quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

"HR Sequence" é o primeiro avanço do novo álbum de Dust Devices

"HR Sequence" é o primeiro avanço do novo álbum de Dust Devices

Saiu esta semana o novo single de Dust Devices, acompanhado de um videoclip, feito por shplss. "HR Sequence" é a primeira malha a ser lançada, do novo álbum que sairá no próximo dia 7. É o segundo projecto que Dust Devices lança pela Mera, seguido do EP Spectre Research, que foi precisamente o primeiro lançamento da label.

Dust Devices é o projecto de música electrónica experimental de dança de Cláudio Oliveira, compositor e sound designer residente no Porto. Combinando influências rítmicas do Industrial, EBM, techno e electro com melodias e atmosferas densas criadas com recurso à síntese granular e FM, a exploração das texturas e do caractér narrativo e visual da música toma um lugar de destaque.

shplss é um artista multidisciplinar, atualmente a viver e a trabalhar em Amesterdão. Utilizando a abstração, shplss cria trabalhos nos quais existe um fascínio pela clareza do conteúdo e uma atitude intransigente em relação à arte conceptual e minimal, podem ser encontrados. As suas obras respondem diretamente ao ambiente circundante e usam as experiências quotidianas do artista como ponto de partida. Frequentemente, são instantes que passariam despercebidos no seu contexto original. Com uma abordagem conceptual, ele tenta abordar uma ampla escala de assuntos com várias camadas e de envolver o espectador de uma forma às vezes física e acredita na ideia de função seguindo a forma na obra. Com uma abordagem minimalista subtil, ele cria momentos pessoais intensos magistralmente criados por meio de regras e omissões, aceitação e recusa, atraíndo o espectador em círculos. O seu trabalho não faz referência a formas reconhecíveis. Os resultados são desconstruídos na medida em que o significado é alterado e a possível interpretação torna-se multifacetada.

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Mera Transmission regressa para a sua segunda edição

Mera Transmission regressa para a sua segunda edição

O Mera Transmission está de volta para facilitar este período extraordinário ao som do que melhor se faz na música eletrónica portuguesa - e não só. Depois da primeira edição em maio deste ano, a editora portuense lança de novo o convite a juntarem-se no conforto (e segurança) de vossa casa.

Ao longo das 24 horas do dia 12 de dezembro acontece o segundo momento deste evento, que tem o prazer e a honra de contar com a participação de 12 editoras - MERA, Arena Spa Superiora, Instrumental Violence, Timeless O’Clock, Ramal, Favela Discos, Capital Decay, Lovers & Lollypops, OLEC, Soopa, Elberec e Coletivo Farra. Nesta ocasião teremos oportunidade de ouvir em live stream Ócio, Separat, Salome b2b Dj Saliva b2b CEM, Bernardo Matos b2b Operação Febril, Assafrão, BRNCHES, ITSRØBBEN, Nuno Loureiro e André Coelho, Nuno O, Vasco da Ganza, Capital Decay Soundsystem, Pedro Augusto, Ece Canli, ATA OWWO + GUILLIO, Francisco Oliveira, HHY, Valody, ZERO_ONE, Satha Lovek e DJ Segurança b2b VSO.

Mera Transmission - Domestic Rave é um festival totalmente aberto e exclusivamente online. O donativo consciente é entre 10 € e 20 €. Para aqueles que não se encontram em posição de poder contribuir financeiramente, a melhor forma de ajudar é partilhar com a vossa comunidade. Por continuarmos todos a viver este momento tão delicado, voltamos a sublinhar a necessidade de apoiar a comunidade artística, que vive uma fase de enorme fragilidade. Queremos disponibilizar música para o maior número de pessoas, mas também criar uma forma de apoiar aqueles que tornam tudo isto possível, e contamos convosco para nos ajudarem a fazê-lo. 

A Mera é uma plataforma portuense que nasceu em 2019 e tem como objectivo expôr a música electrónica - especificamente electro, acid, techno, breakbeat e bass - que está a ser produzida na Invicta. Desde o seu lançamento no Porto, já contou com nomes tais como Dust Devices, Effective Half Life e Wushta nos seus eventos. O foco está em cruzar o mundo da música eletrónica com o mundo digital dos visuais, ambos altamente presentes e representativos da cultura contemporânea.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Silente em entrevista: "Foi tudo muito natural, demorou o tempo que tinha que demorar"

© Nuno Mendes

Silente é o novo projeto de Miguel Dias, compositor que deu vida a Rose Blanket entre 2003 e 2011. Em Silente, junta-se à instrumentação de Miguel os vocais de Filipa Caetano, artista com quem já tinha colaborado em Rose Blanket, e as letras do escritor/poeta Frederico Pedreira.

O disco de estreia homónimo de Silente resultou de uma paciente maturação que se estendeu pelo período 2015-2019, durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo que aborda realidades sonhadoras e líricas. 

Numa conversa em formato eletrónico, falámos com Miguel Dias sobre a origem do projeto Silenteas suas motivações e inspirações, o processo de composição que culminou no disco de estreia, entre outros assuntos. Fiquem com a entrevista completa em baixo

Pode-nos contar a história por detrás deste projeto? Porquê a escolha do nome Silente?

Silente - Em 2011 foi editado aquele que foi o último disco do meu projecto anterior, Rose Blanket, e na altura em que estava a concluir esse trabalho, já sentia que esse capítulo estava a ser encerrado. Queria fazer algo diferente do que tinha feito até então mas também de uma outra forma. 

Tinha a certeza, por exemplo, que já não queria o inglês nas letras e depois também queria partir para um núcleo duro de participações, em vez do extenso rol de participações que caracterizava Rose Blanket. Um momento determinante terá sido quando foram concretizadas as colaborações do Frederico Pedreira e da Filipa Caetano. Nessa altura, por exemplo, ficou de parte a hipótese, que andei a equacionar, de ser um disco totalmente instrumental.

O que não estava previsto era eu também fazer a gravação, produção e mistura do disco, mas foi algo que a partir de certo momento fiquei com a ideia que só poderia ser feito por mim.

Quanto ao nome Silente, gosto muito da sua sonoridade e do seu significado e quando me ocorreu esta palavra, a decisão foi imediata, porque acho que encaixa na perfeição na forma como este trabalho foi feito e também no que julgo ser o contexto ideal para se ouvir estas músicas.

Silente soa a um disco introspetivo, minimal, de forte carga emocional e bastante equilibrado. De onde surgiu a inspiração e quais as suas referências?

Silente - Desde já ficaria contente se este disco fosse caracterizado como o é feito na pergunta. 

É sempre difícil para mim falar de uma inspiração e identificá-la, já que para mim o processo de composição e construção musical é em grande parte instintivo e emocional. Ainda assim acho que este disco poderá reflectir o contexto de algum isolamento em que na grande maioria do tempo foi feito. Com a excepção da Filipa, que foi a única pessoa que acompanhou este trabalho do princípio ao fim e a quem recorri para algumas opiniões e sugestões, assumi um processo, sempre arriscado, de me abstrair de toda a forma de “ruído” exterior. E este isolamento criativo foi o que definiu, bem ou mal, este disco. 

Mas claro que não deixam de estar presentes todas as minhas referências e influências, que resultam de tanto tempo despendido a ouvir música. Por exemplo, não consigo deixar de nomear os Velvet Underground, porque tinham a capacidade de transitarem com naturalidade entre a pura doçura e furiosas explosões sonoras, de passarem de melodias grandiosas para momentos de pura abstração, e isto tanto de tema para tema, como dentro de um mesmo tema. Tudo resumido numa palavra: Dinâmica. Não consigo ouvir música que não tenha, de alguma forma, oscilações de intensidade e acho que também tento colocar isso naquilo que faço.

Há alguma temática que se possa associar ao disco?

Silente - Pelo menos de forma racional e pensada, julgo que não. Como disse, os temas deste disco nasceram de forma instintiva e depois foram sendo contruídos e trabalhados com base na experimentação. O resultado será a tentativa de reivindicação de um universo musical próprio.

Silente foi gravado calmamente entre 2015 e 2019. Como funcionou o processo de composição que contou com a participação vocal de Filipa Caetano e as letras de Frederico Pedreira? 

Silente - Sim, foi algo que foi feito sem pressas e sem prazos definidos e teve fases distintas. Mas a verdade é que agora olho para trás e nem parece que foi tanto tempo. Foi tudo muito natural, demorou o tempo que tinha que demorar. 

Mas não foi um processo linear, sofreu muitas alterações. Por exemplo, na fase inicial gravei uma quantidade enorme de possíveis temas ou de simples ideias, sendo que em grande parte foram abandonados, ou porque em alguns casos ainda me pareciam Rose Blanket, noutros porque não tive capacidade de dar seguimento à ideia base, ou ainda em alguns casos porque simplesmente não resultaram. 

Houve momentos importantes para definir este disco. Primeiro foram as gravações em Figueiró dos Vinhos na casa do Miguel Ângelo, em 2017, em que foram gravadas quase todas as baterias e percussões e em que ainda houve espaço para experiências como a utilização de máquinas de oficina de joalharia no tema "Vale Caspo" ou da tabla no tema "Ninguém Tem De Saber". Quase na mesma altura o Miguel Ramos enviou-me os baixos para três temas e o Miguel Gomes enviou-me a gravação de 2 guitarras adicionais. Com estas duas participações, os temas ganharam corpo e comecei a ver a “luz no fundo do túnel”, pois até aí ainda estava tudo muito indefinido.

O outro momento determinante é quando realizo que alguns dos temas têm mesmo que ser cantados e consigo a colaboração do Frederico Pedreira, amigo de longa data (fez parte da formação de Rose Blanket no 1º disco), para as letras desses temas. Ao mesmo tempo convenci a Filipa a voltar a trabalhar comigo, ela que já tinha cantado alguns temas no último disco de Rose Blanket.  A parte das letras e vozes foi sem dúvida a parte mais difícil, pois nunca tinha trabalhado com o “português” e estava rotinado com o “inglês”. As letras iniciais tiveram que em muitos casos ser ajustadas, tivemos que fazer muitas demos em alguns desses temas até encontrar a solução final. 


Capa de Silente


Porquê a decisão de lançar o disco numa edição física limitada sem recorrer aos espaços de venda habituais? 

Silente - Deve-se à conjugação de factores distintos. Por um lado, a percepção de que actualmente vendem-se poucos CDs, sendo as plataformas digitais o veículo mais utilizado pela maior parte das pessoas para ouvir novas propostas musicais, o que até não é o meu caso, pois sempre que gosto de um disco, sinto necessidade de ter o objecto. Por outro lado, o facto de não haver concertos de apresentação inviabiliza a venda de discos nesse contexto. Por fim, também foi pesado o factor económico, não sendo possível mais do que uma edição física limitada. Pelo que foi dada primazia à distribuição digital, estando o disco disponível em todas as plataformas habituais e ainda no site de Silente no bandcamp.

De qualquer forma, também não me revejo nos actuais espaços de grande distribuição. Mas gostava bastante que o disco estivesse disponível em espaços de menor dimensão e mais especializados, sendo que admito que tenho negligenciado esta possibilidade, também por condicionantes de tempo disponível, mas é algo que ainda vou tentar concretizar.

Silente não vai ser apresentado ao vivo, também muito por culpa do contexto em que neste momento nos encontramos. Essa vontade será algo a ser repensada no futuro?

Silente - Bem, na verdade essa é uma decisão já tomada antes deste contexto que atravessamos. Aliás, já por altura do último disco de Rose Blanket, decidi que muito provavelmente não o voltaria a fazer. Tenho noção do impacto negativo desta opção na promoção deste projecto, mas a realidade é que deixei de ter motivação para fazer concertos e decidi assumir que o que me move é o gosto pela construção, exploração e experimentação. É isso que me dá prazer e os concertos nunca foram um espaço de conforto e prazer para mim, o que acho que se deve a não conviver bem com a repetição, mas também a outros factores como, por exemplo, não me sentir particularmente bem em redor de muita gente.  

A segunda e última parte de Silente encontra-se já a ser preparada. Levará o mesmo tempo que a primeira ou sente que há já muito material que não se adequou e que agora se enquadra melhor na mensagem que quer passar?

Silente - Sim, é verdade que já tenho um conjunto de temas para integrarem a 2ª parte, que será a última de Silente. Mas não espero serem precisos os 5 anos que esta primeira parte demorou a ser feita, mas também nunca será algo apressado. São temas que tenho andado a trabalhar desde que foi concluído este 1º disco e será sempre numa linha de continuidade em relação à primeira parte, mas tentando explorar novas sonoridades, mais uma vez com recurso a muita experimentação.


Silente saiu no passado dia 6 de novembro, em formato físico e digital, numa edição com cunho do autor. Podem escutar o disco homónimo na íntegra em baixo.

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Sun Blossoms partilha novo single, "Being Kind"




Depois de "Void" no início de setembro, "Being Kind" chega como o segundo single de Sun Blossoms neste longo ano de 2020. Ambas as músicas foram gravadas no início deste verão e contam com a participação de Martim Brito (membro dos VEENHO) na bateria, sendo Alexandre Fernandes, o fundador do projeto, o executante dos restantes instrumentos e o produtor.

Esta música remete à sonoridade letárgica dos primeiros lançamentos deste projeto, depois de uma viagem por um universo rock mais abrasivo nos últimos anos. Um regresso de grande qualidade às origens, o qual podem escutar em baixo.


Os dois singles, lançados neste final de ano, serão apresentados pela banda em trio em dois concertos: dia 3 de dezembro na Galeria Zé dos Bois e no dia seguinte na Casa da Cultura de Setúbal. A acompanhar Alexandre Fernandes, estará Martim Brito na bateria e Alexandre Rendeiro (Alek Rein) no baixo.

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Abul Mogard, ou quando a lenda se confunde com a realidade




É um dos maiores enigmas da música sintetizada de hoje e atua no próximo dia 4 de dezembro no gnration, em Braga. Abul Mogard, músico-compositor sérvio, regressa a Portugal depois de uma última atuação na Sé de Viseu, em 2018, aquando da oitava edição dos Jardins Efémeros.  

Nasceu em Belgrado e passou grande parte da sua vida a trabalhar numa fábrica metalúrgica. A falta dos barulhos e do ritmo dos sons que marcavam o seu dia-a-dia laboral levaram-no a experimentar os timbres e as texturas da maquinaria eletrónica, trocando as ferramentas por sintetizadores, sequenciadores e caixas de som – ou assim reza a lenda. Os rumores sobre a sua verdadeira identidade são vários e abundantes, mas o consenso subjacente nas esferas da música eletrónica indica que Mogard é, na verdade, o resultado de um fascinante alter-ego.

Indiscutível é a qualidade da sua magnífica discografia. Lançou vários trabalhos de longa e curta duração, sendo Above All Dreams, lançado em 2018 pela inglesa Ecstatic, a sua obra mais aclamada. Desde então, editou um álbum de remisturas pela Houndstooth, retrabalhando temas de Aïsha Devi, Penelope Trappes e Nick Nicely, e compôs a banda-sonora para a curta-metragem experimental Kimberlin, do cineasta Duncan Whitley.  

Até ao final do ano, o gnration recebe a quinta edição da mostra de música eletrónica e arte digital OCUPA, que contará com concertos, instalações, conversas e ainda a apresentação pública do Clube de Inverno, que este ano terá o músico Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) e o cineasta Rodrigo Areias como coordenadores das sessões de exploração e improvisação.  

Os bilhetes para o concerto de Abul Mogard custam 7 euros e podem ser adquiridos em bol.pt, balcão gnration e locais habituais.  



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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Cinco Discos, Cinco Críticas #63

Cinco Discos, Cinco Críticas #63


Na última edição do Cinco Discos, Cinco Críticas do ano 2020, colocamos em repetição na playlist o disco de estreia dos portugueses YAKUZA - com AILERON (2020, edição de autor), do americano Tyler Odom em Your Arms Are My Cocoon (2020, edição de autor), o EP de estreia dos Spectrograph intitulado A Giant Leap of Faith (2020, Depths Records), o novo de Aesop Rock - Spirit World Filed Gidude (2020, Rhymesayers) e ainda a também promissora estreia de Luís Pestana, em Rosa Pano (2020, Orange Milk Records).

Os respetivos trabalhos - que se encontram disponíveis para escuta integral abaixo - seguem acompanhados por uma pequena revisão do seu resultado final e podem descobrir-se abaixo.


AILERON | edição de autor | novembro de 2020

8.2/10 

YAKUZA é um trio lisboeta formado por Afonso Serro (teclista), André Santos (baixista) e Alexandre Moniz (baterista). A banda apresenta em AILERON, o seu álbum de estreia, uma sonoridade nu jazz muito groovy e dançável, repleta de ritmos irresistíveis.  As primeiras três faixas mantêm uma pulsação constante e progridem de forma muito natural, tendo mudanças de secção tão fluídas que podem ser impercetíveis. Onde poderiam ser tocados solos ou melodias adicionais, a banda deixa espaços abertos. O foco está no groove, nas interações dinâmicas entre os membros da banda, que vão introduzindo pormenores deliciosos no meio dos riffs e das batidas. 
É nas colaborações com outros músicos que se encontram alguns elementos mais tradicionais do jazz, como solos e o uso de piano em vez de sintetizador. A composição que mais avança nessa direção é a brilhante "PICHELEIRA", com o seu walking bass e uma batida muito à base dos pratos da bateria. Ainda assim, esta conta com o som mais característico do trio nos seus minutos finais, durante os quais os timbres do sintetizador passam para primeiro plano. 
Em "KATANA", a melodia principal de sintetizador, a fazer lembrar os RPG's japoneses dos anos 90, serve de ponto de partida para uma jornada onde as guitarras e os teclados vão surgindo e desaparecendo agilmente. Perto do final, a guitarra entra com especial distorção e agressividade, subindo a intensidade até ao regresso triunfante da melodia inicial. "ADAGIO" finaliza o álbum de forma mais tranquila, criando e quebrando alguma tensão suavemente. 
O primeiro disco dos YAKUZA é uma excelente surpresa que alia o jazz à música eletrónica, recomendável a fãs de artistas como BADBADNOTGOOD ou Kamaal Williams.
Rui Santos



Your Arms Are My Cocoon | edição de autor | setembro de 2020 

9.0/10 

Your Arms Are My Cocoon é o projeto a solo do estadunidense Tyler Odom, sendo este EP homónimo o primeiro fruto dessa mesma ideia. 
Ora, este disco é uma fusão de dois mundos contraditórios - o bedroom pop e o screamo - que, em circunstâncias habituais, jamais seriam vistos juntos. Todavia, este crossover acaba por, surpreendentemente, resultar numa perfeita coabitação. Instrumentalmente, temos uma sonoridade bastante açucarada e devaneadora, mas ao mesmo tempo potente e desesperativa, sendo esta última definição, o cimento que permite a colisão destes dois mundos, fortificado pelos vocais gritados e nas evidentes influências do folk e do math rock. 
Eu creio que é seguro dizer que este EP se trata de uma experiência bastante única. Claro, continua a ir buscar influências de outros artistas contemporâneos como Alex G, Dandelion Hands e Toby Fox, mas continua a ter uma identidade bastante própria e muito difícil de esquecer, principalmente em faixas como o impactante e avassalador "In October 2019 I Called a Suicide Hotline for the First Time in My Life" ou o instrumentalmente aconchegador "Metamorphosis". 
No fundo, creio que este disco é uma experiência inabitual, sendo essa a sua principal magia. O seu teor inesquecível torna-o num dos projetos que mais apreciei ao longo deste ano e fico com curiosidade em saber como se irá desenrolar esta jornada em projetos futuros.
João Pedro Antunes



A Giant Leap of Faith | Depths Records | novembro de 2020 

8.0/10 

Depois de oito anos a moldar a sua personalidade própria numa eletrónica de vestes sombrias, os Spectrograph perderam a timidez e decidiram colocar cá para fora o EP que marca a sua estreia nos lançamentos, A Giant Leap of Faith (disponível para compra aqui). O disco de quatro faixas apresenta uma visão moderna ao mercado do post-industrial e dark ambient music, caracterizando-se em pleno pelos ritmos densos e as ambiências noir e psicóticas que ganham evolução no avanço da escala temporal. 
Em A Giant Leap of Faith o produtor e DJ Phiorio (Metroline Limited) e a cantora / multi-instrumentista Virginia Bones (Geography Of The Moon) apostam numa abordagem noise minimal que equilibra desde as paisagens psicologicamente densas, às mais estimulantes e, por vezes, perturbantes. Exemplo claro disto encontra-se logo no single homónimo "A Giant Leap of Faith" que inicia no formato sinistro, mas controlado, para ganhar auge nos minutos finais onde Bones expurga demónios no exercício vocal. Mas antes de chegarmos até aqui, já a dupla nos proporcionou uma grande performance na pista de dança techno dark "Dmbt" - que dá abertura ao disco - e, ainda, um estado de alienação em "Dead Kittens". Para a despedida a banda sintoniza-nos "If You Think You Can Fly", uma malha eletrónica inspirada na world music, vasta em elementos orgânicos e tribais e pronta para se fazer dançar de início ao fim. 
Os Spectrogaph demoraram algum tempo para mostrar o que andavam a fazer na cave, mas na estreia mostram-se surpreendentes e com uma atitude pegajosa na eletrónica experimental que constroem. A Giant Leap of Faith é um EP que, mesmo por entre caminhos mais inquietos, promulga a vontade consecutiva de permanecer em viagem, ora sintonizem:
Sónia Felizardo



Spirit World Field Guide | Rhymesayers | novembro de 2020 

8.3/10 

Veterano da onda mais alternativa do hip-hop americano e dono de um vocabulário absurdamente versátil, o rapper Aesop Rock dispensa apresentações. O artista e produtor de beats nova-iorquino regressa com o seu oitavo álbum de originais apelidado Spirit World Field Guide, editado pela label Rhymesayers, e nas palavras do próprio, o conceito consiste em descrever uma espécie de expedição num mundo paralelo (ainda) mais esotérico que o habitual. 
Como em qualquer outro registo anterior, as letras intensas e com milhentas demonstrações virtuosas de wordplays e o delivery impassível tão próprios de Aesop Rock imperam neste disco, ilustrando a jornada pelo Spirit World com o habitual abstracionismo verbal astuto, várias referências miscelâneas a obras como Raising Hell e Eraserhead e a elementos mais históricos/mitológicos, e paralelismos com assuntos pessoais para tornar a aventura numa experiência um bocado mais empática. A produção, geralmente falando, também tem vários momentos de destaque. Os instrumentais presentes nas faixas são bastante diversificados em termos estilísticos, indo desde instâncias mais agressivas até momentos mais vívidos e funky. Naturalmente, e apesar de algumas faixas mais fracas, os pontos altos vêm mais frequentemente ao de cima graças à saudável variedade levada a cabo ao longo das vinte e uma faixas que constituem o alinhamento, cujos destaques recaem sobre a mais confrontacional "Gauze", a "Kodokushi" e a "Marble Cake" que demonstram uma atmosfera mais soturna e buliçosa, e também o lado mais vivaço do álbum com os single "Pizza Alley" e a "Attaboy". Para o bem e para o mal, este álbum e o seu conceito demonstram uma visão mais faustosa da imaginação sempre irrequieta de Aesop Rock, pelo que se recomenda vivamente aos fãs do género que ouçam Spirit World Field Guide.
Ruben Leite



Rosa Pano | Orange Milk Records | novembro de 2020

8.5/10 

Rosa Pano, a estreia de Luís Pestana em longa-duração, encontrou casa no sítio mais improvável. A americana Orange Milk Records, conhecida por albergar alguns dos mais inventivos documentos da música eletrónica progressiva moderna, é responsável por selar o mais recente trabalho do guitarrista dos extintos LÖBO, que apresenta no seu primeiro álbum um tratado de eletrónicas pastorais inspiradas nas canções de embalar que a sua mãe lhe cantava em pequeno. 
Composto por oito faixas que balançam entre a insustentável beleza do drone e as qualidades renovadoras da música tradicional portuguesa, Rosa Pano distancia-se das paisagens oníricas da editora americana - que tem em Foodman, Giant Claw e Machine Girl alguns dos seus maiores representantes -, apostando nas potencialidades da composição eletroacústica para construir o seu próprio folclore
Resultado de vários anos a explorar um discreto mas promissor percurso a solo, o disco apresenta uma comunhão perfeita entre instrumentação acústica e as técnicas digitais, equilibrando coros e sinos de igreja, instrumentos de sopro e sanfona com a utilização de loops, feedback e samples de ordem vária. Em "Asa Machina", um dos temas de Rosa Pano, escutam-se arpejos reminescentes das composições de Tim Hecker e Oneohtrix Point Never; "Arde Asa" tem a veia industrial de Ben Frost e acrescenta músculo à composição; "Ao Romper da Bela Aurora" resgata a canção com o mesmo nome do Grupo Vozes do Alentejo, de Janita Salomé, e funde cantares regionais do Alentejo com monolíticas paredes de som e ruído concreto. 
O álbum atinge o seu clímax emocional no épico de 9 minutos que encerra Rosa Pano. Soltam-se uivos e sirenes, sinos e vozes deformadas enquanto um mar etéreo de eletrónicas se desenvolve progressivamente num crescendo que culmina com o silêncio abrupto que encerra o disco.
Filipe Costa

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sábado, 28 de novembro de 2020

STREAM: Auspicious Family & Laure Boer - Wayward Symmetry

Auspicious Family juntou-se à artista francesa Laure Boer para uma edição colaborativa, o split EP intitulado Wayward Symmetry, o qual foi composto durante a residência artística de Boer em Manila, Filipinas, cidade onde vive Auspicious Family

Mesclando sonoridades provienentes do dark ambient, noise, industrial e krautrock, Wayward Symmetry percorre atmosferas e texturas experimentais, funcionando como ponto de encontro entre os estilos musicais de ambos os artistas. 

A residência artística de dois meses de Boer em Manila, apoiada pelo Goethe-Institut, CTM Festival e Musicboard Berlin, foi projetada para criar um diálogo entre o seu próprio trabalho e a arte sonora das Filipinas. A compositora atuou em diversos clubes e festivais com produtores locais, incluindo Auspicious Family. O duo juntou-se para o concerto de encerramento do Festival WSK, que se realizou em Manila a 27 de outubro de 2019, no Rajah Sulayman Theatre.

O EP reúne uma faixa original de cada artista, uma faixa colaborativa entre os dois e uma gravação ao vivo da performance que fizeram juntos. Embora Boer tenha retornado à sua casa adotiva em Berlim, os dois artistas continuam a colaborar de longe. Wayward Symmetry foi editado em formato digital e casette na passada quinta-feira, 26 de novembro, com o selo da Chinabot, editora que conta com Auspicious Family no seu catálogo, e pode ser ouvido em baixo. 

Chinabot é uma plataforma e coletivo criado em 2017 com o objetivo de mudar o diálogo em torno da música asiática.

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sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Kel Assouf encerra segundo ciclo de músicas do mundo Terra em Guimarães




O segundo ciclo de músicas do mundo Terra encerra esta sexta-feira, dia 28 de novembro, com a atuação da banda Kel Assouf, do nigeriano Anana Harouna. O guitarrista, que chegou a tocar com os tuaregues Tinariwen, irá apresentar o seu mais recente álbum, Black Tenere, na companhia do teclista Sofyann Ben Youssef (Ammar 808) e do baterista Olivier Penu.

Kel Assouf, que significa "nostalgia" e "filho da eternidade" em Tamashek, a língua dos nómadas do Saara, é uma banda criada por Anana Harouna em 2006, quando se estabeleceu na Bélgica – depois de um longo exílio na Líbia após ter deixado o Níger, onde nasceu, durante a rebelião tuaregue do início dos anos 1990.  

Harouna, que chegou a tocar com os Tinariwen, banda fundamental do rock do deserto, recria a tradição das guitarras tuaregues a partir da Bélgica, onde tem explorado vários estilos e fórmulas, reunindo músicos de países africanos e europeus. Gravou já três álbuns, que vão da tradição ao rock puro e duro. O mais recente, Black Tenere, saiu em 2019 e é o mote para o concerto no Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), agendado para esta sexta-feira às 19h30.

Os ingressos, com o valor de 10 euros ou 7,5 euros com desconto, ainda podem ser adquiridos online em www.aoficina.pt ou nas bilheteiras da cooperativa A Oficina, bem como nas lojas Fnac, Worten e El Corte Inglés.  


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Pedro Mafama anuncia álbum de estreia, Por Este Rio Abaixo

©Fernando Marques


A estreia de Pedro Mafama em longa-duração chega no primeiro semestre de 2021. "Por Este Rio Abaixo" é uma homenagem ao histórico Por Este Rio Acima, de Fausto Bordalo Dias, e o seu primeiro single deverá ser conhecido no início do ano.  

"Ao som de vozes afadistadas em auto-tune, coros digitais, guitarras sintéticas com bombos e baixos que fazem tremer os vidros das casas antigas da Graça, Mouraria e Alfama”, explica Mafama, “somos arrastados ‘Rio Abaixo’ e não ‘Acima’”, acrescentando que a sua “viagem sonora ruma sobretudo para Sul, reconstruindo as pontes que ligam a nossa música à dos nossos parentes afastados Árabes, e ao legado Africano que se sente nas nossas cidades e que em tantos momentos da história já contagiou a nossa tradição musical".  

Por Este Rio Abaixo sucede o díptico de EPs Má Fama (2017) e Tanto Sal (2018), assim como uma série de singles esporádicos que inclui os mais recentes “Arder Contigo”, “Lacrau” e “Não Saio”, cujo vídeo podem encontrar em baixo. 

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STREAM: Ece Canlı - Vox Flora, Vox Fauna

STREAM: Ece Canlı - Vox Flora, Vox Fauna

Saiu hoje Vox Flora, Vox Fauna,  disco que nos traz a estreia da vocalista e compositora Ece Canlı, pelo selo Lovers & Lollypops.

Esta estreia a solo de Ece Canlı é uma série de paisagens sonoras assomadas por técnicas vocais estendidas, poesia extralinguística e outros instrumentos sonoros. Combinando uma multiplicidade de estilos desde trenodias antigas a música experimental improvisada com uma narrativa singular, o álbum evoca e cristaliza a incorporação do humano-animal-natureza, como uma mediação entre o terrestre e o celestial. A plasticidade da voz humana, enriquecida pelo artifício de vários registos, pulsações, ressonâncias e dissonâncias, comemora as nossas origens bestiais e vegetais para uma metamorfose psíquica de religação.

Ece Canlı não nasceu no Porto, mas é aqui que tem construído uma carreira como artista, música e investigadora, explorando, através da voz, os estados liminais de corpos agonizados e demonizados, a narratividade contrafactual, o "delinking" corporal e mental. É por cá que tem trazido novas dimensões extralinguísticas a projectos como os Nooito (duo com a harpista Angélica V. Salvi), os Live Low (banda portuense iniciada por Pedro Augusto) ou Cobra'Coral (trio vocal com Catarina Miranda e Clélia Colonna).

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Bling Rodent - "No Driver" (video) [Threshold Premiere]

Bling Rodent - "No Driver" (video) [Threshold Premiere]


Camouflaged between a sweet dream wave and a curious dark-pop environment, Bling Rodent is starting a route that is expected to be smooth but prosperous. After making their debut this month, with Constant Smile EP, the Swedish group keeps creating a surrounding buzz and it is now releasing their first promotional video for "No Driver". 

In the new theme, the group easily arrest the listener for the sound catharsis it creates, when they transform the restful beginning into a vigorous and immense dimension of energy. Those rhythm breaks give not only a dynamic aura to their work, but also offer a more pleasant musical experience. Constant Smile may be their first effort and even though it presents itself as a work loaded with nostalgic and decadent tones, it is in the luminous beauty of pop music - strongly present in the vocal domain - that Bling Rodent manages to seduce the listener.

In the opening song of Constant Smile Bling Rodent goes lo-fi and explains those different sensations in the music - the contemplative vs the pragmatic part - with two different video shots. If the walking route and the contemplation of the surrounding space are valued initially, after the first minute the band brutally makes us incorporate the profile of a fearless driver. The two cuts are interposed according to those two dimensions, over time. The video for "No Driver" is being premiered this Friday (27th of November) and can be watched first-hand below.


Constant Smile was mixed and mastered by Ruben Engzell (Ossler, Christian Kjellvander, Iris Viljanen, EPs Trailerpark) and released on the 13th of November in digital format by the French label Icy Cold Records. You can get a free download here and here.

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quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Kerygma, de Verset Zero, leva-nos ao purgatório

Kerygma, de Verset Zero, leva-nos ao purgatório


Depois de edições em casas como a Clandestine Records, Subsist Records ou Intervision (para mencionar algumas), Verset Zero juntou-se ao catálogo da Instruments Of Discipline para colocar cá fora Kerygma, - um álbum concetual que facilmente pode ser tomado como um símbolo de caos distante, dogmas religiosos e violência pura. Puramente negro na essência, Kerygma é mais um álbum na chancela Verset Zero que nos prosta perante o âmago existencialista com uma produção de nível exemplar. Afastando-se dos métodos tradicionais em direção a um universo influenciado por diferentes correntes estéticas da música negra, Verset Zero apresenta em Kerygma o seu disco mais pessoal até à data, no que considera ser "a chave entre o seu passado e seu futuro".

O novo trabalho, que vem dar sucessão a Ultimum Offerens ‎(2018, Clan Destine Records) é composto por nove faixas densas que proporcionam um experiência sonora a refletir em suma o efeito destrutivo da pandemia, num caminho ritualístico ao purgatório. Desde a introdução psicologicamente densa presente em "Erraverunt" à mescla abrasiva de ruído amplificada em "Cineres", camuflam-nos os ouvidos temas como o emergente "Saul", com uma eletrónica bruta e cheia de personalidade, o maquinal "Armorum Fāber", o hipnotizante "Ultimus Processionis" e ainda o confessionário "Crucifixio". Num disco instrumentalmente rico, em Kerygma Verset Zero oferece-nos uma viagem imersiva que divaga entre a estética da música doom com tragos post-industrial, o techno embruxado pela música noise, e ainda, uma paragem naquilo que se pode interpretar como uma abordagem pagã de características post-metal.

Kerygma foi editado na passada terça-feira (24 de novembro) em formato CD, vinil e digital. Podem comprar a vossa cópia aqui.



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