sábado, 15 de setembro de 2018

STREAM: XTR HUMAN - Reflections


Três anos depois da edição In Circles (2015) o trio alemão XTR HUMAN regressou aos trabalhos curta-duração com Reflections, EP de seis canções que refletem o período de uma tour extensiva pela Europa. A banda, cuja sonoridade cruza o ambiente monótono do post-punk com as atmoferas sonhadoras do shoegaze e algumas tonalidades do garage-rock, apresenta em Reflections um trabalho rico em camadas sintetizadas que nos faz viajar entre os territórios de bandas como DIIV, Pink Turns Blue ou Motorama, por exemplo.

Reflections contou com Lemmy Fischer (JAGUWAR) na mixagem do álbum e ainda em algumas guitarras e voz adicional. Do EP, disponível para escuta integral abaixo, recomenda-se a audição de temas como "Disturbia", "True Lies" e "Limelight".

Reflections EP foi editado no passado dia 7 de setembro pelo selo Blackjack Illuminist Records. Podem comprar o disco nos formatos CD, cassete e digital aqui.


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[Review] Spiritualized - And Nothing Hurt


And Nothing Hurt // Fat Possum Records // setembro de 2018
8.4/10

6 (longos) anos. Foi o tempo que tivemos de esperar por este novo disco de Spiritualized. Uma espera morosa para quem é adepto ferrenho das melodias espaciais e contempladoras de Jason Pierce, mas que obviamente tem razões. Em 2012 foi lhe diagnosticada uma doença grave no fígado devido aos anos de consumo intenso de drogas pesadas, o que acabou por servir de inspiração para a composição de Sweet Heart Sweet Light. Mas não foi só por isto que esperámos este tempo todo por And Nothing Hurt, J. Spacemen também já disse em várias entrevistas que só escreve álbuns quando acha que são um contributo positivo para a sua discografia. Quem nos dera que todos os artistas pensassem assim... 

(entrevista a Jason Pierce em 2012)

And Nothing Hurt não foi gravado num grande estúdio com vários músicos, técnicos de som e tudo mais a ajudá-lo. Jason Pierce basicamente comprou um portátil, instalou o Pro Tools e ocupou um quarto da sua casa em Londres com a artilharia necessária para gravar este disco. Ele conta-nos que fez isto porque estava falido e não tinha dinheiro para alugar um estúdio “de verdade”. E por isso Spacemen gravou quase tudo sozinho na solidão do seu quarto, com a excepção da bateria obviamente. Jason aprendeu a fazer isso tudo de raiz, a editar um álbum digno de Spiritualized desta maneira caseira e low cost. Andou durante meses a mexer nos níveis no Pro Tools, completamente obcecado com o som derradeiro que iria sair pelas colunas do seu computador. No fim saiu o que nós todos podemos ouvir, um disco bem ao nível dos padrões de Spiritualized, com a qualidade que J. Spacemen nos tem habituado ao longo dos anos.


“A Perfect Miracle” abre a playlist de maneira grandiosa e marca o passo para o resto de And Nothing Hurt. Desde logo podemos sentir que vai ser um álbum espacial (obviamente), calmo e contemplativo. Apesar de Spacemen não variar muito nos títulos e assuntos das músicas que escreve, as letras são sempre importantes nos seus registos. E aqui não é excepção. Sendo “I’m Your Man” um exemplo perfeito disto, com uma letra profunda que fala sobre os seus defeitos e qualidades como homem, fazendo um contraste poderoso entre duas versões de Jason Pierce (ou da personagem retratada aqui). Uma versão amorosamente fiel, honesta e verdadeira em relação a outra pessoa, e outra versão permanentemente magoada e marcada por emoções negativas. Esta malha é também marcada por um incrível solo de guitarra que nos faz sentir isso tudo bem cá dentro, mesmo nos sentimentos. "Here It Comes (The Road) Let’s Go" segue-se no álbum, uma música que fala sobre uma viagem de carro imaginária na costa oeste dos Estados Unidos, como o próprio Jason revelou. Aqui podemos simplesmente fechar os olhos e imaginar-nos a conduzir um muscle car americano ao por-do-sol, pelo deserto Mojave, deixando-nos com um sentimento nostálgico que nos aquece o coração. “Let’s Dance” e “On The Sunshine” são duas músicas completamente distintas em sonoridade na ordem da playlist, quebrando um pouco o ritmo do álbum. Isto nota-se especialmente em “On The Sunshine”, a música mais garage e agressiva de And Nothing Hurt. Não é uma má faixa, mas não ficou bem num disco calmo como este. Secalhar noutro contexto encaixaria melhor, nunca saberemos. 



“Damaged” surge como uma explosão de serenidade espacial, fazendo-nos fechar os olhos e flutuar pelos nossos pensamentos menos positivos de uma maneira incrivelmente bonita, como podem ouvir e sentir em cima. De seguida vem a curiosa “The Morning After”, que pela letra parece ser uma continuação da história em “Hey Jane” de Sweet Heart Sweet Light. Porquê? Porque são feitas várias referencias a uma Jane nesta música, e pela letra parece mesmo ser a manhã seguinte (“The Morning After”) da rapariga cuja história é relatada nesse álbum de 2012, como podemos ver neste exemplo “Jane said she had a problem with her mother's wealth, said she ought to cut and run and grow up by herself”“The Prize” e “Sail On Through” são as duas malhas que fecham o disco completamente em grande, mas mesmo lá em cima. Voltamos a sentir aqui aquela serenidade espacial incrível, como se tudo o que estivesse errado na nossa vida finalmente fizesse sentido. As melodias ecoam infinitamente pela nossa cabeça, onde nos podemos imaginar a viajar sem fim pelas estrelas no universo, numa nave espacial desenhada de raiz por J. Spacemen


No final, podemos concluir que And Nothing Hurt se revela como mais um grande álbum de Spiritualized. Uma miscelânea de melodias espaciais que nos fazem fechar os olhos e viajar pelo universo, como relatámos em cima, com poucas falhas por preencher ou defeitos por remediar. 
Jason Pierce tem dito em entrevistas que talvez, e muito infelizmente, este tenha sido o seu último álbum. Ele sente que já fez tudo o que tinha a fazer na música e não quer escrever álbuns só porque sim, como muitos artistas fazem em final de carreira. Se este for realmente o último álbum de Spiritualized, J. Spacemen despede-se apropriadamente e em grande dos seus apóstolos.
 
Senhoras e senhores, estamos agora a flutuar no espaço.

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Kruder & Dorfmeister e Laurel Halo nas celebrações dos 20 anos do Lux Frágil


São uma das duplas mais reputadas da década de 1990, e regressam ao Lux Frágil para uma performance no âmbito das celebrações dos 20 anos do clube lisboeta. Donos de uma carreira aclamada e de um som tido como aditivo e elegante, os Kruder & Dorfmeister - dupla de Peter Kruder e Richard Dorfmeister - demarcaram-se desde cedo como impulsionadores da vaga downtempo e trip-hop que abundava a Europa durante os anos 90, década em que editaram as célebres K&D Sessions. Num ano em que a dupla austríaca comemora 25 anos, Kruder & Dorfmeister regressam ao espaço que os recebeu pela primeira vez em 1999. Consigo trazem a produtora norte-americana Laurel Halo, verdadeiro quebra-cabeças da nova pop vanguardista que conta edições por selos tão conceituados como a britânica Hyperdub e a francesa Latency, pela qual editou o mais recente mini-álbum Raw Silked Uncut Wood. Como DJ, formato em que se apresentará no Lux, Halo apresenta uma cuidada e eclética seleção de faixas, percorrendo estilos tão díspares como o jazz, o breakbeat, o techno e o afro-house.

O evento decorre esta noite e conta ainda com a presença de Yen Sung, na disco, e Slightly Delay, no bar. No dia 13 de setembro, a dupla passou por Odeceixe para um concerto solidário para os bombeiros locais.




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7 ao mês com Dear Deer


Formados em 2015 por Federico Iovino e Sabatel, os Dear Deer são a nova banda internacional a participar na nossa rubrica "7 ao mês", cujo objetivo é o de apresentar bandas/artistas ou promotores através dos seus gostos musicais. Para o mês de setembro convidámos a dupla francesa - que vai editar no próximo mês de outubro o novo disco Chew-Chew pela Manic Depression e Swiss Dark Nights - a selecionar sete artistas/bandas ou álbuns/músicas que os têm influenciado não só como artistas, mas também como pessoas. 

As sete escolhas do duo francês, que conjuga os elementos do post-punk, noise, no-wave ao charme da música disco, revelam ainda onde eles foram buscar o seu nome, apresentando-se como uma intensa viagem a diversos géneros musicais. Aproveitem para as ler e ouvir, abaixo.

Swans: "Filth" (1983)

Como fãs dos Swans, estamos apaixonados pelos álbuns mais recentes que são próximos de Glenn Branca, mas também pelos primeiros trabalhos dos Swans. Eles definitivamente influenciaram os nossos primeiros passos, energia bruta, atitude escura, arrojada e radical.


Wire: "Chairs Missing" (1978) e "154" (1979)

Os Wire são, com certeza, outra componente central na maneira como nós pensamos e construímos música: energia, criatividade nos arranjos e melodias. Colin Newman, como artista solo e produtor é inseparável desta declaração artística.



LCD Soundsystem "American Dream" (2017)

O James Murphy conseguiu criar composições sofisticadas com influências que nós amamos, misturadas com batidas sexy. Uma nova geração da cena de Nova Iorque. A primeira geração segue abaixo, na nossa lista!


New York Noise: Dance Music From The New York Underground (1977-1982)

Obra-prima! DO DA DA DA DA DA DA-DA-DA-DA


Corpses As Bedmates: Venus Handcuffs (1986)

Susanne Lewis e Bob Drake deram à luz uma certa canção chamada "Dear Dear". Adivinhem... Uma música sobre a modificação no espelho, a dualidade. Em termos de música e vocais femininos, isso também é muito importante para nós. Ela poderia ter cantado num filme de David Lynch. Uma espécie de mulher Michael Gira. Oiçam também os projetos Spray Pals e Hail.


Sonic Youth: Sonic Youth (1982)

Outra influência da cidade de Nova Iorque. Também muito ligado à cena artística. Obviamente o nosso tipo de texturas de guitarra. O equilíbrio perfeito entre ruído e melodias, experimental e rock'n'roll.


Brian Eno

É, sem margem para dúvidas, um artista principal, ele está em toda parte. As "Oblique Strategies", os seus álbuns a solo, os Roxy Music, os seus trabalhos com Bowie e Devo são muito importantes em muitos aspetos. Ele quebra o automatismo da música pop e nos satisfaz com sucessos malucos. A sua criatividade em arranjos e composição acrescentou muitas coisas no nosso trabalho. Ele nos ensinou a ter a mente aberta no processo de estúdio...




Se quiserem saber mais sobre os Dear Deer aproveitem para os seguir através do Facebook ou pela plataforma Bandcamp, onde podem comprar o seu trabalho.


-------------------- ENGLISH VERSION --------------------

Formed in 2015 by Federico Iovino and Sabatel, Dear Deer is the new international band to be part of our rubric "7 ao mês", whose objective is to present bands/artists or promoters by revealing their musical tastes. For September's "7 ao mês" we invited the French duo - who will be releasing their new album, Chew-Chew through Manic Depression and Swiss Dark Nights in October - to select seven artists/bands or albums/songs that have influenced them not only as artists but also as individuals.

The seven choices of the French duo that combine the elements of post-punk, noise, no-wave with the charm of disco music, still reveal where they came to get their name, presenting itself as an intense trip to various musical genres. Enjoy reading and listening to them, below.

Swans: "Filth" (1983) 

As Swans' fans we are in love with latest albums which are close to Glenn Branca, but also early Swans' works. They definitely influenced our first steps, raw energy, dark, bold, radical attitude. 


Wire: "Chairs missing" (1978) and "154"(1979) 

Wire is for sure another mainstay in the way we think and construct music: energy, creativity in arrangement and melodies. Colin Newman as a solo artist and producer is inseparable from this artistic statement. 



LCD Soundsystem: "American Dream" (2017) 

James Murphy managed to create sophisticated compositions with influences we love, mixed with sexy beats. A new generation of New York scene. The first generation is just under in our list! 


New York Noise: Dance Music From The New York Underground (1977-1982) 

Masterpiece! DO DA DO DA DO DA DO DA DA-DA-DA-DA 


Corpses As Bedmates: Venus Handcuffs (1986)

Susanne Lewis and Bob Drake gave birth to a certain song called "Dear dear". Guess what... A song about mirror alterity, duality. In terms of music and female vocals, this is also very important to us. She could have sung in a David Lynch movie. Some kind of female Michael Gira. Check also the projects Spray Pals and Hail


Sonic Youth: Sonic Youth (1982)

Another NYC influence. Also very connected to the art scene. Obviously, our kind of guitar textures. Perfect balance between noise and melodies, experimental and rock'n'roll.


Brian Eno 

Undoubtfully a main artist, he is everywhere. "Oblique Strategies", his solo albums, Roxy Music, his works with Bowie and Devo are really important in many ways. Breaking automatism of Pop music and satisfies us with crazy hits. His creativity in arrangements and composition brought a lot to our work. He learned us to be open-minded in the studio process...




If you want to know more about Dear Deer make sure you follow them on Facebook or Bandcamp, where you can buy their work.



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STREAM: Marbled Eye - Leisure


Os Marbled Eye, quarteto oriundo de Oakland, na Califórnia, disponibilizaram esta semana para escuta integral o seu primeiro longa-duração de carreira, o LP Leisure que promete servir como uma uma boa surpresa para os amantes de sonoridades de bandas como Sonic Youth, Thurston Moore,  ex-Viet Cong, Ought e InstituteLeisure foi gravado por Andrew Oswald na Secret Bathroom, em fevereiro de 2018. 

De Leisure já tinham sido anteriormente divulgados os temas "Leisure" e "New Crease" - que foram lançadas aquando a edição da Promo Tape 2018 - e ainda "Laughing Sound". As restantes seis músicas podem escutar-se abaixo, com destaque ainda para "Isle" e "Foundation". Um bom disco para aquela despedida de verão.

Leisure é editado no próximo dia 18 de setembro nos Estados Unidos pela Digital Regress (edição com capa vermelha) e na Europa pela Erste Theke Tontraeger (edição com capa azul).


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STREAM: Dilly Dally - Heaven


Os canadianos Dilly Dally editaram esta semana o sucessor do bastante aclamado álbum de estreia Sore (2015), Heaven, que basicamente é o álbum que o quarteto oriundo de Toronto faria se a banda morresse e fosse para o céu. Talvez por isso os Dilly Dally se tornaram ainda mais emotivos neste segundo registo, transmitindo através das guitarras sentimentos tão dispersos como o desespero e a contemplação e na voz de Kate Moss a agonia, raiva e esperança.

De Heaven já tinham sido anteriormente lançados os temas "I Feel Free", "Sober Motel" e "Doom". As restantes seis faixas podem ser ouvidas na íntegra abaixo. Destas recomendam-se ainda a audição de "Sorry Ur Mad" e "Pretty Cold".

Heaven foi editado esta sexta-feira (14 de setembro) pelo selo Partisan Records.


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STREAM: Sextile - 3


Os Sextile lançaram ontem o novo trabalho de estúdio que vem dar sucessão a Albeit Living (2017). Intitulado de 3, o EP de cinco canções que marca o primeiro registo de Brady Keehn e Melissa Scaduto como dupla, vem mostrar uma excêntrica mudança na direção do que os Sextile tinham feito até então. Através de uma abordagem minimalista, a dupla favorece os sintetizadores acima das guitarras e avança para a exploração de géneros como a disco e a new-wave.

De 3 já tinham sido divulgados anteriormente o new-wave "Paradox" e o conterrâneo post-punk-ish "Spun". Além destas, destaque ainda para "Hazing", a explorar um território mais EBM. Podem ouvir as restantes faixas deste EP abaixo.

3 foi editado esta sexta-feira (14 de setembro) pelo selo Felte Records.


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STREAM: HØRD - Parallels


HØRD, o projeto a solo do produtor Sebastien Carl que desde 2014 nos tem conduzido às atmosferas mais negras da synthwave está de regresso às edições de estúdio com Parallels, o seu segundo disco longa-duração e o primeiro pelo selo italiano Avant!, um dos grandes no que toca às sonoridades da vanguarda. Parallels apresenta oito novas composições que nos levam a viajar por entre passagens abstratas, batidas analógicas profundas e vocais arrastados que nos conduzem ao universo de artistas como Hante. ou Peine Perdue

De Parallels tinham já sido anteriormente divulgados os temas "Get Into It" e "Lrn" (cujo vídeo oficial pode ser visualizado aqui), sendo que as restantes faixas podem ser escutadas na íntegra abaixo.

Parallels foi editado esta sexta-feira (14 de setembro) pelo selo Avant! Records.

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Reportagem: Milhões de Festa [6 e 7 de setembro]


Em 2018, temeu-se o fim do Milhões de Festa. O festival foi uma das maiores incógnitas do circuito festivaleiro português durante boa parte do ano (estávamos em junho quando a organização anunciou as datas oficiais daquela que seria uma das mais imprevisíveis edições do festival), deixando qualquer um com o receio de nunca mais poder assistir a maior festa anual que o pequeno canto minhoto teve a oportunidade de experienciar.

Realizar um festival em menos de três meses não é pera doce, criar uma das festas mais intensas e intrigantes do ano nesse mesmo espaço de tempo muito menos. Numa edição que ficará para a história, o festival dedicado à descoberta da melhor produção contemporânea dos quatro cantos do globo regressou às margens do Cávado para quatro dias recheados onde a tradição voltou a ser, na verdade, o que era, e ainda bem.

Em baixo, fiquem com o registo escrito e fotográfico dos dois primeiros dias do festival que, pela primeira vez, se realizou em setembro ao invés do habitual mês de julho.

700 Bliss
Como tem vindo a ser hábito, o primeiro dia do Milhões voltou a abrir as portas ao público. Do programa musical para este primeiro dia, ou dia 0 como se tem vindo a apelidar, apontam-se as performances de 700 Bliss e Mauskovic Dance Band, antecedidas apenas pelos concertos do habitual Ensemble Insano e dos portugueses Indignu (não esquecendo as sempre imprevisíveis sessões do coletivo portuense Favela Discos, no palco Taina).

As primeiras são Camae Ayewa (Moor Mother) e Zubeyda Muzeyyen (DJ Haram), duo proveniente da Filadélfia que se apresenta em conjunto sob o moniker 700 Bliss. 700 Spa é o primeiro registo oficial do duo, um EP editado em fevereiro pela Halcyon Veil (do produtor norte-americano Rabit) em conjunto com a Don Giovanni Records que recebeu maior destaque na performance executada nesta primeira noite. As duas proporcionaram um poderoso festim de rimas e batidas aguçadas, juntando as melhores produções de cariz ruidoso e desconstruído de DJ Haram à poesia interventiva e revolucionária de Moor Mother, que regressou ao festival após uma abrasiva performance na edição transacta. Do groove apurado dos beats iniciais aos temas que integram o EP, intercalados apenas por alguns momentos de puro flirt noise, as 700 Bliss apresentaram um set irrepreensível onde a política e o espírito libertador da música de dança se uniram para uma performance poderosa que só encerraria com a contagiante “Ring The Alarm”. 

The Mauskovic Dance Band
A fechar o programa de concertos desta primeira noite estiveram os The Mauskovic Dance Band, o coletivo sediado em Amsterdão liderado pelo músico e produtor holandês Nicola Mauskovic. Membro fundador dos Altın Gün e uma das caras-metades dos Bruxas (duo que mantém com Jacco Gardner), Nicola encabeça este curioso projeto que funde música tradicional colombiana, afrobeat e sonoridades ocidentais que vão da no wave à electrónica mais radiante. Down In The Basement, o EP de estreia editado pela Soundwave Records, materializa-se ao vivo com a presença de Donnie Mauskovic na voz, Em Nix Mauskovic na guitarra e percursão, Mano Mauskovic no baixo, e ainda o mítico produtor colombiano Juan Hundred na bateria. Sem grandes pausas entre canções, a banda percorreu uma linhagem rítmica contagiante, com baixo e batuque a marcar um compasso hipnótico e viciante que impediu qualquer membro da plateia de tentar um ou dois passos de dança.


Milhões de Festa 2018: Dia 0

O segundo dia de festival, o primeiro propriamente dito, abriu as portas bem cedo com concertos no Taina e na piscina. Pelas 15h45, o power trio russo Mirrored Lips apresentou-se pela primeira vez em Portugal para uma surpreendente demonstração de boa música punk. Cantada na língua-mãe, os Mirrored Lips são uma lufada de ar fresco para fãs do punk mais imprevisível, com riffs matemáticos a acompanhar os versos de Lyusya. Apesar da barreira linguística, não foi difícil retirar o sumo desta performance abrasiva e eletrizante, que iniciou a tarde da piscina com dose reforçada de energia. No seguimento deste serão elétrico estiveram os espanhóis Grabba Grabba Tape. Após um hiato de 10 anos, o duo madrileno está de regresso aos concertos e às edições e passou pela piscina nas suas vestes tipicamente extravagantes (uma espécie de caretos de Podence em versão abelha Maia) para um desfile de canções curtas e certeiras. Dos 10 minutos de concerto que assistimos, que no caso deste duo corresponde a umas 5 canções, pudemos comprovar a força dos Grabba Grabba Tape como caóticos criadores sónicos, aliando furiosos compassos de bateria às vozes sintetizadas por vocoder.

Mirrored Lips
Seguimos para um dos poucos concertos que assistimos no palco Taina: Peter Gabriel Duo. Este entusiasmante duo junta duas das maiores forças da música jazz experimental portuguesa. Gabriel Ferrandini e Pedro Sousa formam um dos projetos mais vitais da música do género executada em Portugal, contando no seu repertório colaborações com Thurston Moore e Alex Zhang Hungtai, com quem mantêm uma respeitosa relação. Ao vivo, tal como em estúdio, Ferrandini e Sousa mantêm um diálogo vivo e simbiótico entre o uso complexo da bateria e precursão do primeiro com o saxofone embriagado do segundo, no seu estado mais puro e libertino. Uma demonstração sóbria, mas carregada de técnica e virtuosismo por parte de uma das duplas mais entusiasmantes da música improvisada.

Peter Gabriel Duo
De volta ao palco principal, eis que chegou a vez do aguardado regresso do portento finlandês Circle a Portugal. Depois da estreia atípica no Teatro Sá da Bandeira, em 2009 (a abrir para ISIS), a banda de difícil categorização regressou finalmente ao nosso país para uma atuação no festival que tanto os venera. Com o mais recente Terminal a servir de mote de apresentação, os Circle demonstraram a força e o valor de uma das bandas de culto mais divisivas da música pesada. Apelidar a sua música como extrema ou pesada é, na verdade, discutível. Uma pesquisa na diagonal pela sua extensa discografia permite-nos perceber a infinidade de estilos que esta banda percorre, desde o krautrock ao space rock, passando por composições que têm tanto de psicadélico quanto progressivo. A performance no Milhões de Festa foi prova disso mesmo, um viagem extravagante por sonoridades e abordagens imprevisíveis que lembram tanto Maiden como The Stooges, com compassos de bateria que bebem tanto da música extrema (blast beats e afins) como da kosmische alemã. 

Circle
Autênticos destruidores das convenções que assolam o espectro da música rock, os Warmduscher seguiram-se no palco Lovers para mais uma performance recheada de adrenalina. O coletivo que junta Clams Barker a Saul Adamczewski dos Fat White Family, assim como uma série de outros membros dos Paranoid London, Childhood e Insecure Men, fez a sua estreia por terras lusas com uma eletrizante performance no festival minhoto. Do alinhamento constaram os temas de Whale City, o segundo e mais recente disco que deu mote à apresentação, não deixando de parte alguns dos temas que integram o disco de estreia de 2015, Khaki Tears. Sem Adamczewski em palco, os Warmduscher conseguiram, mesmo assim, uma atuação infalível que demonstra o espírito e a irreverência de um grupo que não sabe jogar dentro das regras.

Warmduscher
O momento alto da noite guardava-se para o fim, com Squarepusher a encerrar o palco principal. Sob o estatuto merecido de cabeça de cartaz, Squarepusher, ou Thomas Jenkinson, estreou-se em Barcelos para a sua primeira atuação em Portugal. Se em 2017 tivemos a oportunidade de assistir a um dos nomes maiores da IDM de 1990, com a estreia nacional de Aphex Twin no NOS Primavera Sound, em 2018 foi a vez de experienciar mais um momento de pura catarse digital. Em cerca de uma hora, Jenkinson explorou as sonoridades frenéticas do drill and bass e breakbeat dos temas que integram o mais recente disco Demogen Furies, um regresso à forma após décadas de experimentação que vê o produtor britânico aproximar-se (ainda que discretamente) da EDM mais futurista. Envergando a típica máscara de LEDs, o autor de “Come On My Selector” serviu-se ainda de uma forte componente visual, com dois ecrãs convexos sobrepostos a proporcionar um verdadeiro delírio de luzes, cor e alta tecnologia.

Squarepusher

Milhões de Festa 2018: Dia 1

Fotogaleria completa aqui.

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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Regresso de Beach House em dose dupla

regresso-de-beach-house-dose-dupla

A banda americana Beach House, tida como uma das coqueluches mais adoradas da chamada dream pop, tem regresso marcado sob a alçada da promotora RITMOS para o fim do corrente mês de setembro, especificamente para o dia 25 no Coliseu de Lisboa, e para o dia seguinte no Teatro Sá da Bandeira no Porto.

Com eles, irão trazer o seu álbum mais recente, intitulado apenas como 7, onde contam, por exemplo, com a colaboração do Sonic Boom dos Spacemen 3, além de continuarem a ser uma das bandas com o historial mais consistente em termos de qualidade dentro do espectro do indie rock atual, sempre a procurar por maneiras de tornarem o seu som mais refrescante e atual sem nunca perder a sua identidade.

Os bilhetes custam 28€, estando à venda nos locais habituais. Fiquem com o vídeo mais recente vindo de 7, desta feita do single "Drunk In LA".

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sexta-feira, 14 de setembro de 2018

STREAM: Shiny Darkly - Bronze [Threshold Premiere]


Shiny Darkly will be opening some shows for Iceage in September, the same month they are set to put out their new record titled Bronze, an album produced by the band and co-produced by Nis Bysted (Choir of Young Believers, Iceage, Lower, Thulebasen etc.) and Jens Benz (Iceage, Bisse, Goodiepal, PowerSolo, etc.) that explores some melodic indie-rock with the roots in the 70's and 80's punk and new wave

The album is out today, September 14h, via Third Coming Records (France) and Crunchy Frog (Denmark). With Bronze the band is painting from a broader palette, taking a more experimental path and drifting away from the psych/post-punky vibe of their previous releases.

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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

FERE em dose dupla na próxima semana


Depois do concerto em Braga nas Lazy Sessions Guadalupe, os portuenses FERE voltam à carga para a semana em dose dupla. No dia 21 de Setembro tocam no Understage do Teatro Municipal do Porto - Rivoli (pela mão da Amplificasom) e no dia seguinte rumam a Lisboa para tocar no Sabotage Club, desta vez acompanhados pelos Pledge (membros de Larkin, Mr. Miyagi e Hick Kinison).

Formados em 2015, os FERE lançaram em Março deste ano o seu primeiro álbum, Montedor, pela Raging Planet. O colectivo conta com Jaime Manso (baixo), João Pedro Amorim (guitarra), Pedro Alves (baixo) e José Pedro Alves (bateria) nas suas fileiras. A sua sonoridade aproximam-se de nomes como Isis ou Russian Circles. É ainda de realçar que, em 2016, o grupo foi convidado pelo Teatro Experimental do Porto a compor a banda sonora da peça de teatro "Nunca Mates o Mandarim", tendo sido interpretada ao vivo durante as apresentações da peça no Teatro Nacional São João

Os preços variam entre 5 € no Porto e 6 € em Lisboa.






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quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Julia Holter anuncia novo álbum, Aviary


A musa do art e chamber pop, Julia Holter, vai lançar um novo álbum de originais ainda este ano. O sucessor de Have You in My Wilderness (2015) e do álbum de estúdio ao vivo In the Same Room (2017) terá o nome de Aviary e chega às lojas a 26 de outubro, com o selo da Domino. Segundo Julia:
Amidst all the internal and external babble we experience daily, it’s hard to find one’s foundation... I think this album is reflecting that feeling of cacophony and how one responds to it as a person—how one behaves, how one looks for love, for solace. Maybe it’s a matter of listening to and gathering the seeming madness, of forming something out of it and envisioning a future.
A acompanhar o anúncio deste novo trabalho há também um novo tema, “I Shall Love 2", assim como a cover art e tracklist de Aviary.




Aviary
01 Turn the Light On
02 Whether
03 Chaitius
04 Voce Simul
05 Everyday Is an Emergency
06 Another Dream
07 I Shall Love 2
08 Underneath the Moon
09 Colligere
10 In Gardens’ Muteness
11 I Would Rather See
12 Les Jeux to You
13 Words I Heard
14 I Shall Love 1
15 Why Sad Song


A artista vai dar uma série de concertos na Europa entre novembro e dezembro. Quem sabe se não há tempo para dar um saltinho a Portugal.

24 Nov - Explore The North Festival, Leeuwarden
26 Nov - Paradiso Noord, Amsterdam
27 Nov – Schauspiel, Bochum, Germany
28 Nov - De Roma, Antwerp
30 Nov - Funkhaus, Berlin
1 Dez - Elbphilharmonie, Hamburg
2 Dez - Brotfabrik, Frankfurt
3 Dez - Kammerspiele, Munich
5 Dez - Petit Bain, Paris
6 Dez - Gorilla, Manchester
7 Dez - Fiddlers, Bristol
8 Dez - Button Factory, Dublin
10 Dez - Summerhall, Edinburgh
11 Dez - Howard Assembly Rooms, Leeds
12 Dez - Hackney Arts Centre, London

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