sexta-feira, 27 de julho de 2018

5 sets que fizeram do Elétrico um festival imperdível


A primeira edição do festival Elétrico teve lugar no Parque da Pasteleira, no Porto. Durante três dias, esta nova entrada no panorama dos festivais nacionais proporcionou uma programação cuidada e seletiva, equilibrando o cartaz com alguns dos nomes mais estabelecidos do circuito das pistas de dança (Larry Heard, Nightmares On Wax, Honey Dijon), e novas promessas do panorama (Sonja Moonear, Call Super, SIT). Nem tudo foi um mar de rosas, já que a sensação sul-coreana Peggy Gou acabaria por cancelar a sua performance no último dia do festival por motivos alheios à organização. Nada disto se tornaria impedimento para o decorrer de um evento que provou ser extremamente positivo, aliando o melhor da música de dança à natureza do parque, arte, tecnologia e meditação. 

Aqui ficam os cinco sets que fizeram do Elétrico um evento inesquecível.


Call Super

O trabalho de Call Super ramifica-se em duas vertentes: de um lado temos o de um produtor exímio, onde assina alguns dos registos mais intrigantes da eletrónica arrojada e edições pela Houndstooth. Do outro, encontramos um cuidadoso selecionador dos temas que marcam o passado e o presente da música direcionada para as pistas de dança. Ao vasto conhecimento de Joseph Seaton (o verdadeiro nome do produtor sediado em Berlim), junta-se a experiência e a presença constante em festivais badalados como o Sónar e Dekmantel. Perante um público tímido mas receptivo, o produtor e dj britânico apresentou um dos sets mais seguros do primeiro dia de festival. Discreto mas elegante, Seaton manteve um registo coeso e simples ao longo das duas horas de performance que, não sendo expansivas, demonstraram ser mais do que suficiente para acompanhar o bonito fim de tarde no parque.


Nightmares On Wax

Um dos nomes sonantes a integrar esta primeira edição do Elétrico foi Nightmares On Wax. Porta-estandarte da bleep techno, Georges Evelyn ajudou a definir os primeiros dias da britânica Warp com dezenas de edições pela conceituada editora desde o final da década de 80. O passado raver de Evelyn e companhia evoluiu desde então para uma mescla eclética de sonoridades mais calmas e downtempo, e os seus sets são feitos de uma expansiva e cuidada escolha musical que vai dos clássicos boom bap da costa este americana à bossanova, passando pelo roots reggae, a soul, o funk e a trip-hop que tanto estimou durante o período dourado dos 90’s. Desempenhando o papel de dj e, esporadicamente, hype man, Georges Evelyn proporcionou duas horas de boa disposição e groove, abrindo as hostes para o lendário Larry Heard ao som do “Pick Up”, o mais recente clássico de DJ Koze.


Larry Heard aka Mr. Fingers

Ter a oportunidade de assistir a uma performance de Larry Heard ao vivo é ter a oportunidade de assistir (e viver) um pedaço de história. O seu percurso como um dos cérebros da música house fez do natural de Chicago uma das figuras mais icónicas e incontestáveis do género. Seja em nome próprio, como Mr. Fingers ou com os seus Fingers Inc. (trio que o juntava a Robert Owens e Ron Wilson), Larry Heard destacou-se desde cedo pela sua mestria como músico e produtor. Ao amor nutrido pelo sintetizador e as batidas juntou-se o respeito e admiração pelo jazz, apoiado por linhas densas e sedutoras de baixo que viriam a fazer escola. O estatuto de cabeça de cartaz do último dia do Elétrico era, portanto, mais que merecido. Heard não perdeu tempo na sua estreia absoluta em solo português e disparou de imediato tiros com a poderosa “Mistery Of Light”, antecedida apenas por uma curta introdução de sintetizador e vozes executadas no momento. Ao lado de Chad White (aka Mr. White), a dupla apresentou uma performance irrepreensível com algumas das faixas mais badaladas do norte-americano que se demonstrou sempre humilde e sorridente, percorrendo um alinhamento intocável por onde passaram temas como “What About This Love”, “The Sun Can’t Compare” e uma “Can You Feel It” cantada que finalizou um set simplesmente mágico.


Delano Smith 

A performance de Delano Smith foi o exemplo perfeito do que é um set simples e eficaz. O dj e produtor natural de Chicago conta mais de 20 anos no circuito e reside atualmente em Detroit. A sua música é resultado da união entre estas duas mecas da música de dança, juntando a classe do house ao minimalismo e intensidade do techno. Na sua apresentação no Elétrico, o norte-americano presenteou o público com boas doses de bpms e as batidas secas e diretas da velha guarda da house. Sem virar costas ao presente, Delano equilibrou o seu alinhamento com alguns dos temas mais frescos do momento, dando lugar (também ele) à vivacidade de “Pick Up”, do supracitado DJ Koze. Direto, versátil e confiante, Delano executou um set seguro capaz de comprovar a intemporalidade do género.


Honey Dijon 

Honey Dijon foi o nome encarregado de fechar a primeira noite do Elétrico. A dj e produtora transgénero, ícone queer e rainha das pistas de dança underground celebrou a liberdade e o orgulho com um set expansivo composto pelos temas que marcaram o bom e velho house. Livre de experimentalismos e preocupações exacerbadas com a destreza, Dijon procurou proporcionar, acima de tudo, um clima festivo e animado sem espaço para tabu e censura. Houve espaço para euforia e dança, mas também consciência política. Talvez por isso “This Is America” tenha integrado o seu alinhamento, aqui em jeito de remistura. A premissa de se assumir como uma “dj para festas” foi mais que sucedida, encerrando a primeira noite com um alinhamento multicolor de linhas de baixo poderosas e beats triunfantes.

3 comentários:

  1. Não se trataria da estreia de Peggy Gou por cá... exemplo disso foi a noite de 8 de junho, no Lux. Uma visita à página Resident Advisor mostra ainda outros eventos passados.

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  2. a inteligência artificial ainda está muito áquém!

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