quinta-feira, 9 de abril de 2015

[Review] Marching Church - This World Is Not Enough


This World Is Not Enough // Sacred Bones // Março de 2015
7.6/10

Bailo otra vez borracho

Marching Church é o projecto a solo de Elias Bender Rønnenfelt, vocalista dos dinamarqueses Iceage, que começou a ser desenhado em 2010 pelo próprio, quando tinha apenas 17 anos, sendo que, desde 2013, conta na formação com Kristian Emdal e Anton Rothstein dos Lower, Cæcilie Trier (Choir of Young Believers), Bo H. Hansen (Hand of Dust, Sexdrome) e Frederikke Hoffmeier (Puce Mary). This World Is Not Enough foi, segundo a nota de imprensa, inspirado na morte do formador dos The Pale House, amigo e Elias, bem como em James Brown, Sam Cooke e Percy Sledge, inspiração que se reflecte no single de encerramento do álbum, cover de "Dark End Of The Street". Nas palavras de Rønnenfelt, o presente álbum soa "like (the music) is being dragged across the ground or smoldered in a bonfire". E de facto This World Is Not Enough reverte a uma exploração afincada de um estado espírito inovador nos seus cerca de cinquenta minutos de duração. 

Dentro da discografia dos Iceage não se hesita na escolha do álbum, mais semelhante, a níveis de  sonoridade, face ao resultado deste projecto a solo, no entanto, são poucas as faixas de This World Is Not Enough que se podem aproximar ao que ouvimos em Plowing Into The Field Of Love(2014). Embora em ambos a voz de Elias funcione como um elemento central, e surjam alguns singles com carcaças dessa voz denotada e guitarras de tracks do passado álbum, nomeadamente em "Calling Out A Name" (que malhão!) e "Every Child (Portrait of Wellman Braud)", as implementações sonoras acabam por se tornar extremamente díspares nos seis singles. "Your Father's Eyes", a faixa que sucede as referidas músicas, apresenta um bilhete de identidade próprio a Marching Church, distinguindo-o assim de trabalhos paralelos, mas garantindo, igualmente, um resultado de qualidade.  

"Hungry For Love", a terceira faixa e primeiro single de avanço deste álbum de estreia foi a primeira surpresa e talvez um choque, para muitos, na sua primeira audição. O seu conteúdo deixa qualquer um inteiramente vulnerável num primeiro contacto. O seu início, falado numa voz grossa, à Nick Cave, avança “Bailo otra vez borracho,desaprobando la dictadura del orgasmo,soy el monstruo idiota que saliva delante de la carne,y me encuentro de nuevo con este objeto obscuro,que despierta mi sentido de soledad (...) todo es eterno mi amor", numa lírica bem estruturada e intrapessoal. Vê-se aqui mais que a alma de um músico, mas a alma de um poeta e de um artista que se afirma cada vez mais como um ícone mundial na cena musical. Aliás a tour mundial dos Iceage já o começa a reflectir. "Hungry For Love" é mais que uma canção de desespero é uma fome insaciável por amor, há violinos em forma de drama e, mais que drama, há a voz de revolta, uma voz que merece não só o apreço mas igualmente o respeito, por toda a performance que engloba dentro de si. 

A única falha de This World Is Not Enough encontra-se exclusivamente na falta de coesão musical entre os singles que o constituem: apesar de por forma independente, resultarem bem, como um todo, não conseguem encontrar traços fáceis que as unam. Talvez por isso "Living In Doubt" seja o single de abertura deste primeiro trabalho de estúdio. Afinal as guitarras de New Brigade(Iceage, 2011) não se encontram esquecidas e fica já a advertir-se para um dos singles mais facilmente gostados deste novo trabalho. This Is World Is Not Enough é, no entanto, um bom começo para um projecto paralelo e mais que isso: a confirmação de que a indústria musical se encontra perante um dos melhores compositores da actualidade. Elias Bender Rønnenfelt é de facto um "King Of Song".



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