terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Reportagem: Kælan Mikla + Some Ember [Wurlitzer Balroom, Madrid]


"Is this Wurlitzer Ballroom?" perguntámos nós ao porteiro já com um certo nível de ansiedade quando percebemos que não havia nenhum dístico na rua a indicar o local onde as nossas princesinhas góticas – que é como quem diz, as Kaelan Mikla – iriam apresentar uma das grandes edições obscuras do transato ano, Nótt Eftir Nótt. Com abertura de portas marcada para as 21h00 e início de concertos com arranque pelas 21h30, ficámos um pouco surpresas quando chegámos à sala pelas 21h40 já com Some Ember (atualmente o projeto a solo do californiano Dylan Travis), a fazer a sua música irradiar pela sala tipicamente negra, mas bastante composta. 

Com "Revelation" - retirado de Asleep in the Ice Palace (2013) - a fazer escutar-se bem alto e como pano de fundo, fomos lentamente aproximando-nos das filas da frente para ver mais de perto os contrastes entre performer e a música resultante. Para quem não conhece a discografia de Some Ember (inicialmente o projeto colaborativo de Dylan Travis e Nina Chase), esta incorpora elementos da música darkwave, post-punk e coldwave, situando-se atualmente no campo da synthpop experimental e EBM. No curto concerto de abertura em Madrid pudemos comprovar isso mesmo, com temas mais recentes como "Revealed" (retirado do mais recente EP Submerged) a deixar clara a sua carismática presença em palco. Apesar disso, com os mais recentes discos, Dylan Travis tem mostrado uma fase mais melancólica o que ao vivo, e antes de Kælan Mikla, acabou por perder um pouco de luz. Isso não impediu contudo que, Dylan Travis, sentisse o seu trabalho como produtor da obra, além de se dirigir ao público para perguntar se eles estavam a disfrutar do concerto. Já a apontar para o fim de espetáculo - que aconteceu três músicas depois desta intervenção, por volta das 22h03 - Some Ember despediu-se de palco entre sorrisos. 



Cerca de 20 minutos depois, por volta das 22h22, o público do Wurlitzer Balroom via as Kælan Mikla subirem a palco para iniciarem concerto com o tema de abertura de abertura de Nótt eftir nótt, "Gandreið", enquanto a vocalista Laufey Soffía Þórsdóttir, em vestes brancas e com um véu negro por sobre a cara, fazia arder um incenso bastante peculiar cujo cheiro se emanou sala fora enquanto Margrét Rósa Dóru-Harrysdóttir marcava o ritmo no baixo e Solveig Matthildur nos fazia entrar no espírito das bruxarias negras com os sintetizadores hipnotizantes a sua voz de ninfa. À semelhança do álbum, também o concerto prosseguiu com "Nornalagið" – tema ainda marcado pelo pedido das artistas na melhoria de som – tendo avançado para "Óráð" (Kælan Mikla, 2016), o primeiro tema da noite a desinibir grande parte do público e a receber fortíssimos aplausos após o seu fim. 


Algo que se tornou notório com o desenvolvimento do concerto foi que, mesmo sem se tratar da língua materna da maioria do público, os espetadores cantavam e gritavam quase que com a mesma emoção que Laufey Soffía fazia ecoar no microfone. Em Madrid não nos podemos queixar, houve muito amor em sala. E conseguimos ainda ouvir Nótt eftir nótt quase na íntegra, além daqueles temas obrigatórios na playlist, como é o caso de "Kalt" ou "Upphaf". Um dos grandes momentos da noite aconteceu durante a performance de "Skuggadans", uma das mais marcantes faixas do novo disco que no Wurlitzer Balroom deixou o público em êxtase e completamente em modo "pista de dança oficialmente aberta". Que malha! 

Sair de Portugal para ir ver as Kælan Mikla a Madrid, ao invés de ficar tempos na incerteza à espera de saber quando seria a próxima vez que as bonecas gélidas da Islândia voltariam ao país foi uma escolha bastante fundamentada no selo de qualidade a que as Kælan Mikla se têm visto a ser rotuladas desde os primeiros registos com Manádans (2013-2014) e foi uma escolha que como já era previsto não desiludiu, pelo menos não para os fãs da nova onda de música gótica, como nós. As Kælan Mikla são demasiado fofas para quem utiliza como principal linguagem de comunicação a imagética obscura e sinistra, mas foi assim que as conhecemos depois do concerto e sempre que ouvíamos Laufey Soffía a agradecer após as últimas músicas. Depois de "Andaka" a vocalista advertiu o público de que tinham apenas mais duas músicas antes do finalizar do concerto, "Nótt eftir nótt" – para dar aqueles gritos de despedida - e "Glimmer og Aska", a deixar o público em aplausos frutíferos e claramente a pedir um regresso ao palco para encore



Pedido ouvido e para se fechar a noite com apenas mais uma música, "Dáið er allt án drauma", tema de encerramento do mais recente disco da banda e música a deixar claro que as Kælan Mikla são um autêntico furacão da nova geração da música obscura. Um concerto a ficar na lista dos melhores do ano e que teve fim por volta das 23h20. Antes de finalizar apenas deixar um grande agradecimento à promotora Indypendientes pela fantástica noite proporcionada e pela programação de luxo que tem trazido a Madrid nos últimos tempos. Até breve.


Texto: Sónia Felizardo
Fotografias: Francisca Campos

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Le Mystère des Voix Bulgares e Lisa Gerrard em Portugal para três datas


O coletivo búlgaro Le Mystère des Voix Bulgares (ou The Mystery of the Bulgarian Voices) vai passar por Portugal, em junho, para três datas na companhia de Lisa Gerrard, vocalista dos australianos Dead Can Dance. Lisboa, Porto e Braga são as cidades escolhidas para o acontecimento.

Com mais de seis décadas de existência, o coro atualmente regido por Dora Hristova recebeu especial atenção com Le mystère des voix bulgares : volume 1, obra quitessencial do grupo que cruza cancioneiro folclore búlgaro com arranjos da música moderna e a capella. O disco, que data de 1975, viria a receber maior falatório 11 anos depois, em 1986, aquando de uma reedição pela editora britânica 4AD, casa-mãe para nomes como Cocteau Twins, This Mortal Coil ou Dead Can Dance. É com a vocalista dos últimos que o coro búlgaro se irá apresentar em Portugal. BoocheMish, disco que junta o coro à música e compositora australiana, é o mote para as três apresentações a ter lugar dia 4 de junho na Casa da Música, no Porto, dia 5 de junho na Aula Magna, em Lisboa, e dia 6 de junho no Theatro Circo, em Braga. Em palco espera-se um coro de 20 cantoras e seis músicos.

Antes, Lisa Gerrard apresenta-se ao lado de Brendan Perry para duas datas em maio, em jeito de apresentação do mais recente trabalho dos Dead Can Dance, Dionysus.

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Underworld, Amelie Lens e Richie Hawtin entre as primeiras confirmações do NEOPOP 2019


De 7 a 10 de Agosto, o maior festival de música electrónica do país regressa a Viana do Castelo para a sua 14ª edição, fazendo novamente da cidade minhota a capital nacional do techno. Ao longo de 4 dias e distribuído por entre 4 palcos (Neostage, Antistage, Teatro Sá de Mirada e Parque Campismo), alguns dos nomes mais importantes da música de dança atual irão visitar o concelho minhoto. 

O primeiro e grande destaque desta primeira vaga de confirmações vai para os Underworld, a dupla britânica composta por Karl Hyde e Rick Smith que regressa ao país onde atuaram pela última vez em 2015, aquando da quarta edição do NOS Primavera Sound. Desde cedo na vanguarda techno dos anos 1990, os Underworld despontaram definitivamente em 1996 com a gloriosa “Born Slippy (Nuxx)”, que se tornou a banda sonora de uma geração após ter corrido o mundo nas telas de Trainspotting. Nas décadas seguintes vimos-lhes reforçar o estatuto de banda incontornável, cuja sonoridade atingia então uma escala global: milhões de álbuns vendidos, concertos esgotados, criação de temas para realizadores premiados pela Academia de Hollywood (Anthony Minghella e Danny Boyle), exposições em galerias de arte, ou a composição musical para a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Barbara Barbara, we face a shining future, editado em 2016, é o mais recente trabalho de longa-duração dos rapazes de Essex, que colaboraram ainda com Iggy Pop no ano transacto para um triunfal registo de curta-duração.


2Jack4U (live), Amelie Lens, Ben Klock, DVS1, John Digweed, Lokier, Maceo Plex, Rebekah (live), Richie Hawtin, Surgeon (live) e The Advent (live 90's set) completam o leque de confirmações. Os passes de 4 dias já se encontram disponíveis ao preço inicial de 85 euros, podendo ser adquiridos via madeofyoutickets.com.

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

A eternidade dos JOY/DISASTER em novo LP


Depois de terem lançado no passado ano Ressurection (Manic Depression Records, 2018), os franceses JOY/DISASTER estão de regresso às edições com o mais recente disco de estúdio ÆTERNUM, o sétimo na carreira da banda, que chegou às prateleiras no passado mês de janeiro. O novo disco, à semelhança do que já tem vindo sido mostrado em trabalhos anteriores, explora as vertentes do rock, post-punk, coldwave e subgéneros envoltos ao tema da eternidade.

Do novo trabalho já tinham sido mostradas anteriormente as faixas "Dealer Of Life", "Cradle Of Denial", "This Morning" e "Believe". Além destas recomenda-se ainda a audição de temas como "Fall" e "Velvety". O disco pode ser reproduzido na íntegra abaixo.

ÆTERNUM foi editado no passado dia 26 de janeiro pelo selo Icy Cold Records. Podem comprar o disco aqui.


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Gnod e João Pais Filipe juntos em performance no Maus Hábitos


Está marcado o regresso dos Gnod a Portugal. O coletivo britânico, que integra na sua formação a portuguesa Marlene Ribeiro (Negra Branca), irá juntar-se ao percussionista e artesão portuense João Pais Filipe (HHY& The Macumbas, Paisiel) para uma performance a ter lugar no Maus Hábitos, dia 9 de março. Como mote para a apresentação estará um novo projeto a ser cozinhado nas próximas semanas, algures numa sala pelas ruas de Campanhã.

Just Say No to the Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine (2017) e Chapel Perilous (2018) são as mais recentes adições à extensa e sempre imprevisível discografia dos Gnod, cujo corpo de trabalho se tem vindo a assumir como um dos mais camaleónicos a sair da nova Inglaterra bizarra (à falta de melhor tradução para "new weird britain"). A sua música de difícil categorização cruza os terrenos do drone, da nova psicadélia e do noise rock num organismo bruto, intenso e fortemente politizado.



João Pais Filipe teve um ano de 2018 agitado. O músico português manteve-se extremamente prolífico ao longo do ano, contribuindo para discos tão aclamados como Beheaded Totem, dos magníficos HHY & The Macumbas, estreando-se nas edições como Paisiel (duo que partilha com o saxofonista alemão Julius Gabriel) e CZN (ao lado da italiana Valentina Magaletti), e ainda com o aguardado disco de estreia em nome próprio. Para além disto, João Pais Filipe integrou uma residência artística promovida pelo Criatório, que juntou Talea Jacta (projeto que junta Filipe e Pedro Pestana) a músicos tão notáveis como Rafael Toral, Wendy Mulder ou André Couto.



Os bilhetes para o concerto já se encontram disponíveis ao preço único de 8 euros, podendo ser adquiridos via bol.pt.

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HYSTERIA: um ciclo de residências para ver a criação de perto


Arranca em Março o primeiro momento de contacto da Hysteria. A ter lugar entre 3 a 6 de Março, no ACE Teatro do Bolhão, o encontro promoverá o diálogo entre os trabalhos que Ana Deus e Heloise Tunstall-Behrens. De um lado, a abordagem singular de uma voz que marca a história da música nacional dos últimos 20 anos, dooutro a exploração dos potencialidades da música coral, enquanto mimetização de problemáticas entre a relação do indivíduo e das estruturas colectivas que o rodeiam. A encerrar o ciclo de trabalho, a dupla de artistas realizará uma sessão aberta ao público, onde apresentará o resultado do ciclo de trabalho. O formato desta sessão, dedicada à partilha com o público, será definido por ambas no decurso da residência. 

Estruturada em quatro tempo, a Hysteria irá ainda colocar em contexto de trabalho comum, Marlene Ribeiro e Valentina Magaletti (Maio, na Sonoscopia), Natalie Sharp e Marta Ângela (Julho, no ACE Teatro do Bolhão); e Adriana Sá e Anna Homler (Outubro, na Sonoscopia). Tendo por base a ideia de que a criação cultural se enriquece pela troca de conhecimentos e o cruzamento de ideias, o projecto pretende criar um espaço de discussão entre as artistas envolvidas, num primeiro plano, e entre estas e o público. Para tal todos os momentos de contacto serão acompanhados e habitados por um grupo de artistas e curiosos que, através da candidatura, mostraram a vontade de contribuir e observar o processo de criação. Os participantes terão, assim, a oportunidade de ver de perto os detalhes com que as artistas em residência moldam o objecto final e de compreenderem as estratégias utilizadas para estabelecerem um diálogo criativo.

A par da criação de um espaço de contacto entre o criador e o público, a Hysteria propõe um olhar sobre a produção e criação feminina no universo musical de hoje, em quatro eixos fundamentais, da interpretação à criação.

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domingo, 17 de fevereiro de 2019

O Elétrico desvenda os seus primeiros nomes para 2019


O Elétrico anunciou sob a forma de um vídeo na sua página de facebook os primeiros nomes do seu alinhamento de 2019. Desde já confirmados estão o trio Apollonia os Inner City em formato live, Janus Rasmussen, que corresponde a metade dos Kiasmos, em formato live a apresentar temas da dupla, Matthew Herbert, Maayan Nidam em formato live, Moodymann e o repetente Rui Vargas. 

Desde já, o óbvio destaque vão para os Inner City, o projecto de Kevin Saunderson e de Paris Grey. Formados em 1987 em Detroit, ficaram conhecidos pela sua sonoridade dançável que mistura jazz, downtempo e techno. Do alinhamento original sobra apenas Kevin Saunderson, um dos pais do movimento techno e actualmente, o núcleo dos Inner City consiste em Kevin e o seu filho, Dantiez. Para esta digressão — intitulada "The Good Life Tour" — conta-se que os Inner City se façam acompanhar da vocalista Steffanie Christi'an e que o set deles consista num revisitar aos bons velhos clássicos, já que o seu output mais recente foi o single "Good Luck", lançado em 2017.


A par disto, destaca-se também o regresso de Matthew Herbert, que visitou o Porto pela última vez em 2012 para um concerto na Casa da Música em 2012 e que tem agora em mãos o projecto audiovisual The Brexit Big Band, o qual irá lançar disco no dia 29 de março, o dia de saída do Reino Unido da U.E., assim como o regresso de Moodymann, um dos Grandes do techno contemporâneo de Detroit que nos tem visitado mais ou menos regularmente desde 2012, quando se estreou em Portugal no NEOPOP.
O Elétrico realiza-se entre os dias 26 e 28 de julho, no Parque da Pasteleira, no Porto. À data desta publicação ainda não existe informação disponível relativamente aos bilhetes do festival. Leiam aqui o nosso rescaldo da edição do ano passado do certame.

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Robert Foster leva-nos ao Inferno a 1 de março


Inferno é o primeiro disco a solo dos últimos 4 anos do aclamado australiano Robert Forster, o segundo disco dos últimos 11 anos. Nos últimos 4 anos, Forster tem andado ocupado. Trabalhou na histórica edição da Domino Records Anthology Volume 1 1978-1984 da sua antiga banda The Go-Betweens. O livro de memórias Grant & I foi eleito pela Mojo e pela Uncut como Livro do Ano. O artista continua a escrever sobre música, dar concertos e nunca pára de escrever bonitas canções, editando os seus discos apenas quando sente que tem as músicas – em Inferno tem 9 músicas nas quais acredita genuinamente.

Elas vão desde a emocionante pop “Inferno (Brisbane In Summer)”, ao groove de “Life Has Turned A Page”, à “Remain” com inspirações no New York Strut de 1977, para acabar duma forma concisa, brilhante e dramática como só um disco inteligente pode acabar, com o grande épico “One Bird In The Sky”.

Inferno foi gravado em Berlim em 2018, durante o verão mais quente das últimas décadas na Alemanha. Victor Van Vugt (PJ Harvey, Stories From The City, Stories From The Sea) gravou o disco; foi a primeira vez que ele e Forster trabalharam juntos após o seu disco de estreia a solo, Danger In The Past de 1990. Este disco é uma mistura perfeita do familiar e do novo. Também a trabalhar de novo com Forster, os multi-instrumentalistas Scott Bromley e Karin Bãumler de Songs To Play (2015), enquanto novas colaborações acontecem com o baterista Earl Havin (Tidersticks, Mary J. Blige) e o teclista Michael Muhlhaus (Blumfeld, Kante)

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Cais do Sodré recebe o MIL de 27 a 29 de março


A 3ª edição do MIL - Lisbon International Music Network acontece de 27 a 29 de Março, em vários espaços do Cais do Sodré. Confirmados estão mais de 70 dos melhores novos artistas nacionais e de expressão lusófona como é o caso de Blaya, Cave Story, Rubel, Conan Osiris, Conjunto Corona, Filho da Mãe, Ghost Hunt, PAUS, Scúru Fitchádu, Bateu Matou, Fogo Fogo, Melquiades, Môrus, a ex-vocalista dos Buraka Som Sistema Pongo, Pedro Mafama, entre muitos outros.

O espectáculo de abertura da 3ª edição reúne as actuações de Letrux e Lula Pena, terminando com a festa Noite Bacaneza. O espectáculo acontece no dia 27 de Março no B’Leza e dá início à programação artística do festival, que se prolonga até 29 de Março.

O Programa PRO, dirigido a profissionais e estudantes do sector da música, conta com mais de 30 debates, keynotes, masterclasses e diversas oportunidades de formação e networking. Os destaques são deste ano vão para a presença de Simon Reynolds, conceituado crítico de música desde os anos 80 (Melody Maker, The Guardian, Mojo, Uncut, etc), Pete Kember (Sonic Boom), produtor e músico britânico, conhecido pelo seu grupo Spacemen 3, Pena Schmidt, figura incontornável na indústria da música brasileira, Fabiana Batistela, directora do festival SIM São Paulo, Christopher Abric, fundador do La Blogothèque; Christine Nitsch, VP Strategy & Analytics do Soundcloud.

Consultar programa completo do festival em millisboa.com/mil/artistas.

Consultar programa completo da convenção em millisboa.com/mil/oradores.

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[Review] Montanhas Azuis - Ilha de Plástico

Ilha de Plástico | Revolve | fevereiro de 2019
9.0/10

A Revolve, editora e promotora portuguesa, serviu de casa a algumas das colaborações mais interessantes dos últimos tempos da música portuguesa - é impossível esquecer projectos como Filho da Mãe & Ricardo Martins, PAPAYA (Bráulio Amado, Óscar Silva e Ricardo Martins) ou Chinaskee & Os Camponeses serão os nomes que mais rapidamente nos saltam à cabeça. No dia 15 de fevereiro, chegou um novo supergrupo à Revolve. Montanhas Azuis, a combinação hipnagónica de Norberto Lobo, Marco Franco e Bruno Pernadas, tem como primeira manifestação Ilha de Plástico, um álbum que existe entre o sonho, a pop experimental e o jazz.

Há algo de perfeitamente natural no aparecimento de Montanhas Azuis: Norberto Lobo afirmou-se primeiro como um dos primeiros proponentes de uma nova vaga de primitivismo americano em Portugal e tornou-se mais tarde numa figura incontornável do jazz português, Bruno Pernadas sempre se caracterizou na interface da indie e de grandes produções de jazz, enquanto Marco Franco sempre habitou os campos do jazz, tendo trabalhado no passado com artistas como Rodrigo Amado e até mesmo com Norberto Lobo em Estrela, editado em 2018 pela editora suíça three:four records. O terreno que esta cordilheira encontra em comum, um pop-jazz sem semblante, é maioritariamente composto por Marco Franco, baterista do projecto, e dificilmente se aproxima de alguma coisa em concreto - talvez haja alguns elementos de pop espacial e electrónica progressiva à la Mort Garson, talvez um pouco de easy-listening interacalado com jazz modal, talvez guitarras reminescentes dos 70s ou de uma ilha tropical perdida no pacífico - o que importa verdadeiramente é que, por muito que se decomponha a Ilha de Plástico, ela continua a existir como um elemento único no arquipélago de edições de qualquer um dos artistas.

© Vera Marmelo 
O tema que abre o disco, "Ilha de Plástico", é a entrada subtil que as Montanhas Azuis oferecem nesta meia hora de fantasia composta quase exclusivamente por Marco Franco - um improviso modal de uma guitarra distorcida, encharcada, irreconhecível, sobre uma sequência repetitiva de acordes cria a letargia que acompanha todo o álbum. Depois desta "A Lotus On Irish Streams" da idade espacial, "Faz Faz" abre uma nova fase do sonho e intromete-se com uma dream pop orelhuda que, de alguma maneira mágica, cria o prelúdio ideal para a profunda calma da guitarra e sintetizadores de "Flor de Montanha" existirem. 

"Dezanove Acordes" consegue mais uma vez mudar o panorama do álbum como um tema pop forasteiro e jingão, não impedindo que "Nuvem Porcelana", uma ode à música progressiva electrónica subitamente transite para um ímpeto em vocoders contagiante e arpejos hipnotizantes. "Sururu", a única faixa composta por Norberto Lobo, segue-se e pede emprestados os vocoders que se destacaram na música anterior, em mais uma demonstração de uma sensibilidade pop admirável. 

"Duas Ilhas" vê o piano a surgir como um elemento considerável, enquanto uma guitarra deslizante e um sintetizador ominoso contagiam os espaços vazios. "Coral de Recife" revela uma vez mais uma estrutura fortemente assentada em algo profundamente orelhudo e contagiante, deixando os improvisos de teclado criarem a agradável estranheza que acompanha todo o álbum. Em jeito de despedida, "Marianas", tema gravado no MagaFest de 2018, é o único que junta os três músicos na composição e na sua simplicidade deixa pena por simbolizar o fim daquele que é um disco tremendo. Montanhas Azuis fecham assim Ilhas de Plástico, numa sobreposição lenta entre erguer e adormecer, reforçando a hipnagogia que marca todo o álbum.

É difícil tecer comentários gerais sobre o álbum que não sejam puramente qualitativos - Ilha de Plástico é um álbum tão hipnotizante como brilhante, tão inovador como estranhamente familiar. Num disco onde tudo parece ter razão para existir, só se torna difícil ouvir o silêncio que os poucos segundos finais protagonizam - esta viagem cujo destino não importava, este sono do qual não queríamos acordar, inevitavelmente acaba. E não há nada a fazer a não ser reouvir esta Ilha de Plástico e viajar pelos mares que a rodeiam.

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IC3PEAK e Daisy Mortem em mais um episódio relâmpago do FadeInFestival 2019


Os russos IC3PEAK - dupla que junta Nastya Kreslina a Nick Kostylev na produção de uma sonoridade que envolve elementos da witch house, vaporwave, trap e hip-hop - vão passar pelo país em abril na apresentação do seu mais recente disco de estúdio CKA3KA (2018) para um concerto inserido em mais um episódio-relâmpago do FadeInFestival. A banda que tem visto o seu trabalho ser alvo de censura e grande polémica pelo governo do seu país, chega a Portugal em abril para apresentar a sua música de cariz DIY. Se não conhecem e são fãs de nomes como Die Antwoord, este é um concerto ao qual não devem falhar.



Além dos IC3PEAK, no mesmo dia (20 de abril) tocam também em Leiria os Daisy Mortem, trio francês que marcou presença no país o ano passado como convidados da digressão de Signor Benedick the Moor. A banda, cuja sonoridade vai do death-rock ao electro-pop, apresentará em Leiria o seu mais recente EP de estúdio, La vie c'est mort (2018), além do novo single incendiário "Arêtes".


Os bilhetes para este episódio duplo do FadeInFestival 2019, agendado para o próximo dia 20 de abril na Stereogun em Leiria, têm o custo de 15€ (+ o consumo obrigatório de uma bebida) e podem ser adquiridos aqui. Informações adicionais podem ser encontradas aqui.


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STREAM: FTR - Manners


Os franceses FTR (ex-FUTURE) estão de regresso aos trabalhos longa-duração com Manners, o seu segundo LP longa-duração que apresenta uma fase mais obscura, direta e violenta, com direito a ambientes noise e de distorção, altamente apelativos aos fãs de bandas como A Place To Bury Strangers, The Lost Rivers, KVB, entre outros. Desde a estreia em 2013 com o EP Abyss que os FTR evoluiram de uma atmosfera fuzzy e atmosférica para um lado sensual mais barulhento, sombrio e de influências pop que exploram agora de forma submersiva em Manners.

Deste novo disco já tinham sido apresentadas anteriormente as faixas "Collision" (que teve direito a um trabalho audiovisual disponível aqui) e ainda "Sunrise". Além destas recomendam-se a audição de temas como "Black Sand", "Chances", "Right Track" e "10327".

Manners foi editado na passada sexta-feira (15 de fevereiro) pelo selo Third Coming Records. Podem ouvi-lo na íntegra abaixo e comprá-lo aqui.


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