, enquanto conceito, um esforço tremendamente admirável. Contudo, atingir este objectivo pode ser complicado - como é que racionalizamos a expressão simultânea de Pollock e Da Vinci? Faz sentido combinar Kazumoto Endo com Beethoven? Será que podemos sequer imaginar como é que os encantos de Elvis Costello se misturariam com Iannis Xenakis? Actress e a London Comtemporary Orchestra (LCO) aceitaram este desafio pela segunda vez no Barbican Centre pela segunda vez, no passado dia 26 de Maio. O resultado? De cortar a respiração.
O espaço foi mais do que adequado para este cruzamento - o Barbican Centre (e onde se enquadra) parecem um Éden urbano no meio de Londres, a estender-se com a sua arquitectura moderna kitsch e uma aparente isolação da confusão da cidade. Assim que assentámos os pés nesta agradável solidão, a mente e a audição purificaram-se para uma noite repleta de atuações hipnóticas e viciantes.
O início foi protagonizado por Duval Timoth, que aqueceu o palco enquanto artista de piano solo/electrónica. A mistura de jazz com melodias orelhudas e contagiantes, sem descurar da ocasional incursão pelo território mais experimental, fizeram de Duval uma entrada idal - frases estáveis deslocaram-se na direção de um público de melómanos, cativando-os para o belíssimo teatro. Depois desta breve caminhada por um cenário electro-acústico, Silvia Kastel mudou a paisagem (sonora) para um enquadramento 100% electrónico, dando origem a temas que captivavam pela estranheza, penetrantes e repetitivos. O passado da produtora italiana em improvisação é simbiótico com os ritmos mântricos que cria, adicionando as camadas necessárias para tornar a segunda atuação da noite numa agradável experiência para os fãs da música electrónica experimental.
Actress + LCO em 2017 no Barbican Centre.

O que se seguiu foi o grande momento do evento: Actress e a LCO subiram ao palco no meio de uma nuvem de fumo e luzes ténues, ambas a requererem que todos os membros tivessem a sua pequena lâmpada logisticamente requerida - todos os 8 membros da LCO formavam um ciclo irregular, rodeando um Darren Cunningham rodeado de teclados e electrónica. O ambiente estava pronto para esta reimaginação única do clássico contemporâneo e da música electrónica. Em vez de desconstruir esta atuação música por música (o que não encapsularia a sua total magnitude), uma apreciação mais ampla e completo é a única coisa correta a fazer - a Noite Estrelada de Van Gogh não é tão impressionante se considerarmos apenas detalhes.
Enquanto que podíamos esperar - eu esperava, pelo menos - uma mistura imperfeita de Actress com a LCO, o grupo inteiro atuou como uma reinterpretação coesiva e finamente afinada da orquestra para o século XXI. Os elementos electrónicos eram sublimes, mas flutuavem com e através do enquadrameno clássico, criando momentos de beleza avassaladora, deslocados da vida real, como se se tratasse da banda sonora para uma obra de arte a ser sintetizada diante de uma plateia cativada e silenciosa. Cunningham foi um alquimista com os ingredientes que a LCO lhe dava, numa buscaconjunta por algo mais rico e delicado do que a pedra filosofal. Com apenas 3 curtas pausas para aplausos, não houve mais nenhuma interação. Durante aproximadamente 50 minutos, o público fundiu-se com os artistas e com a sala.
Os padrões estavam elevados, e Toxe foi escolhida para fechar a noite. A produtora sueca mudou o andamento para um (mais do que adequado) cenário de UK Bass, que era o necessário para “começar” a noite. Esta foi o seu primeiro live act e seria uma pena que fosse o último - enquanto que a transição da combinação esotérica de Actress com LCO para Toxe foi um pouco dura, a mudança do teatro para o Barbican Hall e os ritmos wonky rapidamente adaptaram o público a este cenário. Uma atuação poderosa de uma produtora vinda das paisagens geladas da suécias foi uma maneira maravilhosa de acabar a noite com a alegre - e por vezes constrangedora - de amantes de música electrónica e/ou clássica.
“Eclético” é mais um termo vago do que uma descrição concreta - na verdade, é muitas vezes a escapatória preguiçosa da árdua tarefa de encontrar a palavra certa - mas mais nenhuma palavra faria honra a esta noite. Desde música clássica/jazz até wonky/UK Bass, o Barbican Centre foi palco de um conjunto de atuações originais e memoráveis, criando uma cadência que, podendo ser por vezes inconvencional, nunca pareceu errada.

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