sexta-feira, 21 de setembro de 2018

A paixão de ZigurFest: os dias que passámos em Lamego



O ZigurFest realizou entre 29 de agosto e 1 de setembro a sua oitava edição, recebendo em Lamego vinte e quatro dos nomes mais criativos e inovadores da música nacional. Foram quatro dias em que a música se fundiu com o vasto património milenar apresentado pela cidade, propagando-se por oito palcos - Teatro Ribeiro Conceição, sala de Grão Vasco do centenário Museu de Lamego, Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos, Castelo, largo da Olaria, Parque Isodoro Guedes (também conhecido como Alameda), Largo da Cisterna e Capela de Nª. Srª. da Esperança.

Como já passaram umas algumas semanas após o ZigurFest, decidimos escolher os concertos que mais gostámos nesta edição. Infelizmente não estivemos presentes no primeiro dia, que contou com as atuações de Ulnar + Sal Grosso, Zarabatana e Dullmea


Mathilda – 30 de agosto


Após algum tempo à procura da Capela de Nª. Srª. da Esperança, conseguimos chegar a tempo do concerto de Mafalda Costa, cantautora vimaranense mais conhecida por Mathilda. Completamente à pinha, já não cabiam mais pessoas no adro da capela, cuja iluminação criava o ambiente intimista certo para a ocasião. Dona de uma voz doce e suave, com apenas um ukulele nas mãos e acompanhada por Gobi Bear (Diogo Pinto) na guitarra acústica, como já é costume, Mathilda aqueceu os corações de todos os presentes com as suas canções de filigrana e veludo, onde retrata e suporta as fragilidades de uma artista bastante madura, mas que ainda só tem 18 anos. Ouviram-se na capela temas como “Oddest of Things”, primeira música que lançou com 17 anos, “Unloved”, música de Gobi Bear que conta a colaboração de Emmy Curl em estúdio, e ainda “No Love Song”, onde Mathilda ficou sozinha em palco com a sua guitarra elétrica. Pediu para sermos gentis pois ainda está a aprender a lidar com esta situação. E nós assim o fomos.

Sereias – 30 de agosto


Não há muitas bandas em Portugal que nos preparem para o que vimos esta noite. Caracterizam-se como jazz-punk pós-aquático e dão pelo nome de Sereias. Formados pelo poeta António Pedro Ribeiro e Kenneth Stitt na voz, Sérgio Rocha na guitarra, João Pires na bateria, Nils Meisel nos sintetizadores e Tommy Luther no baixo, a banda do Porto apresentou-se no palco Alameda com as suas longas músicas movidas a noise rock e no wave irregular. No meio de todo o caos, as atenções estavam especialmente focadas em António Pedro Ribeiro, que declamava ferozmente os seus poemas enquanto a banda tocava, e em Kenneth Stitt, homem de speedo que dançava livremente com as suas longas pernas e braços, vocifernado por vezes algo indecifrável ao microfone. Esquizofrenia é a palavra certa para definir este concerto. 

Fotogaleria do dia 30 de agosto aqui


André Gonçalves – 31 de agosto


André Gonçalves é um dos exploradores sónicos mais relevantes do panorama nacional, ora através da construção de sintetizadores modulares pela ADDAC, ora através da música que produz. Música Eterna (2015) é o melhor exemplo disso, “álbum” que existe dentro de uma aplicação para iOS e permite compor música que nunca se irá repetir, “recorrendo a uma partitura que joga com múltiplos blocos sonoros que vão desfilando com o tempo, encaixando miraculosamente sem nunca nos deixar desamparados pelo aparente jogo de sorte”. No Castelo de Lamego não foi diferente e André presenteou-nos com um set de colagens onde convivem sons do quotidiano com algumas vozes e por vezes alguns glitches, ao género de Oneohtrix Point Never. Perante a música ambiente que se fazia sentir, o público sentia-se relaxado, havendo até quem se deitasse na relva e fechasse os olhos para sentir todas as singularidades da viagem. 

David Bruno – 31 de agosto


Na primeira incursão do festival no Teatro Ribeiro Conceição, fomos assistir à apresentação d’O Último Tango em Mafamude, álbum editado este ano por David Bruno e muito aclamado pela crítica, onde expressa o seu amor pela cidade de Vila Nova de Gaia, revestindo-se de roupagens dos anos 90, enriquecidas com ritmos de hip-hop, um imaginário soul e músicas românticas. Iniciou o concerto com “Alfa Romeu e Julieta”, música sobre os domingueiros que só tiram o carro da garagem aos domingos. Agradeceu por não estarmos a assistir ao concerto dos Amor Electro, que essa noite estavam também a atuar em Lamego. Acompanhado pelos calorosos solos de guitarra de Marquito, esse prodígio de Barcelos, pelas representações visuais do seu álbum como fundo e, não esquecendo, pelo naperon a adornar a sua mesa de mistura, David Bruno interpretou temas como “Monte da Virgem Platónico”, “Amor Anónimo”, onde há a famosa referência a Marante e Toy, “Mesa Para Dois”, onde nos recomendou a comermos no balcão dos snack bars e a mantermos vivas as travessa de alumínio. Foi com “Lamborghini na Roulotte”, música que o artista só apresenta ainda ao vivo, que o público entrou completamente em delírio. Após uma pequena pausa em que foram lançados para a audiência bases de copo alusivas ao Último Tango em Mafamude, David regressou ao palco para terminar a atuação com “150 mL”, tema da altura em que o artista respondia por dB.

Foi uma experiência incrível ver esta personagem caricata interpretar as suas músicas tão tipicamente portuguesas que nos enchem de um orgulho imenso.

NU – 31 de agosto


Quem também atuou no Teatro Ribeiro Conceição foram os NU. A banda veio de Santo Tirso e apresentou-se em palco com sete elementos, apesar de serem um sexteto formado por Rui Pedro Almeida na voz, Miguel Filipe Silva e Vitor Duarte nas guitarras, André Soares no baixo, Ricardo Coelho na bateria e Urbano Ferreira na eletrónica. Apresentaram o seu rock experimental bem aguerrido e desconcertante, com uma percussão violenta, influenciado por nomes lendários como os Swans, Einstürzende Neubauten e os Mão Morta. Aliás, eram bem notórias as semelhanças do vocalista com Afonso Luxúria Canibal, tanto na voz como no seu estilo devaneante em palco. O elemento extra presenteou-nos com o seu saxofone, o que conferiu um carácter ainda mais experimental à atuação da banda. Durante quase uma hora estivemos perante um ambiente psicologicamente denso dotada de visuais negros e niilistas, em que a banda não se dirigiu ao público.

Fotogaleria do dia 31 de agosto aqui


Lavoisier – 1 de setembro


Os Lavoisier foram os primeiros a entrar em ação no último dia do ZigurFest no palco da Olaria. A dupla formada por Patrícia Relvas e Roberto Afonso recria a tradição musical portuguesa, respeitando a lei da conservação da matéria do químico Antoine Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", interpretação esta que assenta no minimalismo da guitarra e a voz (e corpo) moldável de Patrícia. Partiram para Berlim em 2009, mas decidiram regressar em 2013 para viver apenas da música. Em Lamego apresentaram o seu disco É Teu (2017), tocando temas como “Vira”, uma versão de “Marcolino” de Fausto Bordalo Dias, “Romance do Cego”, música tradicional portuguesa que a avó de Bragança cantava, “Estátua”, resultante de um poema de Judith Teixeira, “Fauna”, música que retrata o quão bonito e assustador pode ser viver ao pé do mar, e “Opinião”, coisa que toda a gente tem. O duo aventurou-se também num tema novo, “Frustração”, que irá fazer parte de um novo trabalho onde vão musicar Miguel Torga. Nada melhor que um situação ao vivo para testar a força das canções.

The Dirty Coal Train – 1 de setembro


Todos sabemos que quando menos esperamos algo de extraordinário acontece. Foi isso que aconteceu com os Dirty Coal Train, banda que veio substituir à última da hora os Moon Preachers. O trio formado por Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues, na guitarra e voz, e Nick Suave, na bateria, editou em maio o novo álbum Portuguese Freakshow e conseguiu vir até Lamego atuar pois estava a passar férias ali perto. Só precisaram que alguém lhes emprestasse uns instrumentos. Uma das guitarras até estava assinada por Malcolm Young, membro falecido dos AC/DC. Ao todo foi quase uma hora de garage punk puro e duro, com direito a mosh e a crowdsurf por parte do endiabrado público. Não menos endiabrados, Ricardo e Beatriz andaram também pelo público a dar tudo, dando a oportunidade a algumas pessoas de agarrarem no micro e gritar o que lhes ia na alma. Dose diária recomendada de rock para aqueles que assistiram a este vendaval.

Scúru Fitchádu – 1 de setembro


Para quem nunca tinha visto Scúru Fitchádu ao vivo e só tinha ouvido algumas músicas em casa, nada os podia preparar para a bojarda que aí vinha. O relógio já marcava as 3h da manhã quando Marcus Veiga aka Sette Sujidade entrou no palco Alameda com o seu produtor. Scúru Fitchádu é um projeto que vive para as atuações ao vivo, dono e senhor de uma música bastante física e intensa, a qual não dá para viver sentado. Funde a distorção e o ruído do punk com os ritmos dançantes do funaná de Cabo Verde e a bass music. Isto tudo cantado vigorosamente em crioulo, com a ajuda de uma faca que bate freneticamente sobre o ferro e nos “obriga” a dançar até mais não. Foi um concerto que se prolongou por mais de uma hora e nos obrigou a ir aos limites. Incrível, épico, o melhor concerto desta edição do ZigurFest.

Fotogaleria do dia 1 de setembro aqui.


P.S.: Um dos melhores festivais nacionais, o ZigurFest mostrou-se em excelente forma, excecionalmente organizado. Integrado nas festividades de Lamego, funcionou como uma alternativa às festas mais populares, permitindo chamar público de todas as idades. Os belíssimos locais onde se dão os concertos são muito bem escolhidos e adequam-se perfeitamente ao tipo de música e à cidade milenar de Lamego. O convívio com bandas é bastante facilitado e podemos ver de perto como tocam pois não há barreiras entre nós e estas. Toda a cidade é contagiada pelo ZigurFest e nós sentimo-nos bem a fazer parte dessa família. Esperamos voltar por muitos e bons anos. 

Texto: Rui Gameiro
Fotografia: David Madeira


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