segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Reportagem: Peter Murphy & David J - Ruby Tour, 40 anos de Bauhaus [LX Factory, Lisboa]


É uma questão de tempo e o tempo fica. Por mais que passe pelo tempo, que o tempo tem.

40 anos, para quem reparou sempre, e poderemos subtrair outras somas para quem ouviu há menos de 30, há menos de 20 e, há menos de um ano ou até de um mês ou dias, até ontem. 

Num vinil, numa cassete, num CD… na memória. De 1978 a 1983, uma curta existência, tornada imortal pela carismática forma como Peter Murphy, David J, Daniel Ash e Kevin Haskins se destacaram como fundadores e também pela fama gradualmente acentuada ao longo das suas carreiras a solo ou noutros projectos. A Ruby Tour festeja os 40 anos da fundação dos Bauhaus, está a percorrer o mundo, e em Portugal, depois do Porto, passou por Lisboa, com os dois da formação original, David J e Peter Murphy, com Mark Gemini Thwaite (guitarras) e Marc Slutsky (bateria).

LX Factory

Num sábado, 17 de Novembro, há uma movimentaçāo nocturna diferente da habitual em Alcântara. Uma imensa fila de carros e de pessoas, rumo à LXFactory, onde um pavilhão cinzento, uma antiga fábrica alberga agora um cenário que, não fosse estarmos em Lisboa, julgaria eu estar num espaço enorme e antigo algures num dos subúrbios de Nova Iorque. 

Com o som a espraiar-se pela acústica típica de espaços como este, de um telhado suportado por robustas vigas de ferro, a muitos metros do chão… . E os Desert Mountain Tribe, já estão em palco. O trio, sediado em Londres, tem dois álbuns gravados até ao momento, Either That Or The Moon (2016) e Om Parvat Mysteryuma (2018), dois EPs, e são assumidamente um trio heavy psych-rock. A banda é relativamente recente (2012), deu-nos uma actuação contagiante, efusiva e concentrada, foram muito aplaudidos, e teriam regressado ao palco outra vez, não fosse a sede que já se fazia sentir na audiência ávida de Bauhaus.

Desert Mountain Tribe

Ao intervalo, solta-se um reggae antigo, enquanto os roadies preparam o palco para a entrada em cena e acentua-se a movimentação de gente em busca do bar, ou do melhor lugar em pé. Compasso de espera, que pareceu uma eternidade, para quase todos, bem perceptível pelo coro de assobios num claro chamamento do mestre ao palco, e palmas, num comportamento típico de um encore, e neste caso, ainda o concerto estava por começar. “Hey hey hey, two two two”, testam-se os microfones, ajustam-se os tripés à altura de Peter Murphy, testam-se a bateria, o baixo de David J, a guitarra, mas no palco ainda está tudo às claras enquanto se aguarda a chegada do morcego e da sua tropa de elite. 

22h12, sinais de fumo no palco e entram em cena os strobes, o feedback típico da primeira canção e uma linha de baixo inconfundível, já ali está David J, no seu estilo original (diferente do acústico maravilhoso que deu há uns meses no Sabotage Club), e Peter Murphy, com o seu glamour sombrio, lança para o ar o primeiro grito. A máquina está bem oleada. Começou com “Double Dare” e continuou até à última canção prevista no alinhamento. 

E deu de beber aos mais sequiosos: "God In an Alcove”, numa altura em que eleva uma coroa digna de Rei; houve ainda a inesperada aparição de Adam Labar, para um improviso absoluto na percussão no delirante “She's In Parties”, o misterioso Adam Labar, que travou amizade com Peter Murphy, num avião - surpreendente a toada deste encontro.

Peter Murphy & David J

Momentos em que a nostalgia nem sequer se diluiu na satisfação imensa que foi escutar “Spy in the Cab" ou “Silent Hedges" num sábado à noite em 2018. Neste ambiente de celebração, de entre outras canções, faltou por exemplo "All We Ever Wanted Was Everything" do disco The Sky´s Gone Out, para ser perfeito. Em contrapartida tivemos “Nerves”, do primeiro disco, antes desta digressão, uma das menos tocadas por qualquer um deles em palco desde os anos oitenta. 

Em "Bella Lugosi´s Dead”, Peter Murphy exibe a sua echarpe vermelha que se estende pelos ombros e braços, limpa o suor da cara e liberta-se o fumo que não lhe afecta a garganta. “Adrenalin” e os clássicos “Kick in the Eye”, “The Three Shadows, Part II”, “Burning from the Inside”, as habituais versões de “Severance” dos Dead Can Dance e “Telegram Sam” dos T. Rex, e outras mais, ao todo 21 canções, incluindo os dois encores com duas músicas cada. Terminou com Bowie, - “Ziggy Stardust” fechou o set. 

E à semelhança do Porto, lotação esgotada também em Lisboa, numa sala ladeada de tijolos do outro século e sem um palmo de chão à vista.


Peter Murphy & David J - Ruby Tour, 40 anos de Bauhaus [LX Factory, Lisboa]

Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Virgílio Santos

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