segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Reportagem: Vodafone Paredes de Coura - 18 de agosto

Dead Combo

O último dia do festival, o único esgotado, contou com Mr. Gallini e Penicos de Prata no Jazz na Relva. No recinto a música começou com os portugueses Keep Razors Sharp, mas dirigi-me diretamente ao palco principal pouco antes de chegar Myles Sanko. O cantor de soul estava muito bem disposto e criou imediatamente um ambiente positivo. Com músicas dançáveis, excelentes solos de teclado, uma boa banda e uma boa voz, o artista incentivou o público a cantar e abriu a tarde bastante bem com canções como "High On You", "Come Back Home" e "Forever Dreaming", acompanhado pelo público a cantar estas duas últimas. Numa das músicas todos os membros da banda tocaram um pequeno solo de cada vez.

Não tão bom foi Curtis Harding. A sua sonoridade passa também pelo soul, mas as canções não foram tão boas e o som também deixou algo a desejar. A voz tinha por vezes um delay desnecessário e estranho e o guitarrista principal desapontava quando tocava solos. Para além disto, o teclado ou saxofone não resultaram em certas músicas. Foi um concerto fraco e desinteressante.


Myles Sanko

Completamente diferentes são os Big Thief, quarteto de indie rock que se apresentou em palco sem o guitarrista Buck Meek. Deram um concerto calmo com algumas boas músicas e outras recebidas de forma mais indiferente. A banda fez um bom trabalho na sua estreia em Portugal e os seus fãs mostraram ter ficado satisfeitos. Um concerto simples que resultou bem.

Quando os Dead Combo subiram ao palco não contava que o seu concerto fosse um dos melhores do festival. Nunca tinha visto a banda ao vivo e não estava à espera de tanta energia e de tantos momentos dançáveis ou intensos no concerto. O duo Tó Trips e Pedro Gonçalves fez-se acompanhar de uma excelente banda, na qual se destacou o baterista Alexandre Frazão, que fez 50 anos à meia-noite e tocou um par de solos de bateria impressionantes. A melhor versão que já ouvi de "Lusitania Playboys", "Esse Olhar que era Só Teu" e "Rodada" foram algumas das canções que a banda levou a Paredes de Coura, que contou com a colaboração de Mark Lanegan para cantar três canções: "Fire of Love", "Wedding Dress" e "I Know, I Alone", esta última do novo álbum da banda, Odeon Hotel. Infelizmente, todas as três obrigaram a banda a conter-se mais do que nas instrumentais, cortando alguma da energia que esteve presente no resto do concerto, apesar de não serem nada más. O volume da voz estava exageradamente baixo na última delas, o que prejudicou o seu som. Para o concerto ser melhor só faltava mesmo trocar as colaborações com Lanegan por outras três canções diferentes.


Dead Combo 

Só uma excelente banda poderia suceder da melhor maneira este concerto, portanto nada melhor que o nome mais aguardado do festival no regresso dos Arcade Fire ao local onde foram felizes em 2005. A banda de oito elementos encheu o palco, já preenchido com ecrãs, uma bola de espelhos e todo o setup necessário para o espetáculo da banda, e começou o concerto com "Everything Now". Está longe dos melhores trabalhos do grupo canadiano, mas foi impossível não apreciar minimamente as suas melodias, que puseram o público a cantar logo desde início. Seguiu-se um regresso ao passado com "Neighborhood #3 (Power Out)", excelente canção de Funeral à qual foi acrescentada desnecessariamente um excerto da horrível "I Give You Power", talvez a pior música na discografia dos Arcade Fire. "Rebellion (Lies)" e "No Cars Go" foram tocadas a seguir, havendo tempo para Win elogiar o festival entre elas. Seguiram-se depois os dois pontos mais fracos do alinhamento, "Electric Blue" e "Put Your Money On Me". Músicas muito fracas, genéricas e pouco dinâmicas que mostram a banda no seu pior. A primeira delas contou também com uma performance vocal de Régine que deixou muito a desejar. O que compensou um pouco este desastre foi a canção seguinte. "Cars and Telephones" foi uma agradável e bonita surpresa. Não está em nenhum álbum da banda e foi composta por Win antes de este conhecer a maior parte dos outros membros. Daqui até ao fim apenas se ouviram boas músicas. O som não esteve perfeito em todas, Régine voltou a desapontar um pouco com a sua voz em "Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)" e o baterista atrasou-se a certa altura em "Ready To Start", mas de resto ficou a faltar só mais algum entusiasmo por parte do público. Não sei como é que há quem consiga resistir às versões ao vivo de "Reflektor" e "Afterlife", esta última a contar com um outro em que foi misturada com "Temptation" (New Order) e "All My Friends" (LCD Soundsystem). Com "Intervention", "The Suburbs", "The Suburbs (Continued)", Creature Comfort e "Everything Now (Continued)" também no alinhamento, o concerto acabou com "Wake Up", uma das músicas mais bem recebidas pelo público. A banda deixou o palco enquanto o público ainda cantava a última música do alinhamento e "Take a Walk on the Wild Side" de Lou Reed começa a tocar. Pouco depois um vídeo com diversos momentos desta edição do festival passa nos ecrãs. "All My Friends" serve de banda sonora, claro. Já se celebra a 26ª edição do Paredes de Coura, mas o festival ainda estava por terminar.


Arcade Fire

O after começou durante a atuação dos cabeças-de-cartaz portanto, com muita pena minha, só consegui ouvir as duas últimas músicas dos portugueses Ermo. A banda lançou um dos melhores álbuns nacionais de 2017, Lo-fi Moda, e é tão boa ao vivo como em estúdio. Um dos melhores nomes da música electrónica no cartaz do festival. Depois deles tocou o duo Ninos Du Brasil, que juntam ritmos tribais ao techno. A sua música é extremamente rítmica e baseia-se quase só em percussão. O after continuou com DJ Kitten e posteriormente com vários DJ's a ocupar o palco Jazz na Relva, das 06h00 às 19h00.

Finalizado o 26º Vodafone Paredes de Coura, saí de lá satisfeito com mais uma boa edição de um festival muito bem organizado. Ficou apenas a faltar um cartaz mais consistente, mas não deixaram de haver grandes concertos como nos casos de Fleet Foxes e Confidence Man. Outro aspeto positivo que realço novamente foi a colocação de um tapete no palco principal, que diminuiu imenso o pó no ar em momentos de mosh ou maior movimento por parte do público. Para melhorar as primeiras filas ainda mais seria bom que deixasse de haver vendedores de cerveja a passar por lá durante os concertos, como são várias vezes incomodativos. De qualquer das maneiras, o mais importante é que para o ano há mais música em Coura. Lá estaremos nos dias 14 a 17 de agosto.


Texto: Rui Santos
Fotografia: Hugo Lima

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