quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Mucho Flow: uma celebração de música urgente

SKY H1
Foi no passado sábado que se realizou mais uma edição do Mucho Flow, o festival que, anualmente (e ao longo de apenas um dia), tem vindo a propor alguma da melhor oferta cultural à cidade berço, que acolhe o evento desde 2013. Na sua sexta edição, o festival organizado pela Revolve regressou com uma aposta forte na diversidade, propondo um cardápio de luxo que reflete um pouco do que de melhor e mais emergente se anda a produzir nas esferas da música contemporânea. Seguindo uma linha de pensamento coerente para com a edição transacta, que contou, entre outros, com a presença de God Colony, Flohio, Sega Bodega e Nadia Theran, o Mucho Flow voltou ao Centro para os assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) para mais um dia recheado de estreias e novidades, com o grime, o jazz, o rock e a eletrónica a ecoarem bem alto.

O dia começou cedo com os concertos de Huggs e Vaiapraia, que partilharam o palco Noc Noc para dois concertos de acesso gratuito. Seguiu-se o primeiro ato internacional do cartaz, os norte-americanos Ditz, que se estrearam em Portugal para um festim breve mas eletrizante de riffs sujos e contagiantes. Hilary Woods, uma das mais recentes entradas no sempre fascinante repertório da Sacred Bones, foi mais uma das estreias do festival. A música e compositora irlandesa apresentou-se a solo no palco Super Bock, acompanhada de teclado e guitarra elétrica que alternava entre canções de uma pop crua e refinada. Explorando temáticas que vão da tristeza e o abandono à constante mutação do amor, Woods reconfortou o público com o seu próprio desconforto, equilibrando acordes de guitarra despojados com tessituras atmosféricas e industrias geradas por piano e sintetizador.

Fire!
Mais abrasiva seria a performance dos Fire!, que se seguiriam logo após no Palco Revolve. O supergrupo sueco liderado por Mats Gustafsson apresentou-se pela primeira vez em Guimarães para um dos momentos mais poderosos da noite, uma demonstração que juntou peso, virtuosismo e explorações electrónicas. Acompanhado pelos comparsas Johan Berthling, no baixo, e Andreas Werliin, na bateria, o power trio escandinavo apresentou os temas de The Hands, o mais recente trabalho do grupo pela Rune Grammofon, proporcionando aquilo que pode ser descrito não como um duelo, mas sim como um diálogo entre titãs. Aos rasgos desenfreados do saxofone tenor de Gustafsson juntam-se as linhas de baixo certeiras de Berthling e a bateria irrequieta de Werliin, intersectando os terrenos mais libertinos do jazz com a costela omnipresente do rock. Num concerto claramente mais curto que o apresentado uns meses antes em Serralves, os Fire! mostraram-se, no entanto, bem mais focados e concisos, encerrando a performance com um tema explosivo que representa o melhor das experimentações sónicas deste empolgante organismo.

Um dos nomes mais emergentes a surgir da costela da PAN, Sky H1 apresentou-se pela primeira vez em Portugal com uma atuação promissora no palco Super Bock. Depois de um EP pela Codes (do produtor Visionist) e de integrar o alinhamento de mono no aware, a compilação que juntou a produtora belga a Yves Tumor, M.E.S.H e Bill Kouligas, Sky H1 tem vindo a gerar um discreto mas curioso burburinho dentro das esferas do experimentalismo contemporâneo. Perante uma sala não muito composta, a produtora esboçou linhas dissonantes de sintetizador que se juntavam a vozes incorpóreas aplicadas através de samples, produzindo padrões esparsos e circulares carregados de emoção. A atmosfera que gera através das suas composições é multicolor, turva e extremamente profunda, tornando o digital em algo tão humano como o próprio luto, tema que serviu de mote para a produção do seu mais recente EP, Motion. Talvez por isso as reminiscências aos drones de Tim Hecker tenham feito tanto sentido, aproximando o universo frio e complexo da produtora às produções encorpadas e cristalinas do canadiano. 

Black Midi
E porque a urgência é uma das palavras que melhor descrevem este festival, nada melhor do que trazer uns Black Midi em fase embrionária. Composto por quatro jovens estupidamente talentosos, a banda tem vindo a ser descrita como a próxima grande cena britânica, possuindo até à data um único single editado. O corpo de trabalho da banda assume-se, portanto, nas suas atuações ao vivo, onde se demonstram senhores de um som portentoso que bebe tanto das estruturas matemáticas de Louisville (Slint, June of 44, et al) como da estranheza dos PIL (a voz do vocalista poderá ser descrita como um misto entre John Lydon e Nina Simone). As suas músicas são ferozes, intensas e peculiares, mas também complexas e impenetráveis, gerando uma sensação de caos contido que anda sempre próximo da vertigem. Foi sob este ritmo frenético e sufocante que os rapazes se apresentaram no Palco Revolve, conquistando um público babado pela mestria e virtuosismo precoce de um dos mais promissores projetos a surgir da sombra do Reino Unido. 

Se nos Black Midi podemos encontrar uma das forças fundamentais da nova música britânica, em GAIKA encontramos um dos seus maiores representantes. Mais estabelecido que os anteriores, o natural de Brixton tem vindo a assumir-se como força vital da música suburbana, um híbrido de difícil categorização que se insere nos quadrantes do grime e do hip hop menos ortodoxo, aos quais junta influências da cultura caribenha e ainda elementos que vão do bass ao garage. O seu mais recente disco pela Warp, Basic Volume, marca a estreia do MC britânico nos registos de longa-duração. Foi sob este mote que GAIKA se apresentou pela primeira vez no festival vimaranense, onde apresentou uma lição de poesia electrónica no seu estado mais puro, carregada de motivações políticas e apelos à mudança e revolução. Apoiado por boas doses de auto-tune e linhas de baixo de peso, GAIKA revela um universo único, alienígena e sombrio que é reflexo do período obscuro e imprevisível verificado no Reino Unido, que confronta como poucos são capazes. Responsável por um dos momentos mais acesos da noite, GAIKA contagiou os presentes com o seu flow caraterístico e embriagado, envolvendo o espaço numa atmosfera tão densa quanto festiva.

GAIKA
O ritmo frenético continuaria com uma incendiária atuação dos Mourn, o quarteto catalão que regressou a Guimarães para mais um concerto de proporções épicas. Tenros em idade mas maturos na mentalidade, os Mourn apresentam-se mais oleados do que nunca, com um novo disco tão portentoso quanto a energia que apresentaram ao vivo. Perante uma das salas mais cheias da noite, os Mourn provaram ser transcendentes aos rótulos que lhes são atribuídos, mostrando um rock apuradíssimo de influência post-hardcore que ganha pela garra e determinação com que é vociferado. 

A noite não ficaria por aqui, com Nídia a proporcionar duas horas de ritmos e batidas viciantes. Do casamento feliz entre a música tradicional africana e o house aos ritmos sensuais do tarraxo, a produtora conquistou o público com mais um set irrepreensível, dado que se demonstra cada vez mais adquirido. DJ Lynce encerrou uma noite que se fez longa mas sorridente, culminando mais uma edição de luxo do festival que se tem assumido cada vez mais como espaço para a melhor melhor produção contemporânea.

Fotogaleria completa aqui.
Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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