sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Reportagem: Vodafone Paredes de Coura - 16 de agosto

Fleet Foxes

O segundo dia do festival contou com a primeira sessão Vozes na Escrita e os primeiros concertos no palco Jazz na Relva, localizado perto do rio e do campismo. A sessão de leitura esteve a cargo de António Zambujo, Manuela Azevedo e Sara Carinhas, enquanto que os concertos foram do duo viseense Galo Cant’às Duas e de S. Pedro. Todos eles contribuíram para uma agradável tarde soalheira.

Algum tempo depois, o recinto abriu e o primeiro concerto esteve a cargo dos portuenses Fugly. A banda levou ao palco secundário do festival as suas malhas garage e punk rock e o público já presente começou a dar tudo logo de tarde, chegando a haver um pequeno mosh pit e crowdsurfing. A banda, bem disposta e feliz por ter passado do lado do público para cima do palco, esteve em boa forma, mas desapontou-me com uma setlist na qual a maior parte das músicas eram bastante esquecíveis. Não os conhecia muito bem e não fiquei muito curioso em ouvir mais, apesar de terem acabado em grande com "Inside My Head". Foram prejudicados por um som de baixo muito mau, que tornava muito difícil perceber as notas que estavam a ser tocadas.


The Mystery Lights

Vi durante poucos minutos os também portugueses X-Wife antes de regressar ao palco secundário para o concerto de The Mystery Lights. Mais problemas, desta vez não com o som do baixo especificamente, fizeram o concerto começar mais de 10 minutos atrasado, mas este acabou por correr bem, tirando uma curta interrupção após as primeiras duas músicas devido aos referidos problemas técnicos. Foi mais uma dose de garage rock energético, desta vez com psicadelismos à mistura, com a banda a puxar pelo público e um som melhor equilibrado do que em Fugly. A banda americana tocou músicas novas e convidou a subir ao palco um boneco de um sapo de um membro do público, para o qual tocaram uma canção.


Shame

Ouviu-se depois o pós-punk dos britânicos Shame. Os autores de “Concrete” e “One Rizla” apresentaram estas e outras boas músicas do seu álbum de estreia Songs of Praise, para além de “Human for a Minute”, música nova que não desapontou. A banda elogiou Portugal e referiu a sua vinda ao Milhões de Festa, que caracterizaram como uma “pool party”. O vocalista fez crowdsurfing, a banda enganou-se um par de vezes e os fãs cantaram no que foi o primeiro concerto a destacar do dia.

De volta ao palco secundário, assisti ao concerto de Japanese Breakfast, o projeto da coreana Michelle Zauner. Os seus álbuns são preenchidos por um dream pop pouco original que nunca me cativou muito, mas fiquei surpreendido pela positiva com a sua atuação, que me entreteve mais do que esperava. Entre as melhores músicas estiveram “Till Death”, após a qual Michelle agradeceu ao público por “um perfeito primeiro concerto em Portugal”, “Dreams” (original dos Cranberries), e, a fechar o concerto, “Machinist”, com uma sonoridade synth pop que a diferenciou das canções anteriores. Pelo meio algumas músicas foram melhores e outras demasiado iguais entre elas, criando alguns momentos mais chatos. Houve tempo também para um bom momento onde Michelle falou sobre os seus poucos conhecimentos sobre a língua portuguesa. Aprendeu apenas três palavras, “batata” e outras duas que não chegaram a ser referidas. Certamente nenhuma delas tão importante como a que foi nomeada.


Surma

Já não tenho paciência para The Legendary Tigerman, portanto garanti que o seu concerto coincidia com a hora de jantar, após a qual foi possível ver um pouco da atuação de Surma. Foram poucas as músicas que pude ouvir, mas fiquei com pena porque os bonitos sintetizadores e voz da artista portuguesa, sozinha em palco e muito feliz e nervosa por estar a tocar em Paredes de Coura, conquistaram-me rapidamente. Não estava com grandes expetativas, mas saí do concerto com vontade de ver e ouvir mais, muito mais impressionado do que quando assisti a um concerto dela em 2016. Foi uma bonita sessão de pop eletrónico calmo e descontraído.

O melhor do dia (e do festival) chegou logo a seguir. Os Fleet Foxes subiram ao palco principal do festival e deram um concerto imaculado que nem os problemas de som conseguiram estragar. O som dos instrumentos estava muito melhor do que na maior parte dos outros concertos, no entanto o volume estava estranhamente baixo, algo que deve ter sido chato para quem estava nas filas mais atrás. O microfone de Robin Pecknold não pareceu ser o mais adequado ao timbre da sua voz, mas após duas músicas já estava habituado à sua sonoridade. Para além disso, o som falhou durante fracções de um segundo em duas ocasiões, mas após estes incidentes não houve novos problemas e o volume do som foi aumentado. A performance da banda foi excelente, a setlist igualmente boa. Foi um dos concertos mais bonitos que tive oportunidade de assistir neste festival e foi simplesmente incrível ouvir canções como “Ragged Wood”, "White Winter Hymnal", "Third of May / Ōdaigahara" e “Helplessness Blues”, esta última a marcar um grande final de concerto. A banda passou pelos seus vários discos e deu, na minha opinião, o melhor concerto do festival.


Jungle

Não é nada fácil suceder um concerto como o dos Fleet Foxes, mas os Jungle surpreenderam-me e fizeram um bom trabalho. Com um som muito bom, músicas dançáveis cheias de groove e um público conquistado pela sua sonoridade, a banda tocou “Time”, “Busy Earnin’” e outras canções bastante catchy de Jungle e For Ever (álbum que irá sair em setembro) numa atuação divertida e muito competente. Por vezes houve uma repetição exagerada entre a sonoridade e estrutura das canções, mas isso não impediu o concerto de ser bastante bom e uma excelente aposta para encerrar o palco principal neste segundo dia de festival. No entanto, para quem não foi embora após este concerto, o melhor do género ainda estava para vir.


Confidence Man

Os Jungle puseram muita gente a dançar, mas não me conquistaram da mesma forma que os Confidence Man. Deram sem dúvida o concerto mais divertido do festival. Ouviram-se inúmeras malhas de alternative dance e nu-disco sem interrupções, todas elas marcadas pelo excelente trabalho do baterista Clarence McGuffie, acompanhado por Reggie Goodchild nos sintetizadores. No entanto, as estrelas foram Janet Planet e Sugar Bones, o duo que cantou e dançou durante a maior parte do concerto e que não deixou o público parar. Com uma atitude espetacular, coreografias muito engraçadas, várias mudanças de vestuário, champagne e imensa energia, fizeram da sua performance a melhor num after deste festival. "Don't You Know I'm In a Band", "Boyfriend (Repeat)", "C.O.O.L. Party", "Bubblegum”, todas estas músicas são boas em estúdio, mas ao vivo não podiam resultar melhor. Um dos concertos mais marcantes a que assisti este ano, quem me dera que todas as noites acabassem assim.
Texto: Rui Santos
Fotografia: Hugo Lima

0 comentários:

Enviar um comentário