domingo, 9 de setembro de 2018

Reportagem: Extramuralhas 2018


Nona edição de festival gótico, ano de uma série de mudanças novas para os conterrâneos festivaleiros e o primeiro ano aberto ao público outsider, que ao longo dos três dias de folia negra, se foi juntando aos poucos, perto de onde ecoavam sons, ou por onde passavam os festivaleiros vestidos a rigor. O Entremuralhas desceu à cidade (e não foi a primeira vez que tal aconteceu, uma vez que em 2013 o concerto dos Deine Lakaien aconteceu no Teatro José Lúcio da Silva) para uma edição diferente que se deverá manter em 2019, sob o novo epíteto Extramuralhas. Mudança no ambiente, mas nunca na qualidade musical.

Foram três dias que marcaram agosto, Leiria e o coração dos que marcaram presença. Seja entre ou fora muralhas o festival gótico é um amor como não há mais nenhum. Com concertos divididos entre o Teatro José Lúcio da Silva, a Stereogun, o Museu de Leiria e o Jardim Luís de Camões, o que se manteve em grande nesta edição foi o conjunto de doze bandas incríveis que figuravam o cartaz, das quais nove se estrevam pela primeira vez em território nacional. No primeiro dia os Heilung fizeram os espetadores levantarem-se dos bancos para uma dança desenfreada entre ritmos tribais e S.A.D foi a loucura para fechar em grande a abertura do festival numa das salas mais futuristas do país. 


HEILUNG

O segundo dia abriu com Christian Wolz que mostrou ao vivo aquilo que já tinha projetado em estúdio - o seu camaleónico alcance vocal, DJ's sets no Jardim Luís de Camões e uma fila enorme às portas do Teatro José Lúcio da Silva para assistir ao icónico regresso dos Ulver em território nacional, num concerto com um espantoso e invejável espetáculo de luz que lhe garantiu um cenário totalmente apoteótico. Daqueles concertos de deixar abismados os que não marcaram presença. Seguiu-se o espetáculo imersivo dos Captains e uma das mais aguardadas estreias, Priest, concerto marcado por fãs em êxtase nas filas da frente. A fechar, uma fila descomunal às portas da Stereogun para assistir ao esgotado concerto dos holandeses Bragolin. Bragolin foi daqueles concertos para dançar e ouvir a voz mais grave de Edwin van der Velde, com direito à repetição de uma música no encore. Depois foi dançar até às 06h40 da manhã, hora em que abandonámos as portas da Stereogun.


PRIEST

O terceiro e último dia do festival foi, também o período de tempo que integrou as maiores e melhores surpresas. A abrir pelas 18h00 com Rïcïnn, projeto a solo da emblemática Laure Le Prunenec - que em Leiria se fez acompanhar pelo guitarrista Laurent Lunoir (Öxxö Xööx, Igorrr) e o violoncelista Raphaël Vergin (Psygnosis, Spectrale), no Museu de Leiria - os espetadores do Extramuralhas tiveram a oportunidade de assistir a uma das mais tocantes performances do festival. A cantora, que já tinha marcado presença na edição de 2015 com Igorrr e na edição de 2016 com os geniais Corpo-Mente, garantiu mais um espetáculo de extravagante qualidade, como já é habitual. Pausa para jantar e para seguir para Current 93, o projeto muito aclamado de David Tibet e um dos mais fascinantes dos últimos 35 anos, que foi responsável pela estreia de indivíduos de nacionalidade mexicana no festival. Um dos grandes!


RICINN

Mas lá está, o melhor está sempre reservado para o fim. Shortparis foi algo de outro mundo, algo transcendental mesmo. Os Shortparis tiveram um problema com o sistema de luzes, mesmo perto do início do concerto, mas isso nunca foi motivo para impedir que a percussão do espetáculo parasse. Os Shortparis tinham energia para dar e vender, batidas para colocar toda a gente a dançar, quebras de ritmos de deixar uma pessoa perdida no tempo e ainda um espetáculo de dança extremamente coordenado. A performance dos Shortparis foi definitivamente uma das melhores de sempre das transatas edições do festival gótico. Depois deste concerto, que não dá mesmo para explicar por palavras, os Shortparis tornaram-se naquela banda obrigatória da playlist das semanas pós-Extramuralhas. Shortparis foi absolutamente incrível.


SHORTPARIS

Seguiu-se o também muito bem recebido espetáculo de industrial dos Horskh, que serviu para gastar a reserva de energias do jantar e ainda, sempre em grande, fechar a dose de concertos gratuitos desta nona edição. Com o concerto de Bizarra Locomotiva esgotadíssimo, fechava-se também mais uma edição do nosso querido amor de verão. Não foi um amor com a mesma intensidade como aquela que se sentia no Castelo de Leira (saudades), mas foi certamente com uma quantidade bastante significante até podermos regressar ao nosso querido ambiente singular e romântico. Até lá, a saga repete-se para o ano. 


EXTRAMURALHAS 2018 - Ambiente

Fotogaleria dos concertos aqui.
Fotogaleria do ambiente e público aqui.

Texto: Sónia Felizardo
Fotografia: Miguel Silva

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