terça-feira, 28 de agosto de 2018

Reportagem: SonicBlast Moledo 2018 - 10 e 11 de agosto


É com uma enorme saudade e nostalgia que escrevo esta reportagem apesar de apenas uns míseros dias se terem passado desde que abandonei a pequena aldeia vianense que é Moledo. 
Naquela que foi a minha terceira edição do SonicBlast, é notável observar a evolução deste festival, especialmente em termos de adesão de pessoas, uma vez que às caras dos habituais “clientes”, que tornam o seu ambiente tão familiar, se juntaram novas para poderem fazer parte deste evento.

Esta enorme adesão apenas foi possível uma vez que a organização permitiu que fossem vendidos 100 bilhetes extra, dada a enorme proliferação de pedidos nas redes sociais após os bilhetes terem esgotado. Esta dose extra foi logo evidente no Dia Zero do festival, no Paredão 476, onde mal existia espaço para assistir ao heavy stoner de Heavy Cross of Flowers ou ao psych prog dos espanhóis Sombra.

Nessa mesma noite, no Ruivo’s Bar, atuaram Pledge, projeto natural de Viana do Castelo com algumas influências de post-hardcore e sludge metal, que, apesar de um atraso de 1 hora devido a problemas técnicos, foram recebidos de abraços abertos por uma audiência que mal cabia dentro do bar e que insistia em fazer moche e crowdsurf. Depois da porrada era altura de viajar com os espanhóis Acid Mess (cujo baixista e guitarrista também pertencem aos Sombra). Mesmo com a mudança de som, a banda foi bem recebida pelo público, que continuava repleto de energia, culminando num fã que subiu para o telhado do bar e se atirou para os braços do público. Fora este episódio, o concerto decorreu na normalidade com imensos olhos fechados e cabeças a abanar.


10 de agosto

Ainda a curar a ressaca do dia anterior, não foi fácil chegar a tempo para assistir ao recital intergaláctico dos Solar Corona. Atraso este recompensado com uma banda sonora perfeita para a peregrinação até ao palco piscina, enquanto o kraut dos barcelenses ecoava pela aldeia. Quando entrei no recinto já o concerto estava a passos largos de acabar. Uma pena, fica um voto para que no futuro consigam um horário melhor e um palco maior. A armada portuguesa continuou forte com os Desert’ Smoke, um grupo de amigos de Lisboa que se juntou no final da edição do ano passado do SonicBlast com o objetivo de tocarem neste festival. Com o seu objetivo realizado, levaram-nos até ao deserto da Califórnia com fortes linhas de baixo e guitarras a emanar diferentes tons psicadélicos.

A primeira banda internacional a subir para cima de palco foram os espanhóis Atavismo, que praticam uma mistura de prog-rock com psych-rock e, através de uma hipnotizante repetição de riffs, deixaram mais de metade da audiência em estado transe. Quando os Astrodome subiram para o palco foi notória a quantidade de pessoas que se levantaram e dirigiram para a frente do palco em vez de ficarem sentados na relva a apreciar o concerto. Este simples movimento mostra o respeito que muitos fãs tem por este quarteto, que cada vez mais se afirma de pedra e cal no movimento stoner português. Sem meias medidas, os Astrodome ofereceram aquele que foi, pessoalmente, o melhor concerto do palco piscina, através de delicadas introspeções psicadélicas e momentos de maior agressividade com poderosas distorções. Todos na banda tiveram oportunidade para exibirem a sua mestria técnica, mas deixo aqui uma nota especial ao baterista Bruno Silva, que deixou todos boquiabertos com um solo de bateria gigantesco.

A encerrar o palco piscina nesse dia foram os ingleses Electric Octopus num concerto que desiludiu dadas as jams desordenadas e a mudança brusca entre géneros musicais, que levava a que até os próprios músicos se atrapalhassem ao tocar os seus instrumentos. No entanto, foram muitos os fãs que ficaram até ao fim e deliraram com a atuação dos octópodes. A transição entre palcos foi tão repentina e rápida que a maior parte das pessoas ainda estava a conhecer o parque das merendas onde se encontrava o palco principal quando os Conan fizeram soar os primeiros acordes de “Thunderhoof”. Um dos concertos mais pesados do festival (e da vida de muitos na audiência), que não fazem descorar a técnica, apesar das afinações e distorções pesadíssimas. Apesar de sentir que não foi a hora mais adequada para o concerto, os ingleses deixaram tudo em palco e devastaram todos os inimigos em seu redor.


Ufomammut
Quando se pensava que o volume não podia subir ainda mais, eis que os gigantes italianos Ufomammut se apresentaram com um volume ridiculamente alto e uma mixagem de som desastrosa. Contudo, isso não impediu de ser um dos concertos mais aplaudidos do festival e a terem direito a dois encores. Uma coisa é certa, depois de ter saído deste concerto, todos os concertos para o resto da minha vida vão parecer que estão com um volume baixo. Depois da tempestade veio a calma, esta que chegou diretamente do deserto da Califórnia, os Nebula, liderados por Eddie Glass (ex-Fu Manchu), vieram partilhar a sua experiência como um dos pioneiros da cena de desert rock. Depois de uma dose tão pesada de doom, foi bom ver ouvir um pouco de rock n’roll e blues enquanto os americanos passearam por clássicos, inclusivé por temas do seu álbum seminal, To The Center.

Já de noite foi a vez dos dinamarqueses Causa Sui subirem para cima de palco e darem um dos melhores concertos do festival. Acompanhados por filmagens de filmes de pornografia retro e com uma grande descontração, abriram o seu concerto com "Homage", a sua faixa mais conhecida, e levaram todos na audiência a perder a cabeça trauteando as belas linhas de guitarra. Apesar de grande parte dos momentos parecerem improvisados e jams espontâneas, os músicos apresentavam uma química infalível e em qualquer momento se mostraram descoordenados. Uma grande demostração musical que deixou a grande maioria das pessoas de coração cheio e tristes por verem os nórdicos a abandonarem o palco, tanto assim que até tiveram direito a regressar e a tocar mais uma breve música.


Nebula
A tristeza não iria durar muito tempo, uma vez que poucos instantes depois seria a altura dos Samsara Blues Experiment subirem para cima de palco. Um dos pilares do stoner, apesar de terem entrado de uma maneira inesperada (o novo álbum, One With The Universe não encanta tanto como o incrível Long Distance Trip). Quando estes começaram a tocar temas como “For The Lost Souls” ou “Center of the Sun” as engrenagens começaram a rodar e o público rendeu-se. Com inúmeras trocas de tempos e riffs de deixar a salivar, os alemães entregaram um concerto competente, apesar de ficar no ar um sentimento que estes se podiam ter entregue um pouco mais ao concerto.

Antes de darmos o dia por encerrado, era a vez dos Mantar subirem ao palco e surpreenderem tudo e todos. Claramente uns offsiders neste cartaz, dado a sua mistura de black metal com punk hardcore, fazendo lembrar um pouco Nails. O duo alemão provou ser uma das grandes surpresas do festival, com a sua agressividade e uma das mais icónicas frases do festival: “I know this is a hippie festival but tonight is Friday night and it’s the night to start drinking and start fighting”. Apesar de ninguém se ter entregue realmente à violência, ainda se formaram alguns moches e muitos foram os que ficaram até ao fim a dar tudo. Com o encerramento do recinto ainda houveram uns corajosos que foram ao after no Ruivo’s Bar, mas o convite da tenda e do quente saco de cama falaram mais alto.


11 de agosto

O segundo dia começou, como habitualmente, no palco piscina com concertos dos espanhóis The Wizards, do projeto mais recente do guitarrista Pedro Pestana (10 000 Russos, Tren Go! Sound System) e do baterista João Pais Filipe (HHY & The Macumbas, Sektor 304, Magnetic Mountain, Paisel) Talea Jacta, do conjunto de sludge stoner metal espanhol Greengo, dos sul africanos Ruff Majik e dos Purple Hill Witch, especialistas em stoner doom.

Os gregos Naxatras tiveram o prazer de abrir o palco do último dia do festival e nenhuma banda podia ter sido mais adequada para tocar enquanto o sol ainda brilhava bem alto no céu. Um dos concertos mais animados do festival que levou a que muitos ainda dessem um passo de dança ao som do seu stoner psicadélico. O ambiente de descontração continuaria com os já experientes The Atomic Bitchwax e com o seu entusiasmante rock n’roll. Autointitulando-se dentro do género super stoner rock, a banda cujo baixista e baterista também fazem parte dos icónicos Monster Magnet, deram um dos concertos mais hiperativos do festival e a audiência correspondeu energicamente aos chamamento da banda de Nova Jérsia.



A segunda banda a representar as ilhas gregas neste festival foi 1000mods, mas ao contrário dos seus conterrâneos, estes apresentam um som bem mais musculado e distorcido. Ainda a apresentar o álbum Repeated Exposure To... lançado no ano passado, os gregos foram das bandas mais bem recebidas do festival e daqueles que tiveram um dos públicos mais efusivos, que acompanhou religiosamente as letras das músicas de início ao fim e que brindou a sua efusiva musica com moche e crowdsurfA aproveitar a eletricidade que ainda corria no ar, os Kadavar tiveram uma entrada triunfal (ao som de CAN), no festival que falharam no ano passado devido ao nascimento de um pequeno “kadavarian”. Recebidos de braços abertos, a banda teve tempo para divagar um pouco por toda a sua discografia, desde faixas mais antigas como "Black Sun" ou "Come Back Life", até a faixas do álbum mais recente Rough Times, que já são bem conhecidas pelo público, nomeadamente “Die Baby Die”.

Num dos derradeiros momentos do festival, Isaiah Mitchell, Mike Eginton e Mario Rubalcaba subiram para cima de palco e penetraram das mentes de todos os presentes. Desde as primeiras notas hipnóticas de "Uluru Rock" até ao final do concerto, os americanos Earthless levaram-nos a passear por diferentes galáxias, tendo como guia os infindáveis solos de guitarra de Isaiah como meio de transporte. Para além da guitarra, Isaiah também fez soar a sua voz em temas como "Black Heaven" e "Electric Flame", do seu álbum mais recente e mostrou que esta também é uma arma poderosa e eficiente. Com o fim de "Violence of the Red Sea" abandonaram o palco, mas foram chamados para um glorioso encore que incluiria dois covers, a primeira "Cherry Red" dos The Groundhogs, presente no álbum Rhythms From a Cosmic Sky, e uma jam em torno da “Communication Breakdown” dos Led Zeppelin. Um concerto de encher a barriga e que apenas pecou por não ter durado até ao sol raiar.

Com o encerramento em vista, as cerimónias finais ficaram ao encargo dos The Black Wizards e da poderosa voz de Joana Brito. Apesar de não serem estranhos ao festival, a banda foi recebida ainda por um bom número de fãs que mostraram muito carinho pelo quarteto, agora sem Helena Peixoto atrás da bateria mas com João Lugatte. A jovem banda mostrou o porquê de serem eles a encerrarem o festival e a experiência que adquiriram através das tours que fizeram pela Europa, partilhando uma boa dose de blues e fuzz com a audiência.



Depois da despedida do recinto e da nostálgica caminhada de volta à tenda, não pude deixar de pensar no quanto este festival tem evoluído de edição para edição. Cada vez tem contado com mais fãs, nacionais e internacionais, e a organização tem feito de tudo para conseguir corresponder às necessidades de todos os seus fãs. Deixo o meu voto para que estes continuem o seu bom trabalho e que continuem a fazer o festival crescer de forma sustentável e sem dar um passo maior que as suas pernas.

Posto isto, só me falta deixar aqui um até já e a promessa que para o ano voltarei a marcar presença nas fileiras deste festival.


SonicBlast Moledo 2018 - Dia 1

Texto: Hugo Geada
Fotografia: David Madeira

1 comentário:

  1. Oh Hugo!
    Nem espreitar a página da banda?
    Para saber, no mínimo, a nacionalidade?

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