terça-feira, 20 de novembro de 2018

Reportagem: HHY & The Macumbas [Understage, Porto]


O Understage do Teatro Municipal Rivoli recebeu, esta sexta-feira, o ensemble portuense HHY & The Macumbas, que trouxe ao palco o segundo e mais recente longa-duração do grupo, Beheaded Totem, editado em setembro pela britânica House of Mythology (Ulver, David Tibet, Zu). Formado em 2009 pelo produtor e artista multidisciplinar Jonathan Uliel Saldanha, membro dos colectivos SOOPA e Faca Monstro, este fantasmagórico coletivo tem no seu núcleo alguns dos músicos fundamentais da cena musical portuense, reunindo ao longo dos seus quase dez anos de carreira um culto e admiração mais que justificado por parte do público e meios de comunicação especializados. Auto-descrito como sendo uma banda de voodoo dub cibernético, os HHY & The Macumbas assumem-se como exploradores incessantes da música eletrónica de dança, desconstruíndo ritmos e cruzando-os com os fascínios da dub, do jazz e da cultura soundsystem. A tudo isto junta-se uma atração inerente pelo eco e pela astrofísica, ganchos que alimentam este segundo capítulo dos Macumbas como investigadores da matéria oculta. 

A performance efetuada no subterrâneo do Rivoli foi recebida com pompa e circunstância, já que o evento se encontrava totalmente lotado dias antes do acontecimento. Sala cheia, portanto, aos quais se juntou o calor e um intenso jogo de luzes vermelhas, envolto numa nuvem densa de fumo artificial. Já com os seis elementos do coletivo em palco, ouvem-se os primeiros sons das fanfarras presentes no tema de abertura de Beheaded Totem, aqui introduzidas através de samples pré-gravados que Jonathan implementa através da sua mesa de mistura. É com o trompete de André Rocha que ouvimos o primeiro instrumento de facto. No entanto, é possível notar uma certa deformação no seu sopro, uma anomalia comum nesta nova etapa do coletivo que enfrenta assim os fantasmas dos próprios sons. Tal como o eco, o coletivo projeta partículas no tempo que se prolongam em timbres desfasados da realidade, aos quais se junta uma secção rítmica pujante e ininterrupta, potenciada por quatro percussionistas exímios - João Pais Filipe, Brendan Hemsworth, Frankão e o sempre mascarado Filipe Silva - que nos devoram em padrões circulares e hipnotizantes. 



Estamos perante um exercício desconcertante que desafia as concepções do próprio tempo, envolvendo o público num ambiente de transe que, progressivamente, evolui para um cenário de rave pós-tribal. É nesta fase que se começa a avistar uma tímida agitação entre o público, proporcionada por ritmos repetitivos e arredondados que marcam uma espécie de ciclo vicioso que é tão assombroso quanto transcendente. A marcha embriagada da fanfarra alimenta um sentimento angustiante e visceral que nos leva ao limiar da vertigem, sincopado por linhas militares de bateria e percussão que marcam o ritmo de forma holística. O derradeiro fim surgiria uns bons minutos depois da primeira hora de concerto, mas as mentes dos presentes ainda se encontravam dentro daquela que foi, seguramente, uma das mais poderosas experiências do ano. Entre a introspecção e a euforia, a luz e o assombro, os HHY & The Macumbas encerraram assim mais uma autêntica viagem pelos campos mais libertários da música de dança.

HHY & The Macumbas [Understage, Porto]

Texto: Filipe Costa 
Fotografia: David Madeira

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