quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Reportagem: Wire + Sweet Nico [Hard Club, Porto]


Foi na passada sexta-feira, dia 23 de novembro, que regressámos ao Hard Club, no Porto, para mais uma noite com chancela At The Rollercoaster. A promotora portuense proporcionou mais um momento memorável para melómanos e saudosistas, desta feita com dois concertos exclusivos de Wire, que regressaram a Portugal para os primeiros concertos em treze anos. Com uma carreira a rondar as quatro décadas de existência, os Wire representam aquela que pode ser descrita como a quintessência do art-punk, abrindo os caminhos para o post-punk numa altura em que o punk ainda vivia os seus tempos de glória. Discos como Pink Flag (1977), Chairs Missing (1978) e 154 (1979) foram pioneiros na implementação de conceitos artísticos à própria linguagem do punk, ensinando toda uma geração de futuros músicos que o punk também podia ser praticado com cabeça.

A sala 2 do espaço portuense apresentava-se bem composta, e por entre a multidão podia-se avistar um balanço curioso entre novos e antigos fãs – os que que  acompanham a banda londrina desde a sua génese, e uma nova geração de seguidores claramente mais jovem. Com três membros da formação original – Colin Newman (na voz e guitarra), Edvard Graham Lewis (no baixo) e Robert ‘Gotobed’ Grey (na bateria) – e ainda uma nova entrada na formação – o guitarrista Matthew Simms – os Wire apresentaram um concerto seguro e assertivo, explorando o extenso catálogo da banda sem nunca se fixarem em glórias passadas. Afinal, estamos a falar de um grupo que se manteve bastante prolífico durante quatro décadas (à exceção da década de 1990, onde iniciaram um hiato indefinido que terminaria com o virar do século), e que viu ganhar uma nova vida no presente século (contam-se mais de dez edições de curta e longa-duração desde o regresso em 1999).



De olhos virados para o presente, o alinhamento contemplou, na sua grande maioria, temas que representam o percurso atual dos Wire como banda, desde o rock limpo e direto de “Playing Harp for the Fishes” e “Short Elevated Period”, do mais recente Silver/Head (2017),  às estruturas mais complexas e volumosas de “Art of Persistance” e “Red Barked Trees”, do qual se aponta um crescendo delicioso nos minutos finais. Para os mais românticos houve “Three Girl Rumba”, do essencial Pink Flag, o nervosismo endiabrado de “Underwater Experiences” e a incendiária “Two People In a Room”, que surgiu já durante o encore. Nota ainda para alguns momentos de maior exploração sonora, que vêm a banda no seu estado mais experimental e libertário, apostando em composições consideravelmente mais longas e repetitivas que os demais temas de breve duração.

Acima de tudo, constata-se a calma e elegância inerente a quem acaba de entrar na sua quinta década de existência. Com um percurso que é, no mínimo, histórico, é de louvar a qualidade com que os britânicos se continuam a apresentar ano após ano, disco após disco, sem nunca cair no erro da repetição e da previsibilidade. A máquina dos Wire encontra-se bem oleada, e o concerto de sexta-feira foi a prova viva de que o legado perdurará por muitos e merecidos anos.

Antes, o duo lisboeta Sweet Nico abriu as hostilidades da noite. Ainda com o LP R EBORN quentinho a sair das prensas (o disco foi editado em junho deste ano), a noite serviu para apresentar este novo álbum de canções pop sonhadoras e radiantes, um registo que se encontra em linha com a restante discografia da banda. Ainda que o nome da banda seja uma homenagem a Nico, a noite foi de reverência a Hope Sandoval e aos seus Mazzy Star, com a dupla a fazer uma cover da imortal “Fade Into You”.


Wire + Sweet Nico [Hard Club, Porto]

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Eduardo Silva

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