segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Reportagem: Spectrum (Sonic Boom) [Musicbox, Lisboa]


“Taking Drugs to Make Music to Take Drugs Too”. É este o motto a que Pete Kember (a.k.a. Sonic Boom) se dedicou durante toda a sua vida e carreira como músico na vertente do psych minimalista. Desde os tempos de Spacemen 3, até agora como Spectrum, que o guitarrista oriundo de Rubgy tem vindo a construir uma discografia e legado a ficar certamente na história dos pioneiros da música psicadélica. Sintra tem sido o novo habitat escolhido por Pete Kember nos últimos tempos, onde tem baseado o seu trabalho como produtor nos últimos discos de Panda Bear, MGMT e Beach HouseSonic Boom portanto voltou literalmente a casa no último sábado para dar um concerto no Musicbox Lisboa, num evento inserido nas Musicbox Heineken Series (uma cerveja grátis com o bilhete é tudo o que precisam de saber). 

A noite estava quente como se fosse agosto. Se não fosse o calendário a indicar que estamos no final de setembro, podíamo-nos ter enganado na data deste concerto a ter em conta a temperatura. Ou como disseram os Spacemen 3 no álbum Playing With Fire, “Lord It's so hot, and I ain't got a lot”. Mas infelizmente, não eram muitas as pessoas que iam entrando no Musicbox para assistir à "explosão sónica" de Pete Kember. A casa do Cais do Sodré estava a meio gás quando Sonic Boom subiu ao palco como Spectrum, acompanhado por Jason Holt (The Cult of Dom Keller) na guitarra, para dar início a esta noite espacial. 



Os acordes de “Transparent Radiation” foram a primeira coisa que emanaram da guitarra de Pete, invocando directamente a espiritualidade dos Spacemen 3 (por um dos seus membros fundadores) para o meio das pessoas que assistiam a este concerto. Mas sinceramente não prestei muita atenção ao resto do público, estava de olhos fechados enquanto viajava pela nave espacial “supersónica” de Pete Kember, e creio que as outras pessoas lá presentes também poderão dizer o mesmo. A música entrava pelos nossos ouvidos e ecoava pela nossa mente como se fossem as ondas do mar, a subir e a descer calmamente, enquanto Pete cantava esta cover de Red Krayola imortalizada em Perfect Perscription (álbum de Spacemen 3, 1987). 

De seguida vieram “All Night Long” e “Lord I Don’t Know My Name”, dois grandes originais de Spectrum que encaixaram perfeitamente nesta viagem pelas estrelas e tudo mais além. Por esta altura já eram de notar os dotes guitarristicos de Jason Holt, e o quão bem encaixavam nesta sonoridade espiritual. Embora estes solos não se tenham desviado muito das músicas originais, Jason fez aqui um trabalho notável às rendições de Spectrum e Spacemen 3. “Let Me Down Gently”, “Call The Doctor” e a cover dos Suicide “Chè” vieram a seguir, e os nossos olhos continuavam fechados a contemplar o espaço para além das estrelas, e tudo dentro da nossa cabeça. Quando os olhos decidiam abrir por si só, deparávamos com dois astronautas psicadélicos em palco com uns visuais incríveis na tela atrás deles. Esses visuais iam acompanhando gentilmente a música de Pete Kember, em toda esta viagem pelos astros que eles nos iam proporcionando no Musicbox. 




No final do concerto, ainda houve tempo para um grande encore. A imperdível “Big City (Everybody I Know Can Be Found Here)”, obra-prima escrita por Pete nos seus tempos de Spacemen 3, foi a malha que fechou completamente em grande este concerto. Apesar de ter sido um set pequeno, deu para absorver muito bem tudo aquilo que é Spectrum ao vivo, e tudo aquilo que foi Spacemen 3, num concerto com várias homenagens a esta banda lendária dos anos 80. Uma noite que certamente vamos repetir na próxima vez que Pete Kember decidir descer dos astros à terra.

Texto: Tiago Farinha
Fotografia: Ana Viotti (Musicbox Lisboa)

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